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sexta-feira, 16 de maio de 2025

Ralf Hütter — Entrevista Musik Express — Maio — 1981

 


Musik Express Magazine - Ralf Hütter - Maio de 1981 (Versão Alemã)

Musik Express – Exatamente três anos atrás vocês lançaram Mensch Maschine. O novo álbum, pelo qual tivemos que esperar tanto, se chama Computerwelt. Com certeza vocês não escolheram esse tema por acaso, certo?

Ralf Hütter – Nós trabalhamos constantemente. Não nos vemos como músicos que têm uma grande ideia de repente e dizem “é isso!”. Nós nos vemos como operários da música. É por isso que temos este estúdio, o Kling Klang Studio, onde trabalhamos todos os dias há mais de dez anos. Pensamentos e ideias desempenham um certo papel, mas nós não apenas compomos e tocamos, também criamos nossa própria tecnologia com a ajuda de engenheiros. 

Nós nos vemos como uma equipe produtiva que não faz apenas música, mas também tecnologia, filmes em vídeo e outras coisas. Chamamos isso de "música total". Não se trata apenas de sons, isso se manifesta em um estilo de vida eletrônico. Em todas as áreas da vida nos confrontamos com isso. 

Em algum ponto a música surge disso inevitavelmente — e soa assim, e não de outro jeito. É assim quando se passa o dia todo lidando com esses aparelhos eletrônicos e o realismo da época atual. Para nós é claro: só pode soar assim. Para nós, 1980/81 só pode soar como Computerwelt. É como uma máquina do tempo, da qual sai o resultado do que captamos com nossos sentidos e processamos. É o resultado inevitável do nosso trabalho de pesquisa. 

A ideia criativa é apenas um elemento. Com gravação magnética e vídeo, você pode se pesquisar psicologicamente. E se for honesto, percebe de quantas pequenas partes tudo se compõe. O fator tempo não pode ser definido por nós. Por isso Computerwelt levou tanto tempo.

Musik ExpressComputerwelt, à primeira audição, soa simples. No bom sentido. Isso significa que nossa vida é simples?

Ralf Hütter – Não, eu não acho. A vida não é simples. Mas gostamos de concentração. Gostamos de linhas retas. Kraftwerk representa algo bastante direto, que fazemos há anos. Não somos muito flexíveis...

Musik Express – ...vocês ficaram parados no tempo...

Ralf Hütter – ...quero dizer, seguimos em frente, em linha reta. Para nós parece que evoluímos. Queremos tocar nossa música de forma direta, sem enfeites, porque sabemos que isso é o mais difícil. E para nós é o modo mais honesto de tocar.

Musik Express – Em certo sentido, isso vira uma música popular.

Ralf Hütter – Seria ótimo se conseguíssemos isso. Música popular eletrônica. Essa ideia também ronda nossos pensamentos, mas não depende de nós. Mas se houver algo na nossa música que se relacione com a situação de vida do ser humano de hoje — e que seja compreensível —, sentimos que fizemos nosso trabalho no nível certo. Trata-se de uma busca por verdade. 

De encontrar uma realidade para nós mesmos. Nos interessa o que está acontecendo conosco. Porque vivemos aqui e estamos constantemente expostos a esses estímulos. Chamamos este disco de Nova Objetividade.

Musik Express – Para mim ele soa muito positivo!

Ralf Hütter – Basicamente nosso modo de vida é positivo. Caso contrário, não faríamos isso. Dizer “o Reno está poluído” com cinismo, e por isso também jogar meu lixo nele — para nós isso significaria parar de trabalhar. Musicalmente, isso equivaleria a dizer que o mundo da música é um lixo musical.

Musik Express – Mas ele não é?

Ralf Hütter – Em grande parte é poluição acústica. Para nós está claro que a indústria musical, em sentido amplo, também polui o ambiente — assim como qualquer outro ramo da indústria. Eu acho que chegará um tempo — e para nós isso já é evidente — em que as pessoas vão perceber que não dá para queimar o cérebro com várias horas de qualquer coisa vinda do rádio. Porque isso nunca mais sai da cabeça! O que entra pelo subconsciente, fica. 

Hoje em dia se diz: “deixa o rádio ligado!”. Mas essa forma de poluição também terá consequências. Vivemos não só em um mundo de destruição física, de abuso, mas também de poluição mental — repleto de lixo acústico e visual. Isso deixa marcas. Se isso não parar, haverá danos mentais permanentes, talvez irreversíveis.

Musik Express – Isso exige que todos nós nos esforcemos para absorver as coisas de forma consciente e individual...

Ralf Hütter – ...sim, absorver conscientemente. Concentrar-se. Hoje em dia todo mundo tenta fazer seis coisas ao mesmo tempo...

Musik Express – ...e ainda se orgulha disso! Mas será que não deveríamos limitar as coisas que são lançadas no mercado? Ou isso também é perigoso?

Ralf Hütter – A única resposta possível é não reagir com cinismo dizendo “tanto faz, mais um disco de lixo no mercado”. Nós aprendemos que dá para criar algo a partir do nada. Em uma fita virgem você pode gravar algo... Quando se trabalha nisso, percebe como sua criatividade e força crescem. Só por meio da ação.

Musik Express – As letras dos seus discos também são reduzidas ao mínimo.

Ralf Hütter – Sim. São palavras-código, palavras-chave. Porque também não somos escritores. E acreditamos que na linguagem, na escrita, já se disse tudo. As pessoas só acreditam no que está escrito em preto e branco. Isso é Idade Média. Pode-se assistir a um filme, ouvir um disco. Imagens transportadas de forma visual e acústica. 

Nossa música não pode ser descrita com palavras, nem comprimida em palavras únicas. Por isso usamos palavras como sons, como impulsos de pensamento. E neste disco não precisávamos apenas da “soft ware”, ou seja, da música — também tivemos que criar parte da “hard ware”. Não dá para dizer: “vamos fazer essa música” — e tocar tudo numa flauta doce. Computerwelt não pode ser tocada em uma flauta.

Musik Express – Como Computerwelt se apresenta?

Ralf Hütter – Como realismo. Inicialmente sem julgamento de valor. Tentamos vê-la sem moral, porque acreditamos que hoje em dia não dá mais para se dar ao luxo de ter moral...

Musik Express – ...mas não surge uma nova moral a partir da Computerwelt tecnologizada?

