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terça-feira, 1 de julho de 2025

Wolfgang Flür — Entrevista — DockRock Magazine 10/09/1999

 


DockRock
– O que te motivou, 10 anos após o fim da colaboração com Ralf e Florian, a escrever um livro sobre o Kraftwerk?

Wolfgang Flür – Com certeza, dois fatores foram decisivos para este livro. A ideia veio de dois fãs do Kraftwerk que conheci no ano passado, e deles também veio o conceito e o design do livro. Confiei a eles o manuscrito e material fotográfico antigo, e eles criaram a versão final. Eles têm, sem dúvida, uma grande participação na obra e acho que fizeram um trabalho excelente. O segundo motivo para lançar este livro foi colocar um ponto final definitivo nessa época. O livro é, portanto, em certa medida, também a minha despedida do Kraftwerk, mesmo que muitos ainda me associem à banda no futuro.

DockRock – Atualmente circulam boatos de que o livro pode vir a ser retirado do mercado.

Wolfgang Flür – Bom, isso eu não posso confirmar. Até onde sei, não houve nenhuma tentativa de nenhuma parte para tirar o livro do mercado. O único problema no momento é que, depois que a primeira edição esgotou em poucos dias, a gráfica está com dificuldades para acompanhar a demanda com uma nova tiragem.

DockRock – Por que houve a separação após o Electric Café?

Wolfgang Flür – O Kraftwerk sempre foi uma banda voltada para dentro. No início dos anos 80, quase ninguém mais conseguia adentrar esse universo. A palavra de ordem era: ficar parado. Isso fez com que os estímulos e inspirações diminuíssem. Karl Bartos (que também saiu do Kraftwerk) e eu gostaríamos de ter tido uma participação maior na criação do novo material. Teria sido bom também trazer músicos de fora para dar um novo fôlego ao grupo. Se você se isola demais, eventualmente as ideias acabam. Uma troca seria necessária. Além disso, o ciclismo era, naquela época, mais importante para Ralf e Florian do que a música.

DockRock – No livro, você descreve o clima frio que reinava naquela época dentro do Kraftwerk. Até que ponto os caminhos pessoais diferentes dos membros contribuíram para a separação?

Wolfgang Flür – Com Computerwelt, atingimos o nosso auge. A turnê mundial que se seguiu, com todos os seus desgastes, colocou o grupo à prova. Chegamos aos nossos limites. Com a saída de Emil Schult, que desempenhava o papel de uma espécie de “pai da banda” (acompanhava o Kraftwerk em todas as turnês desde 1975), perdemos uma figura de ligação importante. Naturalmente também mudamos pessoalmente, e penso que a minha mudança foi a mais perceptível, sem querer transformar isso em uma competição. Me refiro mais ao aspecto humano. Após sair do grupo, experimentei várias coisas, me envolvi com design de móveis, viajei bastante, mas no fim percebi que a música continua sendo o centro da minha vida. Foi aí que comecei a trabalhar no Yamo.

DockRock – Seu primeiro disco solo (Yamo – Time Pie), que contou com a participação de integrantes do Mouse on Mars, foi lançado quase sem visibilidade. Quais foram os motivos disso?

Wolfgang Flür – Meu disco acabou se tornando rapidamente uma questão política. Minha gravadora na época (EMI Electrola) praticamente boicotou o Time Pie. Por isso, o novo Yamo, no qual estou trabalhando agora, será lançado por outra gravadora.

DockRock – Já existe uma data de lançamento? E o que os ouvintes podem esperar?

Wolfgang Flür – Ainda não há uma data exata. Não me coloco sob pressão, deixo as coisas se desenvolverem da maneira que for melhor para o Yamo. Provavelmente haverá um primeiro single no inverno e o álbum completo na primavera. Depois de deixar o Kraftwerk, percebi que minhas ideias pessoais sobre o som da música eletrônica caminham numa direção muito mais calorosa. Yamo faz música eletrônica, mas com uma abordagem completamente diferente daquela da minha antiga banda. Estou trabalhando atualmente com uma jovem cantora que vai interpretar algumas faixas, e outros músicos também estarão envolvidos. Eu me vejo como uma espécie de contador de histórias moderno. Um crítico descreveu o Yamo como poetry pop. Eu gostei dessa definição.

DockRock – Especialmente a música eletrônica se desenvolveu em diversas direções nos últimos anos, e surgiram bandas e projetos que trouxeram novos aspectos ao gênero. Artistas mais recentes influenciam o seu trabalho?

Wolfgang Flür – Não. Para alcançar um som original e pessoal, eu tento me isolar um pouco nesse sentido.

DockRock – Qual é a sua relação com a internet? Haverá uma versão do Yamo online?

Wolfgang Flür – Eu não tenho conexão nem interesse nisso no momento. A situação legal em relação a downloads e MP3s também não está esclarecida. Mas quem se interessa pelo Yamo pode entrar em contato conosco através do site de Martin Hausen e Markus Schmitz (www.commmuni-care.de). Tentaremos responder a todos. Mas sinto falta, nessa história toda, do contato humano direto ou da criação de um valor real. Um objeto físico, que você pode guardar na estante e pegar de vez em quando para se envolver com ele, não pode ser substituído por uma simples transmissão de dados. Vejo aí o perigo de as pessoas não precisarem mais sair de casa, não irem mais à caça. Para mim, falta a experiência sensorial.

DockRock – Mas a experiência sensorial nas megastores de música também é bem limitada.

Wolfgang Flür – Isso é verdade. Mas para mim, o objeto físico ainda tem um valor do qual não quero abrir mão.

DockRock – No seu livro, você se mostra bastante insatisfeito com a versão cover de Das Modell lançada pelo Rammstein.

Wolfgang Flür – Sim, considero essa versão realmente malfeita.

DockRock – Richard, do Rammstein, que esteve aqui há algumas semanas, disse que o Kraftwerk é uma das poucas bandas em que todos do grupo concordam como referência, especialmente em termos de imagem e encenação visual da música.

Wolfgang Flür – Minha crítica foi direcionada apenas à versão de Das Modell, não ao Rammstein como um todo, mesmo que, pessoalmente, o que eles fazem não me atraia. Mas acho a ideia e o conceito bastante coerentes. Tudo isso me parece vir de uma tradição de engolidores de espadas medievais e artistas de feira. O Rammstein trouxe isso para os dias de hoje. Eles são um espetáculo, sem dúvida. Certamente se encaixam bem no espírito da época. Hoje em dia, algo novo precisa ser muito impactante para se destacar em meio ao excesso de estímulos.

DockRock – Muito obrigado pela entrevista.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Wolfgang Flür — Entrevista — The Guardian — 1º de março de 2001


The Guardian
– Que computadores/hardwares vocês usavam nos primeiros dias do Kraftwerk?

Wolfgang Flür – Não existia algo como computador pessoal, e havia pouca coisa que pudéssemos usar eletronicamente! Ralf [Hütter] comprou um imenso e caríssimo sintetizador Moog, e Florian [Schneider] tinha um dos primeiros sintetizadores ARP Odyssey. Nós tínhamos uma bateria minúscula e quebrada que me inspirou a construir uma placa de percussão eletrônica — a primeira do mundo — em 1973. O órgão Hammond do Ralf foi adaptado com válvulas de rádio e cortado em duas partes para facilitar o transporte. Também usávamos uma mesinha de som minúscula e um osciloscópio. Em 1977, usávamos um sequenciador de hardware feito à mão pela Matten & Wiechers, que tinha capacidade para 16 faixas. Os softwares de sequenciamento assistido por computador só chegaram em meados dos anos 80 com o MIDI, mas quando saí do grupo, em 1986, ainda nem estávamos usando MIDI!

The Guardian – Como você tomou conhecimento da internet pela primeira vez?

Wolfgang Flür – Foi há cerca de quatro anos, assisti a um programa sobre isso, mas achei tudo muito americano e um pouco assustador. Levei mais dois anos observando antes de decidir me conectar. Uso a internet para pesquisar datas e fatos para meus escritos. Estou escrevendo um romance estranho e maluco chamado No Vacancies, e estou pensando em disponibilizar os primeiros capítulos de graça na rede. Também estou planejando postar samples da minha música “On The Beam” para os fãs brincarem com eles.

