Mostrando postagens com marcador Ralf Hütter. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ralf Hütter. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Ralf Hütter - Entrevista - Die Zeit - 20 de Fevereiro, 2026

Entrevista com Ralf Hütter: "A música nunca está pronta"

Ralf Hütter, nascido em 20 de agosto de 1946, moldou a música pop internacional com o Kraftwerk como poucos outros alemães. Aqui ele conta sua história.

Entrevista: Christoph Amend

Die Zeit: Sr. Hütter, o senhor nasceu em 20 de agosto de 1946. Qual é sua primeira lembrança consciente?

Ralf Hütter: Quando crianças, a gente coletava bitucas de cigarro na sarjeta para os cachimbos brancos de São Martinho que vinham com os "Weckmänner" [bonecos de pão doce], o doce que era distribuído às crianças. Quando juntávamos tabaco suficiente, fumávamos com os cachimbos de São Martinho até passar mal. (risos)

Die Zeit: O senhor cresceu em Krefeld e frequentou uma escola Waldorf – algo incomum para os anos 1950.

Hütter: Foi por acaso. Meninos e meninas na mesma turma, naquela época isso ainda era rigorosamente separado. Havia disciplinas abertas na escola: pintura, desenho, trabalhos manuais, costura e tricô, euritmia, jogos, representações, expressão oral e música.

Die Zeit: E o senhor também fez música cedo?

Hütter: Tive aulas de piano, mas não conseguia aprender ali a música que realmente me interessava. Essa só existia no rádio ou em discos. Pop, rock 'n' roll, jazz, rhythm and blues. Vivíamos no setor britânico e, por isso, podíamos ouvir a BFBS, a rádio das forças armadas. Como estudante de intercâmbio, aprendi inglês e, da melhor forma que podia, escrevia as letras das músicas que ouvia no rádio. Foi assim que entrei nesse mundo.

Die Zeit: Qual era sua música preferida?

Hütter: Rhythm and blues, principalmente, John Lee Hooker, por exemplo. Mais tarde, também o vi ao vivo. A agência Lippmann & Rau organizou o American Folk Blues Festival no início dos anos 1960 – e trouxe para a Europa os músicos americanos que tocavam no rádio.

Die Zeit: Quis ser músico profissional ainda na adolescência?

Hütter: Não pensei nisso, durante muito tempo não tive qualquer desejo profissional. Estudei arquitetura, cheguei a concluir o exame intermediário, mas quanto mais a música se tornava importante, mais o curso ficava distante.

Die Time: Sua primeira apresentação foi no Creamcheese, um clube em Düsseldorf.

Hütter: O Creamcheese abriu em 1967 e, no aniversário em 1968, tocamos lá pela primeira vez. Eu e o Florian Schneider nos conhecido antes na Academia em Remscheid, nos entendemos imediatamente e improvisávamos muito juntos, essa foi sempre nossa força.

Die Zeit: Lembra como foi a apresentação?

Hütter: Pouco. Tinha um estroboscópio funcionando durante horas, como todas as noites. A apresentação foi bem recebida e, a partir daí, nossa música começou a ser comentada. Até recebemos algum cachê pela noite, o que foi bom.

Die Zeit: O Creamcheese estava intimamente ligado ao meio artístico...

Hütter: Sim, na entrada havia uma escultura de pregos de Günther Uecker, tinha uma pintura mural de Gerhard Richter e uma instalação com monitores de TV em preto e branco de Nam June Paik. Via-se o Joseph Beuys à noite no centro histórico jogando pebolim. A gente ficava na máquina de pinball. O Sigmar Polke estava lá, ele era meu amigo. Tinha um humor transcendental, eu gostava disso, não superficial, mas sutil.

Die Zeit: Esse tipo de humor sutil também se percebe no Kraftwerk: mais tarde, chegaram a se substituir por robôs no palco.

Hütter: Para mim e para o Florian, era importante que houvesse vários níveis na arte. O Nam June Paik, aliás, muitos anos depois, fez uma enorme parede de vídeo em Nova York com nossas figuras robóticas, com o vídeo de computador para nosso tema Musique Nonstop, e de repente estávamos no jardim eletrônico.

Die Zeit: Em 1981, foi publicada uma entrevista com o senhor na revista de cultura pop Elaste. O entrevistador pergunta surpreso: "Em Tóquio, Londres ou América, os shows do Kraftwerk esgotam meses antes. Aqui no Rotation em Hannover estava hoje meio vazio." E o senhor responde: "Também não conseguimos explicar muito bem." Será que não o compreenderam na Alemanha no início?

Hütter: Compreenderam, sim, mas o círculo era menor, isso só mudou mais tarde. Nossa primeira turnê alemã em 1975, depois da nossa turnê americana, ou seja, depois de Autobahn ter saído...

Die Zeit: ...seu primeiro grande sucesso...

Hütter: ... foi planejada em conjunto com o Fritz Rau, o promotor de shows. Escolhemos as cidades e imprimimos os cartazes. Depois, a turnê teve que ser cancelada por falta de interesse do público. Ainda tenho os cartazes.

Die Zeit: Muitas estações de rádio alemãs não tocavam Kraftwerk, aparentemente também por causa do nome da banda, que na época causava estranhamento.

Hütter: O único que nos tocava naquela época era o Winfrid Trenkler da rádio WDR, uma lenda da música eletrônica em Colônia. Ele apoiou o Kraftwerk e a música eletrônica desde o início. Também tocava nossos temas mais experimentais, muito antes de Autobahn.

Die Zeit: Nos primeiros anos, se apresentaram principalmente em clubes e galerias, não foi?

Hütter: Em porões de jazz, clubes da juventude e centros culturais por toda a região do Ruhr, no centro histórico de Düsseldorf. Importante foi o Burkhard Hennen, de Moers, que nos trazia sempre ao seu "Röhre". Mais tarde, ele fundou o Festival de Jazz de Moers. Por outro lado, galerias e museus como a Kunsthalle Düsseldorf e a Galeria Hans Mayer em Krefeld nos contratavam. Hoje em dia, somos representados pela galerista Monika Sprüth e pela Galeria Sprüth Magers, que apoiaram, entre outros, nossos shows de 2012 no MoMA em Nova York.

Die Zeit: Diz-se que, nos primeiros anos, o senhor mesmo ia para a pista de dança durante as apresentações.

Hütter: Isso foi numa performance no Museu Abteiberg em Mönchengladbach, com o diretor Johannes Cladders. Em 1970, para meu órgão elétrico, eu tinha uma máquina de ritmos que podia tocar ao vivo com pequenas teclas ou deixar continuar com ritmos programados. O meio artístico nos apoiou desde o início nessas experiências, havia um clima incrível de despertar, um interesse pelo novo. Isso foi de 1968 até o início dos anos 1970.

Die Zeit: E de repente, não houve mais apresentações ao vivo do Kraftwerk.

Hütter: A partir do início de 1977, depois de Trans Europa Express, não nos apresentamos ao vivo durante quatro anos. Em 1978, saiu o álbum Die Mensch-Maschine, não podíamos tocar aquela música ao vivo. A técnica só funcionava no estúdio. Mas desenvolvemos uma performance para programas de televisão, para o Musikladen na Alemanha ou para apresentações na Itália, França, Bélgica. Era playback, e nossos robôs eram ainda manequins de vitrine, que colocávamos na primeira fila do público.

Die Zeit: Isso era arte performática.

Hütter: Para Die Roboter (The Robots), escrevi estas linhas em 1978: "Carregamos nossa bateria / Agora estamos cheios de energia / Estamos programados pra tudo / E o que você quiser, será feito / Funcionamos automático / Agora queremos dançar mecânico". E tudo também em inglês.

Die Zeit: O senhor começou a misturar idiomas muito cedo, o que era incomum na música pop da época.

Hütter: Percebemos que isso funcionava na nossa apresentação americana em meados dos anos 1970. Falo francês e inglês, e na escola também tive dois anos de russo: "Ya tvoi sluga / Ya tvoi rabotnik" ["Eu sou seu servo / Eu sou seu trabalhador"].

Die Zeit: A linha em russo de The Robots.

Hütter: Uma homenagem à arte robótica do futurismo, que também veio da Rússia. Schaufensterpuppen ["Manequins de Vitrine"] tinha escrito um ano antes de Robots.

Die Zeit: Manequins, robôs: como é que o senhor foi buscar isso, afinal?

Hütter: Através do dia a dia, sempre transformei situações cotidianas em textos. Para o design do interior do primeiro álbum do Kraftwerk, em 1970, o Bernd e a Hilla Becher tinham me dado a fotografia deles de um transformador. A Sra. Becher me ofereceu a foto.

Die Zeit: Na capa do primeiro álbum do Kraftwerk via-se outro objeto do cotidiano, um cone de sinalização laranja e branco.

Hütter: Esse o Florian tinha pego emprestado numa obra da rodovia. (risos) Nos pequenos clubes, nossos instrumentos eletrônicos e alto-falantes estavam muito perto do público. Para que as pessoas não tropeçassem neles, colocamos os cones de sinalização. Como um canteiro de obras eletrônico. A partir daí, desenvolvi o primeiro logotipo do Kraftwerk.

Die Zeit: Temos que falar novamente sobre sua canção Autobahn de 1974. Foi através do sucesso nas rádios universitárias americanas que o senhor foi para os EUA naquela época. Será verdade a história de que muitos americanos pensavam que vocês cantavam "Fun, Fun, Fun auf der Autobahn"?

Hütter: É possível. (sorri) Nossa linha não é uma citação direta dos Beach Boys, é antes uma poesia fonética de kling-klang, uma cantilena. Mas para ouvidos americanos, soa naturalmente parecido. Para a gravação, tivemos que parar após apenas 20 minutos, porque o disco de vinil acabava aí. Ao vivo, chegava a durar 40 minutos. Autobahn é, no fundo, música sem fim. Eu e o Florian tocamos isso na história do Kraftwerk com muitos técnicos de estúdio e músicos ao vivo.

