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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Noite Mágica com Kraftwerk: Palácio de Karlsruhe na Alemanha, Brilha com Espetáculo Multimídia


 

Um concerto muito especial: Os pioneiros da música eletrônica Kraftwerk se apresentaram no sábado em Karlsruhe e iluminaram a fachada do palácio.

Foi um pouco como uma viagem no tempo em ambas as direções. Às vezes, a praça do palácio de Karlsruhe parecia flutuar ao lado de satélites em uma nave espacial. Outras vezes, os anos 1970 estavam inevitavelmente presentes: Com clássicos como "Autobahn", "Mensch-Maschine" e "Das Model", a lendária banda de música eletrônica Kraftwerk encantou o público no sábado à noite.

O concerto foi especial por várias razões: Primeiro, foi o único concerto do Kraftwerk na Alemanha este ano. Além disso, aconteceu ao ar livre em frente ao Palácio de Karlsruhe - a fachada do prédio barroco iluminada por 16 projetores de alto desempenho, quando finalmente escureceu o suficiente.

 Sintetizador e show multimídia
 
Eles projetaram um show multimídia na fachada de 170 metros de largura. Às vezes, números pulsantes em verde neon, outras vezes o símbolo atômico amarelo brilhante, às vezes a viagem pela Autobahn ou a visão de uma nave espacial. Além disso, as batidas de sintetizador ressoavam e uma voz distorcida percorria o parque: "Eu programo meu computador Me projetei no Futuro." Fãs desafiaram uma breve chuva com capas e guarda-chuvas.

Os 16 mil ingressos para o concerto se esgotaram rapidamente. Além disso, houve inúmeros espectadores nas cercanias que não queriam perder a apresentação do co-fundador do Kraftwerk, Ralf Hütter, e seus colegas poucos dias antes de seu 77º aniversário. Alguns no público podem ter sido fãs desde o início.
Amizade com Peter Weibel

O projeto Kraftwerk surgiu em 1970 no contexto da cena artística experimental em Düsseldorf. A banda escreveu a história da música e moldou estilos como eletrônica, synthpop, minimal e techno. Do membro original, apenas Hütter permanece.

O reconhecimento global que os artistas conquistaram é evidente em prêmios como um Grammy pelo conjunto da obra em 2014. Em 2021, a banda foi introduzida no Hall da Fama do Rock & Roll, em Cleveland, no estado de Ohio, EUA.

Os fãs devem esse concerto de sábado ao falecido diretor artístico e científico de longa data do Centro de Arte e Mídia de Karlsruhe (ZKM), Peter Weibel, que morreu no início de março. Com Hütter, ele manteve uma conexão artística e amigável.

Kraftwerk e Astronauta Gerst em Stuttgart 2018

Na inauguração do ZKM em 1997, o Kraftwerk havia se apresentado. Por último, eles tocaram em Karlsruhe em 2014, durante o 25º aniversário do ZKM. Desta vez, os dois homens haviam trabalhado no conceito da performance multimídia no palácio até pouco antes da morte de Weibel. Hütter dedicou a apresentação ao "seu maravilhoso amigo" no final, antes de desejar boa noite aos convidados. Foi o único momento em que ele falou além dos títulos durante as duas horas.

Os concertos do Kraftwerk são sempre especiais, como os fãs experimentaram muitas vezes. cinco anos, por exemplo, na Praça do Palácio de Stuttgart: O astronauta Alexander Gerst se conectou ao vivo da Estação Espacial Internacional para o concerto e tocou em dueto com Hütter a música "Spacelab". Ele até levou um tablet PC especialmente programado com sintetizadores para o espaço.

Disputa legal sobre "Metall on Metall"

Em relação a Karlsruhe, uma disputa legal entre Kraftwerk e o produtor musical Moses Pelham também surge repetidamente. Trata-se de uma sequência de som de dois segundos da música "Metall auf Metall" de 1977. Pelham a reproduziu, levemente desacelerada, em loop contínuo, sob a música "Nur mir" com a rapper Sabrina Setlur, 20 anos depois. Em junho, o Tribunal Federal alemão tratou do assunto mais uma vez. Ele deve anunciar sua decisão em um mês.

Para quem perdeu o show de sábado à noite, pelo menos poderá ter uma ideia disso durante um show de projeções de imagem. Entre os dias 16 de agosto até 17 de setembro, o palácio barroco será iluminado todas as noites. A chamada "Projection Mapping" (projeção mapeada) da performance do Kraftwerk também fará parte do programa.