The Guardian – Existe alguma tecnologia que você gostaria que não existisse?

Wolfgang Flür – Eu proibiria todos os jogos de guerra de computador, tecnologia bélica e jogos violentos. São imorais, desumanos e apelam para nossos instintos mais baixos. Os resultados disso a gente vê nas ruas.

The Guardian – Como você se sente em relação ao compartilhamento de arquivos e ao iminente fechamento do Napster?

Wolfgang Flür – Eu adoro a troca de softwares entre almas afins — é como compartilhar bolinhas de gude na infância. Mas estou feliz que estejam fechando o Napster. É complicado demais controlar os direitos dos artistas, e por que o Napster deveria distribuir nossa música de graça? Músicos vivem de suas composições, e não gostamos de ser roubados!

The Guardian – Qual a sua visão geral sobre a internet?

Wolfgang Flür – A internet parece um conto de fadas para adultos — multifacetada e viciante — e ao mesmo tempo atende nossa necessidade de consumo. Em breve, todos estarão conectados a esse “palco do desejo” e se comunicarão com ele, lerão jornais, verão filmes, encomendarão bens e produtos. Estamos perdendo a fala, perdendo os contatos pessoais, perdendo as aventuras das compras.

The Guardian – Você tem sites favoritos?

Wolfgang Flür – Gosto da Amazon, da Books Online e do site do Clube Automobilístico da Alemanha, para informações de viagem.

The Guardian – Algum gadget preferido?

Wolfgang Flür – Meu computador Macintosh, meu sintetizador Supernova, meu gravador de voz Nokia, meu minidisc da Aiwa, meu microfone AKG Solitube, meu sintetizador Quasimidi Sirius solo entertainer, minha impressora colorida Epson, minha câmera digital Jenoptik, meus fones de ouvido AKG com três vias, minha impressora preta StyleWriter, minha TV Schneider, meu...

Wolfgang Flür ao The Guardian, publicada em 1º de março de 2001, com o entrevistador Hamish Mackintosh:

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Wolfgang Flür — Entrevista — Future Music Magazine N° ,17 — 1998


O que acontece quando você sai do grupo eletrônico mais influente de todos os tempos?

Após quase duas décadas como membro do Kraftwerk, o bom e velho Wolfgang Flür está de volta com um novo projeto, o Yamo, e está aprendendo a amar a vida depois dos robôs...

Düsseldorf está situada entre as curvas e voltas do rio Reno, no coração comercial e industrial do noroeste da Alemanha. Diferente de muitos centros puramente industriais ao redor do mundo – como Detroit, Milão, Roterdã ou Bilbao – Düsseldorf é uma cidade linda e extraordinariamente elegante, cheia de amplos bulevares arborizados, com uma arquitetura magnífica e um ambiente cosmopolita refinado.

Mas, claro, nas últimas três décadas, essa cidade teve grande importância para os fãs de música eletrônica por um motivo bem diferente. Alguns dos discos eletrônicos mais influentes de todos os tempos (Autobahn, Trans Europe Express, The Man-Machine e Computer World) vieram de um grupo que tirou seu nome de uma usina elétrica que ainda hoje permanece de pé, não muito longe, à beira do Reno.

A apresentação do Kraftwerk no Tribal Gathering do ano anterior serviu como lembrete de que nem toda música pop é passageira ou efêmera. Apesar de o grupo não lançar material novo desde 1986, não havia precedentes para o nível de expectativa – e empolgação – gerado por sua apresentação. Talvez isso tenha a ver com o fato de que, por meio do rap, acid house e techno (todos inspirados pelas sinfonias mecânicas dos ciberpioneiros de Düsseldorf), toda uma nova geração tenha descoberto o Kraftwerk.

Mas também parecia que o mundo finalmente tinha percebido que a estranha visão de futuro do Kraftwerk era a que indicava o caminho certo. Mais de uma década depois da aventura psicodélica do Electric Café, saída do estúdio Kling Klang do grupo, os maiores inovadores da música eletrônica finalmente estavam sincronizados com a cena musical que eles mesmos ajudaram a criar.

Mas, quando o Kraftwerk subiu ao palco naquela estranhamente fria noite de maio, o grupo não apresentava a formação clássica que mudou a cara da música pop. Naquele momento, os membros fundadores Ralf Hütter e Florian Schneider estavam acompanhados de dois engenheiros do Kling Klang, Fritz Hilpert e Henning Schmitz, em vez de Karl Bartos e Wolfgang Flür, que haviam deixado o grupo durante o período de inatividade criativa após Electric Café.

A saída de Flür foi algo gradual

"Fui deixando o Kraftwerk entre 1987 e 1989", explica. "Não foi uma decisão repentina. Também não houve nenhum grande drama. Nada novo estava sendo gravado, então fui cada vez menos ao estúdio, até que parei de vez. Hoje ainda encontro o Ralf e o Florian de vez em quando para tomarmos um café, mas, depois de tantos anos com os robôs, eu queria voltar a sentir o sangue quente correndo pelas veias..."

Após estar envolvido com música desde o início dos anos 60, Flür decidiu fazer uma pausa.

"Quando saí do Kraftwerk, decidi não fazer música por muito, muito tempo", relembra.

Durante um tempo, ele dirigiu um estúdio de design, até que, motivado pelo escândalo da guerra na Bósnia, pensou que a música poderia oferecer uma forma de ajudar. Em 1993, trabalhando com Emil Schult (conhecido como "o quinto membro do Kraftwerk"), escreveu o single beneficente Little Child como uma maneira de chamar atenção para o destino das crianças bósnias, presas em uma carnificina pela qual não tinham culpa alguma.

"Esse projeto me fez perceber que, afinal, eu ainda era apaixonado por música", afirma hoje. "Foi o começo do meu retorno às gravações."

A formação clássica

Autobahn é o primeiro álbum verdadeiramente moderno e reconhecível do Kraftwerk e, embora ainda restem vestígios de suas inclinações à improvisação, é possível ouvir elementos que antecipam selos como Transmat, R&S e Warp pulsando entre os estranhos ritmos sintéticos de faixas como Kometenmelodie ou Mitternacht.

O álbum representou um enorme triunfo criativo e comercial (ficou entre os dez mais vendidos dos dois lados do Atlântico), e Wolfgang se viu em turnê com o Kraftwerk pelos Estados Unidos.

"Foi tão estranho...", confessa. "Lá estávamos nós, uns jovens de Düsseldorf, e de repente nos vimos na Broadway..."

Mas mesmo com um álbum de sucesso nas paradas, Wolfgang lidava com um problema que muitos músicos conhecem bem:

"Em todas as bandas pelas quais passei, sempre queríamos ter o melhor e mais novo equipamento. Gastávamos todo o nosso dinheiro — às vezes até o que não tínhamos — em equipamentos. Felizmente, a loja de música de Düsseldorf era muito boa e nos deixava pagar em prestações. Acho que durante meu primeiro ano no Kraftwerk eu ainda estava pagando as parcelas dos equipamentos que compramos na época do The Spirits of Sound!"

Para a turnê do Autobahn, o Kraftwerk adicionou mais um percussionista: Karl Bartos, que na época ainda era estudante de música no conservatório Robert Schumann, em Düsseldorf. Flür e Bartos já tinham um projeto paralelo chamado Sinus, e com sua entrada no grupo, a formação clássica do Kraftwerk estava finalmente completa.

Após a turnê, o grupo voltou ao estúdio Kling Klang para trabalhar em um novo álbum.

Radio-Activity (Radioaktivität) é um dos álbuns preferidos de Flür entre os que gravou com o Kraftwerk.

"Adoro as melodias e o romantismo desse disco", afirma. "Lembro de estar no avião, depois da turnê do Autobahn. Ralf estava sentado ao meu lado e, de repente, disse que tinha uma ideia sobre 'atividade do rádio' (radio activity), e essa foi a primeira vez que ouvi ele falar sobre isso. Se você pensar em todas as estações de rádio privadas dos Estados Unidos... essa era a ideia. Não tinha nada a ver com radioatividade no ar ou com usinas nucleares."

