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quinta-feira, 10 de julho de 2025

Ralf HUtter — Entrevista — Sound Check Magazine – Setembro de 1991

 


Sound Check Magazine – Ralf Hütter – Setembro de 1991:


Sound Check: Com Fritz Hilpert e o português Fernando Fromm-Abrantes, dois novos integrantes da Kraftwerk substituem Wolfgang Flür e Karl Bartos. Há poucos dias até circularam rumores de dissolução...
Ralf Hütter: Ah, que nada, isso é tudo bobagem! É besteira. Não, eram apenas alguns ex-colaboradores nossos. Florian Schneider e eu trabalhamos juntos há 23 anos, sempre com diferentes colaboradores e músicos — nem sei quantos. Agora são um engenheiro de computação e outro músico, e talvez, no futuro, tenhamos ainda mais músicos.

Sound Check: O que vocês usam no palco da Kraftwerk?
Ralf Hütter: Temos a tecnologia mais recente de estúdio, ou seja, um estúdio sem fitas — nada mais de fitas. Tudo é controlado por computador, drive de disco óptico, Synclavier e vários racks com equipamentos de processamento de som...

Sound Check: Por exemplo?
Ralf Hütter: Eu não sou o engenheiro — esse é o engenheiro musical — mas são efeitos sonoros, modulações, ecos, espaços, reverberações, sequenciadores.

Sound Check: Mas ainda há possibilidade de interferir ao vivo?
Ralf Hütter: Sim, sim. Só está tocando um arranjo que podemos chamar e podemos acrescentar ou diminuir elementos. Acho que isso fica claro: de repente, interferimos e surgem novos eventos. Ou, como em “Taschenrechner” (“Calculadora”), usamos uma mini eletrônica, mini-teclados, com os quais controlamos todos os sons, e meus colegas também têm outras mini unidades de controle para disparar ou não os sons. Isso permite um certo grau de espontaneidade.

Sound Check: Qual é o papel do público nisso?
Ralf Hütter: (reflete um longo tempo) Alguém disse que apresentamos nossa música como cinema tridimensional, ou seja, cinema mais atores na frente da tela. Então tudo acontece de forma bastante completa — é uma presença só. A vibração do público, por exemplo em Londres, a empolgação, isso realmente chega até nós.

Sound Check: Vocês não sentem vontade de entrar na dança, acompanhar o ritmo no palco? Afinal, quase não há movimento no palco...
Ralf Hütter: Não dá, porque aí perderíamos o controle fino dos nossos botões. Você poderia apertar a tecla errada, e algumas são muito pequenas. É como na aviação: num jumbo-jet controlado por computador você provavelmente não pode puxar o manche tão bruscamente quanto num pequeno avião esportivo.

Sound Check: O que motivou vocês a fazer algo de novo? O último álbum saiu em 1986, a última turnê real foi em 1981. Agora há The Mix, uma espécie de releitura do próprio passado com meios atuais — isso teve algum gatilho concreto?
Ralf Hütter: Não, estamos sempre trabalhando no estúdio Kling Klang, sempre nesse conceito Kraftwerk. Agora transferimos todo o nosso programa musical para a plataforma digital. Não usamos mais fitas. Isso tomou muito tempo, e programamos os computadores pensando nessa performance, nesses shows. Durante esse trabalho, reprogramamos as músicas e as fizemos em nova versão. The Mix é praticamente um álbum ao vivo, porque é exatamente o que fazemos ao vivo: mixar e moldar os sons, distribuir os elementos. Esse conceito de “mix” é praticamente um disco ao vivo, como fazemos no show, embora já tenha mudado um pouco. Dá para perceber a mudança.

Sound Check: Você não gosta de chamar os trabalhos da Kraftwerk de “canções”, não é?
Ralf Hütter: Não, para mim “canção” lembra aqueles menestréis medievais. É mais composição, juntar sons.

Sound Check: Ou seja, composição sonora, como você prefere chamar?
Ralf Hütter: Sim, juntar sons, isso define bem. Aí aparecem várias vozes, vozes de computador, máquina de escrever cantando, vozes fonéticas, vozes artificiais, completamente sintéticas de personagens inexistentes, e eu uso minha voz para fazer a voz humana, um tipo de canto falado.

Sound Check: Depois de terminar The Mix, você fez mais mixagens em Nova York e Londres. Isso é uma ambição cosmopolita da banda?
Ralf Hütter: Sim!

Sound Check: Um requisito que a banda coloca para si mesma?
Ralf Hütter: Não, isso já existe. E hoje, com transferência de dados e modem — você pode se conectar e enviar os sons diretamente, enviar anotações por fax, tocar o telefone, até fazer uma espécie de mixagem à distância, ouvir junto, um meio de comunicação. Isso é fantástico, poder fazer assim hoje. Não é preciso carregar tanta coisa.

Sound Check: A Kraftwerk sempre fez música futurista...
Ralf Hütter: O presente do futuro!

Sound Check: Como é o presente do futuro nos anos 90? Onde você vê o futuro que a Kraftwerk provavelmente vai antecipar? Já tem alguma ideia na cabeça?
Ralf Hütter: No momento ainda está meio embrionário, eu ainda não entendi bem — mas já sinto que algo está chegando. É, com certeza, muito excitante fazer música hoje, com todos esses acessos disponíveis para quem trabalha com isso. Há 100 anos, por exemplo, era preciso ter orquestras grandes e príncipes para bancar — não gostaria de estar na pele de um criativo daquela época. Hoje, com aparelhos compactos e novos dispositivos pequenos, que também são relativamente baratos, você tem fácil acesso, pode começar e sair fazendo, e isso muita gente faz, música caseira. Você só tem que estar aberto às ideias — o mundo das ideias!

Sound Check: Muita coisa mudou tecnicamente nos últimos dez anos desde a última turnê da Kraftwerk. O que isso trouxe para a banda? Como você avalia essa evolução?
Ralf Hütter: Basicamente, foi a transição do meio analógico para o digital.

Sound Check: Mas vocês ainda usam sons analógicos?
Ralf Hütter: Claro. Temos todos os sintetizadores Kraftwerk de cada fase. Então, temos uma coleção de sintetizadores Kraftwerk de todas as fases, e hoje alguns deles voltaram a ser muito valiosos.


Entrevista com Philipp Roser

terça-feira, 8 de julho de 2025

Ralf Hütter — Ciao Magazine — Setembro — 1991


 Entrevista com Ralf Hütter publicada na revista Ciao Magazine em setembro de 1991 (versão italiana):


Ciao Magazine – Quando nos encontramos na Itália, vocês manifestaram a intenção de lançar um álbum ao vivo. Depois saiu a coletânea. E agora?

