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domingo, 29 de junho de 2025

Karl Bartos — Entrevista — Dance Magazine — Fevereiro —1993:

 


Entrevista com Karl Bartos, publicada na revista Dance Magazine, em fevereiro de 1993:


Dance: Já faz muito tempo que não ouvimos nada novo do Kraftwerk. Em que a música de vocês difere da deles?

Karl Bartos: No final dos anos 80, o Kraftwerk tinha se tornado apenas uma instituição paralisada. A estrutura interna impedia qualquer ideia nova. Quando deixamos essa estrutura, a nova música surgiu quase naturalmente.

Dance: E quanto a vocês: vivem em isolamento elitista ou inseridos no mundo moderno?

Lothar Manteuffel: Tentamos desenvolver um “Esperanto elétrico”. A música é uma linguagem universal — e nós a usamos. Tudo nos influencia: desde o cotidiano mais banal até a política mundial, e isso entra na nossa música como metáforas. Tentamos transmitir uma impressão de fenômenos, tendências e conexões.

Dance: A música de vocês é marcada pela tecnologia. Como vocês avaliam a qualidade do progresso técnico?

Karl Bartos: A máquina, no fim de uma linha de desenvolvimento tecnológico, não pode ser o objetivo final. Progresso não é um caminho unidimensional no qual a humanidade simplesmente marcha em linha reta. O progresso se move em círculos — como o nosso planeta.

Dance: Em que vocês estão trabalhando no momento?

Lothar Manteuffel: No nosso novo álbum, que será lançado no fim de março.

Dance: E vocês também vão se apresentar ao vivo?

Lothar Manteuffel: Com certeza. Os primeiros preparativos já começaram. Mas não queremos dizer mais nada sobre isso por enquanto.

Dance: Hoje em dia todo artista tem que fazer um videoclipe, mesmo que pudesse passar sem isso. Qual é a posição de vocês? Com o single "TV", vocês parecem dar uma resposta bastante clara...

Karl Bartos: Passamos de uma sociedade da palavra para uma sociedade de imagens e aparências. Hoje, imagens substituem a comunicação. Na teoria musical, isso se chama “cacofonia”. Um videoclipe brilhante hoje mostraria Beethoven compondo sua Nona Sinfonia. No nosso vídeo de "TV", mostramos principalmente o que acontece atrás da tela. Não se vê sequer um único televisor. É um mundo de imagens que mostra o passado e o presente da televisão.

Dance: Como a música de vocês se encaixa no que está acontecendo agora na indústria musical? Que tipo de música vocês mesmos escutam?

Karl Bartos: O tipo de música que se escuta não é o mais importante. O que importa são os impulsos que se recebe. Cultura, no sentido verdadeiro, deveria sempre ser uma forma de anarquia civilizada em contraponto à ordem social.

Dance: No single de estreia, "Crosstalk", vocês usaram voz sintética. Por quê?

Karl Bartos: (ri) Quando saímos do Kraftwerk, o D.L.S. (Digital Lead Singer) ficou desempregado...

Lothar Manteuffel: (sorri) ...então perguntamos se ele queria participar da nova banda Elektric Music. Ele é só mais um membro do grupo...

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Karl Bartos — Entrevista — Sound Check — Setembro — 1991:


 Entrevista de Karl Bartos à revista Sound Check, publicada em setembro de 1991:

Sound Check: Por que você decidiu seguir um novo caminho? Houve algum desentendimento à beira do Reno?

Karl Bartos: Não, nenhum desentendimento, mas para mim era hora de sair daquela situação de trabalho muito autista. Passamos anos reclusos trabalhando na nossa música, girando botões de sintetizadores atrás de portas de estúdio hermeticamente fechadas, sem contato com outros músicos.

Sound Check: Mas houve tentativas externas de contato, certo?

Karl Bartos: Sim, claro. David Bowie já queria colaborar conosco nos anos 70. Naquela época, ele morava em Berlim e estava profundamente envolvido com a Alemanha dividida. Isso foi em 76/77, na época da produção de "Heroes". Bowie gostaria de ter feito sua turnê mundial conosco. Mas essa cooperação não se encaixava no conceito do Kraftwerk. Sempre lamentei isso.

Sound Check: Então essa política permanente de isolamento foi o motivo da sua saída? Houve sim um desentendimento?

Karl Bartos: Não, realmente não. Mas o álbum atual, The Mix, é uma seleção do nosso trabalho dos últimos 15 anos. Uma espécie de retrospectiva transversal e, ao mesmo tempo, um ponto final. Ainda assim, a produção levou cinco anos novamente — o que, apesar de todo o cuidado e rigor técnico, é simplesmente tempo demais. Para mim, os anos 90 representam conceitos abertos e rápidos.

Sound Check: O que isso quer dizer?

Karl Bartos: Sou muito curioso, também com relação a novas abordagens. Para mim, o capítulo do techno-pop está longe de ter terminado. Antigamente, sempre enfrentávamos o problema de as pessoas olharem com desconfiança para nosso "modo de produção em linha de montagem". Hoje, todo mundo trabalha assim, e ninguém mais fala de sons frios de sintetizador ou de música de sequenciador sem alma. Todos usam computadores, aplicam parâmetros de groove e adoram uma boa interface de usuário. Vejo muitos paralelos nisso.

Sound Check: Por que o fluxo de informações vindo do Kraftwerk sempre foi tão escasso? As razões para a sua saída e a de Wolfgang Flür não foram esclarecidas...

Karl Bartos: Isso faz parte do conceito do Kraftwerk. Sem comunicação, sem informação — só o produto importa. Tem que se levar isso a sério, senão se torna algo sem credibilidade. Kraftwerk é uma instituição — como quando você ouve o nome Siemens e não pensa no gerente do departamento em Gelsenkirchen, mas sim numa corporação. Os robôs representam bem isso. Eu também fui um robô por 15 anos, até descobrir alguns erros no programa e abrir um novo subdiretório — que agora se chama Electric Music.

Sound Check: Como você se tornou um "kraftwerker"?

Karl Bartos: Quando Autobahn entrou nas paradas em 1975, eu ainda estudava percussão no Instituto Robert Schumann, em Düsseldorf. O Kraftwerk estava procurando um percussionista para a turnê pelos EUA e simplesmente perguntaram ao meu professor.

Sound Check: E ele te recomendou?

Karl Bartos: Sim, e então viajamos por dez semanas em um ônibus pequeno cruzando os Estados Unidos. Tocamos em clubes pequenos no sul, mas também na Broadway.

Sound Check: E como foi a recepção?

Karl Bartos: Na época, nos apresentávamos como um quarteto de cordas eletrônico, e para muitos parecia que tínhamos vindo de outro planeta. Tocávamos instrumentos que ninguém tinha visto antes. Minha bateria eletrônica, do tamanho de uma caixa de charutos, devia parecer ficção científica para o público americano, muito ligado ao rock.

Sound Check: Trabalhar com instrumentos eletrônicos foi uma grande mudança para você?

Karl Bartos: A música erudita (E-Musik) já vinha mudando para a eletrônica desde a Segunda Guerra Mundial. Especialmente como percussionista, você tem acesso a esse repertório e às técnicas de performance associadas. Eu já estava familiarizado com esse tipo de som, afinal, estava perto de concluir meu exame final.

Sound Check: Você se refere às obras de Karlheinz Stockhausen, John Cage ou Mauricio Kagel?

