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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Kraftwer — Live Brasil — Free Jazz — Folha de São Paulo, 19 de Outubro de 1998


A coisa foi muito séria. Às 22h do sábado, vídeos sincronizados à parafernália eletrônico-sonora do palco começavam a exibir números, anunciando a presença em cena do grupo de alemães (humanos?) Kraftwerk, tão importante para a música com computadores quanto Bill Gates para o mundo dos computadores.

Na dança dos números da canção "Numbers", que abriu a segunda noite do Main Stage na versão paulistana do Free Jazz Festival 98, as contas a fazer eram de que finalmente, depois de quase 30 anos de formação do Kraftwerk, o país abrigava em seus palcos um grupo musical de tamanho significado para a música, seja ela de qualquer vertente: pop, clássico, progressivo, punk ou até... eletrônico.

Alguém na platéia soltou que era a principal banda que tocou no Brasil desde 1500, o que remeteu diretamente à famosa capa da revista americana "Spin" ao grupo alemão, que indagou, na manchete: "Kraftwerk". Mais influentes que os Beatles?. É complicado discordar.
Começava "Computer World", a música-título do pulsante álbum de 1981, que jogou o punk dentro de um disquete e o entregou ao tecnopop.

A essa altura era engraçado testemunhar como um show de uma banda de três décadas soava tão completamente contemporâneo. Um testamento ao vivo de quão longe o Kraftwerk levou a pop music e quão pouco ela progrediu além das inovações proporcionadas pelo grupo alemão anos e anos atrás.

O show caminhava, e não era estranho se sentir um personagem de "Blade Runner" ou dos livros de Aldous Huxley, tentando dançar de maneira moderna músicas dos anos 70.

Em "The Man-Machine" e "Tour de France" (com imagens de ciclistas em movimento sendo projetadas nos telões), o clima era de uma noite na ópera. Eram operetas eletrônicas.

Ficava claro entender por que nos 70 os álbuns do Kraftwerk eram difíceis de ser encontrados nas lojas européias, já que parte delas colocava os discos nas prateleiras de música clássica.

As inqualificáveis "Autobahn" (as imagens do telão, agora, eram de carros em movimento), "The Model", "Radio-Activity" (hoje com letra alterada para um grito de "stop radio-activity") e "Trans-Europe Express" já haviam apressado a chegada do século 21 (já o tinham feito 20 anos atrás), em um espetáculo de sincronia sonora e visual, futurística e antiga (é só ver as duas músicas inéditas do show, que tentam simular um ambiente tecno anos 90) ao mesmo tempo, quando a cortina se fechou.

Minutos depois, todos os quatro homens-máquina estavam na frente das bancadas de sintetizadores, tocando "Pocket Calculator" com um pequeno controle remoto, como se estivessem com um joystick manipulando o som e as pessoas à frente deles como se fossem um bando de robôs.

Cortina se fecha, cortina se abre e começa... "The Robots".

Onde antes estavam os telões, quatro figuras robóticas substituíam os músicos e se moviam mecanicamente sob a batida eletrônica da música que foi hit de clubes dance do final dos anos 70.
Quantos robôs bacanas não foram criados pelo Kraftwerk nestes anos todos, de David Bowie a Afrika Bambaataa, de Depeche Mode à toda cena eletrônica dominante destes tempos?

Cortina se fecha, cortina se abre, e o final foi dado por "Musique Non-Stop", do último álbum inédito da banda, "Electric Cafe", lançado em 86.

Aí o quarteto vestia roupas pretas com listras verdes fluorescentes que mapeavam a anatomia de cada componente da banda, faziam de seus esqueletos circuitos de computador e transformavam os quatro caras humanos do Kraftwerk em, sim, andróides. Esse foi o final da história a que São Paulo estava assistindo.