Ralf Hütter – A verdade é que as faixas de The Mix foram pensadas e remixadas para se tornarem um álbum ao vivo. No sentido de que também foram retrabalhadas digitalmente e tratadas com amostragens criadas a partir das antigas gravações dessas mesmas músicas. Começamos por Autobahn, eliminando o material dos três primeiros discos porque há anos não tocamos mais essas músicas ao vivo. Obviamente, faixas como The Model foram sacrificadas, pois não era possível incluir toda a nossa produção mais relevante — mas isso pode significar que em breve uma segunda coletânea poderá ser lançada. Os shows na Itália e na Alemanha serviram como primeiro banco de ensaio para experimentar e aprimorar nosso som. Para isso, levamos sempre conosco os equipamentos dos estúdios Kling Klang, que reduzimos e transformamos em um estúdio compacto e transportável. Após terminarmos a mini-turnê na Itália, voltamos para a Alemanha para fazer mais algumas datas e, em Düsseldorf, finalizamos as gravações do nosso ao vivo. O disco reunirá todas as nossas músicas mais famosas, de Tour de France a Radioactivity.

Ciao – Então, apesar de tudo, vai sair um álbum ao vivo...

Ralf Hütter – Acho que sim. Será um mix do que vocês ouviram nos concertos italianos.

Ciao – Falando do início de vocês, sei que vêm de formação musical clássica. O que você lembra das aulas no Conservatório de Düsseldorf?

Ralf Hütter – Eram normais, voltadas para pessoas da alta burguesia.

Ciao – Naquela época vocês já tocavam instrumentos eletrônicos?

Ralf Hütter – Não, tocávamos instrumentos acústicos. Só mais tarde abandonamos esse tipo de música e nos dedicamos à eletrônica contemporânea. Vivendo na Alemanha, na região do Ruhr, caracterizada pelas numerosas indústrias metalúrgicas, nossa música representa a trilha sonora do cotidiano. Nossas composições, no entanto, não são desprovidas de um pano de fundo cultural que parte da música clássica alemã, especialmente Beethoven. Por outro lado, há também referência à música eletrônica de Stockhausen, embora nunca tenhamos tido contato pessoal com ele. Esses foram os pontos de partida para desenvolvermos os ritmos industriais. Nossa música é mais normal e dinâmica em comparação à dos Tangerine Dream, que é contemplativa e meditativa.

Ciao – Antes você definiu sua música como “trilha sonora do cotidiano... para desenvolver os ritmos industriais”; essas ideias já haviam sido expostas pelo futurismo. O que vocês herdaram daquele movimento?

Ralf Hütter – Nos interessavam a velocidade, o movimento e a teoria de A arte dos ruídos, de Luigi Russolo, que deu início à pesquisa musical de vanguarda. É aí que podemos situar o começo da música dos ruídos, e é a essa família espiritual que nos sentimos idealmente ligados.

Ciao – Do que vocês mais foram influenciados no começo da carreira?

Ralf Hütter – Da vida cotidiana.

Ciao – Como se conecta o seu primeiro lançamento discográfico como Organisation com o nascimento do Kraftwerk?

Ralf Hütter – Foi um período em que o grupo mudava sempre. Uma vez fazíamos uma coisa, outra vez outra. Tanto eu quanto Florian tocávamos com muitos músicos. Em 1970, construímos os estúdios Kling Klang, e foi daí que nasceu o Kraftwerk.

Ciao – Que resultados vocês alcançaram usando os equipamentos dos estúdios Kling Klang?

Ralf Hütter – É tudo digital, analógico-digital e computadorizado. Isso nos permite reproduzir qualquer tipo de som e compor o que chamamos de música contemporânea.

Ciao – Qual é a relação entre a música e as imagens computadorizadas que aparecem nos seus vídeos?

Ralf Hütter – Não gostamos de nos limitar apenas à música: somos multimídia. Há uma conexão estreita entre música e imagem. Através das experiências que tivemos trabalhando com profissionais do New York Institute of Technology, conseguimos criar um diálogo entre elas. Criamos vídeos baseados justamente nessa relação.

Ciao – Os shows que vocês apresentaram na Alemanha são semelhantes aos que fizeram na Itália?

Ralf Hütter – Sim, mas atualizados conforme nossas necessidades atuais, porque estamos sempre trabalhando e tudo é constantemente renovado.

Ciao – No início, a crítica musical colocou vocês entre os artistas da cosmic music...

Ralf Hütter – Já mencionei isso antes, ao falar do Tangerine Dream e da nossa diferença. Na época, os críticos não tinham entendido que o Kraftwerk não fazia música cósmica, mas música terrestre. É verdade que a Terra faz parte do cosmo, mas fazemos música ligada à urbanização. A geografia musical alemã é muito variada: cada centro como Munique, Frankfurt, Colônia, Düsseldorf, Berlim, criou sua própria música. Nós, por exemplo, pertencemos a Düsseldorf e ao mundo industrial dessa cidade.

Ciao – Seguindo seu raciocínio, qual foi a influência de Munique na produção de Giorgio Moroder, que inclusive assimilou muitas das suas experimentações?

Ralf Hütter – Munique está mais voltada à música disco e é mais próxima da música de lazer de Los Angeles.

Ciao – Até que ponto a tecnologia é importante para a sua vida musical?

Ralf Hütter – Os sons sintetizados, computadorizados e a telemática são a nossa vida: queremos fazer um tipo de música que fale por si só, que seja transparente e una arte e tecnologia, como já acontecia nos anos 1920, na época da Bauhaus de Weimar. Desde então, o progresso tecnológico avançou muito rapidamente e hoje podemos nos considerar pessoas afortunadas, pois conseguimos até nos deslocar junto com nosso estúdio de gravação. Nosso pequeno mundo de computadores nos permite compor e gravar ao mesmo tempo em qualquer lugar onde estejamos.

Ciao – Muitos artistas, entre eles David Bowie, John Foxx e Gary Numan, afirmaram ter sido influenciados por vocês. O que pensam deles?

Ralf Hütter – Esses artistas desenvolveram sua própria versão da eletrônica contemporânea. Hoje, o efeito de feedback eletrônico faz com que muitos grupos se aproximem desse modo de fazer música, especialmente a black music com o som techno de Detroit.

Ciao – Em 1977 o punk renegou todos os outros tipos de música, inclusive a de vocês. Qual foi sua avaliação daquele fenômeno?

Ralf Hütter – O punk foi mais um movimento, nunca foi interessante para nós, porque não se podem criar sons novos com instrumentos antiquados. Mesmo naquele período, seguimos sempre nosso próprio caminho.

Ciao – Qual será o futuro da sua música e da música alemã?

Ralf Hütter – O futuro começa hoje. Existem muitos grupos jovens crescendo, inclusive alguns jovens negros amadores. Essas bandas são muito afortunadas, enquanto nós precisávamos de uma formação muito variada e extensa. Eles só precisam aprender a usar o computador e os pequenos teclados eletrônicos. Acho isso muito positivo.

Ciao – As críticas mais frequentes contra vocês dizem que sua música é fria e sem sentimento...

Ralf Hütter – Essas acusações foram feitas, ou ainda são feitas, por pessoas que não se conhecem. São baseadas em falsidades iniciais e não as consideramos aceitáveis. Além disso, se escutássemos tudo o que dizem nossos inimigos, entraríamos em paranoia. Só depois de agir e mudar as situações é que se pode parar para escutar. Nós fizemos a música verdadeira — assim como existe o cinéma vérité, fazemos a musique verité, porque todos somos robôs. Em nossos shows, apresentamos situações reais em forma de pequenas sinfonias, como Autobahn ou Trans Europe Express.