Karl Bartos: Claro. Na época, interpretei peças como Kontakte ou Kurzwellen, de Stockhausen — que não têm mais nada a ver com as técnicas clássicas de percussão. Você trabalha com fita magnética e receptores de ondas curtas, em vez de triângulo e ganzá.

Sound Check: Como vocês trabalhavam no estúdio Kling Klang? É verdade a anedota de que vocês iam para o estúdio em "turnos regulares", como operários?

Karl Bartos: O encontro diário no estúdio ao longo dos anos pode mesmo ser chamado de ritual. E claro, consumimos incontáveis taças de sorvete. Para mim, era algo como um círculo mágico.

Sound Check: Como era o trabalho em si? Qual era a sua função?

Karl Bartos: Não havia áreas de trabalho bem definidas. Era mais como uma grande improvisação coletiva, com troca constante de instrumentos. Todo mundo apertava, batia ou girava algo em algum lugar...

Sound Check: E nunca houve falhas?

Karl Bartos: Claro que sim, mas na verdade, os sons e ritmos mais bonitos e estranhos surgiram de falhas ou mau funcionamento das máquinas. Especialmente os antigos aparelhos analógicos às vezes criam sua própria ideia de música. Você liga um sintetizador e ele faz "bloop", depois sai para comer, e quando volta, o som mudou por causa da temperatura, e ele faz "bleep". E às vezes, gravávamos exatamente no momento certo, ao apertar o botão vermelho de gravação.

Sound Check: Em breve você também vai atuar como produtor?

Karl Bartos: Já existem projetos que me interessam. No momento estou aberto a tudo. Estamos testando vários níveis — isso pode significar colaborar com outros músicos e produtores, ou com uma gravadora. Já recebi ofertas concretas dos EUA, da Inglaterra e da Bélgica. Mas por enquanto não quero revelar mais nada.

Sound Check: Circulam boatos sobre uma colaboração com o The KLF...

Karl Bartos: Eu adoro rumores — mas a banda jovem com quem estou trabalhando no estúdio no momento não é o The KLF.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Karl Bartos — Entrevista — Raveline Magazine — Setembro — 2000

 


entrevista com Karl Bartos publicada na Raveline Magazine, em setembro de 2000, com o entrevistador Markus Schütte:


Raveline: Desde sua saída do Kraftwerk em 1990, muita coisa aconteceu...
Bartos: Em primeiro lugar, lancei dois discos solo, depois formei o Electronic com Bernard Sumner (New Order) e Johnny Marr (The Smiths), com quem gravei um álbum — Raise the Pressure. Também escrevi duas faixas para o álbum Universal, do OMD.

Raveline: O passado com o Kraftwerk paira sobre tudo. Você saiu apenas por causa da baixa produtividade do grupo?
Bartos: Basicamente, sim. Nos anos 80, passamos cinco anos trabalhando em um álbum, e o que saiu foi o Electric Café. Achei isso inaceitável. Depois mais cinco anos em The Mix, e pensei: “Isso vai continuar assim.” Sabendo que a fase de retrospectiva foi ainda mais dura, hoje não me arrependo em nada. Muito pelo contrário, foi exatamente o passo certo.

Raveline: As novas faixas que você está incluindo nos seus live sets — em que elas diferem do que você fazia há 15 anos?
Bartos: A pergunta em si não é estranha, mas é um pouco para mim. Recentemente, programei esse set. Trabalhei bastante nele, também nas faixas antigas que eu não ouvia há muito tempo — “Die Roboter”, “Das Modell”, etc. — e elas ainda me soam incrivelmente frescas e intactas nessa simplicidade sintética. O novo álbum que estou produzindo seguirá esse caminho, também será bastante eletrônico e reduzido. Mas ainda será de alguma forma música pop! Nada de trance ou estruturas exageradas. Pictogramas, pictogramas elétricos.

Raveline: Muitos artistas da cena eletrônica citam seu trabalho como fundamental e formador de estilo. Você tem referências para sua própria produção?
Bartos: Um monte. Tudo aquilo que formava o princípio básico do nosso trabalho. São melodias europeias, ritmo funk americano e talvez conteúdos vindos da arte — para simplificar bastante. Estruturas rítmicas e sintéticas ao estilo James Brown sempre funcionaram muito bem para nós. E, claro, a harmonia tonal maior/menor da tradição musical europeia. Tentamos dar som à nossa origem. E ainda tento isso hoje. Entender a Alemanha como identidade e fazer essa música.

Raveline: A música eletrônica é “a” música alemã?
Bartos: Quando você consegue criar uma sonoridade verdadeiramente original, você passa a ter essa marca. Ganha esse rótulo porque aconteceu ali pela primeira vez. O blues vem dos EUA e sempre estará enraizado lá, porque foi onde surgiu. A beat music veio de Liverpool — mesmo que o beat não tenha sido uma invenção totalmente original, ele pegou raízes existentes, as distorceu e as tornou acessíveis aos adolescentes europeus. As bandas atuaram como uma espécie de tradutores. O que bandas como Tangerine Dream fizeram aqui nos anos 70, ao usar a tecnologia pela primeira vez na música, está registrado no Livro dos Recordes Guinness — e continuará lá.

Raveline: Você está trabalhando atualmente com outros artistas?
Bartos: Estou trabalhando numa música com o Anthony Rother, que será meu próximo lançamento. Só falta a finalização. Também há um projeto de DJ com projeções visuais...

Raveline: O que significa a música eletrônica atual para você?
Bartos: Recentemente estive em Dresden e Leipzig, passei a noite inteira nos clubes, discotecando e tocando. Às vezes ouço uma faixa, não sei o nome nem o artista, e penso: “Fantástica — queria ter feito isso eu mesmo.” Aí vou atrás do disco. Quando estou discotecando, escolho faixas que me dizem algo, com as quais eu tenho conexão. Por exemplo, do selo Warp, de Sheffield — “Fuse” é uma faixa dos anos 90 — incrível. Ou os caras do LFO, com quem também já trabalhei. O que eu tinha perdido um pouco era a redescoberta da simplicidade na música. Os tracks modernos de clube usam pouquíssimos elementos. São construídos com pouquíssimas camadas — e isso me agrada.

Raveline: O espectro do techno é infinitamente expandível graças ao computador?
Bartos: Me surpreendi com o quanto certos sons perduram — sempre surgem discos com os mesmos ritmos base. Até que percebi que essa é agora a percepção do 4/4, e ela vai continuar existindo. Isso vai se tornar cada vez mais fragmentado. Para mim, o computador é apenas outra forma de registrar música. Acho que o ponto decisivo foi quando Edison desenvolveu o cilindro fonográfico e o som pôde ser reproduzido pela primeira vez, independente do tempo e do espaço. Esse é o ponto de partida. A forma de gravação em si não é tão importante. Se eu não tivesse um Apple, faria música no piano. Eu uso o que estiver disponível. Picasso disse uma vez: “Se o vermelho acabar, uso o verde.” Agora tenho um Apple. Mas já me dei bem também com meu laptop IBM. Se daqui a dois anos surgir outra coisa, usarei o que vier a seguir.

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Karl Bartos — Entrevista — Future Muisc — 9 de Janeiro de 2024

 


KARL BARTOS

Ex-integrante do Kraftwerk, Karl Bartos conta a Hamish Mackintosh a história de fundo não tão horripilante da sua nova trilha sonora para Dr. Caligari.