Flür: o primeiro baterista eletrônico

Embora o senso pop apurado de Wolfgang (desenvolvido nos anos em que tocava versões) tenha deixado sua marca no estilo improvisador de Hütter e Schneider, sua maior contribuição ao Kraftwerk foi a criação de um aparelho revolucionário.

Três meses após entrar para o grupo, durante os ensaios para um programa de TV chamado Aspecte, Wolfgang se cansou da percussão típica de banda:

"O equipamento do estúdio era terrível", explica. "Cheio de poeira e nada profissional" — e decidiu investigar as unidades de percussão eletrônica (algo mais que simples caixas rítmicas de órgão doméstico) que já haviam sido usadas no álbum Ralf & Florian.

"Decidi tentar ligá-las a um amplificador e o som ficou ótimo de primeira", explica Wolfgang.

"Soava tão bem que comecei a pensar em como seria incrível se eu pudesse tocar aqueles sons em uma bateria normal."

Flür havia crescido aprendendo a construir coisas com as próprias mãos, então imediatamente começou a imaginar uma solução prática e viável.

Em uma visita a um terreno baldio, descobriu uns discos de metal:

"Até hoje não sei para que serviam originalmente, mas percebi logo que poderia usá-los como pads para disparar sons de percussão."

Graças às suas habilidades de marcenaria, construir a estrutura foi fácil. Com os discos de metal montados na parte frontal e conectados aos circuitos responsáveis por cada som, só faltava descobrir uma forma de acionar os triggers.

A solução veio em forma de duas finas hastes de aço (algo entre uma agulha de tricô e uma baqueta). Ao conectar isso ao circuito original de acionamento, ele descobriu que, ao tocar um dos discos metálicos com a haste, o circuito se fechava e — como num passe de mágica — o som era disparado. Usando as duas hastes como baquetas, ele viu que era possível criar ritmos.

Assim, dez anos antes de o pessoal da Roland sequer imaginar algo como o Octapad, Wolfgang Flür se tornou o primeiro baterista eletrônico do mundo.

A unidade ficou pronta exatamente três dias antes da gravação do programa Aspecte. Por muito tempo, acreditava-se que não havia imagens dessa apresentação, mas recentemente foi descoberta uma fita na qual eles aparecem tocando duas músicas: Heimatklänge e Tanzmusik (ambas do álbum Ralf & Florian).

Wolfgang aparece no centro do palco com sua nova bateria eletrônica e, embora claramente seja um equipamento caseiro — com vários cabos pendurados atrás — sua importância histórica é evidente.
É techno puro, versão 1973.

Invenções e criatividade

O talento de Flür para invenção e design se destacou mais uma vez durante os preparativos para a turnê que seguiu o lançamento de Radioactivity, com a criação de mais um de seus artefatos futuristas para disparar sons de percussão ao vivo. Isso acabou se tornando uma faceta recorrente de seu trabalho no grupo: ele projetou e construiu as estruturas de néon colorido que faziam parte do palco dos shows do Kraftwerk no final dos anos 1970. E, para a turnê mundial de 1981, ele desenhou — e até ajudou a construir, junto com outros artesãos e eletricistas — toda a estrutura cênica.

"Levei três anos para desenvolver tudo a partir dos planos iniciais. Construímos o palco em forma de 'V' aberta porque isso facilita a comunicação entre os músicos. Se você tem quatro pessoas em linha reta, é difícil que consigam se ver", explica Flür.

"Era um design bem simples, por razões práticas: a enorme quantidade de cabos elétricos sempre foi um problema, mas o maior problema que tivemos no começo era que os sintetizadores não eram estáveis, e tínhamos que afiná-los o tempo todo. Às vezes era uma loucura: sem caixa de ritmos, sem sequenciador, sem sincronização — tínhamos que fazer tudo manualmente. Quando vimos o que uma caixa de ritmos podia fazer, nos inspiramos a ir além e experimentar novas ideias. Nada era absurdo demais para nós. Chegamos a desenvolver tantas coisas que algumas nunca chegaram a ser usadas no palco."

A imaginação de Wolfgang Flür para criar e inovar era uma característica constante em sua trajetória com o Kraftwerk. Ele passou a se interessar por novas formas de disparar os sons da percussão eletrônica para integrá-los às performances no palco. Sua solução para a turnê europeia do Kraftwerk, no início de 1976, foi extremamente criativa — e, como sempre, à frente de seu tempo.

Ele construiu uma estrutura tubular longa o suficiente para que pudesse entrar nela e instalou uma série de pequenas luzes e sensores fotoelétricos em pontos estratégicos. Assim, era capaz de usar os movimentos do corpo como triggers.

"Funcionava com pequenos feixes de luz", explica. "Eu entrava dentro da estrutura e fazia movimentos com as mãos, como um guarda de trânsito. Cada vez que meus braços interrompiam um dos feixes de luz, um som de percussão era disparado. Movendo-me do jeito certo, eu podia criar um padrão. Nos ensaios, era bem impressionante."

Infelizmente, o dispositivo se mostrou temperamental assim que começaram a turnê.

Era a primeira vez do grupo em turnê pela Inglaterra e França, e o show começava com Radioactivity. Flür estava sozinho no palco, dentro de sua “gaiola-bateria”, fazendo seus movimentos de “guarda de trânsito”. Mas, com frequência, os feixes de luz não eram fortes o suficiente para vencer as luzes do palco, e o sistema falhava.

"Às vezes eu queria desaparecer do palco quando os sensores não funcionavam. Você me via lá, rezando para que desse certo. E mesmo quando funcionava, no dia seguinte os jornais traziam manchetes malucas."

Esses são os riscos de ser um pioneiro na música eletrônica. Mas a ideia básica de Wolfgang era tão sólida que outros artistas — de Jean Michel Jarre a Laurie Anderson — acabaram adotando esse mesmo princípio mais tarde.

A saída de Flür e Bartos

Os álbuns que vieram após RadioactivityTrans-Europe Express, The Man-Machine e Computer World — são provavelmente os discos de música eletrônica mais influentes de todos os tempos. Sem eles, o mapa da música contemporânea seria completamente diferente.

Imagine um mundo sem rap, house ou techno — uma sociedade em que o domínio do rock jamais tivesse sido desafiado pelo pop eletrônico ou pelos hinos criados nos guetos de Chicago e Detroit.

Mas, à medida que o som do Kraftwerk se tornava mais refinado e projetado para o futuro, seu ritmo de trabalho diminuía. Nos anos 70, o grupo lançava um álbum por ano. Mas depois disso, esse ímpeto começou a enfraquecer.
O intervalo entre The Man-Machine e Computer World foi de três anos, e o álbum seguinte, Electric Café, só saiu cinco anos depois.

A maioria das bandas lança um álbum de grandes sucessos durante a primavera ou o verão, a tempo do Natal. Mas a versão do Kraftwerk — The Mix — demorou cinco anos para ser concluída. Desde seu lançamento, em 1991, passaram-se sete anos sem sequer um rumor sobre um novo disco.

Esse ritmo dolorosamente lento acabou gerando consequências. A saída de Wolfgang Flür veio pouco antes da de Karl Bartos, que deixou o grupo pouco antes do lançamento de The Mix. Os dias da formação clássica do Kraftwerk haviam chegado ao fim.

"Os discos de maior sucesso do Kraftwerk foram feitos por quatro personalidades especiais que se complementavam", destaca Wolfgang.

"A gente se influenciava e se admirava mutuamente. A música era resultado de uma química muito especial. Era algo parecido com os Beatles."

Um novo projeto: Yamo

Após seu retorno à cena musical com o single Little Child, Wolfgang passou a trabalhar nos estúdios Rheinklang em Düsseldorf, cujo dono era o ex-integrante do Rheingold, Bodo Staiger (curiosamente, Karl Bartos havia trabalhado com outro membro do Rheingold, Lothar Manteuffel, em seu projeto pessoal, Elektrik Music). Foi então que conheceu Andy Toma, do grupo Mouse on Mars, e iniciou uma relação de trabalho especialmente criativa.

"Eu estava trabalhando em uma música chamada My Inner Voice", explica Wolfgang. "Gostava do tema, mas não estava satisfeito com a mixagem. Então Andy entrou no estúdio (naquele momento eu não sabia quem ele era) para buscar algo e nos apresentaram. 