Entrevista por Giuseppe Cavazzoni

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Ralf Hütter — Entrevista — Keyboard Magazine — Outubro — 1991

 


Entrevista com Ralf Hütter publicada na Keyboard Magazine em outubro de 1991:


Keyboard – Essa é sua primeira turnê em quase uma década. Por que agora?

Ralf Hütter – Bem, estivemos trabalhando no nosso estúdio Kling Klang, e agora está tudo digitalizado e nossos computadores estão funcionando. Levou um bom tempo para conseguirmos montar essa música. Pela primeira vez, agora conseguimos apresentá-la ao vivo da maneira como a ouvimos.

Keyboard – As músicas de The Mix não são remixes, estritamente falando. O press release da Elektra as chama de “reinvenções”.

Ralf Hütter – Não usamos mais fitas, tudo está armazenado digitalmente e controlado por computador. Usamos todo o nosso catálogo dos últimos 20 anos, sampleando os sons analógicos originais das fitas master de 16 canais. Escolhemos os sons que achamos únicos, ou insubstituíveis, ou talvez apenas em boa forma (risos), e outros nós mudamos ou alteramos. Estávamos interessados em usar sons originais antigos, de nossas velhas máquinas analógicas caseiras, adaptando tudo tecnicamente para os anos 90. É apenas uma mistura de sons sampleados dos masters antigos, além de novos sons eletrônicos completamente sintéticos. Tudo é remontado. Para nós, mixar é a forma de arte de fazer música hoje.

Keyboard – Vocês tiveram grande influência na música de dança americana, particularmente no techno de Detroit.

Ralf Hütter – Tocamos em Detroit em 1981, acho, e ficamos surpresos com a recepção calorosa do público das pistas de dança. Lembro que as pessoas ficaram surpresas por termos tantos fãs negros e latinos. Infelizmente, a turnê foi marcada muito espontaneamente, porque ninguém achava que haveria interesse, então tudo o que conseguimos fazer na época foi adicionar mais alguns shows e voar pelos EUA. Como viajávamos tão rápido, nunca conseguimos consolidar esse público negro ou latino. Simplesmente aconteceu. Ficamos muito surpresos na época. Antes, éramos vistos como uma banda muito europeia. Mas sempre houve um movimento disco forte na Europa, e sempre fomos fanáticos por dança, com nossas pequenas danças robóticas. Foi muito encorajador receber uma reação tão forte na América. Antes disso, o circuito do rock’n’roll sempre teve certa resistência à eletrônica. Estavam presos à fórmula da guitarra, enquanto o público das pistas era muito mais aberto aos sons modernos. Aí, em 1982, Afrika Bambaataa fez a versão dele de “Trans Europe Express”, que foi ótima — uma combinação muito boa do nosso tipo de música eletro com rap. É uma mistura de culturas diferentes, e sempre gostamos disso.

Keyboard – Foi por isso que decidiram refazer suas músicas antigas em estilo house em The Mix?

Ralf Hütter – Isso foi apenas um desenvolvimento natural da nossa música. Sempre tivemos essas bases de bateria eletrônica, mesmo antes da Roland TR-808 ganhar destaque, usando pequenas caixas de ritmo e gatilhos de bateria eletrônicos caseiros nos anos 70, quando trabalhávamos com um engenheiro que desenvolveu esses pads para que pudéssemos ser uma banda sem baterista. É só uma questão de tudo ter se unido.

Keyboard – Vocês falam com frequência sobre o interesse em ritmos — especificamente, ritmos de dança — mas seus ritmos não são exatamente o que a maioria chamaria de “funkados”. Como vocês conciliam essa fascinação por padrões staccato rígidos com o desejo declarado de criar grooves dançantes e funky?

Ralf Hütter – Para nós, máquinas são funky. Algumas geram loops rítmicos por acidente, outras são programadas para tocar uma batida. Nossa música é eletrônica, mas gostamos de pensar nela como música étnica da área industrial alemã — música folclórica industrial. Para nós, tem a ver com a fascinação por tudo ao nosso redor, tentando incorporar o ambiente industrial à nossa música. Vindo de uma formação clássica, ficamos bastante entediados com o passado e começamos a ouvir o presente. As máquinas, essas ferramentas para fazer música estavam ali, e pensamos: por que não usá-las? Nossa tradição aqui havia sido quebrada, bombardeada. De um lado havia a tradição antiga — música clássica, toda aquela música de marcha para a geração anterior. E do outro, as coisas modernas construídas depois da guerra.

Keyboard – Vocês tomaram algumas decisões interessantes em The Mix, uma das quais foi mudar “Autobahn” de um ritmo staccato reto para um groove em tercinas. O que motivou isso?

Ralf Hütter – Algumas dessas músicas estão conosco há muito tempo, e é assim que as temos tocado ao vivo. Mudamos as coisas de cidade para cidade, de país para país. Com “Autobahn”, às vezes dirigimos um pouco mais rápido, às vezes mais devagar, dependendo do limite de velocidade.

Keyboard – As buzinas de carro na seção do meio de “Autobahn” são sons sampleados ou aproximações analógicas?

Ralf Hütter – Em The Mix, elas foram sampleadas das fitas master originais de “Autobahn”. Não conseguimos recriá-las, pois tinham uma afinação especial, são acordes com trítonos, para soarem como buzinas de carro. Nunca conseguimos recapturar aquele som analógico — acho que foi feito num Moog ou num ARP — então apenas sampleamos os ruídos originais e usamos para criar algo chamado “hupenkonzert”. É uma expressão comum alemã que significa “concerto de buzinas” — em outras palavras, um engarrafamento, onde todos estão com raiva e buzinando. Então toquei um pequeno “hupenkonzert” ali. Usamos ruído branco para criar o som dos carros passando. Num trecho em que a letra diz, em alemão, “a estrada é uma fita cinza, com listras brancas e bordas verdes”, queríamos evocar a imagem do pneu cruzando essas listras brancas, então usamos uma explosão reversa de ruído branco.

Keyboard – Como foram criados os vocais distorcidos e subaquáticos dessa seção?

Ralf Hütter – Usamos um instrumento programável por computador que Florian construiu, chamado Robovox. Ele permite montar qualquer palavra a partir de fonemas pré-programados. É um coro mecânico, totalmente sintético. Queremos libertar a tecnologia para que ela fale por si só, e quando usamos o Robovox nessa música, é como se os carros estivessem falando com suas buzinas afinadas.

Keyboard – Você gostaria mesmo de viver num mundo em que todas as máquinas da sua vida, de eletrodomésticos a automóveis, falassem com você?

Ralf Hütter – Bem, elas já falam! Quando você abre os ouvidos, pode ouvir a música escondida no ambiente. É muito melhor do que ouvir só música, que é apenas ruído afinado, afinal. A paisagem industrial é fascinante. Mesmo as máquinas estão falando.

Keyboard – Quando você e Florian estudavam na Universidade de Düsseldorf, chegaram a ter contato com peças clássicas do século XX inspiradas na estética das máquinas, como a “Sinfonia das Máquinas” de Mossolov ou o “Ballet Mécanique” de Antheil?