Foi um show para não ser deletado jamais da memória. O único senão foi não ter levado meu PC para o Jockey Club. Ele iria amar o Kraftwerk.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Kraftwerk Sónar Vídeos







Kraftwerk Sónar São Paulo 2012





SÃO PAULO - Às 23h30 de sexta-feira, 11, o Kraftwerk subiu ao palco do Sónar - Festival Internacional de Música Avançada e Arte New Media, no gigantesco galpão de exposições do Anhembi, com seus uniformes fosforescentes que lembram o futuro do filme Tron (1982), a primeira animação da era pré-computadorizada, um esboço do que seria o atual mundo digital. Mais de 15 mil pessoas com seus óculos testemunharam o primeiro show em 3D no Brasil, o primeiro com esse grau de tecnologia visual.

A banda alemã abriu com (We Are) The Robots, cartão de apresentação de um tempo de euforia espacial, um passado o qual eles foram os primeiros, na música, a enxergar com os óculos da distopia, da antiutopia. Depois de uma hora de show, havia quem assistisse já sem os óculos, interessado mais na música do que nas projeções. Um lugar menor talvez potencializasse mais os efeitos (a banda fez isso há pouco mais de um mês em Nova York, no Museu de Arte Moderna, o MoMA, com grande impacto).

Radioatividade, desumanização, Hiroshima, Fukushima, alimentação artificial, transgênicos, o carro ocupando o lugar do homem: tudo isso já tinha sido advertido pelo Kraftwerk em finais dos anos 1960, início dos anos 1970. Foram os primeiros a buscar o som de uma voz humana engolida pela máquina. Ao lado de Kubrick com seu 2001, Uma Odisseia no Espaço, eles denunciaram que o mistério não estava no monolito da tecnologia, mas na própria natureza humana.

Curioso que o Kraftwerk tenha proibido fotógrafos profissionais de registrarem seu show no Sónar - não há mais fotógrafos profissionais, todo mundo agora fotografa e grava com seus celulares e essa fronteira foi demolida. O protótipo de um computador de mesa antigo, um desktop, surgia na tela durante a música Computer World, enquanto no público as pessoas com iPads e celulares filmavam o show, um tipo de choque proposital entre obsolescência e atualização tecnológica.

O set list era uma compilação dos clássicos da banda (Man Machine, Autobahn, Radioactivity,Trans Europe Express, Numbers, Tour de France), e a performance dos quatro alemães em seus púlpitos de neon (que lembram os de pregação religiosa), com a voz "vocoderizada" de Ralf Hutter soando de vez em quando, lembrava porque a contribuição artística do Kraftwerk se equipara, em provocação, às de Joseph Beuys, Stockhausen, Marcel Duchamp, Andy Warhol, Gropius e outros que escanearam o futuro de forma irônica.

Não era apenas uma banda pop que estava ali, mas funcionava como tal, porque ao longo do seu percurso, os alemães institucionalizaram a dance music e foram responsáveis pelo surgimento de bandas como Human League, Depeche Mode, New Order, entre outros filhos do synth-pop.

O show do Kraftwerk foi histórico, mas o Sónar resolveu "abolir" a lei antifumo em recinto fechado e todo mundo começou a fumar alucinadamente, sem nenhuma atenção às recomendações da Prefeitura. O galpão virou um fog imenso. Havia banheiros em quantidade suficiente, mas muito longe dos palcos, especialmente o palco principal, e as diversas locações estavam mal sinalizadas.
A retrospectiva do Kraftwerk não foi igual à da sua última visita, quando abriram para o Radiohead, na Chácara do Jockey, em 2009. Foi modernizada, a batida é mais forte, o apelo dance ainda mais emprenhado pela tecnologia digital. Muito da força artística do Kraftwerk vem também de sua capacidade de enxergar o layout da pré-modernidade, de retirar as linhas mestras de trens, linhas férreas, usar o conceito primário de aerodinâmica como base de sua arte gráfica visual. Isso nunca foi equiparado na música pop.