Die Zeit: Em relação aos músicos que Florian Schneider e o senhor contrataram para integrar o Kraftwerk, e à participação deles no som da banda, sempre houve discussões no passado, também lideradas pelos próprios ex-músicos. O senhor se manteve reservado publicamente sobre isso.

Hütter: Sim. Há muitas fábulas.

Die Zeit: O senhor sempre conseguiu deixar isso passar por si – como numa viagem de rodovia?

Hütter: É preciso, provavelmente. Temos que nos concentrar no nosso trabalho e continuar. Ou, como se diz na Renânia: Nem sequer ignorar.

Die Zeit: Sua infância e juventude ocorreram nos primeiros anos da jovem República Federal. Falava-se da chamada "hora zero", um conceito historicamente controverso. Mas para sua música, essa orientação foi marcante: era para frente, para o futuro.

Hütter: Sem dúvida. Sabíamos, claro, dos excitantes anos 1920, e sabíamos também o que tinha sido destruído nos doze anos seguintes. Eu e o Florian crescemos já como europeus, nos anos 1950, estávamos constantemente em intercâmbio escolar durante as férias de verão em famílias anfitriãs na França e Inglaterra. Aos doze anos, inicialmente só falava francês, escrever só aprendi depois. Também compus poemas em francês, Les Mannequins e todas as letras do álbum Tour de France. Taschenrechner ["Calculadora de Bolso"] também cantei em inglês, francês, italiano, polonês, russo, japonês. Para os shows, aprendi as letras foneticamente de cor. Quando jovens, eu e o Florian aprendemos a estabelecer símbolos para o entendimento entre os povos. Isso parece, hoje em dia, às vezes, cair no esquecimento.

Die Zeit: Sua canção Trans Europa Express de 1977 também fala disso, é uma homenagem à Europa.

Hütter: Nós viajamos mesmo nesse trem! Nossa gravadora francesa alugou um vagão TEE para a apresentação do álbum, com o qual viajamos de Paris para Reims, na Champagne, para as caves de espumante de lá. A viagem de volta foi à altura, hoje não dá mais pra imaginar isso. A propósito, não bebo champanhe, provavelmente bebi suco de maçã.

Die Zeit: Em 1977, por ocasião do lançamento de Trans Europa Express, o senhor esteve também em Nova York e foi aos clubes...

Hütter: Uma noite, eu e o Florian estávamos no Studio 54. Depois, um funcionário da nossa gravadora nos levou a um clube after-hours no Bronx. Eu e o Florian estávamos na pista de dança e, de repente, ouvimos o DJ tocando Trans Europa Express e Metall auf Metall, aquilo durou 15 a 20 minutos, muito mais do que no nosso disco. Ele mixava e fazia scratching com dois discos em dois toca-discos. O DJ era o Afrika Bambaataa.

Die Zeit: A hora zero do hip-hop.

Hütter: Depois, demorou mais cinco anos até sair Planet Rock.

Die Zeit: ... que, como se sabe, se baseia em Trans Europa Express e Numbers. Cinco anos – hoje em dia não dá mais pra imaginar uma coisa dessas.

Hütter: Hoje, tudo acontece num instante, antigamente as coisas podiam se desenvolver. Agora, há tantas imagens digitais, as experiências também passam num instante.

Die Zeit: No entanto, com Kraftwerk, o senhor previu o futuro digital em que vivemos hoje, em 1981 – com seu álbum Computerwelt.

Hütter: Para nós, isso era o presente naquela época.

Die Zeit: Apesar de o senhor ainda não ter computador?

Hütter: Para a turnê de 1981, tivemos nosso primeiro Atari, mas já dava pra perceber o início antes. O BKA [Polícia Criminal Federal] trabalhava com pesquisa por coordenadas...

Die Zeit: ... que também era chamada de "Comissário Computador". Eram os anos do Exército Vermelho, do grupo terrorista de extrema-esquerda.

Hütter: À noite, no carro, éramos frequentemente abordados pela polícia em Düsseldorf. "Bom dia", dizia eu então, "sou músico, venho do trabalho". Depois podíamos seguir. Uma vez, também vieram ao estúdio Kling Klang, porque um vizinho tinha chamado, embora tivéssemos tudo bem isolado. No apartamento do Florian, as forças especiais armadas também subiram pela fachada, pela sacada. Era preciso acalmar a situação: "Fazemos música, compomos, desenhamos e escrevemos letras."

Die Zeit: O mundo computacional era, portanto, já presente para o senhor no final dos anos 1970, mas o senhor só usou computadores para fazer música mais tarde?

Hütter: Em 1976, tinha um sequenciador analógico para controlar meu sintetizador Minimoog. Esse sequenciador analógico Synthanorma foi construído para mim por amigos do Synthesizer-Studio Matten & Wiechers em Bonn. Com ele, definia ritmos e programava melodias. Música automatizada sempre me interessou: música que se toca a si mesma. Às vezes, deixava os loops infinitos continuando enquanto íamos buscar pizza. Quando voltávamos, o som tinha mudado. Dava pra trabalhar de forma muito criativa. Computerwelt tocamos ao vivo em 1981. Muitos outros temas dessa época, no entanto, só podemos tocar ao vivo desde o início do século XXI; antes, a técnica simplesmente não estava tão avançada quanto as composições. É por isso que hoje em dia gostamos tanto de fazer shows ao vivo por todo o mundo. Só agora é que nossa música pode se tornar viva.

Die Zeit: Numa entrevista anterior, o senhor me respondeu à pergunta por que razão o Kraftwerk ainda fazem apresentações: "Mas é a minha vida."

Hütter: Também é verdade. A música é uma arte que se desenvolve com o tempo. Não se pode pendurá-la na parede. Um tema não é uma obra acabada como uma escultura. A música nunca está pronta.

Die Zeit: Eu o vi ao vivo pela primeira vez em 1997, no festival de techno Tribal Gathering na Inglaterra.

Hütter: Estava um frio glacial, com geada no chão. Nos ensaios de som, toquei com luvas.

Die Time: Antes da sua apresentação, as outras tendas foram fechadas, porque todos os DJs queriam vê-lo e ouvi-lo.

Hütter: O Juan Atkins e o Jeff Mills me contaram depois que queriam estar presentes. Foi uma grande honra para mim.

Die Zeit: Os dois músicos de Detroit são considerados co-inventores do techno e contaram muitas vezes que os Kraftwerk foram uma influência importante para eles. Mas vamos falar novamente sobre Florian Schneider. Sr. Kling e Sr. Klang – foi assim que vocês se chamaram durante muito tempo. No início de 2007, ele saiu do Kraftwerk.

Hütter: Sim, no final de 2006, o Florian tocou conosco pela última vez, em Saragoça, na Espanha. E um dia, em 2007, os instrumentos dele tinham desaparecido do nosso estúdio. Ele tinha ido buscá-los secretamente.

Die Zeit: Sem explicação?

Hütter: Sem comentários, sim. Ele se retirou espontaneamente. Já não se sentia bem de saúde há algum tempo, e eu aceitei isso.

Die Zeit: Mas após 39 anos juntos, nenhuma palavra?

Hütter: Claro que, na época, teria desejado algumas palavras. Cada um faz de um jeito, o outro de outro.

Die Zeit: Florian Schneider morreu em 2020. O senhor e ele se viram novamente uma última vez, pouco antes da morte dele, após muito tempo – e se reconciliaram. Está descrito corretamente?

Hütter: Pouco antes da morte dele, sim. Isso foi importante. Ele me escreveu, e a filha dele telefonou. Fui diretamente até ele, e nos reconciliamos.

Die Zeit: O que se diz num momento desses?

Hütter: Não muito. Criamos os Kraftwerk juntos, a partir do nada, não são necessárias grandes palavras.

Die Zeit: Diz-se que ele desejou que a notícia da sua morte fosse publicada pelos Kraftwerk, ou seja, através do senhor.

Hütter: Sim.

Die Zeit: Os Kraftwerk estiveram perto do fim após a saída dele?

Hütter: Não... em retrospectiva, não se sabe ao certo. Em 2007, já estávamos na construção do novo estúdio Kling Klang e com contrato para o Festival Coachella de 2008 na América. Decidimos então continuar com nossa equipe.

Die Zeit: O fato de até hoje fazerem turnês mundiais, no ano passado também novamente pela Alemanha: o senhor acredita que isso contribui para que os Kraftwerk ainda estejam presentes hoje?

Hütter: É, de qualquer forma, incomum.

Die Zeit: Por que o senhor continua até hoje?

Hütter: Não há boas frases para isso. Devo dizer: Não aprendi mais nada? (risos) Divulgaram tanta bobagem sobre nós, por exemplo, que pedimos aos nossos pais ricos, no Natal, uma bateria inteira de sintetizadores e que os recebemos...

Die Time: ... e que só por isso puderam ter tanto sucesso.

Hütter: Quando eu e o Florian, em 1970, com pouco mais de 20 anos, anunciamos aos nossos pais que iríamos abandonar os estudos e fundar nosso estúdio Kling Klang para nos concentrarmos na música, o cheque mensal de talvez 200 ou 300 marcos foi cortado para nós dois.

Die Zeit: Como é que se financiaram então?

Hütter: Com os shows nos pequenos clubes. Economizar para os sintetizadores. Meu primeiro Minimoog custou tanto quanto meu VW.

Die Zeit: Quando foi que seus pais perceberam o que o senhor estava fazendo?

Hütter: 1981.

Die Zeit: Tão tarde?

Hütter: Sim. Teve um show na Philipshalle em Düsseldorf, e eles puderam levar seus conhecidos. Ficaram felizes: Olha só aqui, nosso garoto! O mesmo aconteceu com o Florian: ele devia ser arquiteto e assumir o escritório do pai. Mas nós vivíamos num mundo completamente diferente. Nos clubes e no meio artístico, não encontrávamos ninguém que conhecêssemos do mundo burguês.