Ralf Hütter – Mais a partir da percepção. Precisamos tornar nossa vida mais transparente. Há tanta coisa sendo encoberta. Ninguém deve perceber. Nossa vida é baseada em disfarce.

Musik Express – Os computadores, com sua capacidade de armazenamento e recuperação, contribuem significativamente para isso.

Ralf Hütter – Com certeza. Por isso os usamos. Acreditamos que se pode fazer outras coisas com computadores — mais transparentes. As atividades reprodutivas, com as quais grande parte da humanidade no mundo ocidental desperdiça tempo, podem ser substituídas. Para mais criatividade e produtividade — não no sentido de lucro — mas de uma vida mais produtiva. Atividades reprodutivas podem ser reduzidas. Nossa música não tem um alto valor de relaxamento. Ela é direta, dinâmica.

Musik Express – Então Computerwelt deve ser vista como extremamente política?

Ralf Hütter – Sim, bastante.

Musik Express – Como uma provocação...

Ralf Hütter – Especialmente na área em que atuamos. Há pessoas que são politicamente muito ativas, em público, o dia inteiro! Falam mil coisas — e quando estão sozinhas, em sua existência real, de repente se veem como cowboys. Para mim, a música é uma ciência que toca o mais privado, o mais íntimo da vida humana. Ela expressa as vibrações reais do ser humano como existência psíquica. Música é uma droga da verdade. A fita magnética é uma prova. Você pode fingir o que quiser — até o fingimento é perceptível. 

A revolução da vida precisa partir da existência privada. Há tanta besteira e barulho no mundo da mídia, mas sem consequência existencial. Tentamos alcançar isso. Se conseguiremos, não sei. Nosso pensamento é realizar isso de forma o mais radical possível. Se nossa música não tiver raízes no estilo de vida real, tudo não passa de conversa de bar. Assim vejo nossa consciência política. Que essa atitude radical se manifeste realmente na vida. 

O pensamento do “descartar”, do “desconsiderar”. Isso não funciona. Eu estou aqui e vivo tudo plenamente. No meio de tudo. Não criamos tabus. Vivemos em um mundo computacional — então fazemos uma música sobre isso.

Musik Express – A canção “Taschenrechner”...

Ralf Hütter – Tornou-se um objeto de direitos humanos. Dimensões que se tornam tangíveis. Nós brincamos com calculadoras de bolso e um mini órgão de brinquedo infantil. Inicialmente, não fazemos nossa música de forma racional. Nós experimentamos, improvisamos. Não podemos prever o que virá. É preciso estar aberto. Muitas vezes funcionamos como médiuns. 

As coisas vêm até nós, tornamo-nos meios. Cada um faz o que lhe é mais natural. Isso vem da convivência longa. Cada um conhece suas forças e fraquezas. Falamos pouco sobre as coisas. Armazenamento computadorizado. Sons armazenados quase para sempre. Livros eletrônicos. É com isso que lidamos. Não precisamos mais nos ocupar com coisas reprodutíveis...

Musik Express – Parecido com o que os jazzistas fazem: improvisar livremente sobre certos esquemas, ser criativo...

Ralf Hütter – Sim, tentamos manter as estruturas básicas simples para que não se precise focar tanto na técnica de tocar. Criar espaços onde se possa trabalhar livremente.

Musik Express – ... interiorizar mais, sem pensar em técnica, e expressar os sentimentos...

Ralf Hütter – ... graças ao computador, não precisamos nos preocupar se estamos tocando tudo certo. Um pianista clássico precisa praticar cinco ou seis horas por dia para manter a forma mecânica. Isso é uma piada. Ele está só repetindo. 

O computador, por outro lado, toca coisas que eram tecnicamente impossíveis até agora. (Aqui nossos pensamentos se dividem, porque por um lado acredito que não podemos viver sem tradições — então também precisamos do piano tradicional — e que, de acordo com nossos estados de espírito, podemos tocar uma sonata de Beethoven todos os dias de forma diferente — porque sentimos de maneira diferente, porque somos diferentes. — D. I.) Isso mostra que a outra direção — o antigo sistema de dominação — está ruindo. 

Certas estruturas de poder baseadas em formas físicas e mecânicas da sociedade entrarão em colapso com a era eletrônica que agora começa. Também os sistemas de pensamento — que são ainda piores que os físicos.

Musik Express – Qual papel o ser humano ainda terá nesse sistema? Qual é sua tarefa?

Ralf Hütter – Ele precisa encontrar uma nova identidade. A figura do homem dominante de hoje, como ele anda por aí, já virou um robô. Nós mesmos passamos por essas fases. Hoje trabalhamos de maneira totalmente diferente de alguns anos atrás. 

O pensamento da possibilidade. Pensar de imediato, dar prioridade ao pensamento. Grande parte da música atual me parece exercícios de ginástica. Alguém faz um solo de bateria. Um monte de músculos suando. Isso é uma piada! Uma forma de exercício físico. Eu entendi esse sistema. É preciso pensar em outras dimensões.

Musik Express – Isso significa que você rejeita a maioria do que acontece no mercado musical?

Ralf Hütter – Não rejeito, mas não tem nenhum significado para mim. Maravilhosa ginástica. O que não significa que o que eu faço seja melhor.

Musik Express – Mas às vezes eu quero ser tocado fisicamente por música rock forte, tradicional...

Ralf Hütter – Isso já não é possível para mim. Para mim isso é uma forma artística fascista. Onde alguém ou um grupo tenta dominar milhões de ouvintes.

Musik Express – Mas isso também acontece com vocês! Quando “Taschenrechner” toca nas discotecas!

Ralf Hütter – Isso é o meio. Mas esperamos que isso aconteça conosco em outra postura mental.

Musik Express – Um desejo piedoso. Tomara que você esteja certo. Mas quando era mais jovem, não pensava diferente, não ia a shows?

Ralf Hütter – Sim, não culpo as pessoas que hoje vão a shows pesados. Mas sim os que sabem o que estão fazendo. Os que propagam isso conscientemente. Os que querem exercer domínio. O mercado da música americana! Estou feliz que na Alemanha esteja acontecendo tanta coisa. Uma geração completamente nova — isso nos dá força.

Musik Express – Para o disco Mensch Maschine vocês queriam fazer uma turnê. A última foi em 1976. Não rolou em 1978. Por quê?

Ralf Hütter – Não conseguimos. Não queremos fazer nada pela metade. Tivemos a ideia do centro de controle computacional. Tivemos que desenvolvê-la até o fim. Agora está pronto e faremos uma turnê mundial. De final de abril até julho.