Ao se despedirem, saindo um de cada vez, ao som de Music Non Stop, era como se ficasse um grande vazio no espaço, um vazio que nem toda a música que o Sónar projetasse para as próximas horas, os próximos dias, pudesse preencher. Alguns garotos diziam que pintou um certo tédio no final, mas o que é o Kraftwerk senão a reiteração crítica de nosso tédio metropolitano?

domingo, 29 de abril de 2012

Kraftwerk Sónar Brasil






Depois de arrebatar público e crítica no MOMA em NY, Kraftwerk fará estreia exclusiva na América do Sul de show antológico no Sónar São Paulo, no próximo dia 11 de maio.

O Sónar São Paulo tem o enorme prazer em anunciar o reverenciado grupo alemão Kraftwerk, o mais importante artista de toda a esfera da música contemporânea, como o headliner do primeiro dia do festival – 11 de maio.

Em atividade desde 1970, o Kraftwerk, famoso no mundo inteiro por conta de suas performances audiovisuais, fará no Sónar São Paulo um show especial em 3-D, uma experiência inédita no Brasil e que por enquanto só foi vista em Nova Iorque.

A banda que melhor soube prever o futuro do pop, desde 2005, quando fizeram uma performance em plena Bienal de Veneza, tem sido convidada para se exibir no contexto das artes visuais, especialmente museus. Mas nada se compara ao tratamento dado há cerca de duas semanas (10-17 de abril) pelo prestigiadíssimo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMa), quando durante 8 noites consecutivas, o Kraftwerk apresentou no átrio do museu o projeto “Retrospective 12345678", no qual apresentaram seu repertório completo – na íntegra e em ordem cronológica – e com acompanhamento visual em 3-D. Essa série de 8 shows foi vista por um público bastante reduzido, fazendo dela a mais disputada de todo o ano, por enquanto.

Kraftwerk é um dos nomes mais influentes não só da música dos últimos 40 anos (em especial o hip-hop e a eletrônica), mas de toda a arte contemporânea. Seus oito álbuns de estúdio – Autobahn (1974), Radio-Activity (1975), Trans-Europe Express (1977), The Man-Machine (1978), Computer World (1981), Techno Pop (1986), The Mix (1991) e Tour de France (2003) – são mais do que clássicos: são verdadeiros hinos da história recente mundial.

Formado por Ralf Hütter e Florian Schneider em 1970, na cidade de Dusseldorf, na Alemanha, em cerca de 5 anos o grupo já havia alcançado amplo reconhecimento internacional. Suas revolucionárias “pinturas sonoras”, sua experimentação musical com sintetizadores, composições com rítmos robóticos, técnicas avançadas de loop e os temas que anteciparam o impacto da tecnologia na arte e no cotidiano, influenciaram os mais variados artistas, nomes como Afrika Bambaataa, Devo, Depeche Mode, FatboySlim, Chemical Brothers, Jay-Z e LCD Soundsystem – só para ficar entre aqueles que já samplearam o Kraftwerk em suas músicas.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Karlheinz Stockhausen — Entrevista — Revista Veja (Brasil) — 2001



A vanguarda sou eu

Um dos pais da música moderna, o maestro e compositor alemão ataca regentes famosos e diz que o gênero eletrônico ainda pode causar uma revolução

Sérgio Martins

Goste-se ou não das obras de Karlheinz Stockhausen, não há como negar a importância do maestro alemão para a música contemporânea. Nascido em 22 de agosto de 1928, no vilarejo de Mödrath, perto da cidade de Colônia, ele é considerado o maior compositor de seu país no período pós-guerra. Suas ousadias incluem a criação de concertos que incorporam barulhos da natureza e até um quarteto para helicópteros. Acima de tudo, Stockhausen é considerado o pai da música eletrônica. Por isso se tornou influente também no universo pop. Dos Beatles ao Grateful Dead, banda preferida dos hippies californianos, muitos foram os roqueiros seduzidos por seu vanguardismo. A nova geração tecno continua a venerá-lo. Stockhausen é a principal atração do Carlton Arts, festival que acontece de 25 de junho a 1º de julho em São Paulo. Ele fará duas apresentações na cidade, nas quais mostrará as obras Oktophonie, Kontakte e Hymnen. Nesta entrevista, feita por telefone de sua casa em Kürten, na Alemanha, Stockhausen não poupa críticas aos maestros da música tradicional e diz que não gosta de manter contato com o mundo exterior. "Atrapalha o meu trabalho."