Die Zeit: O senhor faz música há quase sessenta anos. Em 2014, foi premiado com um Grammy pelo conjunto da obra. Como seria sua vida sem os Kraftwerk?

Hütter: Chata!

Fonte: Die Zeit 

terça-feira, 15 de julho de 2025

Ralf Hütter — Entrevista — Rolling Stone —15 de julho — 2025



Ralf Hütter: "Kraftwerk é uma inteligência artística, não artificial" 
 Rolling Stone Itália  
15 de julho de 2025  

Encontrei em Roma um dos 100 artistas mais importantes do século XX, Ralf Hütter. Poderia dizer até 50, ou mesmo 30. Sem os Kraftwerk, que Hütter e Florian Schneider — músicos de formação eclética, de boa família — fundaram em Düsseldorf, a história da música pop não seria a mesma: Bowie, Sakamoto e o electropop inglês, o hip hop nova-iorquino, a techno de Detroit, ou seja, a origem de boa parte do que ouvimos e amamos até hoje devem algo a eles. Claro, eles também deviam algo a Stockhausen e Pierre Schaeffer, a Schubert, Brian Wilson, à Bauhaus e aos fantasmas da Alemanha pós-nazista. Permanece inatingível o sublime romantismo retrô que percorre seu repertório, o otimismo futurista que beira o sarcasmo e o humor negro, desde a viagem de *Autobahn* (1974) — 23 minutos no carro com o som da buzina e o ronco do motor, o rádio sintonizado em uma espécie de surf pós-atômico: "Wir fahr’n / fahr’n / fahr’n / auf der autobahn".  

Durante todo o verão, nas salas do espaço Indipendenza — um grande e fascinante apartamento vazio do início do século XX, perto da estação Termini —, são projetadas em paredes inteiras meia dúzia de imagens do arquivo dos Kraftwerk: cenários de shows e fotos de cena. *Kraftwerk – The Man Machine*, a exposição assinada pelo próprio Hütter, é essencial e minimalista, como tudo que o cerca. "Éramos a primeira geração pós-guerra, ao redor não havia mais nada, e quando percebemos isso foi um choque. Depois, começamos a ver aquele vazio como um espaço para criar algo", ele me dirá em uma breve conversa.  

Encontro-o em uma das salas da galeria, vazias, como disse. Hütter tem 78 anos, mas aparenta 20 a menos. Calças, sapatos, camiseta preta, um suéter Fred Perry preto, uma invejável resistência ao calor romano. Ele é o único remanescente da formação clássica a levar adiante a máquina dos Kraftwerk, a última grande variação sobre as lendas românticas (e yiddish) em torno dos autômatos. Schneider morreu há cinco anos; Karl Bartos e Wolfgang Flur saíram nos anos 1980.  

Lê-se muito sobre sua discrição, suas raras entrevistas, respostas lacônicas. Sua infinita gentileza. Sua paixão por bicicletas. Ele está em ótima forma. Na semana que vem, tocará em Amsterdã, diz ele, e partirá um dia antes para ir de bicicleta com os outros membros dos Kraftwerk — 140 km (a banda se apresentará em Lajatico, Pisa, no dia 18, e em Taormina no dia 25). Esta entrevista será interrompida porque na TV está passando a cronometrada do Tour de France, e Hütter quer ao menos ver como termina. Como dizia a música: "Furo no pavê / a bicicleta consertada às pressas / o pelotão recomposto / companheiros e amigos" (Tour de France, 1983).  

O que é esta exposição?  

São gráficos e imagens criados por mim e por meu amigo Florian Schneider. Imagens que tornam a música visível, porque sempre trabalhamos de forma multimídia desde que começamos, no final dos anos 1960.  

Você já disse que tocavam em galerias de arte porque se sentiam mais livres lá.

Não éramos conhecidos o suficiente para tocar no circuito do rock. Na verdade, participamos de alguns festivais de rock logo no início, mas naquela época a cena artística era mentalmente mais aberta, é a verdade.  

Nos shows e nas capas dos discos, usavam imagens encontradas, da gráfica industrial, da Bauhaus. Fizeram tudo sozinhos ou alguém os ajudou?

Muitos nos ajudaram: fotógrafos, animadores, diretores, pintores, todos amigos nossos. Mas a ideia de usar aqueles gráficos era nossa, nossos eram os projetos e os roteiros. O que tentávamos fazer era tornar a música mais intensa e, sobretudo, visível.  

Além do piano, você estudou arquitetura.

A verdade é que fiquei um tempo na universidade só para ocupar lugar. Só pensava em música, e os Kraftwerk vêm principalmente da música. No final dos anos 1960, começaram a ser usadas projeções e luzes estroboscópicas nos shows. Não tínhamos muito dinheiro, então usávamos fotos e imagens muito simples também do ponto de vista da produção. Depois, conseguimos desenvolver essas ideias. Nos anos 1970, fizemos um pequeno filme em preto e branco para *Trans Europa Express*. Hoje, usamos quase exclusivamente CGA. Foi um desenvolvimento contínuo.  

Vocês se "exibiram" no MoMA, na Bienal de Veneza. Hoje, diria que os Kraftwerk são mais uma obra de arte do que uma banda de rock?

Não, para mim não há diferença. Sou a mesma pessoa que viu Muddy Waters tocar em 1963. Nunca gostei de exercícios de piano, do virtuosismo da execução. Sempre me interessou compor, juntar ideias de todas as linguagens, do design à fotografia. Como disse antes, o mundo da arte sempre foi mais aberto a nós. Hoje, somos representados por Monika Sprüth, uma grande agente internacional de Berlim, que nos colocou em contato com instituições como o MoMA, onde tocamos todo nosso catálogo em 3D.  

Trabalharam muito com a imagem do robô. O que acha do debate atual sobre inteligência artificial?

Os Kraftwerk são uma inteligência artística, não artificial. Ao usar a imagem dos robôs, sempre destacamos nosso lado artístico: ser criativos, atentos ao meio ambiente, abertos a tudo.  

Você já disse que robôs ajudam os artistas a ter uma vida. No YouTube, ainda circula um vídeo de uma apresentação de vocês no programa *Domenica in*, no final dos anos 1970. Quatro manequins dos Kraftwerk estão na plateia, vocês fazem playback no palco. Depois de um tempo, não se sabe mais quem é robô.

Sim, lembro. Motorizamos os manequins para que fizessem movimentos simples e participassem de sessões de fotos no nosso lugar. Naquela vez, a gravadora insistiu para que nossos manequins ficassem na primeira fila. Havia um pouco de humor, acho que o público entendeu bem.  

O apresentador era Corrado, que entrou na brincadeira. Aquela versão de *The Robots* é incrível e perturbadora. No fundo, eles ficarão lá para sempre tocando, os humanos não.

O robô é um sonho antigo, vem da Idade Média. Não devemos ter medo. Sempre pensei que, enquanto os robôs faziam o trabalho promocional, eu teria mais tempo para me dedicar à música. Robôs pertencem ao mundo da automação, podem tocar como sequenciadores, sintetizadores, hoje como computadores. Podem nos ajudar a executar músicas humanamente impossíveis, ao contrário de um piano normal, e isso abre novas soluções criativas e artísticas.  

Nunca perdeu o otimismo em relação à tecnologia?

Na verdade, quando começamos, não era um período tão otimista, havia muitas tensões sociais. Pensávamos no que poderíamos fazer para contribuir, ser positivos. Antes de *Autobahn*, toquei por sete anos com Florian. Os computadores chegaram muito tarde, na época só alguns compositores podiam usá-los; em comparação, éramos músicos de rua. *Autobahn* ainda é música de rua, de certa forma. Hoje, você pode se comunicar sem viajar, enquanto antes era preciso ir fisicamente. Como Kraftwerk, nosso trabalho nas antigas faixas é feito à distância. Ainda gosto muito de tocar ao vivo, tocar *com* a música, encontrar novas soluções todos os dias. O mundo, por outro lado, ainda está cheio de problemas e tensões.  

Muitos músicos devem algo aos Kraftwerk, de Bowie aos inventores da techno. Você já teve contato com algum deles?

Derrick May e Juan Atkins sempre foram muito gentis comigo. Fui muito amigo de Ryūichi Sakamoto, que escreveu a letra em japonês de *Radioactivity*; eu adorava tocar algumas de suas melodias maravilhosas. Infelizmente, ele também nos deixou.

Link original Rolling Stone 

domingo, 13 de julho de 2025

Ralf Hütter — Entrevista — Corrie Della Sera — 2025

 


Kraftwerk: a arte conseguirá sobreviver até mesmo à Inteligência Artificial

por Sandra Cesarale

Ralf Hütter, fundador da inovadora banda alemã: acreditamos na multimídia da música

Sou o operador do mini computador”: Ralf Hütter, cofundador junto com Florian Schneider dos Kraftwerk, recita com naturalidade em italiano um verso de “Pocket Calculator”, tal como foi cantado em 1981 na televisão durante o programa Discoring. Ele sorri e esclarece: “Mas eu não falo a sua língua. No entanto, estudei latim e sei francês”.

Ele acaba de chegar a Roma vindo de Stuttgart, onde os Kraftwerk fizeram um concerto para sete mil pessoas. O visionário grupo alemão, inovador da música eletrônica, também estará na Itália para dois shows em julho: dia 18 no Teatro del Silenzio, em Lajatico (“Espero tocar lá há dois anos”) e dia 25 no Teatro Antico de Taormina. Ralf, que completará 79 anos em agosto, está sentado em um dos cômodos do decadente e fascinante apartamento em estilo art nouveau, transformado na galeria de arte Indipendenza, que hospeda a exposição “Kraftwerk – The Man Machine”, organizada pelo londrino Michael Bracewell.

“A obra dos Kraftwerk sempre foi uma arte multimídia. Unimos filmes, animação, gráficos e álbuns. É como um poderoso show que torna a música visível. Criamos imagens que estimulam os sons. Nunca contratamos um artista famoso, tudo é feito em casa, por nós”.