Musik Express – O que vocês vão tocar no palco, tecnicamente o que vai acontecer?

Ralf Hütter – Tocaremos obras coletadas. Conceitos em versões variadas. Não tocamos de forma reprodutiva, mas tudo conforme sentimos hoje.

Musik Express – Por que vocês fazem shows?

Ralf Hütter – Há uma forma de energia que surge quando pessoas se reúnem num lugar. Nós como baterias, que se carregam e descarregam. Correntes de energia se encontram, isso é importante para nós. Mas se você faz isso demais, perde a sensibilidade. 

Com esse excesso de estímulos, você é arremessado longe depois. Tocar no palco também é uma forma de se encontrar. Mas depois precisamos nos recentrar. Não precisamos de férias, voltamos a trabalhar no Kling Klang Studio.

Musik Express – Obrigado, Ralf, foi uma conversa muito interessante!

Entrevista por Dankmar Isleib – 1981

Kraftwerk Revelado — Electronics & Music Maker — Setembro — 1981

 




Kraftwerk Revelado

Uma entrevista com Ralf Hütter | Kraftwerk
por Mike Beecher
Artigo da Electronics & Music Maker, setembro de 1981

Ralf Hütter conheceu Florian Schneider na Academia de Düsseldorf, Alemanha, em 1968, onde estavam sendo ministrados cursos de improvisação musical. Com essa formação essencialmente clássica, eles uniram forças para testar suas novas habilidades em experimentações com sons eletrônicos, começando de forma simples, utilizando amplificadores, máquinas de eco e efeitos de realimentação (feedback).

"Não estávamos interessados apenas em Musique Concrète, mas também em tocar clusters de tons de órgão e sons de flauta com feedback, que adicionavam variedade às sequências de notas repetidas que gravávamos e mixávamos em fita. Depois usamos vários bateristas acústicos, pois passamos a nos concentrar em músicas mais rítmicas, e logo percebemos que amplificar baterias com microfones de contato era algo desejável para nós, mas não muito aceito pelos músicos."

"Começamos o estúdio 'Kling Klang' em 1970, o que marcou de fato o início do Kraftwerk. O estúdio era, na verdade, apenas uma sala vazia em um galpão localizado numa área industrial de Düsseldorf. Instalamos material de isolamento acústico em uma sala de 60 m², e agora usamos outras salas ao lado onde fabricamos instrumentos. Quando nos mudamos, começamos a gravar com gravadores estéreo e gravadores de cassete para preparar nosso primeiro disco. As fitas-máster depois eram levadas para o estúdio de gravação para a mixagem final. Isso nos permitiu ser 'auto-produtores' dentro de nossos recursos limitados, e assim fizemos outros três LPs dessa forma."

"Não se esqueça de que, naquela época, músicos bem-sucedidos usavam produtores importantes para lançar seus discos, mas nós assumimos todos os aspectos da produção por conta própria," comentou Ralf. "É muito encorajador ver hoje, na Inglaterra, pessoas lançando seus próprios selos em fita e disco. Desde o começo, usamos cassetes para gravações 'de campo' e misturávamos esses sons com nossos instrumentos no estúdio."

"É bem comum na Alemanha grupos terem seus próprios 'estúdios caseiros', com uma ênfase muito forte no faça-você-mesmo. Criamos nossas próprias capas de disco, tirando fotos com Polaroid e desenhando a arte, e também gerenciávamos a banda. Em 1971 o Kraftwerk ainda não tinha baterista, então comprei uma bateria eletrônica barata com ritmos de dança predefinidos. Alterando os sons básicos com eco de fita e filtragem, fizemos as faixas rítmicas para nosso segundo álbum. Os sons instrumentais vinham de osciladores caseiros e um velho órgão Hammond que nos dava harmônicos variados com seus drawbars. Manipulávamos as fitas em diferentes velocidades para mais efeitos."

"Os sintetizadores comerciais chegaram relativamente tarde na Alemanha, e foi só a partir do terceiro álbum que começamos a usá-los. Foi nessa época que Wolfgang Flür se juntou a nós para tocar um sistema de bateria customizado, sendo o primeiro percussionista a aceitar baterias eletrônicas."

"Música eletrônica ainda era um meio musical muito novo no início dos anos 70, é claro, e muita gente estava apenas começando, como o grupo Can, de Colônia."

"Acredito que fomos um dos primeiros grupos a ter um baterista eletrônico com Wolfgang Flür. Além do console de bateria customizado, agora temos dois conjuntos de tambores que consistem em seis pads metálicos acionados por baquetas metálicas com contato. Eles não são sensíveis ao toque, então os acentos e a dinâmica vêm de pedais de volume separados. Às vezes, ligamos um ou mais pedais para alterar outros parâmetros, como tom ou afinação."

Um ano depois, Karl Bartos tornou-se o quarto integrante do Kraftwerk porque também acreditava que a música podia ser feita inteiramente por meios eletrônicos.

"Acreditamos que a música é mais um produto da imaginação, e os instrumentos são feitos como resultado de tudo o que fazemos. Não nos vemos como instrumentistas específicos – eu não sou apenas um tecladista, nem o Wolfgang é simplesmente um baterista. Isso seria limitador para cada um de nós, que desenvolvemos habilidades tanto em harmonias e melodias quanto em ritmos."

O equipamento do estúdio Kling Klang continuou sendo projetado pelos quatro músicos, e como o conhecimento deles em eletrônica era limitado, contrataram um engenheiro em tempo integral para fabricar e dar manutenção nos equipamentos, além de um matemático para desenvolver os programas de computador.

"Nossa rotina diária de trabalho dura cerca de 8 a 10 horas no estúdio. Não nos vemos apenas como músicos, mas como Musik-Arbeiter (trabalhadores da música), e projetamos e montamos nosso estúdio portátil completo, que inclui os cenários de palco, cortinas, iluminação, estruturas, palco e sistema de som estéreo, além dos suportes de equipamento. Usamos feixes de cabos multifios para facilitar a desmontagem de cada seção dos instrumentos móveis. Os músicos ficam em plataformas metálicas que escondem a fiação. Felizmente, todos temos altura semelhante, então cada seção de instrumentos é adequada para qualquer um de nós. Todos os racks de instrumentos têm largura padrão de 19" e são guardados em cases para transporte."