Pouco depois, ele me ligou. Ele lembrava que eu não estava satisfeito com os níveis, então havia feito um remix. Peguei um táxi e corri até o estúdio dele — e adorei o que ouvi. A partir daquele momento soube que havia química. Na semana seguinte, entramos em estúdio e criamos outras duas músicas."

O estúdio de Toma é centrado em um Atari com Cubase, mas as semelhanças com qualquer estúdio comum terminam aí. Toma foi produtor de rap e depois trabalhou compondo música para a TV a cabo antes de formar o Mouse on Mars com Jan Werner. Parece que cada marco que ganhou com a música foi reinvestido diretamente no estúdio. 

A sala de controle é dominada por uma mesa Soundcraft Sapphire de 44 canais e exibe uma seleção impressionante de sintetizadores, efeitos e processadores, incluindo algumas raridades como o curioso Moog Parametric EQ e um velho sintetizador sub-harmônico DBX dos anos 70. "Eles eram usados em discotecas para reforçar os graves dos discos, mas no estúdio usamos para criar frequências graves bem interessantes."

Yamo, o projeto de Wolfgang, começava a tomar forma. Além disso, o parceiro de Andy no Mouse on Mars, Jan Werner, e outro amigo, Michael Grund, também se juntaram ao projeto. "Ele se sentava num canto e criava patches e sequências estranhas no Moog, e passava partes da voz do Wolfgang por filtros", lembra Andy. "Mantemos um velho sequenciador caseiro que usamos com o Moog e que produz ótimos resultados. Usávamos muito o Nord Lead, além de todas as nossas drum machines. Às vezes amostramos coisas a partir delas, e outras vezes Wolfgang tirava sons do Octapad."

Yamo (uma palavra criada por Flür que significa “a alegria da vida”) também contou com contribuições de uma série de produtores e artistas como Donna Regina e a voz clássica de Barbara Uhling-Stollwerck. O álbum resultante, Time Pie, é uma mistura maravilhosa e estranha de eletrônica cheia de fios e ritmos profundamente sincopados que os fãs de Kraftwerk reconhecerão instantaneamente. Mas, como aponta Wolfgang, não é um disco sobre despersonalização ou homens como máquinas; é um disco sobre a riqueza da vida — o significado literal de Yamo.

Os sentimentos pop delicados ainda estão lá, é claro, em faixas como Stereomatic (para a qual Emil Schult, colaborador do Kraftwerk, dirigiu um videoclipe fantástico) e Time Pie. Mas desta vez o que cativa são as paisagens sonoras sutis e o surrealismo narrativo da voz de Wolfgang. Imagine um Kraftwerk sob efeito de cogumelos alucinógenos ou um Tricky com senso de humor otimista e você estará próximo.

O método de trabalho de Wolfgang é instintivo: “Começo com uma história e depois moldo as melodias e os sons para que se adaptem a essa história.” O techno exuberante de Mosquito é um exemplo perfeito. “A inspiração para essa faixa veio de uma viagem que fiz à Bélgica”, revela Wolfgang. “Tenho fobia de mosquitos e, certa noite, estava deitado, exausto, quando comecei a ouvir aquele zumbido típico. Não conseguia ficar ali parado, tive que levantar e tentar capturá-lo. Obviamente, não consegui encontrá-lo, e o zumbido estava me deixando louco. Só queria dormir um pouco, mas, como você pode ouvir na música, algo mais aconteceu.”

No estúdio, o processo de gravação de Mosquito começou quando Wolfgang, que tem um talento natural para contar histórias, explicou a Andy e Jan o que havia acontecido e como queria recriar isso. “É muito divertido trabalhar com o Wolfgang porque ele está sempre contando histórias”, explica Andy. “Mesmo que o trabalho para criar sons seja intenso, é sempre um desafio novo quando alguém quer que você crie o som de um mosquito — ou de um spray de insetos!” E foi exatamente isso que aconteceu. “Era uma forma de trabalhar completamente diferente”, admite Andy. “Wolfgang conta uma história e todos nos mobilizamos para transformá-la em som. Nunca tinha trabalhado assim antes. Foi intenso, mas também muito divertido e interessante.”

A namorada de Jan, Rosa Barba, colocou a voz em Fra Testa e Mano, uma das faixas importantes do álbum. “No início eu mesmo faria os vocais”, explica Wolfgang, “mas queria que soasse algo erótico, então perguntei se ela queria fazer no meu lugar. A performance foi fantástica, mas quando fomos mixar, senti que faltava algo. Decidi que precisava de um som espiritual, como contas de um rosário ou algo assim. 

Quando era pequeno e ia à igreja, via as senhoras mais velhas sussurrando e mexendo nas contas. Não conseguíamos encontrar nada que soasse assim, e então algo estranho aconteceu. Estávamos quase rezando por inspiração, quando decidi ir ao banheiro. Não conseguia achar o interruptor da luz, então peguei a primeira coisa que encontrei — era uma cortina de contas. Incrível! Gravamos o som da cortina abrindo e fechando num DAT da Sony e o sampleamos no Akai. Este é um exemplo de como trabalhamos. Podemos usar qualquer som.”

Muitas das faixas de Time Pie refletem as simples, embora comoventes, melodias das canções tradicionais do Reno, do mesmo modo que o Kraftwerk fazia nos LPs clássicos em que Flür participou. Mas Guiding Ray, a música que escreveu com Paul Wilkinson, conecta-se com uma dimensão diferente de seu passado. O otimismo da música simboliza muito do que Wolfgang sente sobre o Yamo, mas a combinação de sua bateria rock’n’roll, melodias de três notas e uma linha de baixo de oito notas remete ao som de outro grande grupo de Düsseldorf: Neu!, no qual tocava Michael Rother, ex-guitarrista dos Spirits of Sound.

“No Kraftwerk nos preocupávamos muito em conectar o passado (que para nós eram as canções tradicionais do nosso país) com o futuro”, explica Wolfgang. “Esse era o significado do nosso conceito de Electronische Volksmusik (música popular eletrônica). É um sentimento de nostalgia pelo passado e de emoção quanto ao futuro. O conceito de Time Pie (Pastel do Tempo) é parecido: se você corta o bolo, pode encontrar camadas que se relacionam com os diferentes períodos da minha vida. É um bolo que esteve assando com todas as minhas experiências ao longo dos anos!”

Embora Wolfgang esteja agora envolvido na mudança do Yamo para outra gravadora, os preparativos para o novo álbum já estão em andamento. Com o título Serenity Supreme, o disco contará com Barbara Uhling-Stollwerck (que cantou em Mosquito e Dr. Ug.ly.) como coautora. “Para mim, o inglês é a língua do pop”, explica Wolfgang. “Barbara é meio inglesa e pode me ajudar a me expressar, pois entende melhor as sutilezas da língua. Além disso, sou apaixonado pela voz dela, então ela é uma ótima parceira para mim.” Paul Wilkinson, coautor de Guiding Ray, também participará.

Após mais de três décadas na música, parece que a carreira de Wolfgang Flür vai entrar em uma nova fase. Como sempre, com os olhos voltados para o futuro. E pelo menos por agora, seu futuro é Yamo.


Entrevista enviada por Rene Marcelo Figueroa — Argentina.


sábado, 7 de junho de 2025

Wolfagnag Flür — Entrevista — Future Music Magazine — Agosto de 1997


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Future Music – Como você está?

Wolfgang Flür – Cheio de vida, mais do que nunca. Vi uma nota em algum lugar na internet dizendo que eu estava morto! Ri muito, porque me sinto extremamente motivado e ótimo. É como se eu estivesse nascendo pela quarta vez! Formei meu próprio projeto musical, que sempre foi um sonho desde meus tempos de amador. Estou livre e curioso com o meu futuro artístico.

Future Music – Qual foi o seu momento mais alto?

Wolfgang Flür – Foi quando perdi o medo de deixar o Kraftwerk e me transformei de robô em ser humano. A sensação de sair daquela pele apertada é indescritível.

Future Music – E o mais baixo?

Wolfgang Flür – O momento em que decidi deixar o Kraftwerk. Foi como deixar meu melhor amigo – dois parceiros que se amam, mas sabem que precisam mudar e seguir caminhos diferentes. Você sabe que não há mais chance de um futuro juntos, mas ainda está apaixonado.