Vocês começaram no final dos anos 60.

“Somos de Düsseldorf, no início nos apresentávamos apenas em galerias de arte, museus e pequenos clubes”.

Por quê?

“No mundo todo o rock’n’roll de sucesso nas paradas dominava. E nós éramos jovens experimentadores”.

Frustrante?

“Não, era exatamente o que queríamos ser e tocar”.

Os Kraftwerk, com robôs, naves espaciais e computadores, previram um mundo dominado pela tecnologia.

“Um pouco me assusta ter antecipado o futuro, a realidade, os acidentes. Nossa música poderia ser definida como um documentário de fantasia”.

David Bowie era um admirador de vocês, mas nunca colaboraram. Por quê?

“No final dos anos 70, nosso estúdio Kling Klang não estava equipado para gravações profissionais, tínhamos apenas os instrumentos para fazer nossa música. Por isso encaminhei David e Iggy Pop para Berlim”.

Uma oportunidade perdida?

“Não, porque justamente em Düsseldorf nasceu nossa amizade e as letras do álbum Trans-Europe Express também falam sobre nossa relação. A primeira vez que tocamos essa música ao vivo com os Kraftwerk, no Paradiso de Amsterdã, foi uma emoção inesquecível: tínhamos criado música a partir da vida”.

Sente falta de artistas como Bowie?

“Sim, obviamente. Mas precisamos continuar ouvindo e nos abrindo ao mundo”.

Agora é a Inteligência Artificial que cria músicos.

“Prefiro falar de Inteligência Artística, a criatividade expressa pelo indivíduo”.

A IA não é perigosa?

“Não, porque a arte e os artistas sempre sobreviverão”.

O último álbum, Tour de France, é de 2003. Quando virá um novo trabalho?

“Me perguntam isso com frequência: quando estiver pronto”.

Sem piadas?

“Agora estamos concentrados nos shows ao vivo. Nos novos concertos reunimos todo o nosso repertório. Nos últimos 50, 60 anos escrevi com meu parceiro letras e músicas que ainda hoje podemos levar ao palco”.

Seu parceiro, Florian Schneider, faleceu há cinco anos.

“Ele quis me ver antes de morrer. Sua perda me marcou profundamente. Começamos juntos em 1968. Não éramos uma banda, mas um instrumento. Florian deixou os Kraftwerk em 2008, muito estresse, ou talvez já sentisse que a doença havia começado a atacá-lo”.

O senhor olha para trás às vezes?

“Não, sigo sempre em frente”.

11 de julho de 2025

Link Original : Corrie Della Sera













terça-feira, 8 de julho de 2025

Ralf Hütter — Ciao Magazine — Setembro — 1991


 Entrevista com Ralf Hütter publicada na revista Ciao Magazine em setembro de 1991 (versão italiana):


Ciao Magazine – Quando nos encontramos na Itália, vocês manifestaram a intenção de lançar um álbum ao vivo. Depois saiu a coletânea. E agora?

Ralf Hütter – A verdade é que as faixas de The Mix foram pensadas e remixadas para se tornarem um álbum ao vivo. No sentido de que também foram retrabalhadas digitalmente e tratadas com amostragens criadas a partir das antigas gravações dessas mesmas músicas. Começamos por Autobahn, eliminando o material dos três primeiros discos porque há anos não tocamos mais essas músicas ao vivo. Obviamente, faixas como The Model foram sacrificadas, pois não era possível incluir toda a nossa produção mais relevante — mas isso pode significar que em breve uma segunda coletânea poderá ser lançada. Os shows na Itália e na Alemanha serviram como primeiro banco de ensaio para experimentar e aprimorar nosso som. Para isso, levamos sempre conosco os equipamentos dos estúdios Kling Klang, que reduzimos e transformamos em um estúdio compacto e transportável. Após terminarmos a mini-turnê na Itália, voltamos para a Alemanha para fazer mais algumas datas e, em Düsseldorf, finalizamos as gravações do nosso ao vivo. O disco reunirá todas as nossas músicas mais famosas, de Tour de France a Radioactivity.

Ciao – Então, apesar de tudo, vai sair um álbum ao vivo...

Ralf Hütter – Acho que sim. Será um mix do que vocês ouviram nos concertos italianos.

Ciao – Falando do início de vocês, sei que vêm de formação musical clássica. O que você lembra das aulas no Conservatório de Düsseldorf?

Ralf Hütter – Eram normais, voltadas para pessoas da alta burguesia.

Ciao – Naquela época vocês já tocavam instrumentos eletrônicos?

Ralf Hütter – Não, tocávamos instrumentos acústicos. Só mais tarde abandonamos esse tipo de música e nos dedicamos à eletrônica contemporânea. Vivendo na Alemanha, na região do Ruhr, caracterizada pelas numerosas indústrias metalúrgicas, nossa música representa a trilha sonora do cotidiano. Nossas composições, no entanto, não são desprovidas de um pano de fundo cultural que parte da música clássica alemã, especialmente Beethoven. Por outro lado, há também referência à música eletrônica de Stockhausen, embora nunca tenhamos tido contato pessoal com ele. Esses foram os pontos de partida para desenvolvermos os ritmos industriais. Nossa música é mais normal e dinâmica em comparação à dos Tangerine Dream, que é contemplativa e meditativa.

Ciao – Antes você definiu sua música como “trilha sonora do cotidiano... para desenvolver os ritmos industriais”; essas ideias já haviam sido expostas pelo futurismo. O que vocês herdaram daquele movimento?

Ralf Hütter – Nos interessavam a velocidade, o movimento e a teoria de A arte dos ruídos, de Luigi Russolo, que deu início à pesquisa musical de vanguarda. É aí que podemos situar o começo da música dos ruídos, e é a essa família espiritual que nos sentimos idealmente ligados.

Ciao – Do que vocês mais foram influenciados no começo da carreira?

Ralf Hütter – Da vida cotidiana.

Ciao – Como se conecta o seu primeiro lançamento discográfico como Organisation com o nascimento do Kraftwerk?

Ralf Hütter – Foi um período em que o grupo mudava sempre. Uma vez fazíamos uma coisa, outra vez outra. Tanto eu quanto Florian tocávamos com muitos músicos. Em 1970, construímos os estúdios Kling Klang, e foi daí que nasceu o Kraftwerk.

Ciao – Que resultados vocês alcançaram usando os equipamentos dos estúdios Kling Klang?

Ralf Hütter – É tudo digital, analógico-digital e computadorizado. Isso nos permite reproduzir qualquer tipo de som e compor o que chamamos de música contemporânea.

Ciao – Qual é a relação entre a música e as imagens computadorizadas que aparecem nos seus vídeos?

Ralf Hütter – Não gostamos de nos limitar apenas à música: somos multimídia. Há uma conexão estreita entre música e imagem. Através das experiências que tivemos trabalhando com profissionais do New York Institute of Technology, conseguimos criar um diálogo entre elas. Criamos vídeos baseados justamente nessa relação.

Ciao – Os shows que vocês apresentaram na Alemanha são semelhantes aos que fizeram na Itália?

Ralf Hütter – Sim, mas atualizados conforme nossas necessidades atuais, porque estamos sempre trabalhando e tudo é constantemente renovado.

Ciao – No início, a crítica musical colocou vocês entre os artistas da cosmic music...

Ralf Hütter – Já mencionei isso antes, ao falar do Tangerine Dream e da nossa diferença. Na época, os críticos não tinham entendido que o Kraftwerk não fazia música cósmica, mas música terrestre. É verdade que a Terra faz parte do cosmo, mas fazemos música ligada à urbanização. A geografia musical alemã é muito variada: cada centro como Munique, Frankfurt, Colônia, Düsseldorf, Berlim, criou sua própria música. Nós, por exemplo, pertencemos a Düsseldorf e ao mundo industrial dessa cidade.

Ciao – Seguindo seu raciocínio, qual foi a influência de Munique na produção de Giorgio Moroder, que inclusive assimilou muitas das suas experimentações?

Ralf Hütter – Munique está mais voltada à música disco e é mais próxima da música de lazer de Los Angeles.

Ciao – Até que ponto a tecnologia é importante para a sua vida musical?

Ralf Hütter – Os sons sintetizados, computadorizados e a telemática são a nossa vida: queremos fazer um tipo de música que fale por si só, que seja transparente e una arte e tecnologia, como já acontecia nos anos 1920, na época da Bauhaus de Weimar. Desde então, o progresso tecnológico avançou muito rapidamente e hoje podemos nos considerar pessoas afortunadas, pois conseguimos até nos deslocar junto com nosso estúdio de gravação. Nosso pequeno mundo de computadores nos permite compor e gravar ao mesmo tempo em qualquer lugar onde estejamos.

Ciao – Muitos artistas, entre eles David Bowie, John Foxx e Gary Numan, afirmaram ter sido influenciados por vocês. O que pensam deles?

Ralf Hütter – Esses artistas desenvolveram sua própria versão da eletrônica contemporânea. Hoje, o efeito de feedback eletrônico faz com que muitos grupos se aproximem desse modo de fazer música, especialmente a black music com o som techno de Detroit.

Ciao – Em 1977 o punk renegou todos os outros tipos de música, inclusive a de vocês. Qual foi sua avaliação daquele fenômeno?

Ralf Hütter – O punk foi mais um movimento, nunca foi interessante para nós, porque não se podem criar sons novos com instrumentos antiquados. Mesmo naquele período, seguimos sempre nosso próprio caminho.

Ciao – Qual será o futuro da sua música e da música alemã?

Ralf Hütter – O futuro começa hoje. Existem muitos grupos jovens crescendo, inclusive alguns jovens negros amadores. Essas bandas são muito afortunadas, enquanto nós precisávamos de uma formação muito variada e extensa. Eles só precisam aprender a usar o computador e os pequenos teclados eletrônicos. Acho isso muito positivo.

Ciao – As críticas mais frequentes contra vocês dizem que sua música é fria e sem sentimento...