Em Performance

Perguntei a Ralf sobre o estilo de performance deles. “Hoje em dia, muitas pessoas se movem ou até mesmo pulam no palco, e é importante para a nossa música que não façamos isso — nossa performance bastante estática também é necessária para enfatizar o aspecto ‘robótico’ da nossa música (no novo LP Computer World).

“A disposição física dos equipamentos, além de funcional, foi pensada para sugerir a ideia do ‘homem-máquina’, da qual sempre falamos — para que a música não seja dominada por um ou por outro. Por exemplo, algumas pessoas se apresentam com suas máquinas musicais empilhadas ao redor de si de forma impressionante — nós preferimos a imagem de perfil baixo, trazendo homem e máquina juntos em uma ‘parceria amigável’ de criação musical.

“Estamos montando esse set há três anos (desde o álbum Man Machine), enquanto compúnhamos a música e preparávamos os gráficos de vídeo. A maioria dos instrumentos foi adquirida em anos anteriores, mas eles estavam conectados de forma mais típica de estúdios de música eletrônica. Além de parecerem meio bagunçados, o layout anterior causava problemas no transporte e exigia horas de recabeamento para cada apresentação. O novo set leva, no máximo, duas horas para ser montado ou desmontado. Sempre trazemos nossa própria equipe técnica alemã, mas, é claro, outras pessoas frequentemente ajudam nas casas de show locais. Para minimizar falhas de componentes e manuseio brusco, usamos dispositivos industriais de alta especificação e de uso pesado nos equipamentos.”

É muito fácil para o público ser ‘enganado’ e pensar que grupos de música eletrônica tocam tudo ao vivo, quando na verdade, boa parte — se não toda — da música pode estar pré-gravada. Dessa forma, a apresentação ao vivo pode soar como a versão do LP dos artistas. Um ponto muito importante aqui é que o Kraftwerk REALMENTE toca a maioria das músicas totalmente AO VIVO, e TODOS os itens em seus consoles futuristas são utilizáveis na performance. Em ambos os lados do grande palco estão as torres de som (PA) que entregam até 12 mil watts de potência. A cor cinza dos gabinetes foi escolhida deliberadamente para combinar com o cenário e com a própria imagem do grupo em preto ‘sóbrio’. Quando assisti ao show do Kraftwerk no Hammersmith Palais, em Londres, o som estava claro, sem distorções — mesmo com a fala computadorizada. 



Equipamento

Os instrumentos e equipamentos usados pelos integrantes contêm itens coletados desde 1971. As quatro grandes telas de vídeo foram fabricadas pela Sony, no Japão, e a recente turnê no Reino Unido foi adiada porque demorou muito mais do que o esperado para compilar os vídeos e ensaiar com a música e o vídeo sincronizados.

"A tinta estava literalmente secando quando os itens foram embalados", comentou Ralf, "e, para o caso de surgirem problemas, dois engenheiros acompanharam o início da nossa turnê pelo sul da Europa."

As telas de vídeo foram escolhidas para complementar os quatro integrantes, que possuem suas próprias telas de monitor pessoais em suas seções nos consoles principais. Os programas de vídeo aparecem simultaneamente em cada tela e consistem em material filmado e produzido em microcomputadores. Eles não são exatamente sincronizados com a música, mas iniciam uma nova sequência para cada peça. Ocasionalmente, luzes fluorescentes, refletores de teto ou luzes estroboscópicas no chão eram usadas, enquanto as telas exibiam uma imagem em branco com "neve" (sem sinal). Alguns dos programas de computador foram feitos em microprocessadores Atari e Texas, e Ralf planeja instalar um terminal de teclado ao lado de cada monitor de TV, para que cada integrante possa selecionar e alterar a exibição conforme a música.

"Todo mundo parece se limitar dizendo 'sou um instrumentista', mas nós gostamos de 'tocar imagens' além de compartilhar os instrumentos disponíveis. Gunter Spachtholz é o engenheiro de vídeo e iluminação, responsável por todos os visuais, e fica no lado esquerdo do palco (do ponto de vista da plateia). Do outro lado dos músicos está o engenheiro de som (nós o chamamos de nosso homem dos dB!), Joachim Dehmann. Embora ele faça o balanceamento final da saída total de som, cada integrante mixa seus próprios instrumentos separadamente, a partir de até oito fontes sonoras."



Os Robôs

"Gostamos de retratar nas nossas músicas as coisas que fazemos no dia a dia — outras pessoas podem se fascinar por voos espaciais para a Lua e coisas do tipo. Nós até tentamos um cenário de laboratório espacial uma vez, mas hoje preferimos nos relacionar com a tecnologia cotidiana, como carros, trens e outras máquinas controladas por humanos.

"A nossa 'viagem' nestas performances atuais é baseada em robôs. A ideia do robô surgiu durante uma turnê que passou por 65 lugares nos Estados Unidos. Como resultado, começamos a nos tornar automáticos e 'robóticos' nós mesmos — até músicas novas eram escritas em 5 ou 10 minutos (uma noite, numa discoteca, escrevi Showroom Dummies assim). Ficamos intrigados com o fato de que a palavra russa Robotnic significa 'trabalhador', e isso se relacionava muito com nossas ideias.

"Geralmente, mantemos nosso contato com o público em um nível metafísico — na verdade porque temos pouco tempo para olhar ao redor — embora estejamos muito conscientes da reação deles. A única exceção é com Pocket Calculator."

Nessa música, Ralf usava um mini sintetizador, Karl e Florian tinham uma calculadora cada um, e Wolfgang fazia as batidas. Esse single atual do grupo certamente ganhava vida no palco e promovia a participação do público ao tocar instrumentos extras. Esses instrumentos estavam conectados por cabos de sinal aos consoles (embora pudessem usar controle por rádio), porque isso dava a sensação de estar ligado como um robô à sua máquina de controle principal. "Mais uma vez, encontramos os instrumentos numa loja de departamento no último Natal, então levamos itens do cotidiano para dentro da nossa música — direto do 'nível da rua'!"

"Ambos concordamos que o modo como os instrumentos musicais serão projetados no futuro pode ser como uma extensão do ser humano, com um feedback apropriado entre máquina e homem. A ênfase nos teclados pode dar lugar a instrumentos controlados por alguma parte do corpo, usando captadores piezoelétricos, eletrodos especiais e elementos sensíveis ao calor. Até mesmo há 10 anos, eu costumava esfregar um microfone de contato nas minhas roupas e pele para produzir sons diferentes, que mudavam a cada apresentação."