Veja – O senhor é considerado um dos pais da música eletrônica...

Stockhausen – Na Europa dizem mais: que sou o papa desse gênero musical. Esses títulos me deixam orgulhoso.

Veja – Quando o senhor decidiu que seria um compositor diferente?

Stockhausen – Desde cedo quis me diferenciar dos outros autores alemães. Eu tinha aulas de música em um conservatório de Colônia e estava estudando a sonata para dois pianos e percussão do húngaro Béla Bartók. Foi quando ouvi no rádio uma obra de Stravinsky. Fiquei impressionado: aquilo era muito melhor do que música tradicional. Passei, então, a procurar outros estilos que fugiam da mesmice. Como as composições atonais do austríaco Anton Webern ou o lado mais experimental do jazz, como o bebop e o boogie-woogie. Até hoje procuro seguir essa filosofia.

Veja – O senhor era uma criança quando a II Guerra Mundial começou. Quais lembranças tem desse período?

Stockhausen – Eu era novo demais para lutar, mas perdi meu pai, vários primos e amigos queridos no campo de batalha. Trabalhei em um hospital na minha cidade natal, Colônia, e pude ver os milhares de feridos e a destruição de algumas jóias da arquitetura medieval alemã.

Veja – Como se sente a respeito do fato de maestros famosos, como Herbert von Karajan e Wilhelm Furtwängler, terem aderido ao nazismo?

Stockhausen – É melhor deixar os mortos repousar em paz.

Veja – Qual a opinião do senhor em relação ao crescimento do movimento neonazista na Alemanha?

Stockhausen – Eu não sei exatamente o que está ocorrendo, porque não leio jornais, não vejo televisão e muito menos compro revistas. Estou tão concentrado em minha obra que não tenho tempo a perder com o que acontece no mundo. A minha única fonte de informação é uma publicação sobre astronomia que um amigo me envia dos Estados Unidos.

Veja – O senhor acredita que existe vida em outros planetas?

Stockhausen – Em outras galáxias, sim. Na minha imaginação, já viajei para diversos planetas. Dessa maneira, consigo compor minhas melhores obras. Como o meu quarteto para helicópteros, uma das peças que me deixam mais orgulhoso.

Veja – Pelo menos o senhor ficou sabendo da polêmica com o maestro argentino Daniel Barenboim? Ele despertou a ira dos judeus ao propor a apresentação de uma ópera de Wagner em Jerusalém.

Stockhausen – Acho que os judeus deveriam separar a música de Wagner de seu passado anti-semita. E ninguém melhor do que Barenboim, que é judeu, para explicar isso e mostrar que Wagner é bom – ainda que ele nunca tenha me agradado. A única coisa que aturo de Wagner é a abertura de Tristão e Isolda.

Veja – O que o senhor pensa da obra de compositores clássicos como Bach, Beethoven, Brahms e Mahler?

Stockhausen – Bach provou que realmente é possível louvar a Deus por meio da música. Beethoven me ensinou a controlar um amplo leque de formas de expressão. Com Brahms, aprendi a ir sempre em busca das fontes originais. Mahler, finalmente, me fez ver que as emoções musicais mais intensas são capazes de nos aproximar de Adão, o primeiro homem.

Veja – O senhor foi companheiro de classe do maestro francês Pierre Boulez, outro talento da música moderna. Boulez é conhecido por espinafrar maestros e escolas musicais. O senhor compartilha dessas opiniões fortes?