Future Music – Quem são seus heróis musicais?

Wolfgang Flür – Na época em que era amador, eram os Beatles. Hoje, sou meu próprio herói. Isso não deve soar arrogante, mas sim um pouco orgulhoso. Venci uma grande batalha ao seguir meu próprio caminho e deixar o laboratório dos robôs. Minha maior ajuda foi a curiosidade por pessoas interessantes e por tudo que é diferente e novo.

Future Music – Qual o item mais essencial no seu estúdio?

Wolfgang Flür – Do meu ponto de vista, são as vozes dentro do meu projeto musical. Hoje me divirto usando minhas próprias cordas vocais naturais e, claro, fico orgulhoso de apresentar as vozes dos meus amigos e artistas.

Future Music – O Kling Klang é tão bom quanto dizem?

Wolfgang Flür – Tenho certeza que sim! Sempre foi um ateliê muito moderno. Estávamos sempre atentos a novas tecnologias e construímos muitos instrumentos e máquinas nós mesmos, ou encomendávamos a engenheiros profissionais quando precisávamos de algo que não existia nas lojas de música. Isso aconteceu durante todos os anos em que estive com os rapazes. Acredito que isso não tenha mudado desde que deixei o estúdio Kling Klang e minha oficina de construção de palco.

Future Music – Como você acabou trabalhando com o grupo Mouse on Mars após o Kraftwerk?

Wolfgang Flür – Depois do Kraftwerk, trabalhei em diferentes estúdios e com vários artistas da minha região. Foi um período de busca e experimentação das minhas possibilidades artísticas. Conheci um músico, Andi Toma. Ele é muito carismático e juntos tivemos muita inspiração. Andi fez um remix de uma das minhas faixas que eu estava gravando naquele dia. Depois de ouvir, soube que aquele homem seria um novo parceiro. Convidei-o para meu projeto e começamos a trabalhar em novas músicas que escrevi no início de 1995. Mais tarde, Andi me apresentou seus amigos Michael Grund e Jan Werner. Trabalhamos juntos nas minhas ideias e depois descobri que Andi e Jan já tinham outro projeto (Mouse on Mars). Mas isso não foi motivo para encerrar nossa parceria, pois nos divertíamos muito e os resultados eram ótimos.

Future Music – Com quem mais você gostaria de trabalhar?

Wolfgang Flür – No momento, não há motivo para procurar outros colegas, pois estou satisfeito com o trabalho e feliz com o resultado. Talvez eu também trabalhe com Jörg Burger (The Bionaut) de Colônia, que fez dois remixes muito bons dos meus singles Guiding Ray e Stereomatic. Nós nos conhecemos bem e gostamos do trabalho um do outro. A cena Düsseldorf/Colônia sempre foi empolgante e enriquecedora desde o começo dos anos 70.

Future Music – Que música atualmente te inspira?

Wolfgang Flür – Não escuto muita música dos outros. Não preciso ser entretido porque me entretenho e quero manter meus ouvidos livres de influências cativantes. Preciso de silêncio para me concentrar e desenvolver minha estrutura artística e o pacote musical para os temas e histórias.

Future Music – Música dançante: só é boa com drogas ou é uma forma de arte legítima?

Wolfgang Flür – Claro, a música dançante sempre teve seu espaço necessário e ainda tem. Eu também frequentava discotecas e clubes e sentia a necessidade de escapar dos medos cotidianos durante meus anos de transição. Se o público de hoje precisa de drogas, isso é com eles. Nunca fui de consumir nada além das batidas pulsantes de uma boa sensação. Às vezes, um copo de vinho tinto italiano, como o John Peel (risos... Li essa entrevista na última edição da Future Music). No geral, só posso alertar: “Cuide da sua saúde! Ela é preciosa! Fique atento ao Dr. Ugly. As ofertas dele podem te deixar mais que magro, magro, magríssimo...” (faixa do álbum Time Pie). Não acho que a música dançante seja uma forma de arte genuína. Ela tem sua legitimidade para as gravadoras e para as práticas nas pistas de dança de fim de semana, que são maiores, mais barulhentas e mais rápidas. Isso é normal e necessário para as pessoas felizes em sua fase especial da vida.

Future Music – Quem é sua Spice Girl favorita?
Wolfgang Flür – A Victoria, é claro. Quem mais poderia ser?

Future Music – Qual seria o seu epitáfio?

Wolfgang Flür – Você acha que já é hora de pensar nisso!? Depende de como as pessoas e os amigos me veem, não é?

Future Music – Qual é o futuro da música?

Wolfgang Flür – Raramente temos uma chance histórica como tivemos com o Kraftwerk no começo dos anos 70 com o sintetizador. Tenho muito orgulho de isso ter acontecido na minha época. Acredito que essas possibilidades infinitas dessa ferramenta genial de criação são o futuro da música de entretenimento. Tudo depende de como as pessoas a utilizam. Sempre haverá alguém com bom gosto e talento para fazer algo novo. Essas pessoas sempre encontrarão um público. Acredito que agora estamos entrando numa época em que a música precisa de conteúdos mais refinados, humor e temas amplos e visionários. Isso tem a ver com nosso estilo de vida e pensamento sobre o futuro. A geração artística de hoje tem uma maneira muito independente de se expressar musicalmente. Já é o futuro. O tempo está correndo rápido. Minutos nervosos, horas que se estendem — às vezes tenho chuveiros digitais. Sinto o futuro todos os dias.

Entrevista cedida por David Martin – Valência – Espanha.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Kark Bartos & Wolfgang Flür — Entrevista — Keyboards Magazine — 1998




Keyboards – O Kraftwerk foi o primeiro a produzir música eletrônica? Eles, por assim dizer, inventaram a música eletrônica, ou havia alguém antes?

Wolfgang Flür – Nós absolutamente não fomos os inventores da música eletrônica. Ela já existia nas décadas de 1920 e 1930 com a invenção do Theremin [ver entrevista com Lydia Kavina na KEYBOARDS 8/98] ou do Mixturtrautonium, criado por Friedrich Trautwein e Oskar Sala. A primeira vez que vi um Theremin sendo usado ao vivo foi em 1967, num raro show dos Beach Boys aqui na Stadthalle de Düsseldorf. Em uma das músicas, eles fizeram o Theremin soar seus “Good Vibrations” no palco. Oskar Sala também usava seu Trautonium para música e efeitos sonoros desde cedo. Por exemplo, ele criou os sons psicológicos dos pássaros no famoso filme do Hitchcock.

Na música popular havia, pelo menos, colegas como Tangerine Dream, Klaus Schulze ou Amon Düül, que também faziam música eletrônica. Muitos experimentavam com esse tipo de instrumento, que estava começando a se tornar acessível. Ainda assim, um Minimoog custava 8.000 marcos – uma pequena fortuna para a época. Com o Kraftwerk, fomos provavelmente os que desenvolveram a música pop eletrônica de forma mais consequente. A partir de Autobahn, já nos víamos mais como músicos pop – e era exatamente isso que queríamos e alcançamos. Graças à grande repercussão dos nossos lançamentos, o sintetizador foi se inserindo no cotidiano sonoro e, pouco a pouco, se tornou um gerador de som conhecido e popular. Como a guitarra, hoje ele é indispensável na música. Gostaria de saber como ele soará quando tiver uns mil anos de idade – como a guitarra!

Karl Bartos – A primeira gravação de música eletrônica na música pop da qual me lembro conscientemente foi “Telstar”, de Joe Meek [ver biografia de Joe Meek na resenha do Joemeek VC3 Prochannel, KEYBOARDS 1/98]. Também poderiam ser citadas “Good Vibrations” ou “Popcorn”. E [o experimentalista eletrônico francês] Pierre Henry gravou um disco com a banda inglesa Spooky Tooth em 1969: Ceremony – An Electronic Mass. Mas o mais decisivo, eu acho, é a harmonia tonal maior/menor, as melodias europeias em combinação com ritmos funky e uma abordagem quase jornalística nas letras – tudo isso, claro, temperado com um pouco de kitsch.