Históricos

Ralf tem 34 anos, e os outros estão também no final dos 20 ou início dos 30 anos. Nenhum dos integrantes é casado, e Karl, assim como Ralf e Florian, tem formação em música clássica. A experiência musical de Wolfgang antes do Kraftwerk foi na música popular. Ralf originalmente estudou arquitetura, e certamente nenhum deles pretendia se tornar músico profissional.

"Gostamos que o público dance e se mova com nossa música — especialmente porque, nos últimos anos, as pessoas tenderam a uma postura mais de audiência de concerto, ainda mais com a música eletrônica. Eletromúsica é um título muito mais adequado do que música eletrônica para o caminho que a música em geral está tomando. Os instrumentos da eletromúsica ajudam a libertar a criatividade das pessoas, permitindo que cada um use a tecnologia de estúdio em casa para praticamente qualquer som que quiserem.

"Quando escolhemos o som de um instrumento, não nos importamos se, por exemplo, os strings (cordas) não são autênticos — simplesmente escolhemos os sons de que gostamos!

"No palco usamos partituras, diagramas gráficos e anotações que nos dão os sinais nas músicas para ligar ou desligar equipamentos e ajustar os instrumentos, além de nos lembrar das sequências de notas, linhas melódicas, de harmonia e estruturas rítmicas.

"A filosofia que tenho é que a música se torna tão complexa que precisa ser escrita. Mas tenho essa tendência de pensar que, se não consigo lembrar de memória, talvez essa música não valha a pena ser feita. Eu tendo a tocar mais como um músico de rua, e minha visão um tanto simplista é que, se eu esqueci, então vale a pena esquecer — e toco outra coisa!"

O mais recente trabalho do Kraftwerk, Computer World, foi desenvolvido ao longo dos últimos 3 anos junto com o atual estúdio Kling Klang.

"As músicas, de muitas formas, ‘se compõem sozinhas’ conforme vamos descobrindo sons por meio da experimentação com interfaces e configurações. Durante a semana, trabalhamos das 5 da tarde até 1 ou 2 da manhã. Em outros horários do dia, cuidamos da administração do Kraftwerk e nos comunicamos com nossos engenheiros e visitantes."


Kling Klang

A configuração do estúdio Kling Klang oferece um vislumbre fascinante da música do futuro. Ralf e eu examinamos o layout na fotografia legendada e discutimos o equipamento da esquerda para a direita (de Ralf para Florian). As letras no texto correspondem às localizações indicadas na imagem.

A Primeiro, há dois sequenciadores analógicos que produzem até 64 notas. As várias fileiras de chaves possuem configurações de in, shift e stop para os gatilhos, pausas e pontos de reinício, além de controle de afinação. A sequência pode ser executada como 2 x 32 em paralelo ou 1 x 64 em série. Indicadores de LED podem ser claramente vistos pelo público durante a execução. Os triggers (sinais de disparo) podem ser enviados para onde Ralf desejar, geralmente para os instrumentos nos consoles (exceto os de Karl, que prefere tocar as linhas de baixo manualmente).

Aqui está o segredo da excelente sincronização do Kraftwerk durante suas apresentações. “Lembre-se de que estamos tocando esse tipo de música sincronizada há cerca de 10 anos. Tocar junto com máquinas é muito difícil — muita gente acelera ou desacelera quando tenta fazer isso. Nosso ‘diálogo’ com as máquinas é escolher quando queremos o pulso da máquina ou o pulso humano. Embora ainda não tenhamos a configuração perfeita, a ‘amizade’ ou inter-relação que criamos com as máquinas faz delas uma extensão do músico. Se um instrumento quebra, ainda conseguimos continuar, e quando terminarmos nossa série atual de turnês, vamos modificar ainda mais o set.”

Vários relógios-mestre (master clocks) estão posicionados ao redor do console para que qualquer integrante possa selecionar o tempo da próxima música. Isso explica o curto intervalo entre as faixas — “Poderia ser ainda menor, mas às vezes ficamos um pouco nervosos! Também podemos acionar outros sintetizadores fora do palco, e os tempos dos relógios são definidos por um display digital com teclado numérico.”

B Monitor de TV do Ralf e sistema telefônico de comunicação com os engenheiros.

C O Roland Micro-Composer (com memória expandida), além de um banco de chaves para roteamento de sinais. “O composer pode ser usado para faixas extras em uma ou duas músicas ou como relógio de tempo nas apresentações, embora prefiramos usá-lo quando estamos em casa para testar combinações de sequências. É bem mais fácil do que usar os sequenciadores analógicos, mas ainda assim leva um bom tempo para configurar.”

D O Eventide Digital Delay e Flanger, com um pequeno mixer estéreo. O panning (movimentação do som de um canal estéreo para o outro) pode ser feito pelos mixers dos músicos ou pelo engenheiro de som. “Não somos os maiores fãs de panning,” comenta Ralf. “Achamos que o estéreo é um ‘som privilegiado’, já que só quem está bem no meio ouve direito — por isso, preferimos usar uma saída mono com bastante profundidade. A reverberação eletrônica não é muito usada nas apresentações porque a maioria dos locais já tem reverberação suficiente (ou até demais).”

Tanto Ralf quanto Florian usam headsets. Ralf faz os vocais “diretos”, muitas vezes cobrindo o microfone com a mão para evitar microfonia e aumentar o volume dos graves. O microfone de Florian alimenta o vocoder, que adiciona mudanças sutis à voz de Ralf e fornece efeitos extras.

R “Estou tocando três teclados empilhados no meu console: um instrumento especial com disco de luz da Flórida, para sons de coral monofônicos, junto com os sintetizadores Polymoog e Minimoog. Todos nós temos quatro pedais sob nossos consoles frontais para controle de volume e/ou efeitos.”

K Este é o teclado do Karl — feito sob medida na Itália para substituir o controlador de teclado da Korg, que opera o sintetizador polifônico Korg PS-3300 posicionado no console E. Uma das características especiais dele para nós é a capacidade de mesclar harmônicos com overtones não relacionados, além de permitir que os parâmetros de ataque e decay (decaimento) se estendam ao máximo. No console E, há também um afinador, medidores de volts/ampères para checar as fontes de energia e equalizadores gráficos. Aliás, os LEDs no painel do console do teclado mostram para o público as notas que estão sendo tocadas.

G Monitor de TV do Karl.