Ralf Hütter – Essas acusações foram feitas, ou ainda são feitas, por pessoas que não se conhecem. São baseadas em falsidades iniciais e não as consideramos aceitáveis. Além disso, se escutássemos tudo o que dizem nossos inimigos, entraríamos em paranoia. Só depois de agir e mudar as situações é que se pode parar para escutar. Nós fizemos a música verdadeira — assim como existe o cinéma vérité, fazemos a musique verité, porque todos somos robôs. Em nossos shows, apresentamos situações reais em forma de pequenas sinfonias, como Autobahn ou Trans Europe Express.

Entrevista por Giuseppe Cavazzoni

domingo, 6 de julho de 2025

Ralf Hütter — Entrevista — Hot Press Magazine — Agosto — 2005

 


Ralf Hütter publicada na Hot Press Magazine, em agosto de 2005, realizada por Stuart Clark:


Na véspera da apresentação principal do Kraftwerk no festival Electric Picnic, o líder Ralf Hütter fala com uma franqueza rara sobre David Bowie, U2, hip-hop, ciclismo e por que, às vezes, até homens-máquina precisam sorrir.

Fale sobre uma criança em uma loja de doces: depois de 30 anos de fanatismo, estou finalmente ao telefone com o Kraftwerk — um grupo tão recluso que só recentemente começou a se comunicar com o mundo exterior por meios que não fossem fax. Diante disso, seria de se esperar que o líder Ralf Hütter fosse um entrevistado relutante, mas, não — a única hora em que o senhor de 59 anos parece preferir estar refazendo a fiação de uma placa de circuito é quando pergunto se ele aprova o termo “Krautrock”.

“Isso só existe na cabeça de jornalistas estúpidos”, diz ele, colocando firme e diretamente a mim — e à minha profissão — em seu devido lugar. “Qualquer pessoa que entenda de música sabe que Kraftwerk não é o mesmo que Can ou Tangerine Dream. Eles tentam criar uma ‘cena’ que, na verdade, não existe.”

Esqueça a Alemanha — não havia ninguém no mundo que soasse como o Kraftwerk quando eles surgiram no cenário internacional em 1974, graças a “Autobahn”. Uma epifania musical para todos, de Bowie a Bambaataa, seus ecos ainda são sentidos hoje. Qual foi o primeiro disco que causou impacto em Hütter?

Tutti Frutti, do Little Richard”, diz ele, soando como um garoto de 12 anos de novo. “A rádio estatal alemã não tocava rock’n’roll, então a gente sintonizava as transmissões da American Forces Network de Stuttgart. Lembro de ficar muito empolgado quando os Beatles apareceram — e irritado com meus pais por não me deixarem ir a um show deles. Depois disso, viajávamos por toda a Alemanha para ver bandas. Como não tínhamos dinheiro para hotel, dormíamos no carro.”

Hütter talvez tivesse seguido uma trajetória mais ortodoxa no rock se não fossem suas experiências de fim dos anos 60 com Pink Floyd e LSD. Com horizontes ampliados, o Kraftwerk montou sua lendária base Kling Klang em Düsseldorf, com equipamentos que eram de ponta na época, mas que hoje pareceriam peças de museu.

“Todos nos conhecemos em cursos de improvisação realizados na universidade aqui”, ele continua. “Naquela época, nosso equipamento era ao mesmo tempo muito simples e muito caro — o primeiro Mini-Moog que comprei custava o mesmo que meu Volkswagen! Trabalhamos muito com câmaras de eco e vários tipos de gravadores de fita.”

Com o analógico como norma da indústria (e não como fetiche retrô), o Kraftwerk era forçado a usar técnicas de edição bastante primitivas.

“Para colar uma parte de uma música na outra, tínhamos que cortar a fita com uma lâmina e depois colar os pedaços. Você perdia quatro ou cinco segundos e só os encontrava depois grudados no seu cotovelo. Era tudo muito minimalista.”

Minimalista ou não, essas sessões iniciais de estúdio renderam fãs ilustres como Brian Eno e David Bowie, que por alguns anos quase virou um tributo ambulante ao Kraftwerk.

“Encontramos David Bowie depois de um show dele em Düsseldorf, e ele nos disse que tinha dirigido por aí em seu Mercedes ouvindo Autobahn sem parar”, lembra Hütter com carinho. “Ter uma figura tão respeitada no rock dizendo ‘vocês têm que ouvir esse grupo’ fez com que, de repente, tivéssemos um público mainstream. Por causa disso, conseguimos fazer turnês no exterior e comprar novos equipamentos.”

O status iconoclasta do Kraftwerk fez com que eles fossem uma das poucas bandas que não foram descartadas com a onda punk.

“Talvez tenhamos um pouco dessa atitude punk”, reflete Ralf. “Fazer as coisas do nosso jeito e usar o ambiente ao nosso redor como inspiração para a música. Os Ramones fizeram isso em relação a Nova York, assim como o MC5 e os Stooges foram profundamente ligados a Detroit.”

O número de bandas punk e pós-punk influenciadas pelo Kraftwerk é impressionante — Siouxsie & The Banshees, Adam & The Ants, PIL, Boomtown Rats, Joy Division, Cabaret Voltaire, Human League, Simple Minds, Depeche Mode, Tubeway Army, OMD e Ultravox, todos pegaram carona no catálogo do grupo. Mais surpreendente ainda é o papel que o Kraftwerk teve — sem querer — no nascimento do hip-hop em Nova York, em 1981.

“Nosso assessor nos levou a um clube em Nova York onde o DJ estava tocando Trans Europe Express”, diz ele com orgulho paternal. “Ao invés de terminar, a música continuava, e continuava, por uns 15 minutos. Fui até a cabine e lá estava o Afrika Bambaataa nos toca-discos. Foi uma grande surpresa — mas muito agradável.”

Dois anos depois, o Kraftwerk estava fazendo sua própria versão de beatboxing humano.

“Em Tour De France, usamos o som da minha respiração e do meu coração retirado de um eletrocardiograma. Essa música tem, no sentido mais literal, uma qualidade humana.”

Quando Hütter disse recentemente que “Ciclismo é o homem-máquina. Trata-se de dinâmica, de continuar sempre em frente, sem parar”, parecia quase como se ele estivesse delineando o manifesto do Kraftwerk.

“O ciclismo tem muitos paralelos com certos aspectos da música, sim”, ele concorda. “Em 2003 fomos convidados a ser convidados nos helicópteros da Tour de France, o que nos colocou bem dentro da corrida e da sua organização. Nós mesmos pedalamos e já percorremos todos os passes nos Alpes e Pirineus.”

Seria uma falha grave no meu dever jornalístico não perguntar a Ralf sobre a versão de Neon Lights que o U2 colocou no lado B do single Vertigo.

“O Bono nos enviou a gravação que eles fizeram, e eu acho que ficou muito boa”, entusiasma-se. “Ela transmite o mesmo sentimento de perambular pela cidade à noite que a original. Ele já disse que o Kraftwerk é uma das grandes bandas ‘soul’ — e o U2 também tem essa qualidade. Eles fazem coisas grandiosas parecerem íntimas, e se conectam com as pessoas de forma muito pessoal. E mais: para uma banda do tamanho deles, eles correm muitos riscos — tanto musical quanto politicamente.”

Não quero esfregar sal na ferida de quem não conseguiu ingressos, mas a visita do Kraftwerk ao Olympia de Dublin em março de 2004 foi um sonho elétrico realizado. Junto com seu arsenal de clássicos, tivemos o prazer de ver a pouco robótica cena de Ralf tentando manter a seriedade enquanto Fritz Hilpert sofria um ataque de risos.

“Às vezes, as coisas fazem você sorrir”, conclui Hütter. “É só a concentração — porque ficamos girando botões, ajustando faders, tudo isso. Você está operando máquinas de alta tecnologia e pequenos movimentos podem criar grandes efeitos.”

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Ralf Hütter — Entrevista — Keyboard Magazine — Outubro — 1991

 


Entrevista com Ralf Hütter publicada na Keyboard Magazine em outubro de 1991:


Keyboard – Essa é sua primeira turnê em quase uma década. Por que agora?

Ralf Hütter – Bem, estivemos trabalhando no nosso estúdio Kling Klang, e agora está tudo digitalizado e nossos computadores estão funcionando. Levou um bom tempo para conseguirmos montar essa música. Pela primeira vez, agora conseguimos apresentá-la ao vivo da maneira como a ouvimos.

Keyboard – As músicas de The Mix não são remixes, estritamente falando. O press release da Elektra as chama de “reinvenções”.

Ralf Hütter – Não usamos mais fitas, tudo está armazenado digitalmente e controlado por computador. Usamos todo o nosso catálogo dos últimos 20 anos, sampleando os sons analógicos originais das fitas master de 16 canais. Escolhemos os sons que achamos únicos, ou insubstituíveis, ou talvez apenas em boa forma (risos), e outros nós mudamos ou alteramos. Estávamos interessados em usar sons originais antigos, de nossas velhas máquinas analógicas caseiras, adaptando tudo tecnicamente para os anos 90. É apenas uma mistura de sons sampleados dos masters antigos, além de novos sons eletrônicos completamente sintéticos. Tudo é remontado. Para nós, mixar é a forma de arte de fazer música hoje.

Keyboard – Vocês tiveram grande influência na música de dança americana, particularmente no techno de Detroit.