Karl Bartos | No Estúdio Com

Falei pela última vez com Karl Bartos cerca de 10 anos atrás, por ocasião do lançamento de seu maravilhoso trabalho através de seus próprios arquivos musicais, Off The Record. Para aqueles de nós de uma certa geração, o Kraftwerk foi, indiscutivelmente, a porta de entrada para toda a música eletrônica que se seguiu. Bartos foi uma peça fundamental da lendária banda alemã por 15 anos, contribuindo para o que hoje são considerados álbuns clássicos, até deixar o grupo em 1990, frustrado com a prolongada estagnação criativa da banda. Sua recente autobiografia The Sound of the Machine: My Life in Kraftwerk and Beyond é leitura essencial.

Após o Kraftwerk, Bartos formou o Electric Music, lançou dois álbuns antes de colaborar com Bernard Sumner e Johnny Marr no projeto Electronic, além de trabalhar com Andy McCluskey do OMD. Em 2021, foi incluído no Rock & Roll Hall of Fame como parte da formação clássica do Kraftwerk.

O Gabinete do Dr. Caligari foi um trabalho de longa data para Bartos e a trilha sonora resultante é fruto de um fluxo criativo de dois anos entre seu estúdio em Hamburgo e o estúdio em Düsseldorf de seu amigo e engenheiro, Mathias Black. Segundo Black, a dupla “usou FaceTime, compartilhamento de tela e, por assim dizer, compartilhamento de vida, um servidor em nuvem. Não dá para substituir o trabalho conjunto em um único estúdio, mas ajuda”. O álbum resultante é uma fusão intoxicante entre o orquestral e o eletrônico; é difícil acreditar que este seja o primeiro trabalho propriamente dito de Bartos em trilhas sonoras (apesar de já ter contribuído para Metropolis, do Kraftwerk, uma homenagem ao filme homônimo de Fritz Lang).

A entrevista foi uma oportunidade prazerosa para um bate-papo sobre música e filosofia com o sempre encantador Mr. Bartos, em seu estúdio minimalista em Hamburgo (assim como para ouvir mais sobre sua atitude surpreendentemente cautelosa com computadores).

É incrível descobrir que este é seu primeiro projeto de trilha sonora. Como compor esta música para Dr. Caligari foi diferente de montar um novo álbum de músicas?

“A diferença ao criar uma trilha sonora é que, como a música de dança, é uma música funcional... ela é feita por um motivo e as pessoas na pista de dança movem seus corpos a isso. O mesmo se aplica à música para filmes. Algumas músicas, por exemplo, A Sagração da Primavera, de Stravinsky, foram compostas para o balé. Durante o processo de composição para esse filme, considerei o movimento dos atores como um balé, então, claro, a música precisa se ajustar a seus movimentos. É um processo reverso de coreografia. O processo de escrever uma trilha é muito estressante, você não tem muito tempo, e alguém vai te dizer para fazer de um certo jeito, mas escolhi fazer essa do meu jeito. Escrevi sobre isso na minha autobiografia.”

Na última vez que conversamos sobre o lançamento do seu álbum solo Off The Record, você havia explorado seus arquivos pessoais para encontrar material para trabalhar. Você fez algo parecido para compor a trilha sonora?

“Na verdade, essa é uma boa pergunta. Eu incorporei algumas músicas que escrevi quando era estudante no Conservatório de Música do Reno, durante as aulas de contraponto. Eu juntei tudo com meu parceiro musical Mathias Black. Um dos motivos pelos quais eu queria tanto fazer essa trilha foi porque o filme era quase como o Big Bang da cultura pop. O personagem Cesare quase parece o David Bowie [risos], ou o predecessor do David Bowie, eu acho. Eu amei isso.”

No Estúdio Com | Karl Bartos

Houve uma recepção crítica calorosa ao Off The Record que te surpreendeu?
"Sim, e ela vem crescendo ao longo dos anos. No início, foi difícil decolar porque eu não fazia shows ao vivo. Não tenho uma banda, então não podíamos fazer apresentações ao vivo. Levou um tempo, mas agora está ficando cada vez maior."

Ainda há muitos tesouros musicais a serem extraídos dos seus arquivos, e o armazenamento digital tornou tudo fácil demais?
"Sim, mas para armazenamento e administração o computador é perfeito [risos] – o que já é muita coisa!"

Nos primeiros anos com o Kraftwerk, você alguma vez imaginou uma época em que se poderia ter uma estação musical funcional na palma da mão?

 "Não, não realmente. Quando tivemos a ideia de fazer um álbum chamado Computer World, eu sempre comparo isso ao livro Neuromancer, de William Gibson, que foi escrito em uma máquina de escrever — analógica. As coisas que ele imaginava em sua cabeça estavam muito à frente de seu tempo. Então, quando fizemos Computer World, tínhamos um Moog system, um ARP synth e um sequenciador de 16 passos, mas a imagem já estava na nossa cabeça. A gente não poderia imaginar que, em 2023, você poderia, em teoria, gravar o universo com sua música num telefone celular."

Você acha que jovens artistas e produtores que começaram a fazer música no Reason ou no Ableton Live têm ideia de como era difícil, antigamente, sincronizar até mesmo dois equipamentos eletrônicos entre si?

 "Alguns anos atrás, eu tinha uma posição de professor na Universidade das Artes, em Berlim, e alguns dos alunos eram apenas DJs. Alguns deles surgiram com a ideia de que tudo de que precisariam depender estava nos laptops. Isso realmente me surpreendeu na época. Normalmente, no início de cada semestre, íamos a um ensaio de uma orquestra sinfônica. Lembro que no primeiro que fomos, foi com o Sir Simon Rattle e, depois do concerto, sentamos do lado de fora da Filarmônica de Berlim com algumas partituras, e eu expliquei a eles como uma partitura é parecida com uma tela de computador – a principal diferença é que uma partitura não reproduz o som. Então você precisa saber como montar as notas e usar sua imaginação para encaixar todos os blocos juntos."

Quais equipamentos você usou em seu estúdio para o álbum Caligari?

 "Bom, tem um Polymoog original aqui e ele ainda funciona! Grande parte da música do álbum foi feita com ele. Eu trabalho neste estúdio em Hamburgo, e meu parceiro musical Mathias (Black) tem seu estúdio em Düsseldorf, e às vezes ele vem até aqui e conecta meu computador ao dele. Ele às vezes me ajuda com toda a tecnologia quando tudo começa a ficar complicado, porque meu cérebro está acostumado a resolver coisas mais abstratas como a música. Os computadores às vezes te fazem sentir como se você tivesse que resolver problemas. Não é criativo, então peço ajuda ao Mathias, e ele também é um ótimo músico, o que ajuda."

Então, você acha que computadores no processo musical podem acabar criando tantos problemas quanto resolvem?

 "Às vezes tenho a sensação de que a cultura musical hoje é moldada por cientistas da computação, porque você precisa sempre preencher um formulário. Então, eu tive que preencher os formulários enquanto fazia o Caligari em forma de som. Embora Caligari tenha sido composto na minha cabeça, e o piano tenha apoiado essa imaginação e meu violão Martin D28 acústico. Então eu trabalho a ideia, escrevo, e depois passo para o computador. Nos primeiros dias do Kraftwerk nós tínhamos uma máquina de fita, e agora basicamente uso o computador apenas como uma ferramenta de gravação."