Fonte: Stn.de


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Kraftwerk Moma



NOVA YORK - Kraftwerk é música de museu, e a afirmativa não é anacronismo gratuito. A banda que melhor soube prever o futuro do pop apresentou, por uma semana, seu repertório completo no átrio do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). 

Criadores do synth-pop e avôs da eletrônica, eles se tornaram o primeiro grupo de música popular a receber de uma instituição artística de prestígio planetário o tratamento dado a medalhões das artes plásticas em mostras definitivas. "Retrospectiva 12345678" se tornou o evento da primavera, com os ingressos mais disputados da atual temporada cultural da cidade. 

Para a derradeira apresentação, na noite de terça-feira, cambistas vendiam por US$ 500 entradas que, em fevereiro, a US$ 25, esgotaram-se em menos de uma semana. Além da possibilidade de revisitar clássicos como "Autobahn" e "Trans-Europe Express", o curador Klaus Biesenbach, diretor do PS1, espaço de arte contemporânea do MoMA, providenciou um luxuoso acompanhamento visual em 3-D. 

O público, 450 felizardos por noite, foi convidado a se imaginar no mitológico estúdio Kling Klang — localizado na parte industrial de Düsseldorf, na Alemanha, onde a banda gravou seus oito trabalhos principais, entre 1974 e 2003 — enquanto se deliciava com uma pequena rave em um dos mais nobres endereços de Manhattan. "A ideia é que você esteja no MoMA, junto com o artista, fazendo arte", afirmou Biesenbach ao anunciar a retrospectiva. 

Se não chegou a tanto, o público de terça-feira dançou por duas horas, ensaiou coreografias, brincou com os datados óculos 3D de cartolina branca e ocupou, para desespero dos seguranças, as passarelas do terceiro e do quarto andares, com vista privilegiada para o átrio. Uma das principais novidades da expansão do museu, idealizada pelo japonês Yoshio Ta$. O espaço, com pé-direito de 33,5 metros, nunca foi ocupado de maneira tão plena. 

Um DJ do Brooklyn definiu a noite como "uma grande instalação artístico-musical": — Vi o espetáculo da boca do palco, depois fui para a lateral, na esquina da lojinha do segundo andar, e, por fim, observei tudo de cima, nas passarelas. A única coisa que não fiz foi deixar o gravador de meu celular desligado. Esta música, quero guardar para sempre — contou, imaginando usar um dia um sample dos alemães, como já fizeram, com mais ou menos sucesso, gente como Afrika Bambaataa, Big Audio Dynamite, Devo, Depeche Mode, Fatboy Slim, Chemical Brothers, DJ Shadow, Jay-Z, LCD Soundsystem e Fergie, entre muitos outros. 

A primeira parte da instalação musical de terça-feira foi dedicada a "Tour de France", as 12 faixas do disco apresentadas na íntegra sob a batuta do ciclista Ralf Hütter, 65 anos, o único remanescente da formação original do Kraftwerk. Ele dividiu o palco com o careca Henning Schmitz, 59, o grisalho Fritz Hilpert, 55, e o louro Stefan Pfaffe, 32. Desde o primeiro som os quatro foram acompanhados por sombras em tamanho gigante de si mesmos, projetadas na tela. 

Os efeitos gráficos as transformavam em fantasmas sacolejantes, contrapostas aos corpos robóticos e quase mudos dos músicos de carne e osso. Além dos poucos efeitos vocais e de imagem criados pelos quatro "operadores" (como preferem ser chamados) a partir dos enormes consoles localizados à frente dos artistas, o público recebeu um "até breve" de Hütter ao fim da maratona eletrônica. E só. 

O resto foi música. Na expressão cunhada por Biesenbach, compatriota de Hütter e fundador do Instituto de Arte Contemporânea de Berlim, o som do Kraftwerk é uma "pintura musical" criada a partir de sugestões melódicas, vocábulos oriundos de diversas raízes linguísticas, ritmos robóticos e o uso originalíssimo de sintetizadores vocais. 

No MoMA, tal pintura se traduziu em trilha sonora de um indisfarçado saudosismo pela modernidade. Faixas dos outros discos do Kraftwerk — "Autobahn" (1974), "Radio-Activity" (1975), "Trans-Europe Express" (1977), "The Man-Machine" (1978), "Computer world" (1981), "Electric Café/Techno pop" (1986) e "The mix" (1991) — foram apresentadas na ordem e levaram o público a expressões de êxtase que contrastavam com a fleuma dos músicos. 