Ralf Hütter – Tocamos em Detroit em 1981, acho, e ficamos surpresos com a recepção calorosa do público das pistas de dança. Lembro que as pessoas ficaram surpresas por termos tantos fãs negros e latinos. Infelizmente, a turnê foi marcada muito espontaneamente, porque ninguém achava que haveria interesse, então tudo o que conseguimos fazer na época foi adicionar mais alguns shows e voar pelos EUA. Como viajávamos tão rápido, nunca conseguimos consolidar esse público negro ou latino. Simplesmente aconteceu. Ficamos muito surpresos na época. Antes, éramos vistos como uma banda muito europeia. Mas sempre houve um movimento disco forte na Europa, e sempre fomos fanáticos por dança, com nossas pequenas danças robóticas. Foi muito encorajador receber uma reação tão forte na América. Antes disso, o circuito do rock’n’roll sempre teve certa resistência à eletrônica. Estavam presos à fórmula da guitarra, enquanto o público das pistas era muito mais aberto aos sons modernos. Aí, em 1982, Afrika Bambaataa fez a versão dele de “Trans Europe Express”, que foi ótima — uma combinação muito boa do nosso tipo de música eletro com rap. É uma mistura de culturas diferentes, e sempre gostamos disso.

Keyboard – Foi por isso que decidiram refazer suas músicas antigas em estilo house em The Mix?

Ralf Hütter – Isso foi apenas um desenvolvimento natural da nossa música. Sempre tivemos essas bases de bateria eletrônica, mesmo antes da Roland TR-808 ganhar destaque, usando pequenas caixas de ritmo e gatilhos de bateria eletrônicos caseiros nos anos 70, quando trabalhávamos com um engenheiro que desenvolveu esses pads para que pudéssemos ser uma banda sem baterista. É só uma questão de tudo ter se unido.

Keyboard – Vocês falam com frequência sobre o interesse em ritmos — especificamente, ritmos de dança — mas seus ritmos não são exatamente o que a maioria chamaria de “funkados”. Como vocês conciliam essa fascinação por padrões staccato rígidos com o desejo declarado de criar grooves dançantes e funky?

Ralf Hütter – Para nós, máquinas são funky. Algumas geram loops rítmicos por acidente, outras são programadas para tocar uma batida. Nossa música é eletrônica, mas gostamos de pensar nela como música étnica da área industrial alemã — música folclórica industrial. Para nós, tem a ver com a fascinação por tudo ao nosso redor, tentando incorporar o ambiente industrial à nossa música. Vindo de uma formação clássica, ficamos bastante entediados com o passado e começamos a ouvir o presente. As máquinas, essas ferramentas para fazer música estavam ali, e pensamos: por que não usá-las? Nossa tradição aqui havia sido quebrada, bombardeada. De um lado havia a tradição antiga — música clássica, toda aquela música de marcha para a geração anterior. E do outro, as coisas modernas construídas depois da guerra.

Keyboard – Vocês tomaram algumas decisões interessantes em The Mix, uma das quais foi mudar “Autobahn” de um ritmo staccato reto para um groove em tercinas. O que motivou isso?

Ralf Hütter – Algumas dessas músicas estão conosco há muito tempo, e é assim que as temos tocado ao vivo. Mudamos as coisas de cidade para cidade, de país para país. Com “Autobahn”, às vezes dirigimos um pouco mais rápido, às vezes mais devagar, dependendo do limite de velocidade.

Keyboard – As buzinas de carro na seção do meio de “Autobahn” são sons sampleados ou aproximações analógicas?

Ralf Hütter – Em The Mix, elas foram sampleadas das fitas master originais de “Autobahn”. Não conseguimos recriá-las, pois tinham uma afinação especial, são acordes com trítonos, para soarem como buzinas de carro. Nunca conseguimos recapturar aquele som analógico — acho que foi feito num Moog ou num ARP — então apenas sampleamos os ruídos originais e usamos para criar algo chamado “hupenkonzert”. É uma expressão comum alemã que significa “concerto de buzinas” — em outras palavras, um engarrafamento, onde todos estão com raiva e buzinando. Então toquei um pequeno “hupenkonzert” ali. Usamos ruído branco para criar o som dos carros passando. Num trecho em que a letra diz, em alemão, “a estrada é uma fita cinza, com listras brancas e bordas verdes”, queríamos evocar a imagem do pneu cruzando essas listras brancas, então usamos uma explosão reversa de ruído branco.

Keyboard – Como foram criados os vocais distorcidos e subaquáticos dessa seção?

Ralf Hütter – Usamos um instrumento programável por computador que Florian construiu, chamado Robovox. Ele permite montar qualquer palavra a partir de fonemas pré-programados. É um coro mecânico, totalmente sintético. Queremos libertar a tecnologia para que ela fale por si só, e quando usamos o Robovox nessa música, é como se os carros estivessem falando com suas buzinas afinadas.

Keyboard – Você gostaria mesmo de viver num mundo em que todas as máquinas da sua vida, de eletrodomésticos a automóveis, falassem com você?

Ralf Hütter – Bem, elas já falam! Quando você abre os ouvidos, pode ouvir a música escondida no ambiente. É muito melhor do que ouvir só música, que é apenas ruído afinado, afinal. A paisagem industrial é fascinante. Mesmo as máquinas estão falando.

Keyboard – Quando você e Florian estudavam na Universidade de Düsseldorf, chegaram a ter contato com peças clássicas do século XX inspiradas na estética das máquinas, como a “Sinfonia das Máquinas” de Mossolov ou o “Ballet Mécanique” de Antheil?

Ralf Hütter – Claro, mas mais importante ainda, estávamos na região de Düsseldorf, que fica perto de Colônia, onde ficava o estúdio eletrônico usado por Stockhausen, e não tão longe dos estúdios franceses onde Pierre Boulez trabalhava. Era comum, desde bem jovens, ir ouvir Stockhausen. A cena artística e musical, especialmente a eletrônica, era bem acessível, havia vários programas de rádio com música eletrônica estranha. Então tínhamos acesso a tudo isso, fez parte da nossa formação, da nossa educação. Sempre nos consideramos a segunda geração de exploradores eletrônicos, depois de Stockhausen.

Keyboard – Por sua vez, vocês influenciaram fortemente o que se poderia chamar de terceira geração de artistas eletrônicos — como as bandas Visage, Depeche Mode, e também David Bowie em sua fase berlinense.

Ralf Hütter – Acho que influenciamos Bowie, pelo menos foi o que ele nos disse. Ele contou que, quando chegou à Alemanha, ouvia “Autobahn” o tempo todo no rádio do carro. Nos encontramos na Alemanha, quando ele procurava um lugar para trabalhar, e sugerimos que tentasse Berlim. Então fornecemos uma inspiração de certo tipo — uma espiritualidade eletrônica! Quanto aos artistas britânicos que você mencionou, fizemos várias turnês longas na Inglaterra, onde conhecemos alguns desses músicos em clubes. Para nós, foi maravilhoso ver esse tipo de interesse. Antes, sempre fomos considerados outsiders, e de repente estávamos por dentro.

Keyboard – Sua declaração na edição de março de 1982 da Keyboard, de que vocês fazem “música para alto-falantes”, é inquietantemente parecida com a observação de Joseph Goebbels de que os nazistas não teriam chegado ao poder sem o alto-falante. Existe um perigo inerente nesse seu fetichismo tecnológico?

Ralf Hütter – Bem, isso sempre existiu, desde a invenção da faca, que pode ser usada para fatiar pão ou matar seu vizinho. Não vejo a tecnologia moderna como algo tão diferente. Para nós, qualquer perigo tem mais a ver com a situação psicológica entre homem e máquina. Tentamos trabalhar do nosso lado, desenvolvendo uma atitude mais amigável com as máquinas, e, como resultado, elas sempre foram muito amigáveis conosco. Pelo menos nunca tomamos choque ou sofremos acidentes.

Keyboard – Vocês trarão dois novos membros para a turnê americana de setembro.

Ralf Hütter – Na verdade, já conhecemos eles — Fritz Hilpert e Fernando Abrantes — como engenheiros eletrônicos há alguns anos. Eles vão fazer percussão e controlar os equipamentos, e Florian e eu vamos programar nossos robôs e fazer a mixagem. Usaremos projeções de vídeo em uma grande tela, com imagens geradas por computador que correspondem às músicas, junto com filmagens de “Autobahn”, do “Trans Europe Express” e trechos de nossos vídeos.

Keyboard – Como funcionam os robôs no palco?

Ralf Hütter – Eles são controlados por teclado. Um engenheiro alemão, conhecido do Florian, os programou. Normalmente ele trabalha com computadores de escritório e coisas assim, mas o convencemos a usar suas habilidades numa outra área. Os robôs são programados, mas podemos reprogramá-los. Veremos o quão confiáveis são e até onde conseguimos que improvisem.

Keyboard – Por que decidiram construir esses robôs em primeiro lugar?

Ralf Hütter – Temos essa composição, “The Robots”, do álbum The Man-Machine: “Somos programados apenas para fazer / Qualquer coisa que você quiser”. Antigamente, usávamos manequins de vitrine, mas eles não se moviam, então o próximo passo lógico foi ter robôs. Eles são feitos de plástico, com braços de metal e nossos rostos remodelados. São idênticos, embora talvez desenvolvam um pouco mais de individualidade ao longo da turnê.

Keyboard – De Hardware a Robocop e O Exterminador do Futuro, a cultura pop parece obcecada por robôs. Por quê?

Ralf Hütter – Porque são máquinas muito próximas do ser humano, tanto na aparência quanto no comportamento. Todo o nosso trabalho trata dessa relação próxima entre homem e máquina. Por isso escrevemos a música “The Robots”. Não nos sentimos alienados, porque passamos muitos anos tentando estabelecer uma relação mais próxima com as máquinas, uma abordagem mais holística do que apenas vê-las como coisas externas, como armas de agressão ou algo assim — mas sim como extensões de nós mesmos. E, em troca, recebemos muito retorno delas, e isso nos fascina.

Keyboard – Vocês se interessam por realidade virtual e outros desenvolvimentos cibernéticos recentes?

Ralf Hütter – Sim, de certa forma. Seria maravilhoso incorporar realidade virtual às nossas apresentações. Quando formos à América, gostaríamos de conhecer algumas das pessoas da Califórnia que estão desenvolvendo essa tecnologia. Sabe, quando ouvi o termo “realidade virtual” pela primeira vez, pensei que, para mim, a música sempre foi como uma realidade virtual. Com algo como “Autobahn”, você pode realmente ver a paisagem enquanto ouve, porque nossa música tem uma qualidade muito visual. Então, quando li sobre realidade virtual e sobre pessoas entrando em mundos gerados por computador, pensei: “Fazemos isso com música há anos”.