Você carrega algum dispositivo portátil para capturar ideias enquanto viaja?

"Não… Eu fiz uma observação de que, se tenho uma ideia para uma música, pego meu violão e canto junto com ela, e não gravo. Eu nem escrevo. Depois, da próxima vez que pego o violão, meu subconsciente vai adicionar algo. Acordes são os blocos da música pop, então eu toco alguns desses acordes-bloco e meu subconsciente preenche as lacunas. Assim, não é algo planejado, e vem de algum lugar da minha alma… [risos]

"Às vezes eu tenho a sensação de que a cultura musical hoje em dia é feita por cientistas da computação porque você sempre precisa preencher um formulário."

Seu computador está longe de ser uma ajuda musical para você, então?

 "Você tem que manter esse processo em andamento e lembrar o que você fazia antes. Com um computador, ele reproduz cada pequena ideia de volta pra você... por quê? Eu só quero preencher o vazio na minha mente, não na realidade. O processo criativo não é preencher um formulário. Trata-se mais de observar o mundo e a natureza e tentar imitar isso, colocar isso na arte e interpretar sentimentos humanos. Se for isso, então eu não quero ouvir isso do computador. Eu quero explorar, quero encontrar a próxima geração de acordes. Então eu toco isso no dia seguinte e meu cérebro vem com outro acorde. Você tem que manter sempre em mente o ato da criação, que é sobre uma ideia, certo? A pergunta não deve ser ‘o que eu tenho no estúdio’ ou ‘que equipamento vou usar’, a pergunta é: ‘do que eu preciso?’ É uma luta entre ideia e realidade… sempre, para transformar minha ideia em realidade.”

Lembramos da última vez em que conversamos, falamos sobre como é fácil se perder entre tantas opções em meio a todas as novas tecnologias. Isso ainda é relevante para você?

 “É por isso que eu reinventei esse procedimento de não gravar nada, mas sim desenvolver. De novo, como Paul McCartney disse em seu último livro, ele ia até a casa de John [Lennon] e havia um momento criativo surgindo, e eles tinham uma ideia. No dia seguinte voltavam e, se não conseguiam lembrar da ideia, então é porque ela não era boa o suficiente.”

É como um filtro?

“Sim, é como um filtro cerebral, e se você não consegue lembrar, então esqueça. Se conseguir lembrar, então, no dia seguinte, algo se encaixa – a ponte, os refrões ou as palavras. Seja compondo música pop ou não, você precisa de palavras. Elas têm que se conectar com sua vida cotidiana. Infelizmente, essa maravilhosa máquina, o computador, vem junto com tantas ferramentas de administração que você sempre se distrai com elas. Então você tem que sempre lembrar de como desligar o computador.”

Essa postura certamente está em sintonia com uma tendência crescente de fazer música fora da caixa, no momento...

“No começo, muitas vezes chamávamos nosso estúdio de um jardim eletrônico,

mas esse jardim se transformou em uma fazenda industrial.” 

Karl Bartos | No Estúdio Com

“É praticamente uma rua sem saída. Ray Davies disse em Waterloo Sunset, ‘todo dia eu olho o mundo pela minha janela’, e então ele diz o que vê. É exatamente isso que você faz se for compositor. Você olha para o mundo exterior e tenta transpor o que vê para a música. Com o Kraftwerk, tínhamos aquele conceito do homem-máquina, que foi tirado do filme Metropolis, de Fritz Lang, sobre o robô feminino chamado Futura, mas nós (Kraftwerk) estávamos tocando juntos em uma sala, olhando um nos olhos do outro. Colocamos nossa comunicação na música. O ponto de virada para nós foi a digitalização, e quando o Kraftwerk virou uma instituição nós paramos de ser contemporâneos [risos]. Em vez disso, viramos vendedores de nostalgia.”

“Você sabe, quando o computador apareceu, era o sonho de um empresário. No começo, muitas vezes chamávamos nosso estúdio de ‘jardim eletrônico’, mas esse jardim se transformou em uma indústria agrícola. Quando escrevemos Computer World, ainda éramos como crianças tocando juntas. Estávamos brincando com o sequenciador Music and Rhythm Laboratory, como o Friend-Chip “Mr. Lab” — o Kraftwerk também usava o sequenciador Synthanorma nessa época, mas aí o computador apareceu e nos transformou em uma caixa de música. Viramos uma caixa musical, e também nossos cérebros foram digitalizados. Passamos todo nosso tempo resolvendo problemas com tecnologia.”

Que equipamentos você tem à disposição no seu estúdio em Hamburgo?

 “Tenho muitos computadores. Para o projeto Caligari, Mathias e eu trabalhamos com Logic Pro em um Mac Pro cada um, com todos os plugins disponíveis, como Organteq, Vienna Symphonic Library, Waves e hardware da Neve, TubeTech, BSS, Lexicon, Sony.”

Estaríamos certos em pensar que você também tem um tesouro de sintetizadores antigos guardado?

 “Ainda tenho dois Minimoogs, o Polymoog, ARP Odyssey, Korg PS-3100, MS-20, MS-50, Roland MC-202, TB-303. Alguns teclados digitais, como Roland D-50, Yamaha DX-7, Nord Electro, Virus B, Novation, entre outros. Todos eles soam ótimos, mas você precisa entrar no espaço digital para a produção. Todo som analógico é gravado no espaço digital, e é aí que vem a confusão novamente. Com o Kraftwerk, a gente chegava ao estúdio e começava a tocar com um objetivo. Ou às vezes apenas celebrávamos a improvisação. Conversávamos, ríamos, tocávamos, olhávamos uns para os outros na orelha e transferíamos toda essa informação para a música. Esse era o grande segredo! A ideia era que o computador nos daria mais tempo para a criatividade, mas o efeito foi o oposto. Passamos muito tempo com a organização do som e com a tecnologia. O ser humano não estava mais no centro de tudo, o computador estava. E acabamos servindo à indústria da computação.”

Então, ironicamente, o computador teve um impacto negativo no processo musical do Kraftwerk?

 “Sim, a gente nem se falava no estúdio e havia mais engenheiros do que músicos. É como se hoje todo empresário pensasse que precisa de um computador. Não sou contra, mas a indústria é tão boa em vender essas máquinas para todos... para escolas, para crianças. Ainda acho que o futuro é o futuro, mas isso não é certo, porque o futuro é o que fazemos dele. Algumas pessoas no Kraftwerk acreditavam tanto nisso que achavam que era progresso, mas eu realmente não conseguia seguir aquilo. Acho que inovação e progresso não são sinônimos. Você consideraria a máquina de guerra — ou a bomba atômica — um progresso para a humanidade? Não tenho tanta certeza.”

Parece o momento ideal para perguntar sua opinião sobre IA na música?

 “É superestimado, eu acho. É só um arquivo do conhecimento humano. Então, se você fosse remixar A Galáxia Gutenberg [o reverenciado livro de Marshall McLuhan dos anos 60], A Mona Lisa e as Variações Goldberg, o que seria colado e copiado? Não sei! Acho que é um sonho molhado de alguns caras do Vale do Silício. Eles são realmente bons em nos vender a IA... mas onde estão os resultados?”

Você fará apresentações ao vivo de Dr. Caligari em breve. Como vai apresentar a música nesses shows?

