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quinta-feira, 22 de maio de 2025

David Bowie (1947 - 2016) — Como Berlim e Kraftwerk Impactaram David Bowie — Uncut Magazine — 1995

 





David Bowie à revista Uncut, em 1995, focando em suas influência sobre Kraftwerk:

Uncut: Muitos motivos foram sugeridos para sua mudança para Berlim: a cena local de arte e música, escapar da supercelebridade, uma desintoxicação espiritual e física — além da estimulação criativa de estar numa cidade dividida, isolada e tensa. Essas teorias são precisas? Você se lembra por que a cidade te atraiu?

David Bowie: A vida em Los Angeles havia me deixado com um senso esmagador de pressentimento. Eu cheguei à beira de um colapso induzido por drogas muitas vezes, e era essencial tomar algum tipo de atitude positiva. Durante muitos anos, Berlim me atraiu como uma espécie de santuário. Era uma das poucas cidades onde eu podia circular praticamente anônimo. Eu estava ficando falido, era barato viver lá. Por algum motivo, os berlinenses simplesmente não ligavam. Bom, pelo menos não para um cantor de rock inglês. Desde a adolescência, eu era obcecado com o trabalho carregado de “angst” dos expressionistas, tanto artistas quanto cineastas, e Berlim era o lar espiritual deles. Era o núcleo do movimento Die Brücke, de Max Reinhardt, Brecht, e onde Metrópolis e O Gabinete do Dr. Caligari haviam nascido. Era uma forma de arte que refletia a vida não por eventos, mas por estado de espírito. E era isso que eu sentia que meu trabalho estava se tornando.

Minha atenção voltou-se novamente para a Europa com o lançamento de Autobahn, do Kraftwerk, em 1974. A predominância de instrumentos eletrônicos me convenceu de que esse era um campo que eu precisava explorar um pouco mais. Muito se falou sobre a influência do Kraftwerk em nossos álbuns de Berlim. Na maioria das vezes, acho que são análises preguiçosas. A abordagem musical do Kraftwerk, em si, pouco tinha a ver com o que eu fazia. A deles era uma série controlada, robótica e extremamente medida de composições — quase uma paródia do minimalismo. Tinha-se a sensação de que Florian e Ralf estavam totalmente no controle de seu ambiente, e que suas composições eram bem preparadas e refinadas antes de entrar no estúdio.

Meu trabalho tendia a ser peças de humor expressionista, com o protagonista (eu mesmo) se entregando ao zeitgeist, com pouco ou nenhum controle sobre sua vida. A música era, na maior parte, espontânea e criada no estúdio. Em substância também, éramos polos opostos. A percussão do Kraftwerk era produzida eletronicamente, rígida no tempo, imutável. A nossa era o tratamento distorcido de um baterista extremamente emotivo, Dennis Davis. O tempo não apenas "mudava", mas era expressado de maneira mais que “humana”. O Kraftwerk sustentava aquele ritmo inflexível com fontes de som totalmente sintéticas. Nós usávamos uma banda de rhythm’n’blues. Desde Station to Station, a hibridização de rhythm’n’blues com eletrônica era um objetivo meu. Aliás, segundo uma entrevista dos anos 70 com Brian Eno, foi isso que o atraiu a trabalhar comigo.

Outra observação preguiçosa que gostaria de destacar é a suposição de que Station to Station era uma homenagem a Trans-Europe Express, do Kraftwerk. Na verdade, Station to Station precedeu Trans-Europe Express em um bom tempo — 76 e 77, respectivamente. A propósito, o título vem das Estações da Cruz e não do sistema ferroviário. O que me fascinava no Kraftwerk era a determinação singular deles em se afastar das sequências de acordes americanas estereotipadas e sua entrega completa a uma sensibilidade europeia expressa através da música. Essa foi a grande influência deles em mim.

Um detalhe interessante: meu primeiro nome na lista de desejos para guitarrista em Low era Michael Rother, do Neu!. O Neu!, por sinal, era apaixonado, até diametralmente oposto ao Kraftwerk. Liguei para o Rother da França nos primeiros dias de gravação, mas de forma muito educada e diplomática, ele disse “não”.

Uncut: Alguns biógrafos especulam que a era de Berlim foi uma reação instintiva ao espírito do punk rock da metade dos anos 70 — visual despojado, direto, sério, carregado de pessimismo, emocionalmente cru. Uma teoria plausível?