Um Fusca cinza apareceu na tela que tomou forma de um gigantesco videogame a guiar o público por uma estrada em "Autobahn". À viagem por campos e parques industriais seguiram-se o trem de "Trans-Europe Express", em que as únicas luzes estão nas cabines dos vagões, o sol negro do gerador nuclear de "Radio-Activity" e as notas musicais em tamanho gigante que voavam sobre a plateia em "Techno pop". KGB, Hiroshima, robôs, o bate-estaca industrial, arcaicos computadores pessoais. 

O mundo ocidental do século passado atravessou a passarela no museu das grandes novidades da "Retrospectiva 12345678". A vanguarda que ele um dia representou é hoje o lugar-comum da música popular. 

Enquanto o novo disco, prometido para este ano, não sai do alto-forno de Kling Klang, quem passar por Nova York até maio ainda pode aproveitar os oito vídeos selecionados por Biesenbach em exposição no PS1, no Queens. É música de museu, no melhor dos sentidos.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

A auto-estrada





Apesar de ser o quarto álbum do Kraftwerk, Autobahn é  considerado o verdadeiro ponto de partida da banda. Ralf Hütter e Florian Schneider tinham se conhecido em 1968 e formado grupo – e seu estúdio eletrônico experimental Kling Klang-  no início de 1970.

Depois de anos tocando no circuito universitário, em clubes e galerias de arte, onde aperfeiçoaram sua música, Ralf Hütter e Florian Schneider compuseram e gravaram a faixa-título “Autobahn” – uma sinfonia à base de sintetizadores -, numa parceria com o poeta e pintor Emil Schult. Inspirada pelas longas viagens nas auto-estradas alemãs, a música marcou a separação definitiva da banda e de seus colegas de Krautorock.

Em Autobahn, com a participação dos percussionistas Wolfgang Flür, e Karl Bartos, Hütter e Schneider cristalizaram o som primitivo e a imagem fria que se caracterizavam o kraftwerk.

O Álbum contém obras sublimes da “Electronic-Volks-Musik”, como as faixas “Mitternacht”, “Morgenspaziergang” e “Kometenmelodie”, mas a foi a faixa-título que se tornou o símbolo da carreira internacional do Kraftwerk.

O Álbum foi um sucesso nos Estados Unidos e na Europa e virou um marco do pop minimalista de vanguarda. Com disse Ralf Hütter, em 2003 “Em Autobahn, nós colocamos barulho de carros, metais, melodias básicas e motores afinados. Ajustamos a suspensão e a pressão dos pneus, rolamos pelo asfalto e usamos aquele som intermitente quando as rodas passam por cima das faixas. É uma poesia sonora, muito dinâmica.”

Autobahn é cinema para os ouvidos.

“As vezes, eu sinto o gosto dos sons. Há mais sensações do que aqueles captadas pelo ouvido. O corpo inteiro pode sentir os sons.” Florian Schneider, 1975

Fonte: 1001 Albums You Must Hear Before You Die





quarta-feira, 28 de março de 2012

Os Homens e as máquinas


O criativo projeto artístico do kraftwerk deu uma guinada conceitual em The Man-Machine. A capa simbólica fazia referência ao modernista russo El Lissitzky e as músicas falavam de um mundo cada vez mais autômato de alienação urbana, de engenharia da era espacial e de fama sem glamour. 

Essa visão futurista da fusão da humanidade com a tecnologia está presente tanto na faixa-título como em “The Robots”, outra piada em cima da imagem andróide da banda. 

Para o lançamento do álbum, o quarteto de Düsseldorf encomendou robôs iguaizinhos a seus integrantes, que passaram a ser acessórios permanentes dos shows. O uso de vozes sintéticas se tornaria uma característica do som sempre em evolução do kraftwerk. 

Mas The Man-Machine também contém algumas das cancões mais atemporais da banda. Acentuada pelos vocais melancólicos de Ralf Hütter, “Neon Light” é uma música dolorosamente romântica, enquanto “The model” é uma sátira à indústria da beleza, tão a frente de seu tempo que chegou ao primeiro lugar das paradas inglesas três anos após o lançamento do disco.

Esse retrato profético da cultura da celebridade se tornou um cartão de visitas do Kraftwerk e inspirou gerações de artistas – dos pioneiros do technopop dos anos 1980, como Human League, New Order, Pet Shop Boys e Depeche Mode ao recente movimento “eletroclash”. 