 “Mathias vai tocar comigo. Ele é meu amigo e parceiro musical. Não sei se você já viu imagens de Pierre Schaeffer e Pierre Henry apresentando sua musique concrète. Eles usavam fitas, como fazemos com o computador, porque a base do som é a orquestra sinfônica, e depois o Mathias e eu tocamos por cima. Então o Mathias está fazendo o que o Stockhausen chamaria de ‘diretor de som’. Ainda há muitas coisas musicais que me deixam animado hoje em dia!”









sexta-feira, 30 de maio de 2025

Karl Bartos Entrevista — Classic Pop Magazine — 2025

 


Karl Bartos, 2021. Foto por Patrick Beerhorst

O músico Karl Bartos, com formação clássica, foi integrante do Kraftwerk em uma sequência impressionante de álbuns, de Radio-Activity a Electric Café. Tendo se mantido em silêncio sobre sua antiga banda, sua poderosa nova autobiografia oferece uma perspectiva totalmente nova sobre a vida dentro da máquina-humana. Ele concede sua primeira entrevista britânica sobre o Kraftwerk e além, exclusivamente para a Classic Pop.

Embora o Kraftwerk tenha sido justamente celebrado por suas aventuras pioneiras na música eletrônica, não se deve ignorar o quanto eles também tinham uma aparência fantástica. Fixa na mente de muitos como a formação clássica — Ralf Hütter, Karl Bartos, Florian Schneider e Wolfgang Flür — na capa de The Man-Machine de 1978, com camisas vermelhas e gravatas pretas, Bartos tem uma teoria brilhante de por que o Kraftwerk poderia se passar por robôs: todos tinham a mesma altura, exatamente 1,83 metro.

"Éramos todos iguais", observa Karl. "Ninguém era muito baixo, ninguém era gigante. Nunca aconteceu, mas todos nós poderíamos trocar de roupa entre nós. Onde quer que fôssemos, sentíamos uma reação muito forte e sabíamos que uma identidade específica estava sendo transmitida."

Na sua notável autobiografia The Sound Of The Machine, Karl descreve como sentiu que precisava ser músico desde o momento em que ouviu A Hard Day’s Night dos Beatles. Ele percebe uma conexão na imagem das duas bandas:

"Nunca foi ‘John Lennon e os Beatles’ ou ‘Paul McCartney e os Beatles’. Eram sempre os ‘Fab Four’, uma verdadeira banda. O Kraftwerk tinha essa igualdade também na nossa aparência. Éramos a banda perfeita, sem uma estrela que dominasse visualmente. As pessoas gostam dessa igualdade."

É uma teoria tipicamente bem formada de um músico que — como seus ex-colegas — raramente falou sobre a vida dentro do Kraftwerk. Karl é literalmente mais qualificado do que a maioria para teorizar sobre música pop.

Ele estudou percussão no Conservatório Estadual da Renânia desde 1970, combinou boa parte do seu tempo no Kraftwerk com aulas de música e, em 2004, fundou um programa de mestrado na Universidade das Artes de Berlim, na área de comunicação acústica. Dentro do brilhante robô do imaginário do Kraftwerk pulsa o coração de um homem que vive pela música.

Por muito tempo, Bartos relutou em falar sobre sua passagem pelo Kraftwerk: "Sempre me senti desconfortável falando sobre nosso tempo juntos" — por isso, suas opiniões sobre música são pouco conhecidas. E elas realmente merecem ser ouvidas.

A mística que se formou em torno do Kraftwerk nos anos 70 os congelou no tempo como aqueles robôs. Na realidade, por uma chamada de Zoom desde sua casa em Hamburgo, Karl não poderia parecer mais humano. Seu escritório é mais de professor do que de pioneiro eletrônico: uma parede cheia de arquivos, uma pequena planta e um planner cheio de post-its. Com cabelo grisalho impecavelmente penteado de lado e vestido com um fleece azul-marinho, Karl é desarmantemente simpático.

Os clichês sobre Kraftwerk e décadas de silêncio poderiam fazer alguém esperar frieza, mas, ao contrário, Karl é espirituoso, com um sorriso gentil sempre pronto. Seu inglês é praticamente perfeito — a única palavra com que ele luta é “ephemeral”, o que até falantes nativos às vezes fazem.

A CIÊNCIA DO SILÊNCIO

Bartos levou três anos escrevendo The Sound Of The Machine, inclusive supervisionando a tradução para o inglês coloquial. Não se deixe intimidar pelo tamanho do livro — 641 páginas. Ele flui rapidamente, é revelador sobre os bastidores do Kraftwerk e recheado de teorias sobre a relação entre música e natureza.

"De forma profunda, a música imita a vida", oferece Karl. "Ela nasce do silêncio, se desenrola no espaço e no tempo, depois desaparece e morre no silêncio. É isso que nós, seres humanos, fazemos também. Provavelmente amamos tanto a música porque ela reflete a nossa vida. A música me ajuda a entender o que as pessoas encontram na religião e no eterno."

Essa não é, necessariamente, a forma de pensar que alguém esperaria de quem ajudou a criar Spacelab. Mas é exatamente essa visão humana do Kraftwerk que fez Karl finalmente estar pronto para compartilhar sua perspectiva sobre a banda: explicar que toda a conversa sobre robôs e eletrônica precisa ser completamente revista, porque aquilo era música feita por humanos, não por máquinas.

Ele é particularmente apegado ao conceito de The Man-Machine, daí o título do seu livro:

"Gosto da ideia que Fritz Lang teve para ‘o homem-máquina’ em Metrópolis", diz Karl sobre o filme visionário de 1927. "O Kraftwerk assumiu essa ideia, de que o robô se tornava a voz da personagem principal, Maria. ‘Homem-máquina’ é uma boa expressão, porque ‘homem’ vem primeiro, não ‘máquina’."

O que Bartos mais lembra com carinho são as interações humanas dentro do Kraftwerk, especialmente trabalhando no lendário estúdio Kling Klang em Düsseldorf.

Perguntado sobre sua lembrança favorita da banda, Karl responde sem hesitar:

"As sessões de composição. Tocávamos como crianças ou músicos de jazz livre. Música é uma conversa. E criávamos conversas musicais: um instrumento falava com o outro, e um terceiro comentava aquela conversa."

Antes de começar uma música, eles conversavam sobre música, sociedade, o mercado fonográfico, ou sobre como David Bowie era tão natural ao falar com a imprensa — algo que eles admiravam. E essas conversas eram então continuadas nos instrumentos.

Depois, saíam para jantar, voltavam ao estúdio e partiam para o que chamavam de “sound drive”, testando as demos no carro.

Computer Love nasceu exatamente desse espírito colaborativo.

"Eu tinha um piano na sala onde dava aulas. Isso me permitia improvisar. Criei uma melodia, escrevi e levei para o Kling Klang. Toquei no sintetizador do Florian e, imediatamente, Ralf encontrou os acordes certos para Computer Love. Criei uma segunda melodia, Ralf respondeu com o refrão. E pronto. A música ficou pronta em cinco minutos. Ainda tenho essa demo original."

Esse tipo de interação humana era comum no pop, mas parecia estar a anos-luz da aura robótica do Kraftwerk. Por isso, The Sound Of The Machine precisava ser escrito.

"Tínhamos igualdade no início. As conversas eram o centro da nossa música. Era um ato coletivo de criação. E foi um bom esforço, porque parecia não exigir esforço algum."

