Entrevista com Philipp Roser
Entrevista com Philipp Roser
Ciao Magazine – Quando nos encontramos na Itália, vocês manifestaram a intenção de lançar um álbum ao vivo. Depois saiu a coletânea. E agora?
Ralf Hütter – A verdade é que as faixas de The Mix foram pensadas e remixadas para se tornarem um álbum ao vivo. No sentido de que também foram retrabalhadas digitalmente e tratadas com amostragens criadas a partir das antigas gravações dessas mesmas músicas. Começamos por Autobahn, eliminando o material dos três primeiros discos porque há anos não tocamos mais essas músicas ao vivo. Obviamente, faixas como The Model foram sacrificadas, pois não era possível incluir toda a nossa produção mais relevante — mas isso pode significar que em breve uma segunda coletânea poderá ser lançada. Os shows na Itália e na Alemanha serviram como primeiro banco de ensaio para experimentar e aprimorar nosso som. Para isso, levamos sempre conosco os equipamentos dos estúdios Kling Klang, que reduzimos e transformamos em um estúdio compacto e transportável. Após terminarmos a mini-turnê na Itália, voltamos para a Alemanha para fazer mais algumas datas e, em Düsseldorf, finalizamos as gravações do nosso ao vivo. O disco reunirá todas as nossas músicas mais famosas, de Tour de France a Radioactivity.
Ciao – Então, apesar de tudo, vai sair um álbum ao vivo...
Ralf Hütter – Acho que sim. Será um mix do que vocês ouviram nos concertos italianos.
Ciao – Falando do início de vocês, sei que vêm de formação musical clássica. O que você lembra das aulas no Conservatório de Düsseldorf?
Ralf Hütter – Eram normais, voltadas para pessoas da alta burguesia.
Ciao – Naquela época vocês já tocavam instrumentos eletrônicos?
Ralf Hütter – Não, tocávamos instrumentos acústicos. Só mais tarde abandonamos esse tipo de música e nos dedicamos à eletrônica contemporânea. Vivendo na Alemanha, na região do Ruhr, caracterizada pelas numerosas indústrias metalúrgicas, nossa música representa a trilha sonora do cotidiano. Nossas composições, no entanto, não são desprovidas de um pano de fundo cultural que parte da música clássica alemã, especialmente Beethoven. Por outro lado, há também referência à música eletrônica de Stockhausen, embora nunca tenhamos tido contato pessoal com ele. Esses foram os pontos de partida para desenvolvermos os ritmos industriais. Nossa música é mais normal e dinâmica em comparação à dos Tangerine Dream, que é contemplativa e meditativa.
Ciao – Antes você definiu sua música como “trilha sonora do cotidiano... para desenvolver os ritmos industriais”; essas ideias já haviam sido expostas pelo futurismo. O que vocês herdaram daquele movimento?
Ralf Hütter – Nos interessavam a velocidade, o movimento e a teoria de A arte dos ruídos, de Luigi Russolo, que deu início à pesquisa musical de vanguarda. É aí que podemos situar o começo da música dos ruídos, e é a essa família espiritual que nos sentimos idealmente ligados.
Ciao – Do que vocês mais foram influenciados no começo da carreira?
Ralf Hütter – Da vida cotidiana.
Ciao – Como se conecta o seu primeiro lançamento discográfico como Organisation com o nascimento do Kraftwerk?
Ralf Hütter – Foi um período em que o grupo mudava sempre. Uma vez fazíamos uma coisa, outra vez outra. Tanto eu quanto Florian tocávamos com muitos músicos. Em 1970, construímos os estúdios Kling Klang, e foi daí que nasceu o Kraftwerk.
Ciao – Que resultados vocês alcançaram usando os equipamentos dos estúdios Kling Klang?
Ralf Hütter – É tudo digital, analógico-digital e computadorizado. Isso nos permite reproduzir qualquer tipo de som e compor o que chamamos de música contemporânea.
Ciao – Qual é a relação entre a música e as imagens computadorizadas que aparecem nos seus vídeos?
Ralf Hütter – Não gostamos de nos limitar apenas à música: somos multimídia. Há uma conexão estreita entre música e imagem. Através das experiências que tivemos trabalhando com profissionais do New York Institute of Technology, conseguimos criar um diálogo entre elas. Criamos vídeos baseados justamente nessa relação.
Ciao – Os shows que vocês apresentaram na Alemanha são semelhantes aos que fizeram na Itália?
Ralf Hütter – Sim, mas atualizados conforme nossas necessidades atuais, porque estamos sempre trabalhando e tudo é constantemente renovado.
Ciao – No início, a crítica musical colocou vocês entre os artistas da cosmic music...