A grande conquista de The Man-Machine não é apenas a influência que exerceu, mas a sua capacidade de síntese. Um exame minucioso das faixas revela variações de minutos nos temas percussivos repetitivos e há uma interação quase clássica entre as partes de sintetizadores. 

Em seu sétimo álbum, o Kraftwerk provou que o poder da musica eletrônica não estava em truques elaborados, mas na simplicidade zen do domínio científico.




terça-feira, 5 de abril de 2011

Kraftwerk - Radio Activity (Discoteca Básica)


Matéria originalmente publicada pela extinta Revista Bizz em 1987, edição de número 19.

Por: Peter Price/Thomas Pappon/Bia Abramo

Kraftwerk - o primeiro grupo pop moderno. Dizemos moderno para associá-lo à era contemporânea, à era da máquina, da eletrônica e do computador. "Radio-Activity" trata de um dos aspectos mais marcantes da contemporaneidade - as revoluções ocorridas no campo da comunicações.

O LP é de 1975, mas é impressionante como o disco vai ficando cada vez mais atual a cada ano que passa. Ele serve para mostrar a posição única do grupo como o pioneiro da música eletrônica dentro do cenário pop. A eletrônica já estava invadindo a música alemã desde a década de 50, no centro de pesquisas eletrônicas de Darmstadt, fundado por Stockhausen. Foi deste centro de pesquisas que saíram Holger Czukay e Schmidt para fundar o Can. Ao lado do Kraftwerk, o Can foi a outra espinha dorsal do rock alemão da década de 70, embora os dois grupos propusessem utilizações diferentes da eletrônica.

Os integrantes do Kraftwerk são de Düsseldorf. Começaram no início da década de 70 como uma dupla, formada por Ralf Hütter e Florian Schneider, ambos de formação clássica. No começo, usavam instrumentos eletrônicos ao lado de equipamentos convencionais. Tornaram-se totalmente eletrônicos por volta de 1973, quando entraram Karl Bartos e Wolfgang Flur na percussão eletrônica. Eles montaram um estúdio próprio, o Kling Klang, que hoje em dia é totalmente computadorizado e portátil.

Kraftwerk - o primeiro grupo pop contemporâneo. O mundo, nos últimos 86 anos, mudou mais rápida e irreversivelmente do que em qualquer outro período da História. A música neste século também sofreu esse processo de mudanças. Os instrumentos acústicos, que nos acompanham durante séculos, evocam associações com uma realidade que era relativamente estável. Neste século, a progressiva substituição do mundo natural pelas criações do homem provocou rupturas na concepção de realidade, que passo a ser vista como construção do homem.

É interessante notar que os integrantes do Kraftwerk se consideram tanto músicos quanto técnicos - capazes, portanto, de inventar e/ou alterar a realidade. A simples eletrificação dos instrumentos, ocorrida neste século, produziu alterações radicais em nosso ambiente sonoro. Mas a ruptura efetiva com o passado só foi ocorrer com o aparecimento do som eletrônico. O Kraftwerk realizou essa ruptura no campo do pop. Sua influência se estendeu para o rock anglo-americano dos anos 80 - para citar alguns, David Bowie, Ultravox, Afrika Bambaata e New Order.

Radio-Activity é o sexto LP do grupo. A faixa-título começa com uma pulsação. Entra um coro celestial. Começa a melodia e declara-se que estamos num mundo transformado. Nos intervalos da música, um código morse. É uma delícia. As melodias e letras são simples e se repetem muito. Vão se insinuando na cabeça e ficam lá. "Radioland", com sua batida que lembra um ritual, liga esse novo mundo às nossas origens.

Cada faixa tem um papel e uma função acabada. "Airwaves" é uma celebração de potencial, de parâmetros alargados. Tem um pique meio de rock, com efeito hilariante. Do lado B, "Antenna" é uma amostra linda da originalidade dos sons produzidos por instrumentos eletrônicos. Sons que derretem, arranham e viram do avesso, mil coisas que não caberiam na música até então. "Radio Stars" é penetrante. Dois anéis de som, fora de sincronia, são revolvidos na mixagem e se repetem infinitamente. Duas vozes os acompanham. Uma é praticamente um zumbido. A outra declama em cima, fortemente distorcida e ligada a um teclado. É uma maravilha de música.

Kraftwerk - o primeiro grupo plenamente do século XX. O primeiro grupo no contexto do pop a tomar consciência do problema do "moderno", da contemporaneidade e o primeiro a descobrir a solução.