Contudo, desde que Wolfgang Flür saiu em 1987 e Karl três anos depois, Bartos sente que Ralf Hütter reescreveu a história da banda, sem produzir nenhuma música nova — exceto pelo confuso Tour De France Soundtracks de 2003 — que pudesse sustentar sua versão da história.

"Estamos ouvindo a mesma narrativa sobre o Kraftwerk há mais de 40 anos" — diz Karl. "Quis mostrar outro ponto de vista. O tema central do Kraftwerk era a digitalização da tecnologia — mas a música que expressava isso era feita da forma mais humana possível, com Ralf, Florian e eu trabalhando juntos. Ao fim dos meus 16 anos na banda, esse processo criativo havia mudado — de um conceito humano para um conceito não-humano."

SONHOS ANALÓGICOS

Karl tinha 22 anos quando entrou no Kraftwerk. Como seus futuros colegas, já havia trabalhado com o produtor Conny Plank. Ele conheceu Ralf e Florian pouco antes do lançamento de Autobahn, em 1974. Lembra que Ralf — assim como Florian, seis anos mais velho — foi buscá-lo no conservatório em um Volkswagen cinza.

"Ralf e Florian eram jovens e artisticamente engajados. Não sabiam nada sobre música clássica. Assim como eu, cresceram na era do pop, quando a música era o centro da cultura jovem."

Bartos acredita que sua formação clássica era uma curiosidade para eles:

"Era uma cultura contra a qual o Kraftwerk se posicionava", observa. "O engraçado é que hoje eles são exatamente assim: repetem A Flauta Mágica infinitamente."

O fato dos sintetizadores do Kraftwerk serem analógicos era essencial. No livro, Karl escreve que "olhar uns para os outros, e não para telas de computador", era vital para a comunicação musical.

"Fazíamos música na era analógica, não na sua substituição digital. Nossos instrumentos analógicos eram como caixas de música. Havia uma sensação romântica, como nos escritores do Romantismo, Edgar Allan Poe e E.T.A. Hoffmann. Existe algo místico numa caixa de música, como se a máquina tivesse uma alma. O compositor Ravel disse, ao ver uma bailarina girando numa caixa de música: ‘Posso quase ouvir seu coração bater.’ É por isso que a música do Kraftwerk ainda está viva — há algo além do som que as pessoas ainda sentem."

O FIM DO ENCANTO

Karl acredita que Computer World, de 1981, e sua respectiva turnê foram o ápice final do Kraftwerk.

"A turnê foi fantástica", sorri. "O sentimento entre nós, como grupo, era maravilhoso. Essa ideia de ‘turnê 3D’ que o Kraftwerk faz hoje, nós já estávamos fazendo naquela época. Éramos nós, tocando música, olhando uns para os outros. Eu podia dar um tapinha no ombro do Ralf, um abraço no Florian. Nos divertíamos, tocávamos Pocket Calculator e depois íamos a uma boate depois do show. Infelizmente, tudo isso mudou."

Quando o Kraftwerk atingiu o primeiro lugar nas paradas britânicas em 1982 com The Model/Computer Love, foi um momento agridoce.

"Aquilo foi meu momento ‘Day Tripper/We Can Work It Out’", observa Bartos. "Chegar ao topo foi obviamente uma sensação boa, mas mais como uma pergunta do que uma resposta. Eu já tinha algumas ideias da turnê, como o riff de Sex Object e a melodia de The Telephone Call. Tínhamos 20 ou 30 ideias assim. Mas, quando chegamos ao número um, já tínhamos parado de tocar, sentir e responder uns aos outros."

Na visão de Karl, houve várias razões para o Kraftwerk ter parado de se comunicar no estúdio. Musicalmente, o mundo começou a alcançá-los à medida que sintetizadores se tornavam comuns.

"Era muito importante para Ralf e Florian que eles fossem a elite", acredita Bartos. "Havia sempre uma aura de elitismo em torno do dinheiro no Kraftwerk: escolas particulares, férias em St. Tropez e St. Moritz, compras em Nova York. No começo, isso tudo era engraçado, mas virou uma ameaça. Quando a indústria musical alcançou os sons eletrônicos, meus ex-parceiros ficaram perturbados com a ideia de que não eram mais a elite do pensamento artístico."

Ao invés de buscar novas maneiras de avançar, o Kraftwerk ficou preso às modas tecnológicas. Um trecho tristemente engraçado do livro descreve o horror de Karl ao ver um Synclavier gigantesco instalado no Kling Klang.

"O computador organiza a arte demais", afirma Karl. "No Techno Pop, usamos computadores e aquilo virou música feita por copy-and-paste. E copy-and-paste nunca vai substituir a composição que nasce no cérebro, o poético. Você nunca alcança o nível do poético apenas copiando e colando."

Quanto mais Ralf e Florian olhavam para suas telas de computador, mais Karl e Wolfgang se preocupavam.

O álbum Techno Pop — depois renomeado como Electric Café — é um exemplo clássico de um disco excessivamente pensado. Durante seus cinco anos de produção, o Kraftwerk tentou trabalhar, pela primeira vez, com produtores externos como François Kevorkian e Michael Johnson (ligado ao New Order).

"Eles são engenheiros fantásticos, mas não são compositores", dá de ombros Karl. "Em Techno Pop, olhamos demais para o nosso tempo e suas modas, suas inovações técnicas, em vez de focar em criar nossos próprios elementos musicais. O mundo além do tempo é um guia muito melhor para o ato de criar."

Quando Electric Café finalmente saiu em 1986, fracassou. O Kraftwerk, de repente, estava atrasado no tempo, não mais à frente.

Para compensar, a gravadora sugeriu lançar uma coletânea e fazer uma turnê.

"Era isso que deveríamos ter feito", admite Karl. "Se tivéssemos feito uma turnê e lançado um Best Of, poderíamos ter nos reconectado pessoalmente de novo."

Ao invés disso, passaram mais cinco anos retrabalhando músicas antigas para The Mix. Desesperado, Karl saiu.

"Devíamos ter voltado às coisas que nos uniram. Foi de lá que veio nossa melhor música. Eu precisava ir. Por dez anos, pedi: ‘Vamos ser músicos, vamos tocar juntos.’ E não funcionou."

MÚSICA AO VIVO SEM PARAR

Claro, os shows atuais do Kraftwerk continuam recebendo aclamação da crítica. Mas não há música nova para acompanhá-los.

"Ralf se tornou completamente um homem de negócios nos anos 80", franze a testa Karl. "Ele sempre teve uma mentalidade empresarial. Isso fazia o Kraftwerk ser mais organizado que outras bandas. Mas Ralf passou a ser o único a dar entrevistas, e a ideia de que Ralf era o Kraftwerk entrou na mente do público. Mas se Ralf é o Kraftwerk… onde está a nova música do Kraftwerk? Você não pode simplesmente substituir pessoas como eu, Florian e Wolfgang por engenheiros."

"O homem-máquina virou uma máquina de computador. O Kraftwerk virou uma esteira de produção, fabricando produtos a partir de ideias antigas."

Karl e sua esposa Bettina foram a um show do Kraftwerk em Hamburgo:

"Fomos embora. Isso realmente partiu meu coração."

Para Bartos, a falta de música nova é enlouquecedora:

"É a mesma ideia multiplicada repetidamente. É completamente a ideia errada, mas Ralf se safa com isso."