Ralf Hütter – Claro, mas mais importante ainda, estávamos na região de Düsseldorf, que fica perto de Colônia, onde ficava o estúdio eletrônico usado por Stockhausen, e não tão longe dos estúdios franceses onde Pierre Boulez trabalhava. Era comum, desde bem jovens, ir ouvir Stockhausen. A cena artística e musical, especialmente a eletrônica, era bem acessível, havia vários programas de rádio com música eletrônica estranha. Então tínhamos acesso a tudo isso, fez parte da nossa formação, da nossa educação. Sempre nos consideramos a segunda geração de exploradores eletrônicos, depois de Stockhausen.

Keyboard – Por sua vez, vocês influenciaram fortemente o que se poderia chamar de terceira geração de artistas eletrônicos — como as bandas Visage, Depeche Mode, e também David Bowie em sua fase berlinense.

Ralf Hütter – Acho que influenciamos Bowie, pelo menos foi o que ele nos disse. Ele contou que, quando chegou à Alemanha, ouvia “Autobahn” o tempo todo no rádio do carro. Nos encontramos na Alemanha, quando ele procurava um lugar para trabalhar, e sugerimos que tentasse Berlim. Então fornecemos uma inspiração de certo tipo — uma espiritualidade eletrônica! Quanto aos artistas britânicos que você mencionou, fizemos várias turnês longas na Inglaterra, onde conhecemos alguns desses músicos em clubes. Para nós, foi maravilhoso ver esse tipo de interesse. Antes, sempre fomos considerados outsiders, e de repente estávamos por dentro.

Keyboard – Sua declaração na edição de março de 1982 da Keyboard, de que vocês fazem “música para alto-falantes”, é inquietantemente parecida com a observação de Joseph Goebbels de que os nazistas não teriam chegado ao poder sem o alto-falante. Existe um perigo inerente nesse seu fetichismo tecnológico?

Ralf Hütter – Bem, isso sempre existiu, desde a invenção da faca, que pode ser usada para fatiar pão ou matar seu vizinho. Não vejo a tecnologia moderna como algo tão diferente. Para nós, qualquer perigo tem mais a ver com a situação psicológica entre homem e máquina. Tentamos trabalhar do nosso lado, desenvolvendo uma atitude mais amigável com as máquinas, e, como resultado, elas sempre foram muito amigáveis conosco. Pelo menos nunca tomamos choque ou sofremos acidentes.

Keyboard – Vocês trarão dois novos membros para a turnê americana de setembro.

Ralf Hütter – Na verdade, já conhecemos eles — Fritz Hilpert e Fernando Abrantes — como engenheiros eletrônicos há alguns anos. Eles vão fazer percussão e controlar os equipamentos, e Florian e eu vamos programar nossos robôs e fazer a mixagem. Usaremos projeções de vídeo em uma grande tela, com imagens geradas por computador que correspondem às músicas, junto com filmagens de “Autobahn”, do “Trans Europe Express” e trechos de nossos vídeos.

Keyboard – Como funcionam os robôs no palco?

Ralf Hütter – Eles são controlados por teclado. Um engenheiro alemão, conhecido do Florian, os programou. Normalmente ele trabalha com computadores de escritório e coisas assim, mas o convencemos a usar suas habilidades numa outra área. Os robôs são programados, mas podemos reprogramá-los. Veremos o quão confiáveis são e até onde conseguimos que improvisem.

Keyboard – Por que decidiram construir esses robôs em primeiro lugar?

Ralf Hütter – Temos essa composição, “The Robots”, do álbum The Man-Machine: “Somos programados apenas para fazer / Qualquer coisa que você quiser”. Antigamente, usávamos manequins de vitrine, mas eles não se moviam, então o próximo passo lógico foi ter robôs. Eles são feitos de plástico, com braços de metal e nossos rostos remodelados. São idênticos, embora talvez desenvolvam um pouco mais de individualidade ao longo da turnê.

Keyboard – De Hardware a Robocop e O Exterminador do Futuro, a cultura pop parece obcecada por robôs. Por quê?

Ralf Hütter – Porque são máquinas muito próximas do ser humano, tanto na aparência quanto no comportamento. Todo o nosso trabalho trata dessa relação próxima entre homem e máquina. Por isso escrevemos a música “The Robots”. Não nos sentimos alienados, porque passamos muitos anos tentando estabelecer uma relação mais próxima com as máquinas, uma abordagem mais holística do que apenas vê-las como coisas externas, como armas de agressão ou algo assim — mas sim como extensões de nós mesmos. E, em troca, recebemos muito retorno delas, e isso nos fascina.

Keyboard – Vocês se interessam por realidade virtual e outros desenvolvimentos cibernéticos recentes?

Ralf Hütter – Sim, de certa forma. Seria maravilhoso incorporar realidade virtual às nossas apresentações. Quando formos à América, gostaríamos de conhecer algumas das pessoas da Califórnia que estão desenvolvendo essa tecnologia. Sabe, quando ouvi o termo “realidade virtual” pela primeira vez, pensei que, para mim, a música sempre foi como uma realidade virtual. Com algo como “Autobahn”, você pode realmente ver a paisagem enquanto ouve, porque nossa música tem uma qualidade muito visual. Então, quando li sobre realidade virtual e sobre pessoas entrando em mundos gerados por computador, pensei: “Fazemos isso com música há anos”.

Entrevista a Mark Dery

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Karl Bartos — Entrevista — Sound Check — Setembro — 1991:


 Entrevista de Karl Bartos à revista Sound Check, publicada em setembro de 1991:

Sound Check: Por que você decidiu seguir um novo caminho? Houve algum desentendimento à beira do Reno?

Karl Bartos: Não, nenhum desentendimento, mas para mim era hora de sair daquela situação de trabalho muito autista. Passamos anos reclusos trabalhando na nossa música, girando botões de sintetizadores atrás de portas de estúdio hermeticamente fechadas, sem contato com outros músicos.

Sound Check: Mas houve tentativas externas de contato, certo?

Karl Bartos: Sim, claro. David Bowie já queria colaborar conosco nos anos 70. Naquela época, ele morava em Berlim e estava profundamente envolvido com a Alemanha dividida. Isso foi em 76/77, na época da produção de "Heroes". Bowie gostaria de ter feito sua turnê mundial conosco. Mas essa cooperação não se encaixava no conceito do Kraftwerk. Sempre lamentei isso.

Sound Check: Então essa política permanente de isolamento foi o motivo da sua saída? Houve sim um desentendimento?

Karl Bartos: Não, realmente não. Mas o álbum atual, The Mix, é uma seleção do nosso trabalho dos últimos 15 anos. Uma espécie de retrospectiva transversal e, ao mesmo tempo, um ponto final. Ainda assim, a produção levou cinco anos novamente — o que, apesar de todo o cuidado e rigor técnico, é simplesmente tempo demais. Para mim, os anos 90 representam conceitos abertos e rápidos.

Sound Check: O que isso quer dizer?