Entrevista a Mark Dery

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Ralf Hütter — Entrevista — Revista Music Technology — Dezembro de 1992


 Revista Music Technology - Ralf Hütter - Dezembro de 1992

Music Technology: Qual foi o desenvolvimento mais significativo durante sua carreira?

Ralf Hütter: Acho que deve ser a disponibilidade dos primeiros sintetizadores monofônicos, porque antes disso, eram essas máquinas grandes dos Laboratórios Bell ou de estações de rádio governamentais. Ter a possibilidade, como músico individual – um músico independente – de ter acesso a alguns desses equipamentos eletrônicos. Acho que essa foi a mudança mais significativa, por volta do final dos anos 60. E agora a próxima fase, a tecnologia digital, tudo se tornando mais modular, este é o próximo grande passo.

Music Technology: Você já tinha acesso a sintetizadores antes disso?

Ralf Hütter: Não. E eu me lembro que o primeiro sintetizador monofônico que comprei custava o mesmo que um Volkswagen. Então essa foi a escolha a ser feita. Acho que é uma comparação muito boa, porque os sintetizadores davam liberdade de movimento aos músicos.

Music Technology: Essas máquinas ofereciam mais liberdade do que as de hoje, por serem livres de predefinições?

Ralf Hütter: Sim, eles te davam apenas um guia datilografado de três páginas, dizendo "este é o oscilador, este é o filtro" — e era só isso. Aí você ia para casa, mexia e girava os botões, não havia sons pré-programados porque era tudo analógico — toda a extensão. Não gosto muito dos sons pré-programados de hoje; sempre trabalhamos neles, se é que os usamos. Nunca encontramos nada que venha dos ouvidos de outras pessoas e guardamos. Sempre giramos os botões, essa tem sido uma prioridade constante. Costumávamos projetar nossos próprios sintetizadores também. Naquela época, mandávamos construir sequenciadores, porque eram muito raros. Apenas os grandes sistemas modulares Moog tinham sequenciadores. E então pegávamos as caixas de bateria e as reprojetávamos com nossos engenheiros e eletricistas para um formato tocável, e ajustávamos essas caixas com os sequenciadores, e as outras com a fita, para que tudo ficasse sincronizado.

Music Technology: A Kling Klang está em constante mudança?

Ralf Hütter: Claro, nós o chamamos de jardim eletrônico, porque ele está em constante regeneração e agora é completamente modular, permitindo que possamos escolher certas unidades e substituí-las. E o que fizemos foi guardar todos os nossos sintetizadores antigos de todas as diferentes fases, porque eles tinham muito pouco valor depois de serem substituídos, mas hoje temos todo esse equipamento analógico antigo de volta! É realmente muito bom. A transição para o digital não substituiu o analógico de forma alguma, especialmente porque, muitas vezes, a tecnologia digital é usada apenas para samplear recursos analógicos, seja reamostrando sons antigos das fitas originais ou de fontes sonoras. Sempre consideramos qualquer fonte sonora, é apenas som. Kling Klang é a palavra alemã para som, então sempre fomos fascinados por som.

Music Technology De onde vêm os temas de viagem e movimento - como em "Autobahn" e "Trans Europe Express"?

Ralf Hütter: Isso veio dos primeiros anos de turnê na Alemanha. Estávamos em constante movimento. Moramos em uma grande área industrial no Reno-Ruhr, e íamos para a próxima cidade para tocar esses sons e voltávamos à noite, viajando por aquela paisagem. Daí surgiu a ideia de fazer uma música, e então afinávamos os sintetizadores para soarem como buzinas de carro. Também na arte, teríamos símbolos de estradas, ou um Volkswagen. Então, eram experiências pessoais, incorporadas à música.

Music Technology Além do movimento, muitas das imagens que você emprega, especialmente nas telas de vídeo no palco, mostram uma visão do futuro do passado – dos anos 40 e 50, não um futurismo contemporâneo...

Ralf Hütter: Bem, o que estávamos considerando muito era a simultaneidade de passado, presente e futuro hoje. Acho que visões e memórias se sincronizam, e acho que certas coisas de um passado recente olham mais para o futuro do que coisas que são pseudomodernas hoje. O verdadeiro modernismo pode estar em outro lugar, um caminho diferente do que consideramos moderno.

Music Technology Você teve algum treinamento inicial em improvisação?

Ralf Hütter: Não, nós tínhamos formação em música clássica, mas deixamos isso para trás e nos aprofundamos em toda a situação da Alemanha do pós-guerra, perguntando "qual é a nossa música, qual é o som da Alemanha do pós-guerra?". Essa era a questão. Então, conheci Florian em alguns cursos de improvisação no final dos anos 60, numa época muito aberta, em que as pessoas se encontravam em cursos universitários de música e rapidamente começavam a improvisar. A partir daí, montamos nosso estúdio Kling Klang em 1970, para termos uma base, com uma pequena máquina Revox e loops de eco — um equipamento muito simplista. Foi uma época, no final dos anos 60, em que tudo começou a ser questionado, especialmente em Düsseldorf. Víamos pessoas como Fluxus e Josef Beuys na cena artística e éramos fascinados pelos acontecimentos e, especialmente, pela música envolvida neles. Então, trabalhamos com alguns artistas independentes que queriam sons, criando padrões sonoros. Foi uma...

Uma cena muito aberta, sem nada realmente definido. Partimos daí. Não havia indústria musical, como hoje, nenhuma estrutura, então não havia ninguém para te dizer qual caminho seguir.

Music Technology Muitas das bandas "progressivas" britânicas da época estavam interessadas em novos sons, mas pareciam não saber exatamente o que fazer com eles...

Ralf Hütter: Acho que essa era a situação aqui, já havia muito marketing e merchandising estruturados pela indústria musical. Não havia nada parecido em Düsseldorf, era inexistente. Era uma situação completamente anárquica. E como você provavelmente sabe, fazíamos isso na região de Düsseldorf, enquanto em Colônia era o Can, outras bandas em Munique, Tangerine Dream em Berlim; tudo acontecia com diferentes aspectos vindos de diferentes cidades. Nos encontrávamos em festivais, já nos conhecíamos um pouco, mas claramente vínhamos da cena de Düsseldorf.

TMusic Technology A tecnologia chegou a um ponto em que não cria apenas sons, mas também um tipo de espaço — um espaço virtual...

Ralf Hütter: Claro, quando li sobre isso há alguns anos, foi como um grande avanço nas artes visuais — mas já fazemos isso há 20 anos e, especialmente quando você assiste ao espetáculo, percebe que é uma realidade virtual. Somos reais, mas com as imagens criamos outras realidades. Não há carros de verdade envolvidos, mas você pode vê-los, ouvi-los, talvez sentir o cheiro deles, ou de trens ou o que quer que seja. Então, a música é uma realidade virtual, ela chega até você e você entra em um espaço diferente. Simplesmente andar por aí usando um Walkman transforma completamente a sua realidade. É aí que os desenvolvimentos musicais estavam muito à frente dos ópticos. A música está à frente nesse nível porque você não tem coisas sobre os olhos, você ainda está atento ao ambiente. É também por isso que a música é tão importante na sociedade atual; Nos últimos 20 ou 30 anos, sua importância tem sido enorme — talvez até superimportante, embora seja difícil para mim dizer isso! Talvez a música deva ser apenas uma parte da vida.

Music Technology Era, talvez antes do gramofone, e mesmo depois dele, enquanto ainda era um luxo limitado — mas agora todo mundo ouve música o tempo todo, em todos os lugares...

Ralf Hütter: É por isso que, quando alguém me pergunta sobre meus dez melhores discos, eu sempre incluo o silêncio — desligar o toca-discos, e esse é um dos sons mais importantes. E eu odeio toda essa música tranquilizante zumbi, condicionando as pessoas em lojas, elevadores e em todos os tipos de lugares, é só poluição. Sempre chamamos isso de música da poluição, e ela tem que acabar, porque queremos ouvir os sons reais — eu quero ouvir o som da escada rolante, quero ouvir o som do avião, o som do trem. Trens com bom som, por si só, são instrumentos musicais. Essa música ambiente, essa música desinteressante de pessoas desinteressantes, temos que acabar com isso. Sempre que possível, nos Estados Unidos, temos esses pequenos cortadores de fios, para que possamos cortar os cabos onde quer que os vejamos... Queremos conscientizar as pessoas sobre a realidade, trazendo em nossas composições os sons de carros e trens, e a ideia da beleza dos próprios sons.

Music Technology: Há uma verdadeira sensação de três dimensões em "Electric Cafe", por exemplo...

Ralf Hütter: Você pode torná-lo tridimensional com a sua imaginação, e a eletrônica é perfeita para isso por causa dos sons que ela propõe. Em vez de vir de um instrumento tradicional, que está sempre localizado no mesmo lugar, você pode colocá-los na mixagem e fazê-los se mover, e quando isso acontece, coisas como alterações espaciais ocorrem na sua cabeça. Há panning e também reverb para profundidade. Você estabelece dimensões, algo como um reverb curto para soar muito próximo, e algo como um reverb de catedral para "se enganar" achando que está muito distante. Stockhausen construiu este prédio redondo com alto-falantes, onde o público se senta no meio e há som por toda parte. Sempre houve panning e outros dispositivos na Musique Concrete também.

Music Technology Os sons em si parecem ter mudado ao longo dos anos, tornando-se de alguma forma menos "barulhentos"...