Keyboards – Vocês acham que o Kraftwerk, ao lado de Walter/Wendy Carlos (Switched-On Bach) e de “Popcorn”, influenciou a percepção dos ouvintes em relação à síntese sonora e ao uso de sintetizadores?

Wolfgang Flür – Com certeza, acredito firmemente nisso. Basta olhar o grande sucesso do Kraftwerk e a enxurrada de imitações ao longo do tempo.

Karl Bartos – Isso pode ser observado claramente nos beats programados. Com a função Error/Correct ou com o chamado quantize, houve uma mudança no modo como os ritmos são percebidos. Esses padrões rítmicos hoje são vistos como algo cool, e não como algo matemático ou rígido. Sempre esperamos que nossos colegas músicos negros nos EUA descobrissem esses beats. Com Planet Rock [de Afrika Bambaataa], começou uma espécie de industrialização.

Keyboards – Por que há uma faixa chamada “Franz Schubert” no álbum Trans-Europa Express (1977)? Qual é ou foi a relação entre o Kraftwerk e Franz Schubert? Alguns membros da banda tinham um interesse especial por ele?

Wolfgang Flür – Bom, o Florian estudou música por um tempo, e o Karl completou uma formação musical completa. No conservatório, você tem bastante contato com música clássica. Além disso, os primeiros românticos fazem parte da nossa cultura musical alemã, e, dependendo do ambiente familiar e do quanto se foi exposto à música clássica, isso tudo influencia na música que você mesmo cria. Eu sei que o Ralf, o Emil [Schult, artista gráfico do Kraftwerk e também diretor de arte do álbum Time-Pie do Flür/Yamo] e o Florian estiveram uma vez na casa onde Schubert nasceu, em Lichtental, perto de Viena. Provavelmente foi lá que tiveram a ideia para essa música do Kraftwerk. No começo, éramos totalmente românticos – você se esqueceu disso? Se duvida, ouça os primeiros álbuns novamente! Aliás, esse foi um dos motivos pelos quais entrei no Kraftwerk. Eu amava essas melodias românticas – são parte da minha personalidade. Hoje, com o Yamo, consigo explorar isso livremente de novo.

Karl Bartos – Franz Schubert é conhecido por suas melodias “infinitas”. Para o Ralf e o Florian, ele representava a Europa. E Schubert tem uma biografia realmente interessante e dramática – você precisa ler!

Keyboards – Wolfgang, por que seu sobrenome era constantemente escrito errado nas capas?

Wolfgang Flür – Também não sei, mas isso não é tão importante. Um “ü” no meu sobrenome e no do Ralf [Hütter] era sempre difícil de pronunciar para ingleses e americanos; por isso acabamos tirando os trema. Depois disso, as coisas passaram a funcionar melhor com nossos vizinhos.

Keyboards – O que vocês usaram no cabelo para as fotos de Mensch Maschine? Vocês também se lembram do pôster com a mulher nua sentada de costas sobre um cone de trânsito? Existe uma versão mostrando a frente? (Por favor, me enviem uma cópia!)

Wolfgang Flür – Esse pôster eu nem conheço. Sensacional, também quero uma cópia! Por favor, envie!

Karl Bartos – O segredo dos cabelos deve permanecer segredo. Infelizmente, esse pôster eu também não conheço.

Keyboards – O Kraftwerk fez, se não me engano, uma turnê no começo dos anos 80 com músicas de Computerwelt, visitando também alguns países do bloco oriental. Ou foi só na Polônia? Quem traduziu as letras de vocês para o polonês? Ritmicamente estava tudo certo, mas a gramática e a pronúncia foram um desastre. Vocês provavelmente não sabiam o quanto uma tentativa malfeita dessas poderia causar danos. No meu mundo no Leste, eu fui um dos primeiros a me dedicar com seriedade e paixão à música eletrônica, e por isso foi importante para mim construir um círculo de amigos com base nessa música. Consegui isso com Kraftwerk, Synergy, Klaus Schulze e Tangerine Dream. Mas alguns dos meus amigos, que eu havia convencido com dificuldade de que vocês eram uma boa banda, eu perdi depois dos shows. Eles disseram que vocês não levaram a sério a questão da tradução.

Wolfgang Flür – Sinto muito se isso não foi bem recebido. Talvez tenha sido apenas uma tentativa desajeitada de sermos melhor compreendidos por vocês. No entanto, sempre observei que muitos de nossos fãs nem davam tanta importância para entender as letras; para eles, provavelmente, eram apenas um complemento. Os sons e os ritmos sempre foram o mais importante no Kraftwerk. Mas sim, levamos a questão das traduções a sério. Fizemos letras também em espanhol, japonês e russo; queríamos simbolizar nosso sentimento global. Sempre fomos contra o isolamento nacional e a favor do pensamento e da ação internacional, pela compreensão mútua.

Karl Bartos – Não me lembro se a versão em polonês foi lançada em algum disco. Mas o Ralf se esforçou muito para cantar em vários idiomas. Eu acho que foi um gesto educado e respeitoso, já que ninguém exigiu isso dele. Claro que lamento, retrospectivamente, que você tenha perdido alguns de seus amigos por causa disso.

Keyboards – Wolfgang Flür, você disse que acabou se entediando no Kraftwerk. Isso quer dizer que não era possível inserir sua criatividade pessoal no grupo? Podemos até dizer que você e também Karl Bartos nunca foram membros plenos da banda, mesmo tendo contribuído tanto?

Wolfgang Flür – O Karl teve coautoria em algumas músicas importantes. Ele era um ótimo tecladista – provavelmente o melhor do Kraftwerk! – e eu mesmo era “apenas” o baterista, com pouca influência nas melodias e arranjos. E foi exatamente isso que passou a me fazer falta no final, a pouca influência sobre os temas. Mesmo assim, minhas ideias e meu coração estavam presentes em cada faixa. Membros plenos no Kraftwerk, além do Ralf e do Florian, nunca houve e provavelmente nunca haverá. O Kraftwerk é uma criação deles, e eles nunca foram capazes – e talvez nunca quiseram – integrar completamente mais ninguém.

Keyboards – Hoje, em vez de Karl Bartos e Wolfgang Flür, os membros do Kraftwerk são Fritz Hilpert e Henning Schmitz. O grupo ainda tem o mesmo carisma que tinha com vocês dois? Se não, onde vocês veem a diferença?

Karl Bartos – Não posso dizer se o Kraftwerk ainda tem o mesmo carisma com Hilpert e Schmitz, porque nunca vi um show deles.

Wolfgang Flür – Os primeiros anos do Kraftwerk foram tão bem-sucedidos porque nós – Ralf, Karl, Florian e eu – tínhamos uma relação de amizade e criatividade extraordinária. Tínhamos que construir quase tudo ou mandar fabricar, pois não havia equipamentos para realizar nossas ideias. Esses anos nos uniram profundamente, e foram os mais ricos e criativos que se pode imaginar. Nosso carisma vinha de quatro mentes e personalidades únicas, que só juntas conseguiam criar o tipo de música que fizemos enquanto ainda trabalhávamos com alegria. Hoje, não sei mais o que o Kraftwerk representa. Não fui a nenhum show e não li nenhuma entrevista ou vi ninguém na TV. Mas para uma nova geração que está descobrindo o Kraftwerk agora, com certeza ainda há muita fascinação. Eu não conheço o Fritz nem o Henning; eles foram escolhidos como substitutos para mim e o Karl. Mas substituto é apenas substituto e, como em qualquer lugar, não é o original.

Keyboards – Suponha que fosse possível colocar o estúdio Kling Klang, como está hoje, com robôs e músicos, numa máquina do tempo e transportá-lo 20 ou 30 anos para o passado: como o público teria reagido a um show do Kraftwerk dos anos 90 naquela época? Teria correspondido aos clichês de futuro da época, teria parecido absurdo, ou teria apenas chocado?