Karl Bartos: Sou muito curioso, também com relação a novas abordagens. Para mim, o capítulo do techno-pop está longe de ter terminado. Antigamente, sempre enfrentávamos o problema de as pessoas olharem com desconfiança para nosso "modo de produção em linha de montagem". Hoje, todo mundo trabalha assim, e ninguém mais fala de sons frios de sintetizador ou de música de sequenciador sem alma. Todos usam computadores, aplicam parâmetros de groove e adoram uma boa interface de usuário. Vejo muitos paralelos nisso.

Sound Check: Por que o fluxo de informações vindo do Kraftwerk sempre foi tão escasso? As razões para a sua saída e a de Wolfgang Flür não foram esclarecidas...

Karl Bartos: Isso faz parte do conceito do Kraftwerk. Sem comunicação, sem informação — só o produto importa. Tem que se levar isso a sério, senão se torna algo sem credibilidade. Kraftwerk é uma instituição — como quando você ouve o nome Siemens e não pensa no gerente do departamento em Gelsenkirchen, mas sim numa corporação. Os robôs representam bem isso. Eu também fui um robô por 15 anos, até descobrir alguns erros no programa e abrir um novo subdiretório — que agora se chama Electric Music.

Sound Check: Como você se tornou um "kraftwerker"?

Karl Bartos: Quando Autobahn entrou nas paradas em 1975, eu ainda estudava percussão no Instituto Robert Schumann, em Düsseldorf. O Kraftwerk estava procurando um percussionista para a turnê pelos EUA e simplesmente perguntaram ao meu professor.

Sound Check: E ele te recomendou?

Karl Bartos: Sim, e então viajamos por dez semanas em um ônibus pequeno cruzando os Estados Unidos. Tocamos em clubes pequenos no sul, mas também na Broadway.

Sound Check: E como foi a recepção?

Karl Bartos: Na época, nos apresentávamos como um quarteto de cordas eletrônico, e para muitos parecia que tínhamos vindo de outro planeta. Tocávamos instrumentos que ninguém tinha visto antes. Minha bateria eletrônica, do tamanho de uma caixa de charutos, devia parecer ficção científica para o público americano, muito ligado ao rock.

Sound Check: Trabalhar com instrumentos eletrônicos foi uma grande mudança para você?

Karl Bartos: A música erudita (E-Musik) já vinha mudando para a eletrônica desde a Segunda Guerra Mundial. Especialmente como percussionista, você tem acesso a esse repertório e às técnicas de performance associadas. Eu já estava familiarizado com esse tipo de som, afinal, estava perto de concluir meu exame final.

Sound Check: Você se refere às obras de Karlheinz Stockhausen, John Cage ou Mauricio Kagel?

Karl Bartos: Claro. Na época, interpretei peças como Kontakte ou Kurzwellen, de Stockhausen — que não têm mais nada a ver com as técnicas clássicas de percussão. Você trabalha com fita magnética e receptores de ondas curtas, em vez de triângulo e ganzá.

Sound Check: Como vocês trabalhavam no estúdio Kling Klang? É verdade a anedota de que vocês iam para o estúdio em "turnos regulares", como operários?

Karl Bartos: O encontro diário no estúdio ao longo dos anos pode mesmo ser chamado de ritual. E claro, consumimos incontáveis taças de sorvete. Para mim, era algo como um círculo mágico.

Sound Check: Como era o trabalho em si? Qual era a sua função?

Karl Bartos: Não havia áreas de trabalho bem definidas. Era mais como uma grande improvisação coletiva, com troca constante de instrumentos. Todo mundo apertava, batia ou girava algo em algum lugar...

Sound Check: E nunca houve falhas?

Karl Bartos: Claro que sim, mas na verdade, os sons e ritmos mais bonitos e estranhos surgiram de falhas ou mau funcionamento das máquinas. Especialmente os antigos aparelhos analógicos às vezes criam sua própria ideia de música. Você liga um sintetizador e ele faz "bloop", depois sai para comer, e quando volta, o som mudou por causa da temperatura, e ele faz "bleep". E às vezes, gravávamos exatamente no momento certo, ao apertar o botão vermelho de gravação.

Sound Check: Em breve você também vai atuar como produtor?

Karl Bartos: Já existem projetos que me interessam. No momento estou aberto a tudo. Estamos testando vários níveis — isso pode significar colaborar com outros músicos e produtores, ou com uma gravadora. Já recebi ofertas concretas dos EUA, da Inglaterra e da Bélgica. Mas por enquanto não quero revelar mais nada.

Sound Check: Circulam boatos sobre uma colaboração com o The KLF...

Karl Bartos: Eu adoro rumores — mas a banda jovem com quem estou trabalhando no estúdio no momento não é o The KLF.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Kraftwerk — The Mix — A Farra dos Sons.



The Mix - Katalog 
O início da década de 1990 na Europa foi marcado por mudanças significativas, tanto no âmbito sociopolítico, quanto cultural em todo o continente. A Alemanha teve a queda do Muro de Berlim (1961 – 1989) concluída, fato que permitiu a unificação de um país que por muito tempo se encontrava dividido. O ato gerou uma renovação na nação, e a nova música eletrônica que surgia nesse período, foi de forma indireta, a trilha sonora que celebrou a reunificação dessa pátria, que por muito tempo, passou por um momento extremamente sombrio e difícil em seu passado.  

Com um novo tempo se abrindo e tendo constantes novidades, esse período (1990), trouxe uma remessa de renovações na área de tecnologia, principalmente nos meios de comunicação de massa e entretenimento.  

A internet já apresentava os seus primeiros sinais do que ela seria no futuro, novos aparelhos surgiam em diferentes espaços, causando uma empolgação em seus consumidores, e a tão festiva década de 1980, finalmente se despedia de seu posto de uma era de ideias utópicas, para ser classificada posteriormente, como uma época Cult e excessivamente pop.

A implementação do formato digital, foi um divisor de águas nessa fase, recurso que contribuiu para que houvesse um salto importante na tecnologia destinada à música em 1990, isso foi o começo da popularização dos estúdios caseiros (Home Studio) e o computador, tornou-se uma ferramenta obrigatória para quem fosse criar música eletrônica. Incluindo os novíssimos sintetizadores, sequenciadores entre outros aparelhos, que contribuíram para que a cena de Dance Music, fosse forte e sólida. 

A Dance Music, foi o gênero que apresentou o maior número de inovações rítmicas, além de o estilo incorporar de forma completa, todo esse novo desenvolvimento que estava disponível, e  aproveitando ao máximo, todos os recursos que elas dispunham;  transformando esses novos  dotes em sua força motriz e vitalícia. Um tipo de comportamento, que os outros gêneros demoraram a assimilar. Justificando, a classificação de futurista, que a música eletrônica passou a ter nesse momento.

Em decorrência da agitação causada por tantos aprimoramentos, a cena eletrônica em Berlim acabou fazendo muito sucesso, e uma grande quantidade de novos produtores, proliferaram suas músicas através das pistas de dança na tão contente capital alemã. Esses artistas fizeram uma atualização considerável no meio musical. E o Kraftwerk sendo uma banda atípica se tratando de música, e vivendo no centro de um país que passava por um turbilhão cultural e tecnológico, se viu obrigada a dialogar com essa geração que crescia a cada final de semana.