Ralf Hütter: Sempre usamos ruído — música é ruído organizado — não mudamos nossa atitude em relação ao ruído, mas talvez com o ruído gerado por computador de hoje e coisas do tipo, ele esteja ficando mais "bip", enquanto antes era mais fisicamente concreto. Mas isso não é intencional, simplesmente aconteceu e pode facilmente voltar ao normal... As pessoas sempre responderam bem aos "barulhos" que usamos desde o início, sempre criamos interesse, seja localmente ou na cidade vizinha. Então isso nunca foi um problema. Naquela época, acho que era a hora, as pessoas queriam ouvir novos sons. Todos estavam interessados; não podíamos nem fazer tudo o que as pessoas queriam ouvir, era uma época de mente tão aberta. Definitivamente, poderíamos ter feito mais do que fizemos.

Music Technology Quais são as diferenças significativas entre a emenda de fitas e a edição digital?

g, além da nova tecnologia ser mais rápida?

Ralf Hütter: Não é necessariamente mais rápido. Mas você toma as decisões finais ao emendar, corta a fita e pronto. Ao editar no computador, você sempre pode voltar atrás. E com fitas, você tem tantas emendas e pedaços de fita que nem sempre consegue se lembrar onde está sua música! Fica muito complicado. Com programas de computador, tudo está na memória, e a máquina permite que você se lembre instantaneamente. É como uma expansão da sua própria memória, enquanto a fita é uma expansão da sua memória, mas você nem sempre consegue se lembrar onde está sua memória! Filosoficamente, isso é muito interessante, eu acho.

Music Technology: Todo mundo tem a ideia de que você passa o tempo todo trabalhando no estúdio, mas sua produção real não é tão prolífica...

Ralf Hütter: Não, apenas quando estiver finalizado, quando realmente quisermos dar novos passos ou desenvolvimentos. Lançaremos algo apenas quando for possivelmente relevante para nós ou para outras pessoas. "The Mix", por exemplo, era um material antigo, mas estava sendo digitalizado pela primeira vez. O último álbum foi de meados dos anos 80 e era meio a meio – ainda gravado em fita analógica com alguns equipamentos digitais envolvidos. E agora a gravação é totalmente digital, com o estúdio configurado para um console modular, reprogramação e gravação de todos os nossos sons em mídia digital. Tudo estava funcionando bem, e pensamos "vamos fazer Autobahn" – certo, como é? E ouvimos o disco, que não ouvíamos há algum tempo, e dissemos "não, vamos fazer diferente". Então, mixamos, digitalizamos as gravações – as faixas originais – e, como documentação dessa parte do trabalho em estúdio, lançamos "The Mix". É uma mistura dos nossos desenvolvimentos – de então e de agora – com muita mixagem literal de estúdio envolvida – canais, sequenciadores, faixas. É assim que nos lembramos da música também – nunca anotamos nada. Lemos música, mas não muito bem, e não nos importamos muito, porque de qualquer forma, não podemos escrever nossa música. A notação musical é uma restrição à música. É para o museu. Eu sempre ficava entediado quando tinha que ler essas notas; não é nada, é só papel. Notas em papel. Os sons é o que me interessa. E como fazemos isso. Muito raramente fazíamos um pequeno motivo, para denotar um determinado som, mas é só isso. Só para não esquecermos, para que outros não leiam. E às vezes esquecemos mesmo assim, o que eu acho também muito importante, porque se isso volta para você dos diferentes estágios da memória, se te lembra de si mesmo, então talvez seja algo muito forte.

Music Technology No palco, o quanto é pré-gravado, a ponto de ser inalterável?

Ralf Hütter: Não é pré-gravado, é armazenado digitalmente. Não há fitas, é tudo gravado no computador. Na prática, podemos mudar o quanto quisermos, cortar faixas, adicionar faixas, silenciar, duplicar. É isso que fazemos - acesso total. Podemos tornar qualquer faixa mais longa, de acordo com o trabalho. Certas coisas são escritas, mas certas composições podem ter um ponto de partida e ser totalmente abertas, com a programação funcionando em loop. Pode ser como quisermos. A única coisa que é realmente escrita do início ao fim é "The Robots", com saída do computador para sincronizar os robôs no palco, de modo que seus movimentos sejam todos controlados por computador e sejam sempre idênticos - muito robóticos. Todas as outras composições são escritas apenas como sequências básicas. Há algo semelhante ao jazz nesse aspecto, eu acho, como quando eles tocam qualquer música, seja Miles Davis tocando Cindy Lauper, ou antigamente qualquer música boba da Broadway, e simplesmente a tomam como um "tapete voador" para improvisação.

Music Technology É interessante que a música improvisada realmente tenha ganhado importância à medida que a música gravada se tornou disponível.

Ralf Hütter: Ao mesmo tempo que o magnetofone, sim, uma importante coincidência histórica, talvez, à medida que a dependência da música escrita diminuía.

Music Technology O magnetofone foi inventado na Alemanha antes da guerra, mas só foi realmente usado para música depois, e sempre me diverti com o fato de ter sido Bing Crosby quem introduziu essa tecnologia nos Estados Unidos, pagando para que esses modelos da Telefunken fossem levados para lá e colocados em estúdios de pesquisa para ver o que poderia ser feito com eles — efetivamente dando início à indústria fonográfica moderna...

Ralf Hütter: Provavelmente sua maior conquista. Muito melhor do que seu canto...

Music Technology A ampla disponibilidade de música gravada ajudou a torná-la menos policiada, mais politicamente subversiva?

Ralf Hütter: Bem, não é permitido em todas as áreas e não é permitido em todos os países, apesar da tecnologia. Por exemplo, não tínhamos permissão para entrar na Alemanha Oriental, e só posso presumir que era porque estávamos usando a tecnologia deles de uma maneira diferente — porque eles tinham a tecnologia, tinham fitas, rádio, câmeras, mas as usavam para a segurança do Estado. Eles tinham que proteger o Estado do seu próprio povo. Um conceito muito estranho, muito orwelliano. Nós temos

Ainda não toquei lá, espero que este ano. Mas tocamos na Polônia, pelo Solidariedade, e no final isso mostra o caráter subversivo da eletrônica – é incontrolável.

Music Technology Em vez de haver uma emissora central transmitindo para cada cidadão, é o contrário, com várias emissoras para cada pessoa... ou pelo menos esse é o potencial.

Ralf Hütter: Sim, em primeiro lugar é uma possibilidade, então vamos aproveitá-la. Mas se todos tocarem o Top 40, a situação se repete – embora eu não ache que esse seja o caso.

Music Technology: Foi uma surpresa para você que sua música tenha feito tanto sucesso em, por exemplo, Chicago e Detroit?

Ralf Hütter: Sim, mas sempre tivemos uma reação muito favorável do público negro nos Estados Unidos, mesmo antes do house e do techno. Lembro-me de que alguém me levou a uma boate por volta de 76 ou 77, quando "Trans Europe Express" estava sendo lançado, e era um loft club em Nova York, depois do expediente, justamente quando a cultura dos DJs estava começando, quando os DJs começaram a fazer seus próprios discos, seus próprios grooves. E eles pegaram trechos de "Metal on Metal" em "Trans Europe Express", e quando entrei, estava "bum-crash - bum-crash", então pensei "ah, eles estão tocando o novo álbum". Mas durou dez minutos! E eu pensei "o que está acontecendo?". Aquela faixa tem só uns dois ou três minutos! E depois fui perguntar ao DJ e ele tinha duas cópias do disco e estava mixando as duas, e é claro que podia continuar tocando enquanto as pessoas dançassem... Isso foi um verdadeiro avanço, porque naquela época você fixava um certo tempo no disco, menos de vinte minutos de cada lado, para poder gravar a impressão em vinil. Foi uma decisão tecnológica dizer quanto tempo a música duraria. Costumávamos tocar em tempos diferentes ao vivo, mas lá estávamos nós, naquela balada noturna, e eram dez, vinte minutos de gravação, porque a vibe estava lá.

Music Technology: Vocês conscientemente passam de um "conceito" para o outro a cada álbum?

Ralf Hütter: Não exatamente, às vezes temos vários conceitos, ideias soltas para trabalhar, mas nunca temos muito material inédito, apenas algumas fitas de teste talvez; não exatamente como alguém que guarda uma coleção de músicas. Só recentemente percebemos que temos um catálogo, simplesmente nos aprofundamos em um conceito e depois o lançamos. Eles são feitos em um período bem curto. O resto do tempo trabalhamos no estúdio, ou no visual, reunindo as coisas. Agora estamos muito envolvidos com os aspectos multimídia da música. Sempre "vimos" nossa música, mas naquela época não podíamos fazer nada a respeito. Agora podemos colocar palavras em uma tela, criar imagens — como em uma "autobahn", apenas uma simples placa de sinalização — qualquer forma de ilustrar a música.

Tecnologia Musical: Vocês estavam no lugar certo na hora certa, mas é mais difícil agora para bandas chegarem a uma posição como a sua, onde tanta coisa está disponível para vocês?

Ralf Hütter: Acho que previmos que a música eletrônica seria a próxima fase da música popular — a música popular — e as pessoas disseram que era loucura, muito elitista, intelectual, e tivemos que dizer não, era música do dia a dia — carros, barulhos, microfones captando música para todos. Naquela época, todo mundo tinha gravadores para festas, para gravar seus próprios sons do rádio. Mas com a tecnologia de hoje, você pode fazer mais, com pequenas baterias eletrônicas, sintetizadores e programas básicos de computador. Na Kling Klang, temos muito do lado tecnológico, o que seria mais fácil, eu acho. Mas ainda depende de ideias, de decidir o que vamos tocar, o que vamos fazer com essas coisas?

Tecnologia Musical: E o que você vai fazer com isso agora?

Ralf Hütter: O que estamos fazendo agora é em disquetes, a música nem sequer é gravada. Enviamos para cá, ou para amigos em Nova York, e o que estamos fazendo também é música de diferentes lugares ao mesmo tempo, conectando e sincronizando por modem. Transferência de dados entre estações de trabalho — quando isso realmente acontecer, a música vai sair aos montes, tenho certeza.

Entrevista com Mark Sinker

www.muzines.co.uk