Ralf Hütter – Já mencionei isso antes, ao falar do Tangerine Dream e da nossa diferença. Na época, os críticos não tinham entendido que o Kraftwerk não fazia música cósmica, mas música terrestre. É verdade que a Terra faz parte do cosmo, mas fazemos música ligada à urbanização. A geografia musical alemã é muito variada: cada centro como Munique, Frankfurt, Colônia, Düsseldorf, Berlim, criou sua própria música. Nós, por exemplo, pertencemos a Düsseldorf e ao mundo industrial dessa cidade.
Ciao – Seguindo seu raciocínio, qual foi a influência de Munique na produção de Giorgio Moroder, que inclusive assimilou muitas das suas experimentações?
Ralf Hütter – Munique está mais voltada à música disco e é mais próxima da música de lazer de Los Angeles.
Ciao – Até que ponto a tecnologia é importante para a sua vida musical?
Ralf Hütter – Os sons sintetizados, computadorizados e a telemática são a nossa vida: queremos fazer um tipo de música que fale por si só, que seja transparente e una arte e tecnologia, como já acontecia nos anos 1920, na época da Bauhaus de Weimar. Desde então, o progresso tecnológico avançou muito rapidamente e hoje podemos nos considerar pessoas afortunadas, pois conseguimos até nos deslocar junto com nosso estúdio de gravação. Nosso pequeno mundo de computadores nos permite compor e gravar ao mesmo tempo em qualquer lugar onde estejamos.
Ciao – Muitos artistas, entre eles David Bowie, John Foxx e Gary Numan, afirmaram ter sido influenciados por vocês. O que pensam deles?
Ralf Hütter – Esses artistas desenvolveram sua própria versão da eletrônica contemporânea. Hoje, o efeito de feedback eletrônico faz com que muitos grupos se aproximem desse modo de fazer música, especialmente a black music com o som techno de Detroit.
Ciao – Em 1977 o punk renegou todos os outros tipos de música, inclusive a de vocês. Qual foi sua avaliação daquele fenômeno?
Ralf Hütter – O punk foi mais um movimento, nunca foi interessante para nós, porque não se podem criar sons novos com instrumentos antiquados. Mesmo naquele período, seguimos sempre nosso próprio caminho.
Ciao – Qual será o futuro da sua música e da música alemã?
Ralf Hütter – O futuro começa hoje. Existem muitos grupos jovens crescendo, inclusive alguns jovens negros amadores. Essas bandas são muito afortunadas, enquanto nós precisávamos de uma formação muito variada e extensa. Eles só precisam aprender a usar o computador e os pequenos teclados eletrônicos. Acho isso muito positivo.
Ciao – As críticas mais frequentes contra vocês dizem que sua música é fria e sem sentimento...
Ralf Hütter – Essas acusações foram feitas, ou ainda são feitas, por pessoas que não se conhecem. São baseadas em falsidades iniciais e não as consideramos aceitáveis. Além disso, se escutássemos tudo o que dizem nossos inimigos, entraríamos em paranoia. Só depois de agir e mudar as situações é que se pode parar para escutar. Nós fizemos a música verdadeira — assim como existe o cinéma vérité, fazemos a musique verité, porque todos somos robôs. Em nossos shows, apresentamos situações reais em forma de pequenas sinfonias, como Autobahn ou Trans Europe Express.
Entrevista por Giuseppe Cavazzoni
Entrevista a Mark Dery
Sound Check: Por que você decidiu seguir um novo caminho? Houve algum desentendimento à beira do Reno?
Karl Bartos: Não, nenhum desentendimento, mas para mim era hora de sair daquela situação de trabalho muito autista. Passamos anos reclusos trabalhando na nossa música, girando botões de sintetizadores atrás de portas de estúdio hermeticamente fechadas, sem contato com outros músicos.
Sound Check: Mas houve tentativas externas de contato, certo?
Karl Bartos: Sim, claro. David Bowie já queria colaborar conosco nos anos 70. Naquela época, ele morava em Berlim e estava profundamente envolvido com a Alemanha dividida. Isso foi em 76/77, na época da produção de "Heroes". Bowie gostaria de ter feito sua turnê mundial conosco. Mas essa cooperação não se encaixava no conceito do Kraftwerk. Sempre lamentei isso.
Sound Check: Então essa política permanente de isolamento foi o motivo da sua saída? Houve sim um desentendimento?
Karl Bartos: Não, realmente não. Mas o álbum atual, The Mix, é uma seleção do nosso trabalho dos últimos 15 anos. Uma espécie de retrospectiva transversal e, ao mesmo tempo, um ponto final. Ainda assim, a produção levou cinco anos novamente — o que, apesar de todo o cuidado e rigor técnico, é simplesmente tempo demais. Para mim, os anos 90 representam conceitos abertos e rápidos.
Sound Check: O que isso quer dizer?