H Grades de ventilação na seção de canto que liga as duas fileiras retas de consoles.

I Monitor de TV do Wolfgang.

J Os consoles de bateria feitos sob medida. Aqui estão os circuitos eletrônicos para os dois controladores de bateria, contendo 6 pads metálicos montados nos pedestais L. Também há diversos dispositivos de filtragem, além de uma unidade Syndrum. Um dos pads de bateria é tocado ocasionalmente por Karl, e o outro por Wolfgang.

M Em seguida, mais equalizadores, incluindo tipos paramétricos, filtros, rack de mixers, Eventide Harmoniser e Digital Delay, além de limitadores/compressores.

W O console de Wolfgang contém a máquina de ritmos especial construída pelo engenheiro do Kraftwerk. Há 6 fileiras de chaves, cada uma com seu próprio som de bateria, que pode ser ativado durante a execução da sequência (controlada por um relógio-mestre). As luzes de LED na frente mostram ao público a sequência em andamento. Wolfgang altera essas sequências continuamente para dar bastante variação ao ritmo, ao mesmo tempo em que usa os pedais para criar acentos.

O Rack do vocoder Sennheiser.

P Mixer, medidores e recursos de comutação.

Q Monitor de TV do Florian.

S Circuito da flauta eletrônica, posicionada no pedestal N. Ela não é soprada de fato, mas usa chaves situadas nas posições dos pads de uma flauta tradicional, que são ‘tocadas’ com os dedos para gerar uma tensão de controle D/A (digital/analógica) ou sinal de disparo para qualquer dos sintetizadores.

T Vocoder EMS com painel de conexões (patch panel).

F Console de teclado de Florian, contendo um sintetizador polifônico Prophet e um pad de disparo para iniciar seu relógio-mestre.

U Iluminação superior do palco, usada para destacar os músicos.

V Telas de vídeo especiais da Sony com unidades de projeção.

X Retorno de palco ao nível do chão (complementado por alto-falantes extras sob o piso).

Y Caixas com nomes fluorescentes.

Z Faixas de luz fluorescente colorida (ultravioleta, vermelha, verde, amarela, branca e azul), passando atrás dos consoles. Acima de cada rack de console há luzes para iluminar os controles — embora, entre as músicas, os integrantes usem lanternas para fazer os ajustes. As luzes estroboscópicas ST são disparadas automaticamente por um sequenciador.



O Kraftwerk apresentou um programa extenso de 2 horas durante sua turnê pelo Reino Unido, que incluiu as seguintes músicas:

Numbers
Computer World
Computer Love
Home Computer
(do álbum Computer World)

The Model
Neon-Lights
(do álbum Man Machine)

Radio Activity
The Voice of Energy
Ohm Sweet Ohm
(do álbum Radio Activity)

Autobahn (do álbum)

Hall of Mirrors
Showroom Dummies
Trans-Europe Express
(do álbum Trans-Europe Express)

Pocket Calculator
Robots
It's More Fun to Compute
(do álbum Computer World)

“Estamos trabalhando em armazenamento digital para as baterias. As baterias que usamos são ideais para a qualidade ‘fatalista’ que buscamos — elas continuam tocando como uma máquina. Evitamos o uso de phasing, pois percebemos que os efeitos de fase já ocorrem naturalmente através do sistema de som. Já o flanging é útil, especialmente nas baterias, desde que seja cuidadosamente controlado (já estouramos várias caixas de som!).

“No futuro, queremos tornar nossos instrumentos menores, com mais controle digital — a microeletrônica deve nos tornar mais flexíveis e permitir apresentações em palcos menores.

“Como Computer World é baseado em um único tema, já temos várias faixas em andamento no estúdio para outros álbuns.

“Nosso objetivo é criar um som total — não fazer música no sentido tradicional, com harmonias complexas. Para nós, a abordagem minimalista é mais importante. Passamos um mês trabalhando no som e cinco minutos nas mudanças de acordes! A Alemanha não tem uma cena pop predominante, como a Inglaterra, então existe uma comunicação mais rica entre ouvintes e artistas de música eletrônica. As fitas cassete também estão promovendo isso — assim como suas fitas da E&MM.”

A atual turnê do Kraftwerk já passou pelo sul da Europa, Alemanha e Inglaterra. Em seguida, eles vão para a França e depois para os Estados Unidos. Por fim, visitarão a Alemanha Oriental, Rússia e Japão.

Enquanto isso, o mundo dos computadores continua evoluindo — e o Kraftwerk, sem dúvida, terá feito uma contribuição significativa para o seu desenvolvimento musical.

Fonte; muzine.co.uk














quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Ralf Hütter — Rock & Folk Magazine — November — 1981


 

Rock & Folk - Por que o lançamento de “Computer World” foi adiado por tanto tempo?

Ralf Hütter - Deu muito trabalho tornar o Kling Klang Studio transportável, encená-lo de verdade, colocá-lo em situação. Todas as partes estão conectadas, é uma nova concepção do Kraftwerk: antes era estúdio mais ao vivo, agora é estúdio ao vivo, tocamos o estúdio no palco. Achamos que poderia ser feito bem rápido, mas foi ficando cada vez mais radical, tivemos que mudar tudo, foram três anos sem parar para afinar tudo. Trabalhamos em composições musicais simultaneamente, porque fazemos tudo sozinhos. Não somos músicos, somos sim cientistas. Kraftwerk não é acordes e números, mas sim um conceito realista para transpor ideias ao máximo. As ideias surgiram enquanto trabalhávamos. A identidade do “Mundo do Computador” (Computer World), a mecânica dos instrumentos e o lado psicológico do som e da música, são os dois conceitos que levam ao fato de não termos mais Kraftwerk, mas Kraftwerk e Kling Klang juntos.

Rock & Folk - Além de vocês quatro, o que o Kling Klang representa?

Ralf Hütter - Representa também dois engenheiros que estão sempre conosco, um engenheiro de som e um engenheiro de vídeo, já que também produzimos vídeos, mais os programas de computador e a computação gráfica. Então somos seis, mais a equipe do sistema de som. Em julho/agosto estaremos em turnê nos Estados Unidos, e em setembro no Japão, Budapeste, Varsóvia, Praga e na RDA em agosto também. Há alguns anos, tocamos em um programa de TV italiano que foi transmitido em entrevista pela primeira vez atrás da Cortina de Ferro. Como banda da Alemanha capitalista, era impossível fazer contatos no Oriente, por isso esse contato foi feito pela Itália. E desde então, temos informações de que nossos discos estão disponíveis no mercado negro da Europa Oriental. Então, estamos muito mais interessados em tocar lá do que em tocar pela terceira vez em Chicago. Não estamos preocupados com a América.