Wolfgang Flür – A última opção parece a mais provável. Eu vivi algo parecido quando tocamos nosso primeiro show nos EUA em 1974, no Beacon Theatre, na Broadway (Nova York). Tínhamos quase nada no palco: só quatro tubos de neon coloridos no chão, um Minimoog, uma Farfisa, a flauta transversal do Florian – que ele ainda tocava na época –, seu ARP e nossos e-drums feitos à mão. O teatro estava lotado. Tocamos os primeiros sons de sintetizador e o público ficou paralisado com aquela estranheza, mas ao mesmo tempo fascinado com os timbres encorpados e nunca antes ouvidos. Lembro até hoje de muitas bocas abertas e olhos arregalados na plateia. Tínhamos poucas músicas e tínhamos que afinar os sintetizadores constantemente, pois ainda eram instáveis. Só as pausas de afinação já valeriam como espetáculo. Era esse o poder de atração dos synths naqueles primeiros anos. Ter vivido isso... inacreditável!

Karl Bartos – Kraftwerk numa máquina do tempo? Acho que seria preciso consultar H.G. Wells. Seria como "Enterprise" em 1968. Mas acho que as pessoas estariam mais ouvindo "Sgt. Pepper".

Keyboards – Karl Bartos, você voltaria ao Kraftwerk se Michael Jackson viesse a Düsseldorf para regravar "Mensch Maschine"?

Karl Bartos – Não.

Keyboards – Qual é o nível de amizade de vocês com Emil Schult?

Karl Bartos – Não vejo ou falo com o Emil Schult há anos.

Wolfgang Flür – Eu sou amigo do Emil desde o começo dos anos 70, e isso nunca mudou. Ainda trabalhamos juntos quando estou fazendo um novo álbum – como agora – ou um vídeo. Às vezes passamos férias juntos com a família e os filhos dele, ou nos visitamos.

Keyboards – Sempre quis saber: do que vivem o Ralf e o Florian se não lançam nada novo?

Wolfgang Flür – Não tenho ideia. Você teria que perguntar ao Ralf ou ao Florian.

Karl Bartos – Acho que eles são muito ricos.

Keyboards – O Kraftwerk já usava sequenciadores que facilitavam o trabalho de vocês?

Wolfgang Flür – Claro, já falei sobre isso algumas vezes. Encomendamos nosso primeiro sequenciador em 1978 no Synthesizerstudio Bonn. Era um analógico de 16 canais, grande e pesado...

Karl Bartos – Os sequenciadores? Matten & Wiechers (Synthesizerstudio Bonn), MC 202 da Linn e o Yamaha C1.

Keyboards – Qual era a quantidade total, o comprimento total e a espessura média dos cabos usados na gravação de “Autobahn”?

Karl Bartos – Não posso dizer, porque não participei das gravações de "Autobahn". O engenheiro de som Conny Plank provavelmente levou essa informação para o túmulo, já que era no estúdio dele.

Wolfgang Flür – Naquela época, nosso estúdio ainda era relativamente “tranquilo”. O número total de cabos utilizáveis era 28, com um comprimento total de 69,74 metros, e a espessura média diária era de 0,7 mm por cabo em uso. Quando não estavam em uso, a espessura caía 5% em volume. O número total de cabos não utilizáveis era 253, com um comprimento total de 972 metros e uma espessura diária efetiva de 0,665% (a frio). Isso sem contar os cabos que não estavam disponíveis para a gravação de "Autobahn"...

Keyboards – Nos shows vocês usavam o mesmo equipamento do estúdio, tipo “um para um”?

Karl Bartos – Mais ou menos.

Wolfgang Flür – Sim, com certeza.

Keyboards – Como vocês avaliam hoje a música do Kraftwerk no que diz respeito à “audiophile”?

Wolfgang Flür – O que é isso? É algo sexual? Então prefiro não comentar. Sempre entendem tudo errado e a imprensa distorce. Desculpe, vou me abster por razões pessoais. Sua pergunta é muito íntima.

Karl Bartos – Acho que “audiophile” não tem nada a ver com a qualidade da música.

Keyboards – O que vocês acham do grupo Komputer, cujo som lembra bastante os Kraftwerk mais recentes, a ponto de parecer a própria banda? Vocês acham que plágios como “Bill Gates” são irritantes (questão de copyright!) ou engraçados?

Karl Bartos – Li sobre o grupo e ouvi um pouco. No texto de divulgação eles chamam essa música de “Retro-Futuro” [risos]. Acho que o Daniel Miller realizou um sonho. Vou assistir a um show deles e aí terei uma opinião.

Wolfgang Flür – Não conheço o grupo, mas não tenho nada contra imitações. É até uma honra. Também conheço um grupo na Inglaterra que ainda hoje toca como Kraftwerk, mas sem ideias de músicas tão especiais. Até o “Kraftwelt” da Califórnia, que até vende bem, não tem ideias realmente boas. São todos imitadores. Eu mesmo não ficaria satisfeito com esse tipo de trabalho. É preciso criar algo próprio para alcançar verdadeira satisfação.

Keyboards – Karl Bartos, por que você lançou seu novo álbum sob o nome Electric Music e não como um projeto paralelo, já que ele difere bastante do álbum anterior [Elektric Music, Esperanto, 1993] e nem parece exatamente música eletrônica?

Karl Bartos – Eu não mudo meu nome a cada produção. Não é música de produtor; ela me representa pessoalmente. Reivindico para mim o direito de mudar – e a necessidade de mudar. Electric Music é uma espécie de selo pessoal. No momento, inclusive, estou trabalhando com alguns músicos em um show ao vivo.

Keyboards – Qual software você usou para os vocais sintéticos, por exemplo, em “Overdrive” do Electric Music?

Karl Bartos – Toda mulher tem seu segredo. [risos]

Keyboards – Vocês usam hoje mais equipamentos caseiros ou mais equipamentos comerciais?

Karl Bartos – Eu uso tudo o que aparece.

Wolfgang Flür – Posso dizer por mim que no yamo usamos exclusivamente equipamentos industriais. Hoje existem muitos aparelhinhos pequenos, potentes e acessíveis, então não precisamos mais desenvolver nossos próprios.

Keyboards – Vocês usam, como o Kraftwerk em 1998, o Schaltwerk e o Maq 16 da Doepfer?

Wolfgang Flür – Não.

Karl Bartos – Não.

Keyboards – Karl, na entrevista você dá a impressão de que falta dinheiro para comprar sintetizadores atuais (Yamaha SY, Korg Trinity, Roland JX 8000, Kawai K 5000, E-mu etc.). Por que você não tenta atuar como endorser (garoto-propaganda de alto prestígio que recebe equipamento gratuito) de alguma dessas marcas?

Karl Bartos – Boa dica. Quem eu deveria procurar? Estou aberto a ofertas.

Keyboards – É verdade que Wolfgang Flür compôs a trilha sonora de Robocop II, ou é apenas um boato idiota como o do seu suposto suicídio?

Wolfgang Flür – Eu mesmo já tive esse bootleg em mãos, e só posso dizer que nunca faria uma porcaria daquelas. Sou complicado demais pra algo tão barato. Mais uma vez alguém usou meu nome pra ganhar dinheiro. E essa de que eu estaria morto, li recentemente na internet. É a mesma coisa: alguém querendo se promover usando meu nome e informações inventadas. Essas pessoas têm personalidades fracas, precisam disso. Eu dou risada e não levo a sério. Que estou muito vivo, vocês ouvem em Time-Pie do yamo, ou no próximo inverno, no novo álbum Serenity Supreme. Já posso prometer algumas surpresas.

Keyboards – Por que não existe um projeto conjunto Flür/Bartos? Ou talvez em breve?

Wolfgang Flür – Talvez sim?! Quem sabe? Quem disse que isso não pode acontecer? Outra “invenção”?

Karl Bartos – Wolfgang e eu estamos sempre em contato, trocamos ideias regularmente e nos encontramos com frequência. Vamos ver o que surge daí.

Keyboards – Vocês não teriam vontade de criar novamente um projeto como o Kraftwerk e usar os equipamentos de ponta atuais para criar sons e faixas inéditas?

Karl Bartos – Parece interessante. E está em andamento.

Wolfgang Flür – Eu já faço isso à minha maneira com o yamo. Ouça minhas especialidades do Reno [subtítulo de Time-Pie]. Você vai encontrar coisas estranhas e deliciosas.

Keyboards – Vocês se imaginam trabalhando com outra banda? Tipo Daft Punk + Flür ou Bartos, ou Daft Punk com os dois?