Karl Bartos: Sou muito curioso, também com relação a novas abordagens. Para mim, o capítulo do techno-pop está longe de ter terminado. Antigamente, sempre enfrentávamos o problema de as pessoas olharem com desconfiança para nosso "modo de produção em linha de montagem". Hoje, todo mundo trabalha assim, e ninguém mais fala de sons frios de sintetizador ou de música de sequenciador sem alma. Todos usam computadores, aplicam parâmetros de groove e adoram uma boa interface de usuário. Vejo muitos paralelos nisso.
Sound Check: Por que o fluxo de informações vindo do Kraftwerk sempre foi tão escasso? As razões para a sua saída e a de Wolfgang Flür não foram esclarecidas...
Karl Bartos: Isso faz parte do conceito do Kraftwerk. Sem comunicação, sem informação — só o produto importa. Tem que se levar isso a sério, senão se torna algo sem credibilidade. Kraftwerk é uma instituição — como quando você ouve o nome Siemens e não pensa no gerente do departamento em Gelsenkirchen, mas sim numa corporação. Os robôs representam bem isso. Eu também fui um robô por 15 anos, até descobrir alguns erros no programa e abrir um novo subdiretório — que agora se chama Electric Music.
Sound Check: Como você se tornou um "kraftwerker"?
Karl Bartos: Quando Autobahn entrou nas paradas em 1975, eu ainda estudava percussão no Instituto Robert Schumann, em Düsseldorf. O Kraftwerk estava procurando um percussionista para a turnê pelos EUA e simplesmente perguntaram ao meu professor.
Sound Check: E ele te recomendou?
Karl Bartos: Sim, e então viajamos por dez semanas em um ônibus pequeno cruzando os Estados Unidos. Tocamos em clubes pequenos no sul, mas também na Broadway.
Sound Check: E como foi a recepção?
Karl Bartos: Na época, nos apresentávamos como um quarteto de cordas eletrônico, e para muitos parecia que tínhamos vindo de outro planeta. Tocávamos instrumentos que ninguém tinha visto antes. Minha bateria eletrônica, do tamanho de uma caixa de charutos, devia parecer ficção científica para o público americano, muito ligado ao rock.
Sound Check: Trabalhar com instrumentos eletrônicos foi uma grande mudança para você?
Karl Bartos: A música erudita (E-Musik) já vinha mudando para a eletrônica desde a Segunda Guerra Mundial. Especialmente como percussionista, você tem acesso a esse repertório e às técnicas de performance associadas. Eu já estava familiarizado com esse tipo de som, afinal, estava perto de concluir meu exame final.
Sound Check: Você se refere às obras de Karlheinz Stockhausen, John Cage ou Mauricio Kagel?
Karl Bartos: Claro. Na época, interpretei peças como Kontakte ou Kurzwellen, de Stockhausen — que não têm mais nada a ver com as técnicas clássicas de percussão. Você trabalha com fita magnética e receptores de ondas curtas, em vez de triângulo e ganzá.
Sound Check: Como vocês trabalhavam no estúdio Kling Klang? É verdade a anedota de que vocês iam para o estúdio em "turnos regulares", como operários?
Karl Bartos: O encontro diário no estúdio ao longo dos anos pode mesmo ser chamado de ritual. E claro, consumimos incontáveis taças de sorvete. Para mim, era algo como um círculo mágico.
Sound Check: Como era o trabalho em si? Qual era a sua função?
Karl Bartos: Não havia áreas de trabalho bem definidas. Era mais como uma grande improvisação coletiva, com troca constante de instrumentos. Todo mundo apertava, batia ou girava algo em algum lugar...
Sound Check: E nunca houve falhas?
Karl Bartos: Claro que sim, mas na verdade, os sons e ritmos mais bonitos e estranhos surgiram de falhas ou mau funcionamento das máquinas. Especialmente os antigos aparelhos analógicos às vezes criam sua própria ideia de música. Você liga um sintetizador e ele faz "bloop", depois sai para comer, e quando volta, o som mudou por causa da temperatura, e ele faz "bleep". E às vezes, gravávamos exatamente no momento certo, ao apertar o botão vermelho de gravação.
Sound Check: Em breve você também vai atuar como produtor?
Karl Bartos: Já existem projetos que me interessam. No momento estou aberto a tudo. Estamos testando vários níveis — isso pode significar colaborar com outros músicos e produtores, ou com uma gravadora. Já recebi ofertas concretas dos EUA, da Inglaterra e da Bélgica. Mas por enquanto não quero revelar mais nada.
Sound Check: Circulam boatos sobre uma colaboração com o The KLF...
Karl Bartos: Eu adoro rumores — mas a banda jovem com quem estou trabalhando no estúdio no momento não é o The KLF.
![]() | |
| The Mix - Katalog |
![]() |
| Input Data |
![]() |
| Robôs Mixando. |
![]() |
| Comunicação |