Rock & Folk - Com este novo álbum, vocês não trazem propriamente nenhum novo conceito estético como nos anteriores. A imagem dos manequins do showroom (música showroom dummies do álbum Trans Europe Express) é a mesma de “The Man Machine”.

Ralf Hütter - Os computadores são novos, a parte informatizada.

Rock & Folk - O que você acha das bandas inglesas e francesas que claramente se inspiraram em você?

Ralf Hütter - Em 1975, estávamos muito sozinhos. Todos estavam em uma viagem californiana: hippies, Eagles, etc... O Kraftwerk já foi atacado diversas vezes, principalmente na Inglaterra. Eles estavam contra nós porque representávamos o fim dessa música de guitarra, éramos uma ameaça para o sonho californiano deles. Os novos pretendentes da música industrial nos animaram, pois às vezes questionávamos nosso próprio trabalho. Mas a música é diferente, porque temos uma rítmica teutônica, germânica mesmo.

Rock & Folk - Vamos falar sobre seu interesse por instrumentos em miniatura e música para gadgets.

Ralf Hütter - Nosso estúdio é bem compacto: cabem apenas 10 caixas. Usamos apenas um caminhão, o que é muito pouco comparado ao rock padrão. Somos atraídos por pequenos aparelhos, pequenas calculadoras. É certamente o caminho a percorrer.

Rock & Folk - Você sente que pertence ao mundo do rock n' roll?

Ralf Hütter - Não. Psicologicamente, estamos fora dessa viagem. Interessa-nos mais a parte do trabalho: mudar a música, procurar o som todos os dias, e abrir as portas do estúdio às pessoas. É apenas uma coincidência se estamos em turnê como uma banda de rock. Quanto à música, é mais funk eletrônico do que rock'n'roll.

Rock & Folk - Existe algum problema de comunicação entre o que você é e o meio em que está evoluindo? Seus roadies, por exemplo, apresentam todos os sinais de sua etnia: cabelos longos, camisetas Ted Nugent, estômagos cheios de cerveja...

Ralf Hütter - Sim, estamos no deserto. Concreto, metal, luzes, é um exílio, um exílio-tour. Mas estamos acostumados a isso porque moramos em Düsseldorf, no rio Reno, um lugar totalmente industrial e burocrático, administrações, vidros, escritórios. Estamos acostumados a viver no exílio, com apenas alguns amigos ao nosso redor. Amigos e técnicos.

Rock & Folk - O fato de você fazer uma turnê mundial e, portanto, estar em contato com pessoas que pensam de forma diferente da sua, é uma forma de tornar a música do Kraftwerk menos exigente?

Ralf Hütter - Na verdade encontramos alguma energia no ambiente das pessoas que nos vêm ver e que nos fazem tocar noutra dimensão e num nível psicológico superior, por causa de uma certa tensão, diferente do estúdio, e que nos interessa . No estúdio não tem telefone, estamos trancados. Aqui é o lado da viagem, o lado aberto, uma situação bastante anárquica. Também vamos tocar no sul da Ásia para ver o que isso traz para nossa música: estamos abertos a qualquer vibração que possa mudar nossa música.

Rock & Folk - Vocês ainda são adeptos da “estética fria”? O visual que você trouxe com “The Man Machine” foi adotado por todos os jovens modernos: olhar aguçado, interesse por um futuro científico, etc...

Ralf Hütter - Fomos muito longe no metal frio, é um reflexo da nossa vida industrial. Os manequins são melhores que nós em fazer sessões de fotos sem suar sob os holofotes, sem piscar, são mais pacientes. Fomos ainda mais longe na coisa do computador. Depois das atitudes físicas de The Man Machine, interessa-nos o lado psicológico. Em um momento estávamos muito estáticos, e para nós é importante ir além disso. Mas ainda não acabou, não sei dizer para onde vai. O fato de tocar para um público implica que nossa música não é mais um produto magnético, é uma situação aberta à improvisação. E a sensibilidade dos dispositivos que criamos nos leva a uma nova sensibilidade.

Rock & Folk - Você mencionou seu interesse por músicas étnicas. Você está tocando a música étnica do Rühr?

Ralf Hütter - Com certeza, é isso que estamos dizendo. É um reflexo da nossa vida alemã no Rühr. E não acho que nossa música poderia nascer em outro lugar. Não pode ser feito em München. Somos geneticamente programados para esse comportamento social. Trabalhamos em uma fábrica. O que o Kraftwerk representa é uma fábrica de som que fabrica sons, e a forma como definimos nossa existência é a vida dos trabalhadores do som. Não precisamos de nenhum treinamento em outra fábrica ou outra unidade produtiva para assimilar toda a essência do Rühr.

Rock & Folk - Você trabalha livremente?

Ralf Hütter - Não. Temos horários diários muito rígidos. Assim que várias pessoas estiverem envolvidas, precisamos nos organizar. É também a continuação de “robô” que significa “trabalhador” em russo. O Kraftwerk não é apenas a visão de um artista, uma fantasia industrial. Para nós é uma realidade diária, um trabalho de vários anos com máquinas de reprodução.

Rock & Folk - Não achas que perdeste o lado romântico germânico de peças como “Autobahn” ou “TEE”, este enorme sopro do século XIX, que se ouvia sob o rigor sintético?

Ralf Hütter - Este álbum representa um período muito especial para nós, uma era programada na qual continuamos trabalhando. Temos outras criações musicais paralelas que ainda estão em andamento e sairão de nós posteriormente. Mas agora estamos em uma viagem “mídia” e temos que fazer o que é mais atual para nós. O que mais nos interessou foi o lado energético e rítmico. “The Man Machine” era muito físico. Agora estamos tentando ser mais rigorosos no conceito de programação. É difícil para mim explicar as diferenças entre nossos álbuns. Quando “The Man Machine” foi lançado, eu nem sabia o que era. Nós só tínhamos que fazer isso. Enquanto trabalhamos nessa ideia de estúdio para ser mais produtivo, na mesma pesquisa de informatização, esse novo álbum ficou óbvio para nós: era isso que tínhamos que fazer. Talvez possamos ir ainda mais longe com o próximo álbum. Falávamos dos Talking Heads que adaptam uma parte da blackmusic porque certamente tiveram a sensação de que o rock que representam não é suficiente para a sua dinâmica. Quanto ao Kraftwerk, a dinâmica vem das máquinas, não temos outra fonte. Se você mora na América, há um caldeirão de culturas. Em Paris também. Em Düsseldorf, não há nada. Nenhuma fonte para nós. Apenas concreto.