Além das diferenças musicais, questões financeiras também contribuíram para sua saída. Ele quase saiu após Trans-Europe Express, até que Ralf e Florian concordaram em torná-lo sócio pleno dos negócios do Kraftwerk.

Mas, quando deixou de dar aulas para se dedicar exclusivamente à banda em 1981, percebeu que os créditos opacos nas capas dos discos permitiam uma divisão desigual dos lucros.

Houve, eventualmente, um acordo extrajudicial sobre seus royalties, embora ele comente:

"Esse acordo parece ser um canteiro de obras eterno."

Aparentando mais tristeza do que raiva, Karl reflete:

"Nosso processo criativo era uma alegria e um esforço coletivo. Mas o reconhecimento e o lucro foram privatizados. Isso não funciona no longo prazo. E eu não nasci para ser um ‘yes man’."

Pouco depois de Florian deixar o Kraftwerk em 2008, ele e Karl se encontraram por acaso em Düsseldorf. Foi o último encontro deles antes da morte de Florian, em 2020.

"Florian não gostava de replicar a música do Kraftwerk nos shows", revela Bartos. "Ele queria parar de fazer turnês durante a produção de The Mix, então Ralf e eu conversamos sobre Florian trabalhar apenas no estúdio. A herança que ele recebeu do pai foi sua liberdade para deixar o Kraftwerk."

"Aquele encontro com Florian me deixou muito triste, porque só falamos do acordo que ele e Ralf fizeram para sua saída. Não falamos sobre música, só sobre o Kraftwerk como empresa e sobre Florian como acionista. Fiquei muito infeliz depois disso."

Um encontro casual com Ralf foi igualmente desanimador:

"Ralf já não era mais a pessoa com quem eu conseguia compor. Ele se tornou um completo estranho, física e mentalmente. Isso me deixou muito, muito triste."

NOVA VIDA, NOVAS PARCERIAS

Depois de sair do Kraftwerk, Karl encontrou uma relação muito mais harmoniosa com o Electronic — projeto de Bernard Sumner e Johnny Marr — tocando no segundo álbum deles, Raise The Pressure, de 1996.

"Conhecer Bernard e Johnny me ajudou a sobreviver depois de sair do Kraftwerk", sorri Karl. "Eles me lembraram de como era trabalhar no Kraftwerk no começo. Meu cunhado é do norte da Inglaterra também, e compartilhamos o mesmo humor e a mesma maneira de pensar. Ver Bernard criando letras a partir da linguagem cotidiana foi inspirador. Adoro quando eles me ligam, porque sempre falamos de música. Bernard e Johnny vivem na música, não no mercado financeiro."

A amizade foi tão inspiradora que Karl quase se mudou para Manchester, mas Bettina, sua esposa, precisava trabalhar em alemão como jornalista, então permaneceram na Alemanha.

Johnny também reacendeu em Karl o desejo de tocar guitarra em sua própria música:

"Quando vi sua enorme coleção de guitarras e o assisti tocá-las, fiquei viciado de novo", ri Bartos. "Comprei um violão Martin D-28 e toco todos os dias, além de piano."

"Para mim, a música é como respirar. É um reflexo. Claro, há coisas que me tiram da música, como ir ao médico ou declarar impostos, mas ainda assim consigo me perder no som. Disciplina e vontade também são necessárias. Afinal, a música precisa ser produzida."

Ele também trabalhou com o OMD (Orchestral Manoeuvres in the Dark). Quando Paul Humphreys estava fora da banda, Andy McCluskey contatou Bartos para colaborar numa versão de Neon Lights, do Kraftwerk.

Ele e Andy escreveram duas músicas para o álbum Universal (1996) e outras duas para o primeiro álbum solo de Karl pós-Kraftwerk, Esperanto, lançado sob o nome Electric Music, em 1993.

"Fico muito feliz que o OMD esteja indo bem", diz Bartos. *"Eles são uma instituição, e eu trabalharia com eles novamente. Conhecê-los, assim como ao Electronic, depois do fim do Kraftwerk, me fez pensar: ‘Wunderbar! Não estou sozinho.’"

O LEGADO DE UM PIONEIRO HUMANO

Inicialmente relutante em lançar músicas em seu próprio nome, Karl lançou um segundo álbum como Electric Music em 1998. O disco é brilhante — uma fusão de guitarra e eletrônico que captura o entusiasmo devolvido a ele por suas colaborações britânicas.

Ele abre com The Young Urban Professional, uma música escrita originalmente durante a gravação de Techno Pop em Nova York, inspirada no fenômeno dos yuppies. É praticamente o Kraftwerk flertando com o rap.

"Não é fácil pra mim lembrar tantas palavras como nessa música", admite Karl. "Sempre tento pensar numa história e criar uma metáfora. Tudo se resume à redução, chegar ao ponto. Para mim, rap é um poema recitado em padrões rítmicos regulares, conhecidos como grupos de pulso."

Com a confiança para trabalhar em seu próprio nome, vieram os álbuns Communication e Off The Record. Communication mantém a paixão do projeto Electric Music, um álbum provocante, levemente sinistro, repleto de ideias e riffs insistentes.

Off The Record foi montado a partir de peças não lançadas que Karl compôs ao longo das décadas:

"Sempre trabalho com músicas ‘antigas’. Se você não tem um parceiro de composição, essa é a única maneira de avaliar ideias objetivamente."

Atualmente, Karl trabalha em uma peça clássica, prevista para lançamento em 2023, que ele descreve como: "Música para orquestra sinfônica sintética, em um ambiente eletroacústico."

Ele também está determinado a "tocar mais Bach no piano novamente, embora eu não seja um bom pianista. Mas é música imortal."

Se as relações na antiga banda se deterioraram, Karl reconhece que, no seu auge, o Kraftwerk também fez música imortal.

"O que me frustra é que não seguimos tentando tocar juntos. Por isso foi tão difícil para mim falar sobre o Kraftwerk por tanto tempo. O Kraftwerk ainda parece, para mim, um acorde não resolvido, uma trilha dourada perdida."

Desde que ouviu A Hard Day’s Night, Karl sempre buscou fazer música que soasse como os Beatles — criando conversas e contrapontos que ressoam por gerações de amantes da música eletrônica.

"Espero que minha música fale com as pessoas", reflete. "Não penso muito sobre isso. São meus pensamentos traduzidos em música. No Kraftwerk, alguns de nós só pensavam na recepção da música e em como podíamos ser mais bem-sucedidos. Acabamos limpando demais nossa arte e viramos homens de negócios digitais e curadores."

Karl completou 70 anos em maio de 2022.

"Penso muito no que vem depois", diz Bartos. "A vida é curta, e espero morrer com dignidade."

Se existir um além, Karl Bartos certamente estará lá, compondo música celestial e imortal — exatamente como tem feito há tantas décadas.

Ele talvez não pense tanto sobre isso, mas gerações de fãs de música continuarão agradecendo a esse pioneiro da música — um homem profundamente humano.

Fonte: Classic POP 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Kraftwerk — Entrevista com os integrantes — Future Music Magazine N° 6 — 1997


Future MusicQual foi o desenvolvimento tecnológico mais significativo da sua carreira?