Stockhausen – Eu conheci Pierre Boulez quando tinha 23 anos e fui estudar em Paris. Fomos alunos do compositor Olivier Messiaen. Somos muito amigos, mas eu não sei o que se passa na cabeça dele. Boulez gosta de espinafrar outros maestros, mas está regendo de maneira cada vez mais porca. Em 1997, eu o vi reger um concerto de Schumann em Osaka e foi terrível. Ele também estragou a oitava sinfonia de Bruckner. Boulez gosta de reger autores franceses sem expressão apenas para parecer moderno – mas esses concertos não acrescentam nada à sua carreira.

Veja – O que acha do italiano Claudio Abbado, regente da Filarmônica de Berlim?

Stockhausen – Ele é horroroso, fez coisas terríveis com as minhas criações. Claudio Abbado regeu um concerto meu na Alemanha e simplesmente estragou minha obra. Fiquei tão furioso que mandei uma carta para ele. Abbado nunca me respondeu. Depois, vim a saber que não havia ensaiado o suficiente. Dos catorze dias de ensaios previstos, compareceu apenas a dois.

Veja – É interessante, porque Claudio Abbado costuma gabar-se das muitas horas de ensaio gastas com a Filarmônica de Berlim.

Stockhausen – Sinceramente, ele não entende a minha obra. Claudio Abbado já havia destruído uma criação minha quando regia a orquestra do Alla Scalla de Milão. O problema desses maestros é que eles não conseguem entender a precisão das minhas obras. Elas têm de ser ensaiadas exaustivamente durante dez, doze dias até ficar perfeitas. Mas os regentes não têm tempo para isso. Eles sabem que podem ganhar até dez vezes mais tocando obras de Beethoven e Bach. Um dos poucos maestros que entendem a minha obra é o americano David Robertson.

Veja – O senhor consegue executar as obras que escreve para o piano?

Stockhausen – Você pode até não acreditar, mas sou um excelente pianista... Um excelente pianista! Só que hoje não faço mais solos. Apenas treino virtuoses.

Veja – Quem é o melhor intérprete de suas obras? Um homem ou um robô?

Stockhausen – Uma mulher. Qualquer uma.

Veja – Não cheira a enganação apresentar um concerto de música em que o senhor apenas aperta alguns botões?

Stockhausen – Minha obra é bem mais do que apertar botões. Ela exige ambientação. Os meus concertos costumam ser acompanhados de imagens projetadas num telão, e a sala de concerto precisa ter uma acústica impecável, com alto-falantes de boa qualidade. Vistoriar tudo isso dá muito trabalho.

Veja – Como o senhor lida com eventuais salas de concerto vazias e gente que não gosta de seu estilo musical?

Stockhausen – Sinceramente, não tenho esse tipo de problema. As salas em que toco estão sempre cheias e meus discos ainda vendem bem no mercado erudito.

Veja – Qual foi a pior reação dos admiradores da música tradicional a uma criação sua?

Stockhausen – Em 1957, uma rádio de Colônia transmitiu trechos da minha obra. A reação foi tremenda. Diversos críticos de música clássica diziam que eu estava destroçando uma arte divina. Um deles, chamado Blummer, sugeriu às estações de rádio que proibissem a execução das minhas obras. De repente parecia que estávamos de volta aos tempos do III Reich. Mas eu já tinha me acostumado a isso. Na minha estréia como compositor, em 1953, o mundo se dividiu entre os pró e contra Stockhausen.

Veja – Diversos músicos gostam de dedicar suas obras ao senhor. Já deparou com algumas dessas homenagens e teve vontade de gritar: "Mas não é nada disso!"?

Stockhausen – Qualquer músico que respeita a minha obra é digno da minha gratidão. Mesmo que o disco não esteja à altura do meu trabalho.

Veja – Hoje, parecem existir muito mais discípulos do senhor na música pop do que na música clássica.