Input Data
Lançado em junho de 1991, o álbum The Mix, é o disco que mudou a forma como o Kraftwerk trabalharia as suas músicas ao vivo, e a partir desta etapa, o Mix se tornou o disco padrão na estrutura musical que o grupo mantém até hoje.

Mix marca o início de uma nova fase no grupo, essa, sem dúvida, a mais significativa na parte técnica, devido ao advento e do baixo custo que a tecnologia digital dispõe, incluindo a sua facilidade de uso. O mercado de tecnologia voltado para música tinha mudado, O Kraftwerk se viu submetido a atualizar seus instrumentos, que em consequência dessa renovação, suas músicas sofreram alterações diretas.

Com nove anos sem se apresentar ao vivo e com o último disco lançado em 1986 (Electric Café), e zero de informações sobre o que os integrantes faziam, o grupo ainda se encontrava com uma incerteza do que iriam gravar. 

Bem provável que Fritz Hilpert seja o principal responsável pela existência do Mix, pois Fritz , além de sua formação em engenharia de áudio, é professor de desenho de som, e trabalha com diferentes artistas musicais, e mantém uma atualização contínua, em relação à tecnologia direcionada ao áudio e a músicos.

O Mix também é marcado por ser o último disco com Karl Bartos ainda fazendo parte do grupo, que no caso, Bartos ajudou na programação musical (não creditado) e participou de alguns shows na turnê pré-The Mix em 1990, na Itália. Depois de sair do grupo em maio de 1991, Bartos procura manter a sua carreira solo desde 1993, além de ser professor de mídia na Alemanha.

Há uma enorme diferença na sonoridade entre Electric Café (1986) e The Mix (1991), no qual abordaram uma vertente mais fria e sintética, e deixando de lado toda a vitalidade e vigor que as músicas antecessoras possuíam. Permitindo fluir o lado máquina, e diminuindo o fator humano em Mix. Abordagem que causou uma estranheza entre os fãs do grupo que esperavam por músicas inéditas. Mas o disco é uma bela desculpa para apresentar um material “novo”, utilizando o que foi feito no passado.

Em entrevistas para a divulgação do disco, Ralf alegava que o motivo para essas  reinterpretações de suas músicas, se deve ao fato ocorrido durante os ensaios com os novos instrumentos, que na qual as músicas clássicas soavam completamente diferentes.

Boa parte das músicas sofreram grandes mudanças em suas estruturas e tiveram diferentes tratamentos harmônicos, como no caso de Autobahn, que teve todas as suas nuances e intercessões sonoras modificadas, soando mais plácida e artificial. 

Robôs Mixando.
Radioactivity teve seu clima sombrio mudado para um ritmo dançante, e foram acrescentados nomes das cidades de Tschernobyl, Harrisburgh, Sellafield e Hiroshima, lugares que sofreram com problemas de vazamento de produtos radioativos, e que possuem alguma ligação com energia nuclear. Apesar de animada, a sua mensagem alarmista, se manteve coerente e relevante. 

O humor singelo e discreto característico do grupo fica explicito em Pocket Calculator, que ganhou uma versão adjunta em japonês chamada Dentaku que no álbum, se tornou a faixa mais cômica. Computer Love perde os seus improvisos e charme eletrônico e ganha ares de música pop. Home Computer recebe a junção de It´s More Fun To Computer tornando-se uma só faixa, que evoca o futuro inevitável que os computadores proporcionam na sociedade. 

Music Non Stop é reconstruída com originalidade mesclando elementos de Boing Boom Tschak e da própria Musique Non-stop ambas do disco Electric Café. Aqui o quarteto soube aproveitar os recursos digitais disponíveis dessa época com muita criatividade, transformando a faixa em uma celebração moderna entre ritmo e melodia. O acerto na faixa acabou a deixando célebre em suas apresentações ao vivo, devido às inúmeras interseções sonoras e aos seus efeitos de som, que exaltam todo o groove mecânico que foi criado para ela. 

Trans Europe Express, de todas as releituras, é a faixa que consegue em parte, se igualar com a versão original, devido ao bom uso dos sintetizadores e dos processadores de áudio empregados na música. Recursos que ajudaram a conseguir transcrever em sons e melodias, a importância e a grandiosidade que esse meio de transporte teve na Europa em seu passado.

Trans Europe Express, é a faixa em que ouvimos o Kraftwerk em sua forma original sem muitos artifícios modernos, seguindo a vertente clássica desenvolvida pelo grupo, mas utilizando equipamentos novos.

A faixa ganhou uma interessante orquestração que foi acrescentada em uma de suas divisões chamada de Metal on Metal. O arranjo adicional, tonifica o conceito criado para a música, que a deixa mais impactante e solene. O tratamento dado aos detalhes nessa regravação, se apresentam com mais caprichos, dando a impressão que a composição se encontra desconexa em relação as restantes, devido a sua releitura que ressalta o seu lado mais sinfônico do que o rítmico. Apesar de não fechar o álbum, T.E.E. chama toda a atenção do disco.

Comunicação
O vocoder é outro artifício característico muito usado pelo grupo que se encontra presente em todas as faixas do álbum, o aparelho é usado de forma constante e extensiva em The Mix. Em The Robots, faixa que abre o disco, já fica evidente a qualidade e o extremo cuidado dos músicos, no desempenho no uso do instrumento, que auxilia na criação e na mudança no timbre das vozes. Truque que contribui para o conceito e estética criada pelo quarteto alemão, na qual passam a ideia, de que The Mix , fosse uma produção musical composta, concebida, gravada e  executada por robôs. Nessa parte de conceituação, os alemães acertaram em cheio.

Em seu lançamento, o álbum trouxe para o grupo um retorno positivo, tendo uma turnê que durou até ao ano de 1993. E o grupo fez uma série de entrevistas para várias revistas de música, incluído rádio e TV. O disco saiu em diversos formatos como: CD, Vinil Duplo e em Fita Cassete, nos idiomas Inglês e em alemão, a língua nativa dos músicos.

As apresentações ao vivo, foram marcadas pelas faixas mais longas recheadas de improvisos e efeitos sonoros. E as execuções dessas músicas eram radicalmente diferentes das que foram tocadas durante a turnê do álbum Computer World (1981-1982).

Apesar de não trazer músicas inéditas, The Mix representa o Kraftwerk como um grupo musical que consegue se adaptar as mudanças dentro e fora da música, sem precisar utilizar de algum apelo, e demonstrando que os músicos se encontram relevantes com o mundo à volta deles.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Kraftwerk interview - New Musical Express - Ralf Hütter - 1991


O culto à personalidade pode sobreviver em algumas vizinhanças, mas isso não tem nada a ver com o Kraftwerk, que, já há dez anos, não deixam ninguém tirar suas fotos. "Gostamos de ser tão auto-suficientes em relação ao nosso visual quantos somos com a nossa música", Ralf explica. "E, de qualquer jeito, posar é um grande tédio para nós. Nossos robôs são muito melhores nisso, eles têm mais paciência"

Para quem é a engrenagem central no grupo mais impiedosamente moderno do pop, Ralf  Hutter é uma figura inesperadamente suave e - em meio à hipnose hardcore do Rage - bizarra. Magro, de aparência saudável em seus quarenta e poucos anos, ele veste um terno de listras finas em preto e branco. 