Karl Bartos – Claro! Já fiz bastante coisa nessa linha: LFO, Afrika Bambaataa, Information Society, OMD, Electronic, Superior, Mobile Homes. Vamos ver o que mais aparece.

Wolfgang Flür – Não, isso não me atrai mais. Já participei bastante de projetos alheios, agora sigo meu próprio caminho. Espero que você entenda.

Keyboards – Vocês ainda farão música aos 70 anos? (Tomara!)

Wolfgang Flür – Também espero! Música, como se sabe, mantém a gente jovem e alegre.

Karl Bartos – Com certeza, a música continuará – como portadora de ideias!

Keyboards – O que vocês acham de músicos como Tangerine Dream ou Klaus Schulze, que nos anos 70 fizeram outro tipo de música eletrônica igualmente importante, e no caso de Schulze, na minha opinião, ainda fazem?

Wolfgang Flür – Sempre gostei dos “Tangs”, mesmo sendo uma área completamente diferente. Já com o Schulze eu nunca me conectei muito.

Karl Bartos – Conheci Christopher Franke em Los Angeles, e gostaria de conhecer Klaus Schulze. Claro que sempre gostei desse tipo de música.

Keyboards – Vocês já tiveram a sensação, no Kraftwerk, de pertencer a uma cena maior da música eletrônica, ou se viam apenas como integrantes do Kraftwerk?

Wolfgang Flür – Veja, estávamos sempre tão imersos no nosso próprio processo de autodescoberta que não nos voltávamos muito para fora. Ou seja, deixamos um certo egoísmo saudável agir para definir nossos próprios objetivos. Sabíamos que havia uma cena “elitista”, mas isso nos tocava pouco. Mas claro que éramos todos verdadeiros “kraftwerkers” com tudo que se tem direito, o que mais você esperava?

Karl Bartos – Acho que essa tal “cena” sempre é uma invenção dos jornalistas. Mas trabalhar no Kraftwerk era um verdadeiro modo de vida: Electronic Lifestyle.

Keyboards – Karl Bartos, você falou na entrevista da Keyboards sobre uma “sobrecarga de estímulos” na música eletrônica. Mas não há muito mais bandas de guitarra do que músicos que fazem boa música eletrônica?

Karl Bartos – Espero que compreenda: passei 20 anos fazendo electro sound e, de repente, em Manchester, redescobri a música da minha infância. Esse som esteve comigo todos esses anos, e agora eu precisava colocá-lo para fora.

Keyboards – O que vocês acham da cena eletrônica em 1998?

Karl Bartos – Não posso dar uma opinião generalizada.

Wolfgang Flür – Conheço alguns artistas e bandas incríveis aqui por perto, como o Bionaut de Colônia, Donna Regina de Colônia, Mouse On Mars de Düsseldorf/Colônia, Kreidler de Düsseldorf, A Certain Frank e Der Pyrolator de Düsseldorf, Air Liquide de Colônia, e outros semelhantes que gosto muito de ouvir. Trabalhei pessoalmente com alguns deles, e fico feliz em ver como eles trabalham, por exemplo, com sintetizadores. É enriquecedor pra mim. Meu novo álbum se beneficiará dessa colaboração.

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Kraftwerk — Entrevista com os integrantes — Future Music Magazine N° 6 — 1997


Future MusicQual foi o desenvolvimento tecnológico mais significativo da sua carreira?

Ralf Hütter – Acho que foi a chegada dos primeiros sintetizadores monofônicos, porque antes disso só existiam aquelas grandes máquinas dos Laboratórios Bell ou de estações de rádio estatais. Ter acesso, como músico individual e independente, a esse tipo de equipamento eletrônico foi uma revolução. Lembro que o primeiro sintetizador monofônico que comprei custava o mesmo que um Fusca, e essa era a escolha a ser feita. Acho que é uma comparação excelente, porque os sintetizadores deram liberdade de movimento aos músicos.

Future Music – Essas máquinas oferecem mais liberdade do que as de hoje por não terem presets?

Ralf Hütter – Sim. Você recebia apenas um manual datilografado de três páginas dizendo: “isso é o oscilador, isso é o filtro” – e só. Então você ia pra casa e começava a experimentar, girar botões. Não havia sons pré-programados, porque era tudo analógico. Eu não uso muito os sons pré-programados de hoje em dia; se usamos, sempre trabalhamos em cima deles. Raramente mantemos algo que veio do ouvido de outra pessoa. Sempre giramos os botões – essa tem sido nossa prioridade constante. Também costumávamos projetar nossos próprios sintetizadores e, naquela época, tínhamos que construir sequenciadores porque eram raros. Só os grandes sistemas Moog os tinham. Pegávamos caixas de ritmos e as redesenhávamos com nossos engenheiros e eletricistas para torná-las tocáveis, ajustando-as aos sequenciadores e depois sincronizando tudo com fita.

Future Music – Como o Kraftwerk consegue transferir sua música para o formato ao vivo?

Ralf Hütter – Não é pré-gravado, está tudo em armazenamento digital. Não usamos fitas, tudo roda a partir de computadores. Podemos alterar o quanto quisermos: cortar faixas, mutar, dobrar... Temos acesso completo. Podemos deixar qualquer faixa mais longa, de acordo com o show. Certas partes são escritas, mas algumas composições começam em um ponto e ficam totalmente abertas, com a programação entrando em um loop. Podemos fazer o que quisermos. Todas as composições (com exceção de The Robots) são escritas como sequências básicas.

Future Music – Você se surpreende com o quanto influenciaram a música dance americana?

Ralf Hütter – Sim, mas sempre tivemos uma resposta muito favorável do público negro nos EUA, mesmo antes do house e do techno. Lembro que alguém nos levou a um clube por volta de 1976 ou 1977, quando Trans-Europe Express havia saído. Era um loft em Nova York, depois do horário, justamente quando a cultura dos DJs estava nascendo e eles começaram a fazer seus próprios discos e grooves. Um DJ estava tocando trechos de Metal on Metal do Trans-Europe Express, e pensei: “Ah, estão tocando o novo álbum.” Mas aquilo durou uns 10 minutos! E pensei: “O que está acontecendo?!” A faixa original tinha só uns dois ou três minutos! Depois perguntei ao DJ e ele me disse que tinha duas cópias do disco e estava mixando as duas – e claro, podia continuar enquanto as pessoas dançassem. Isso foi um verdadeiro avanço, porque naquela época você tinha que fixar um tempo máximo por lado do disco, menos de 20 minutos, para que coubesse no vinil. Era uma decisão tecnológica que definia a duração da música. Sempre tocamos com durações diferentes ao vivo, mas ali estávamos, num clube alternativo, com a gravação rolando por 10, 20 minutos – e a vibração estava lá.

Future Music – E como os outros ex-integrantes veem a influência duradoura do Kraftwerk?

Karl Bartos – Não sei. Eu faço música, seja ela boa ou não tão boa. Faço o meu melhor e deixo o público decidir. Se Andy, Johnny ou Bernard dizem isso sobre nós [neste caso, OMD e Electronic elogiando o Kraftwerk – Ed.], é muito lisonjeiro. Tenho orgulho do que fizemos, mas sempre que posso gosto de improvisar, me comunicar. Quero encontrar pessoas, não ficar num estúdio atemporal ou numa torre de marfim – já fiz isso por 15 anos!

Wolfgang Flür – Talvez seja verdade que fomos algum tipo de ponto de referência na música eletrônica...

Future Music – E quanto ao estúdio Kling Klang? Como ele mudou?

Ralf Hütter – Nós o chamamos de jardim eletrônico, porque ele está sempre se regenerando e agora é completamente modular, de forma que podemos trocar e substituir módulos conforme quisermos. Mantivemos todos os nossos sintetizadores antigos guardados e, embora tenham perdido valor quando foram superados, hoje temos todos esses equipamentos analógicos de volta! É realmente muito bom. Mudar para o digital de forma alguma substituiu o analógico, especialmente porque, muitas vezes, a tecnologia digital é usada apenas para amostrar fontes analógicas – seja remasterizando sons antigos das fitas originais ou de outras fontes sonoras. Sempre consideramos qualquer fonte de som – é apenas som. Kling Klang significa “som” em alemão, então sempre tivemos essa fascinação por som. 

PS: As entrevistas foram feitas separadamente =)