Stockhausen – Sem dúvida, eles gostam da minha criatividade. Karl Bartos, líder do grupo alemão de música eletrônica Kraftwerk, chegou a parar uma apresentação da banda para fazer elogios rasgados à minha obra. Nos anos 60, quando dei aulas de música na Califórnia, havia integrantes das bandas psicodélicas Jefferson Airplane e Grateful Dead entre meus alunos.

Veja – O senhor chegou a ser convidado a participar de Sgt. Pepper's, o histórico álbum dos Beatles lançado em 1967. Por que essa parceria não se concretizou?

Stockhausen – Os Beatles sempre foram fãs do meu trabalho. Assim como eu, eles sempre tiveram muita criatividade. Fui procurado pelo empresário deles na época, Brian Epstein. Ele queria que eu bolasse arranjos para o grupo e fizesse um concerto ao lado deles. Mas Brian morreu e depois não consegui me entender com os novos empresários da banda. Por isso, minha participação em Sgt. Pepper's se resumiu a uma aparição na foto da capa.

Veja – O rock e o pop normalmente são associados ao uso de drogas. O senhor já as experimentou?

Stockhausen – Nunca usei drogas em minha vida. Nem sei que gosto elas têm. Ouvi dizer que Jefferson Airplane e Grateful Dead eram movidos a drogas, mas nunca vi nada. Você tem de entender que esses grupos surgiram nos anos 60, uma época em que todo mundo experimentava LSD. Eu também soube que meu filho mais novo usou drogas quando estava na faculdade, mas agora ele está levando uma vida normal.

Veja – Qual o futuro da música eletrônica?

Stockhausen – Há quase cinqüenta anos tenho dito e escrito que a música eletrônica será o gênero mais importante da evolução musical. E isso não apenas por questões técnicas ou pela maneira pouco ortodoxa com que lidamos com o tempo de execução das obras. Ao revolucionar nossa maneira de ouvir, a música eletrônica pode revolucionar nossa maneira de viver.

Veja – Normalmente, os artistas de música eletrônica costumam usar a técnica do sampler: pegam trechos de obras alheias e não pagam direitos autorais. O senhor já foi sampleado?

Stockhausen – Eu não me importo de ser sampleado e muito menos corro atrás de direitos autorais. Até hoje apenas um músico alemão desconhecido admitiu ter roubado minhas criações. Ele usou trechos de três obras minhas para fazer outra música. O sampler sempre existiu na história da música, apenas tinha nome diferente. Chamavam de "copiar estilos". Johann Sebastian Bach, por exemplo, foi o primeiro grande sampleador da história. Bach criou algumas de suas obras a partir de trechos que roubou de outros autores barrocos.

Veja – Um de seus discípulos, Holger Czukay, disse que a melhor maneira para um músico não prostituir sua arte é casar com uma mulher rica. O senhor compartilha da mesma opinião?

Stockhausen – Não, eu sempre tive condições de ganhar meu próprio dinheiro. Desde criança, até os dias de hoje, minha música garantiu tudo o que tenho.

Veja – O senhor tem seis filhos. Procurou incutir neles o seu gosto musical?

Stockhausen – Meus seis filhos têm interesses musicais muito diferentes dos meus. Três deles são excelentes músicos profissionais. Eles tocam composições mais suaves, e acho que o fazem de maneira excelente. O quarto é flautista e professor de música e os outros dois preferiram não seguir a mesma carreira do pai.

Veja – Dizem que a música de Mozart e de outros compositores clássicos ajuda a desenvolver a inteligência dos bebês. O seu trabalho tem também um alcance educativo?

Stockhausen – Acho que sim. Muitas crianças foram criadas ao som de uma das minhas obras mais importantes, Zodiac.

Veja – A palavra "vanguarda" ainda faz sentido para o senhor?

Stockhausen – Pense de outro jeito. Enquanto eu estiver vivo, a palavra "vanguarda" ainda fará sentido para o mundo.


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