As ondulações de sua echarpe de seda preta separam sua camisa Nehru preta de seu pescoço, e o cabelo bem penteado, com estrias grisalhas, cobre uma cabeça que parece estar eternamente sorrindo. Um charme quase prosaico, bem pouco tecno. Isso  não quer dizer que ele não tenha uma queda pelo hardcore. Um outro nightclub que visitamos mais tarde, na mesma noite, é brando demais para seu gosto.
 
Me sinto com se estivesse na Itália ou na Alemanha", resmunga, "com todas essas pessoas balançando as mãos no ar. É tão, tão suave. Eu me lembro de uma energia muito mais delinqüente em Londres". Ralf está em Londres para  quebrar o sólido silêncio do grupo em relação à imprensa, proclamando o retorno do Kraftwerk à vida pública. 

Em julho passaram pela Grã-Bretanha, como parte de sua primeira turnê mundial em dez anos, precedida pelo lançamento de The Mix, um Álbum duplo de clássicos radicalmente regravados, abrangendo a obra do Kraftwerk nos últimos quinze anos.

Uma fabulosa atualização do repertório do grupo, The Mix cria um ótima desculpa para se falar do passado, mas uma compilação não seria um gesto estranhamente retrô para quem sempre esteve olhando para frente?

Estávamos trabalhando nas faixas para sua execução ao vivo, gerando sons digitais e sampleando nossas velhas fitas multipistas, quando decidimos colocar tudo num disco. Por isso não são remixes, são gravações completamente novas.

Vocês pularam clássicos atmosféricos como "The Hall of Mirrors" e "Neon Lights", favorecendo grooves dançantes, mas as pessoas se surpreenderão com a ausência de "The Model", o compacto que fez de vocês a primeira banda  alemã a chegar ao topo das paradas britânicas...

Trabalhamos apenas com as faixas que combinavam. Talvez daqui a dois anos façamos outro disco como esse, e aí poderemos incluir "The Model" de uma forma totalmente diferente. Escolhemos as faixas que saltaram nas nossas caras. Não havia nenhuma lógica,  exceto o fato de cobrirem o período entre Autobahn e hoje. Não colocamos nada dos três primeiros álbuns, porque desde Autobahn não tocamos esse material ao vivo.

O que podemos esperar do show?

Traremos nosso estúdio Kling Klang, mais efeitos visuais. Teremos filmes e computação gráfica, além de nossos robôs articulados. Eles aparecem durante a canção "The Robots" e fazem um balé mecânico com perfeita sincronia, pois estão todos ligados ao mesmo computador. Todos os audiovisuais são baseados nas canções, mas muito mais desenvolvidos do que os da última turnê, em 81.

O show pode variar de uma noite para a outra?

Sim. Podemos sempre brincar com os computadores, chamar os programas e alterá-los, dependendo do clima do momento. Hoje em dia o equipamento musical está chegando perto do que sempre tivemos em mente quando começamos. Antes havia limitações técnicas. Também substituímos nossos percussionistas, Karl Bartos e Wolfgang Flur, por um engenheiro eletrônico que sempre trabalha conosco no estúdio e um músico adicional. Por isso temos agora mais som, mais eletrônica, mais programação e mais engenharia de som  acontecendo.

Assim como "Trans Europe Express" foi seu melhor single e The Man Machine; seu melhor álbum, The Mix; é o melhor ponto de entrada para principiantes em Kraftwerk. Mas, enquanto seu estilo e suas atividades pareciam extremamente radicais - comparados ao que os outros estavam fazendo - hoje eles foram adotados pelo mainstream. Seus métodos viraram lugar-comum. Vocês se sentem confortáveis com isso?

Como poderíamos mudar agora? Gastamos vinte anos neste tipo de trabalho. Não podemos dizer amanhã que o negócio é voltar a usar violões. Para nós é muito estimulante ver a popularidade do tipo de música em que pusemos tanto esforço. Quando prevíamos que nossos aparelhinhos eletrônicos iam acontecer com tudo, ninguém acreditava na gente.

O que o Kraftwerk realmente significa é algo que só foi totalmente compreendido no contexto da cultura alemã, mas, mesmo destituída de significado e simbolismo,  sua música exibe uma pureza sonora nunca igualada. É uma turbina reluzente, limpa de bagagem sentimental ou floreios pomposos, sua tecnologia descarada nunca oculta por trás de cautelosos e confortadores painéis de madeira metafóricos. 

 Um dos segredos do som do grupo é que eles costumavam se infiltrar nas maiores companhias de computadores e estimular seus pesquisadores com o desafio criativo de conceber e adaptar equipamento especialmente para o Kraftwerk - aparelho em que, obviamente, ninguém mais podia pôr as mãos. Seus ritmos e texturas únicos, combinados a melodias eternas, assim como a execução imaculada de uma ideologia realmente radical, reapareceram desmembrados e fora de contexto como tema recorrente em cada cenário dance regional dos negros americanos na última década.

Levando em conta sua aura de "caretice" - rigidez até, mesmo para um banda de brancos - isto não surpreende ou diverte, Ralf?

É difícil dizer, vem acontecendo há tanto tempo, desde "Trans Europe Express". Lembro que estávamos uma vez, naquela época, num club em Nova York, e o DJ tinha prensado seu próprio disco, utilizando nossas fitas de 'Metal on Metal', mas estendendo-se mais e mais. Era o começo dessa coisa de DJs fazerem seus próprios discos e ficamos fascinados."

Vocês têm consciência dos discos que são influenciados por vocês?

Nos clubes, sim, porque costumo sair para dançar. Vou aos clubs em Düsseldorf, Frankfurt, Paris ou onde quer que passemos quando viajamos. Passamos por fases, não é tão rígido assim. Não é possível sair cinco noites por semana na Alemanha, é preciso trabalhar, mas eu vou dançar mais ou menos uma vez por semana para manter as pernas em forma.

você sabe de quem são esses discos?

Na maioria das vezes, não. Reconheço os sons, mas geralmente os discos são indefinidos. Obviamente conheço coisas como 'Trouble Funk Express', 'Planet Rock' e o cenário tecno de Detroit.

Que tipo de música vocês escutam?

Não temos escutado muita música ultimamente, tentamos reduzir os estímulos externos para evitar um excesso de exposição. O alemão médio ouve cinco horas de rádio por dia, enquanto nós ouvimos nenhuma. Gosto de sair perambulando e ouvir a música que o ambiente oferece ao acaso, saindo de uma caixa acústica num café ou num Night Club. Não ouço música em casa, eu faço música no estúdio.


O que você faz quando não está trabalhando com música no Kling Klang?

Fazemos música o tempo todo, aí dormimos. É um trabalho de período integral

O Kraftwerk nasceu quando Ralf Hutter conheceu Florian Schneider num curso de improvisação  musical no conservatório de Düsseldorf em 68. Em 74, após três álbuns de música eletrônica instrumental sem estrutura muito definida, arrombaram a banca com "Autobahn", uma majestosa celebração em 22 minutos do ato de  passear de carro pelas estradas, que incluía, pela primeira vez, letras. 