David Bowie: Seja por causa do meu cérebro confuso ou da pouca repercussão do punk inglês nos EUA, o movimento praticamente já tinha acabado quando entrou no meu radar. Passou completamente por mim. As poucas bandas punk que vi em Berlim me pareciam uma espécie de pós-1969 Iggy, e parecia que ele já tinha feito tudo aquilo. Embora eu me arrependa de não ter estado presente em todo o circo dos Pistols, porque esse tipo de entretenimento teria feito mais pela minha disposição depressiva do que quase qualquer outra coisa que consigo imaginar. Claro, conheci eles bem cedo quando estava em turnê com o Iggy — pelo menos o Johnny e o Sid. John obviamente estava bastante impressionado com o Jim [Iggy], mas quando encontrei Sid, ele estava quase catatônico, e me senti muito mal por ele. Era tão jovem e precisava muito de ajuda.

Quanto à música, Low e seus irmãos são uma continuação direta da faixa-título de Station to Station. Sempre me pareceu que há uma faixa em qualquer álbum meu que já indica o rumo do álbum seguinte.

Uncut: Existiu algum plano sério de gravar com o Kraftwerk, como alguns biógrafos afirmam?

David Bowie: Não, em nenhum momento. Nós nos encontramos socialmente algumas vezes, mas foi só isso.

Uncut: Você realmente percorria as autobahns ouvindo Autobahn sem parar, como Ralf Hütter certa vez insistiu?

David Bowie: Certamente pelas ruas de Los Angeles em 1975, sim. Mas na autobahn de Berlim, Autobahn já era notícia velha. Então, resumindo, não…

Uncut: Houve encontros ou planos de colaboração com outras bandas do Krautrock, como Cluster, Neu! ou Tangerine Dream?

David Bowie: Nada disso. Conhecia Edgar Froese e sua esposa socialmente, mas nunca conheci os outros, pois não tinha real interesse em ir para Düsseldorf — eu estava muito focado no que precisava fazer no estúdio em Berlim. Tomei para mim a tarefa de apresentar o som de Düsseldorf ao Eno, com o qual ele ficou muito impressionado — Conny Plank e companhia (e também ao Devo, aliás, que por sua vez foi apresentado a mim pelo Iggy). E o Brian acabou indo para lá gravar com alguns deles.

Uncut: “V-2 Schneider” (do álbum "Heroes") é uma homenagem ao Florian?

David Bowie: Claro.

terça-feira, 20 de maio de 2025

Pascal Bussy — Entrevista - Autor do livro "Kraftwerk: Man, Machine and Music" — 1995

 






O FUTURO PASSADO

A ENTREVISTA COM PASCAL BUSSY – SETEMBRO DE 1995

Durante vários anos após sua publicação em 1993, a biografia do Kraftwerk escrita por Pascal Bussy, Man, Machine and Music, permaneceu como o único livro dedicado exclusivamente a documentar a história da banda. Além da edição britânica, o livro também foi publicado em edições alemã, japonesa e francesa. Até agora, havia poucas informações sobre Pascal Bussy, o homem por trás da biografia, e sobre os motivos que o levaram a escrever o livro. As perguntas desta entrevista foram sugeridas por vários leitores e colaboradores regulares do fanzine.

Publicado originalmente em Aktivität 8 – Agosto de 1996.

O que veio primeiro – a ideia de escrever um livro sobre o Kraftwerk ou isso foi sugerido como um projeto viável, depois de você ter escrito o livro sobre o Can, pela editora SAF?

Eu já tinha essa ideia há muito tempo, mas nós (a SAF e eu) realmente decidimos fazê-lo logo após o show no Brixton Academy em Londres, em julho de 1991. Ficamos completamente impactados pelo poder da música e do show deles!”

Falando por alto, quanto tempo levou para escrever o livro?

“Dois anos.”

Era um projeto que você tinha em mente há algum tempo ou começou tudo do zero?

“Eu queria fazer isso desde que realizei minha primeira entrevista com Ralf Hütter, em 1983. Ele era tão misterioso. Eu queria penetrar esse mistério…”

Qual foi a reação do Kraftwerk à sua sugestão inicial de escrever um livro sobre eles?