Rock & Folk - Mas você tem uma cultura clássica europeia?

Ralf Hütter - Sim, certamente, mas para nós os “pais” não existem. A cultura do avivamento não nos interessa. Fomos moldados por um certo germanismo, especialmente musical, mas representa um controle específico para apagar para escapar. A única fonte de troca que temos é entre nós quatro e com os engenheiros, enquanto trabalhamos com as máquinas. Não há música alemã viva. Até a música clássica é uma mecânica, um organismo mecânico. Para nós, a essência dessa música é uma fita magnética tocada por pessoas. Na América, no entanto, existe uma cultura de música viva.

Rock & FolkMuzak (música de elevador) na paisagem sonora ocidental também é uma forma de música étnica. Você gostaria de compor música para elevadores, restaurantes e supermercados?

Ralf Hütter - Não. Preferimos ouvir os elevadores em si, e não um produto filisteu que age como valium (remédio calmante), uma droga para o controle do sistema. O que nos interessa é o próprio som de um supermercado ou de um elevador, sons com sua própria natureza. Não estamos preocupados com “música para aeroportos” (referência ao disco Ambient 1: Music for Airports de Brian Eno, lançado em 1978) : as pessoas devem abrir os ouvidos e descobrirão. Foi o que fizemos com a “Autobahn”. É mais importante abrir do que dominar. A música por si só não é interessante.

Rock & Folk - Mas você espera, pelo menos, que as pessoas escutem com atenção a sua música?

Ralf Hütter - Sim, mas não temos que decidir como ouvir nossa música. Não nos deixarmos dominar pela música também é um dos nossos problemas, porque se trabalharmos nessa área, música de manhã, música de tarde, música de noite... perde-se todo o contexto. Após 10 horas no estúdio, as sensações tornam-se monótonas. É por isso que estar o tempo todo no estúdio ou em turnê o tempo todo não leva a lugar nenhum. Os músicos da sessão são tão pálidos! Fazemos tudo sozinhos, vídeos, capas e gráficos, é como um mosaico que leva ao produto utividade do Kraftwerk, mas não representa apenas um campo. Na Alemanha, é chamado de “Gesankt Kunstwerk”. Era o que Wagner fazia em seu tempo com teatro e música, mas era um pouco demais.

Rock & Folk - Na lógica do Computer World, você não acha que deveria “clonar” a produção: muitos discos entregues rapidamente?

Ralf Hütter - É verdade que computador significa velocidade. E esse álbum levou três anos para ser concluído. É porque é muito novo para nós. Tivemos que aprender a linguagem dos computadores. O álbum, de fato, foi feito muito rápido. Tivemos que esquecer tudo: nossa forma de tocar, de pensar musicalmente e aprender novos dados. Por isso demorou tanto. Mas uma vez que funciona, tudo vai muito rápido.

Rock & Folk - Essa nova forma de trabalhar poderia permitir o lançamento de vários singles por ano, por exemplo?

Ralf Hütter - E até vários singles por dia! Mas tem sido muito difícil para nós chegarmos a esse ponto. Tivemos que adaptar nossa música anterior para poder tocá-la ao vivo. Tocamos todas as músicas desde “Autobahn”, é uma espécie de viagem no tempo.

Rock & Folk - Você pretende continuar trabalhando sozinho ou pretende dividir seu trabalho com outros artistas?

Ralf Hütter - Talvez. Até agora, estávamos ocupados com o desenvolvimento do nosso instrumento e, portanto, não foi possível. O outro fator é que tudo o que temos é personalizado. Não podemos trazer um inglês para o nosso sistema. É impossível. Algumas pessoas pediram para ser produzidas por nós, mas o Kling Klang Studio é mesmo feito à nossa medida, até a nível físico: todos temos o mesmo tamanho de roupa, menos o Karl cujo número de calçado é 44! Todo o sistema é realmente dedicado ao Kraftwerk: computador personalizado e afins. Após o passeio, veremos. Até então, estávamos sempre na mesma direção. Desta vez, faremos uma turnê ao redor do mundo, voltaremos a Düsseldorf do outro lado e veremos que tipo de experiências traremos de volta.

Rock & Folk - Mas você poderia, por exemplo, no Japão, aceitar uma colaboração musical com músicos de outro universo?

Ralf Hütter - Sim, podemos fazer um álbum todas as tardes: basta apertar um botão vermelho e está gravando! Tecnicamente, tudo está configurado para produtividade. É isso que nos interessa, ir mais longe na produtividade. É por isso que nos interessam os automatismos: eles fazem uma música automática, enquanto nós fazemos uma música com sensibilidade psicológica. É disso que se trata o Kraftwerk, eu acho. Caso contrário, poderíamos fazer shows com os quatro manequins e um gravador. Já estávamos pensando nesse tipo de conceito, há algum tempo: fazer shows simultaneamente em Paris, Nova York, Tóquio... Mas agora, estamos interessados na troca. Levamos um postal audiovisual de Düsseldorf para o mundo inteiro. Primeiro temos que usar aquele cartão postal para ir mais longe. Eu acho que o rock regular é muito pretensioso: as pessoas dizem “é uma visão pessoal de Bruce Springsteen” ou qualquer outra pessoa, quando na verdade são apenas marionetes, cartões postais. Acho que o Kraftwerk representa o lado realista desse cartão postal.

Rock & Folk - Durante essa turnê, você estará sozinho ou vai se abrir para as pessoas que visitará?

Ralf Hütter - Nós sempre saímos, sempre vamos a boates em qualquer lugar. Passamos muito tempo nas ruas. Kraftwerk é concreto, e concreto está nas ruas. Não estamos preocupados com o sonho americano: vilas, piscinas, motoristas... Nós dirigimos nosso carro sozinhos. Não precisamos de uma equipe exigente ao nosso redor. É muito infantil provar que alguém pode pagar por algumas coisas materialistas. É americano demais.

Entrevista a Jean-Eric Perrin - 1981

Tradução para o inglês pela JBV – França

Tradução para o português por Decibel Sintético =)