Se sua música inicial era composta de poemas tonais inspirados pelos sons ambientais do parque industrial de Düsseldorf, "Autobahn" fundia ruídos  de carros tratados eletronicamente, uma melodia clássica e o ritmo mecânico formado por barulho de tráfego sintetizado para criar uma nova música folclórica industrial. "Autobahn" foi um hit nas discotecas americanas e o Kraftwerk se tornou objeto de apadrinhamento em grande escala por parte de David Bowie, que mais tarde incorporou elementos do visual e da iluminação do grupo. 

 "Isso foi muito importante para nós porque estabeleceu um elo entre o que estávamos fazendo e o mainstream do rock. Bowie costumava dizer a todo mundo que éramos seu grupo favorito, e, no meio da década de 70, a imprensa se  apoiava nas palavras dele como se fossem os dez mandamentos.  Nós o conhecemos quando ele se apresentou em Düsseldorf, em uma de suas primeiras turnês europeias. Ele viajava de Mercedes, escutando 'Autobahn' o tempo todo, não ouvia nada além disso.

Se a aparência do grupo e o fato de cantarem em alemão (quando 75% do material executado na rádio alemã era cantado em inglês) já eram esquisitos, seus temas soavam ainda mais deslocados na Alemanha dos anos 70. 

No momento em que nascia o Partido Verde, eles celebravam a rede de autopistas com que Hitler havia desfigurado o campo. Quando todo alemão pensante estava paranoico sobre as carteiras de identidade e o computador central da polícia em Plenzdorf, eles estavam abraçando e festejando o mundo computadorizado. 

Eram gestos radicais dentro da Alemanha, sem nenhum sentido fora dela. "Isso faz sentido em outros países", protesta Ralf. "Conversei com pessoas da França ou da Itália que têm uma compreensão quase idêntica". As traduções das letras para o inglês certamente não funcionam. Não só os originais em alemão soam mais poéticos como carregam diferentes ressonâncias culturais. 

A necessidade da rima força nuances de sentido completamente diferentes, assim uma canção como "The Model" - captada em toda sua ironia no alemão - no inglês acaba soando como rabiscos simplistas de uma criança de cinco anos. "Isso é difícil de julgar para mim, mas recebemos muitas respostas e reações em toda parte, por isso acho que estamos nos comunicando."

As pessoas costumavam dizer que havia apenas três grupos que entendiam a música eletrônica: vocês, a Yellow Magic Orchestra e o Yello. Você sentiu alguma vez afinidade com estes grupos?

Certamente havia esse sentimento. Encontramos com o pessoal da Yellow Magic Orchestra quando tocamos em Tóquio, mas não conhecemos muito bem a música deles, nunca me tocou realmente. Me parecia muito mais piadista, meio para o jazz rock. O novo estilo de Detroit me parece muito mais próximo do nosso enfoque, hipnótico, engrenado.

Como na base rítmica composta de sons de respiração em "Tour de France", o uso de sons ambientais pelo Kraftwerk é sempre adequado. Vocês  não vão atrás de samples maluquetes - arrancar fita adesiva de uma mesa, bater com uma vara num balão, etc. - mas falaram uma vez em  gravar o som das estrelas, a energia liberada pelos pulsars (fontes radioestelare emissoras de impulsos que têm a duração média de 35 milionésimos de segundo e se repetem a intervalos extremamente regulares, de cerca de 1,4 segundo). 

Chegaram alguma vez a fazer isso?

Não, mas sei que existem fitas disso. Nós não temos. Não quero falar demais e dar fatos errados, mas sei que quatro anos atrás alguém traduziu essas ondas em freqüências e então botou um computador para tocá-las. Há até outro computador trabalhando sobre as escalas e harmonias, traduzindo as ondas para o equipamento eletrônico, e o som é bem legal. Não é um tom constante, muda o tempo todo.

Depois da guerra, houve um vácuo cultural na Alemanha durante cerca de vinte anos, quando os jovens - envergonhados de sua herança - rejeitaram sua cultura e passaram a se mirar na Inglaterra e nos EUA. A sua emergência, junto com gente como Faust, Can, Tangerine Dream e Giorgio Moroder sinalizaram uma revitalização da cultura popular alemã, que continuou com a Neue Deutsche Welle ("Nova Onda Alemã") no começo dos 80.

Como está o cenário hoje em dia?

Bem quieto. Também estamos atravessando mais um  período morto no cinema, e não tenho absolutamente nenhuma ideia por quê. Não há nenhuma razão óbvia. Com a queda do Muro, era de se esperar uma verdadeira  explosão de atividade.

Você diria que a sua música continua etnicamente alemã, que não poderia ter saído de nenhum outro lugar?

Ela se tornou uma linguagem mais internacional, mas ainda acho que é bem alemã. Talvez isso soe um pouco nacionalista - digamos que seja europeia em sentimento, isto sim, definitivamente. Se você colocasse uma banda americana em nosso estúdio e pedisse a eles para fazer um disco sobre a Tour de France (competição ciclística realizada na França que inspirou a música homônimas do Kraftwerk), o resultado seria diferente.

Como grupo, vocês sempre preferiram olhar para o futuro ao invés do passado. A ideia do futuro ainda o excita?


Sim. Nem mais, nem menos do que antes. É uma coisa constante. Estamos sempre pensando no que estamos trabalhando, nos shows que estamos preparando, por isso não temos tempo de pensar no passado. O futuro, em termos de possibilidades não realizadas, é algo que sai deste processo.

Eu estava pensando no futuro em termos mais amplos, gerais...

Você quer dizer em relação à sociedade? É claro que penso nisso, e meus sentimentos são ambivalentes. Estou preocupado com o que os alemães chamam de 'Fernsteuerung' da sociedade, controle remoto, ditadura das massas. Não falo daquele sistema clássico de um homem controlando todos, como uma figura paterna, porque acho que isso não existe mais. Acho que há algo em forma de massa, como avalanches, que têm sua própria dinâmica e que poucas pessoas entendem. Coisas como eleições não fazem sentido. 

O fato de 99% das pessoas votarem em algo não diz nada sobre a qualidade do que estão votando, e este tipo de ditadura demográfica... Ainda é cedo demais em minha mente, mas deverei compor música sobre isso. Há um culto ao apelo de massa que eu não compartilho. Como ter quarenta estações de rádio, todas tocando as mesmas 'Quarenta Mais'. Ninguém fala do controle exercido sobre o que aparece na televisão. Essas são as coisas em que penso, índices de popularidade e ditadura demográfica, por que alguém deve ser presidente só porque tantas pessoas votaram nesse boneco que faz poses?

Existe algum plano a longo prazo para o Kraftwerk? Alguma colaboração inesperada?

Não sei. Vamos ver só o que acontece quando tocarmos em Detroit. Estamos numa situação bem aberta no momento e gosto muito disso. É bem curioso. Estivemos conversando aqui sobre vinte anos de nosso passado e havia me esquecido de certas coisas que eu talvez devesse repensar, mas permaneço apaixonado sobre como entraremos na próxima etapa. Nunca perdia um pouco do interesse.

Interview to Simon Witter - New Musical Express 1991