Ralf Hütter – Acho que foi a chegada dos primeiros sintetizadores monofônicos, porque antes disso só existiam aquelas grandes máquinas dos Laboratórios Bell ou de estações de rádio estatais. Ter acesso, como músico individual e independente, a esse tipo de equipamento eletrônico foi uma revolução. Lembro que o primeiro sintetizador monofônico que comprei custava o mesmo que um Fusca, e essa era a escolha a ser feita. Acho que é uma comparação excelente, porque os sintetizadores deram liberdade de movimento aos músicos.

Future Music – Essas máquinas oferecem mais liberdade do que as de hoje por não terem presets?

Ralf Hütter – Sim. Você recebia apenas um manual datilografado de três páginas dizendo: “isso é o oscilador, isso é o filtro” – e só. Então você ia pra casa e começava a experimentar, girar botões. Não havia sons pré-programados, porque era tudo analógico. Eu não uso muito os sons pré-programados de hoje em dia; se usamos, sempre trabalhamos em cima deles. Raramente mantemos algo que veio do ouvido de outra pessoa. Sempre giramos os botões – essa tem sido nossa prioridade constante. Também costumávamos projetar nossos próprios sintetizadores e, naquela época, tínhamos que construir sequenciadores porque eram raros. Só os grandes sistemas Moog os tinham. Pegávamos caixas de ritmos e as redesenhávamos com nossos engenheiros e eletricistas para torná-las tocáveis, ajustando-as aos sequenciadores e depois sincronizando tudo com fita.

Future Music – Como o Kraftwerk consegue transferir sua música para o formato ao vivo?

Ralf Hütter – Não é pré-gravado, está tudo em armazenamento digital. Não usamos fitas, tudo roda a partir de computadores. Podemos alterar o quanto quisermos: cortar faixas, mutar, dobrar... Temos acesso completo. Podemos deixar qualquer faixa mais longa, de acordo com o show. Certas partes são escritas, mas algumas composições começam em um ponto e ficam totalmente abertas, com a programação entrando em um loop. Podemos fazer o que quisermos. Todas as composições (com exceção de The Robots) são escritas como sequências básicas.

Future Music – Você se surpreende com o quanto influenciaram a música dance americana?

Ralf Hütter – Sim, mas sempre tivemos uma resposta muito favorável do público negro nos EUA, mesmo antes do house e do techno. Lembro que alguém nos levou a um clube por volta de 1976 ou 1977, quando Trans-Europe Express havia saído. Era um loft em Nova York, depois do horário, justamente quando a cultura dos DJs estava nascendo e eles começaram a fazer seus próprios discos e grooves. Um DJ estava tocando trechos de Metal on Metal do Trans-Europe Express, e pensei: “Ah, estão tocando o novo álbum.” Mas aquilo durou uns 10 minutos! E pensei: “O que está acontecendo?!” A faixa original tinha só uns dois ou três minutos! Depois perguntei ao DJ e ele me disse que tinha duas cópias do disco e estava mixando as duas – e claro, podia continuar enquanto as pessoas dançassem. Isso foi um verdadeiro avanço, porque naquela época você tinha que fixar um tempo máximo por lado do disco, menos de 20 minutos, para que coubesse no vinil. Era uma decisão tecnológica que definia a duração da música. Sempre tocamos com durações diferentes ao vivo, mas ali estávamos, num clube alternativo, com a gravação rolando por 10, 20 minutos – e a vibração estava lá.

Future Music – E como os outros ex-integrantes veem a influência duradoura do Kraftwerk?

Karl Bartos – Não sei. Eu faço música, seja ela boa ou não tão boa. Faço o meu melhor e deixo o público decidir. Se Andy, Johnny ou Bernard dizem isso sobre nós [neste caso, OMD e Electronic elogiando o Kraftwerk – Ed.], é muito lisonjeiro. Tenho orgulho do que fizemos, mas sempre que posso gosto de improvisar, me comunicar. Quero encontrar pessoas, não ficar num estúdio atemporal ou numa torre de marfim – já fiz isso por 15 anos!

Wolfgang Flür – Talvez seja verdade que fomos algum tipo de ponto de referência na música eletrônica...

Future Music – E quanto ao estúdio Kling Klang? Como ele mudou?

Ralf Hütter – Nós o chamamos de jardim eletrônico, porque ele está sempre se regenerando e agora é completamente modular, de forma que podemos trocar e substituir módulos conforme quisermos. Mantivemos todos os nossos sintetizadores antigos guardados e, embora tenham perdido valor quando foram superados, hoje temos todos esses equipamentos analógicos de volta! É realmente muito bom. Mudar para o digital de forma alguma substituiu o analógico, especialmente porque, muitas vezes, a tecnologia digital é usada apenas para amostrar fontes analógicas – seja remasterizando sons antigos das fitas originais ou de outras fontes sonoras. Sempre consideramos qualquer fonte de som – é apenas som. Kling Klang significa “som” em alemão, então sempre tivemos essa fascinação por som. 

PS: As entrevistas foram feitas separadamente =)

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Karl Bartos transforma o silêncio em arte para nova trilha sonora do clássico filme ‘O Gabinete Dr. Caligari’ (2024)


Celebrado pelo seu trabalho com a banda alemã Kraftwerk da qual foi integrante entre os anos de 1975 até 1991, e responsável por várias faixas famosas dentro do grupo, o músico Karl Bartos divulga o seu mais recente trabalho em que Bartos refaz a trilha sonora do clássico filme-mudo expressionista “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920) dirigido por Robert Wiene (1873 -1938), que acaba de ganhar uma nova cópia restaurada digitalmente pela Fundação Friedrich Wilhelm Murnau na resolução 4k.

Para essa empreitada, Karl Bartos conta com a ajuda de seu amigo de longa data e designer de som Matthias Black que já colaborou com Bartos em outros trabalhos no passado, que aqui nessa nova trilha musical, ambos artistas, procuram criar uma paisagem sonora, cheias de elementos orquestrais que visam complementar o clima sombrio e instigante que filme apresenta. A trilha será executa ao vivo em sincronia durante a projeção do longa.

“O Gabinete do Dr. Caligari” é considerado por muitos críticos de cinema, um dos primeiros filmes no estilo expressionismo e um dos pioneiros em inovação na parte de narração e originalidade em seu visual. E até aos dias de hoje, o filme é um objeto estudo e obrigatório nas escolas de cinema e artes visuais devido ao seu caráter inovador. Além de ser a primeira obra no áudio visual no estilo no estilo classificado de thriller psicológico.

Essa não é a primeira vez que Karl Bartos que trabalha com trilhas sonoras, em 2007, Bartos fez temas incidentais para o documentário Moedius Redux A Vida em Imagens baseado na vida e obra do cartunista francês Jean Giraud (1938-2012) que colaborou na criação da identidade visual de filmes como Alien O Passageiro (1979) Tron: Uma Odisseia Eletrônica (1982), O Quinto Elemento (1997) entre outros longas que incluem animações e curta metragem, além do próprio mercado de histórias em quadrinhos.

Bartos durante o seu período com o kraftwerk, compuseram a faixa “Metropolis” (1978) em homenagem ao diretor alemão Fritz Lang (1890-1976) que dirigiu o homônimo longa, que na década de 1920, (o filme é de 1927) foi um grande sucesso nos cinemas e de critica, e se tornando uma grande referência e influência para o cinema nas décadas posteriores.

A trilha sonora de “O Gabinete do Dr. Caligari” está em pré-venda nos formatos de CD, Vinil, Digital, CD+DVD (edição limitada) pela gravadora Bureau B.

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