“(Em Lyon, França, no dia 5 de novembro de 1991, foi basicamente assim...)
Florian Schneider: ‘Por que você quer fazer um livro sobre nós? A música está aí. Isso já basta.’
Ralf Hütter: ‘Um livro? Sim... Não...’”

Seu livro sobre o Can, publicado pela SAF, teve alguma influência sobre o livro do Kraftwerk? Pontos de referência semelhantes, influências etc.?

“Exceto pelo fato de que ambos pertenciam à mesma cena de vanguarda e eram alemães, não muito. E foi uma experiência completamente diferente. O pessoal do Can foi muito colaborativo. Os ‘gêmeos Kraftwerk’ foram muito pouco colaborativos.”

Há outras bandas sobre as quais você gostaria de escrever no futuro?

“Artistas como Philip Glass, Yoko Ono, LaMonte Young. Bandas como Soft Machine, Gong. E também um livro sobre a importância da música nos filmes de Wim Wenders.”

Qual foi a principal razão para você escolher escrever um livro sobre o Kraftwerk?

“Duas razões principais:

  1. Eles eram uma das raríssimas bandas que ainda não tinham um livro sobre si e que realmente mereciam um.

  2. Era um desafio.”

A julgar pela nota do autor no início do livro, parece que escrever o livro foi mais difícil do que você imaginava inicialmente. Como você entrevistou as pessoas para o livro? Dependia do consentimento do próprio Kraftwerk para que associados, como Maxime Schmitt, Rupert Perry e outros, falassem com você? Você teve que recorrer a métodos sorrateiros?!

“Foi difícil porque não tive nenhuma ajuda do Ralf Hütter ou do Florian Schneider. Mas tive muita sorte de estar em Paris, que obviamente é uma cidade-chave para eles. Foi fácil começar minhas investigações por lá. Quero dizer, com as pessoas que estiveram próximas deles nos anos 70/80. Em segundo lugar, por estar na indústria musical há quase vinte anos… é realmente um mundo pequeno, e de repente você percebe que um amigo seu conhece o pessoal do Front 242, que outro pode te contar uma história engraçada, que alguém com quem você lida por motivos profissionais tem uma conexão com William Orbit. Sabe, esse tipo de coisa...”

As fotografias usadas no livro eram muito boas, bem mais interessantes do que as fotos de divulgação habituais do Kraftwerk. Foi difícil conseguir permissão para usá-las?

“Isso fez parte da investigação geral, e algumas delas foram encontradas puramente por acaso – como a foto de um dos primeiros shows.”

Foi fácil ou difícil conseguir acesso aos membros da banda para entrevistas? Eles foram receptivos ao projeto do livro ou mais cautelosos? Florian Schneider, por exemplo, tem sido extremamente relutante em conceder entrevistas desde os anos 70, e sabe-se que ele disse a alguns fãs que não foi entrevistado para seu livro, alegando que tudo foi inventado. Você entende essa atitude?

“Foi fácil conseguir a entrevista com o Ralf Hütter em Lyon, em 1991, mas ele não apoiou o projeto do livro. A entrevista com o Florian Schneider aconteceu realmente por acaso. Foi depois do show. O concerto tinha sido bom, Florian estava feliz. Ele estava gripado e foi até o salão depois do show para procurar um lenço de papel! Um grupo de fãs estava lá, ele começou a conversar com eles, chegou até a autografar alguns discos do Kraftwerk. Ele estava de muito bom humor. Aí fui até ele, pedi uma entrevista e conversamos por 30/45 minutos.”

A opinião do Kraftwerk sobre o livro mudou após a publicação?

"Basicamente, eles não gostam do livro. Mas tenho a impressão de que eles não estão dispostos a gostar de nenhum livro escrito sobre eles..."

Há pouco espaço para as opiniões de Wolfgang Flür no seu livro. Você acha que isso se deve ao fato de ele não querer expor seu lado da história do Kraftwerk, ou porque ele já planejava escrever seu próprio livro e, portanto, não queria 'jogar seu trunfo' antes da hora, por assim dizer?

"Wolfgang Flür definitivamente tinha (ou pelo menos quando o encontrei em Düsseldorf) planos de escrever seu próprio livro. Por isso ele estava tão relutante em falar comigo — o que eu compreendo completamente, embora eu realmente não saiba quando seu livro será publicado — nem mesmo se está terminado..."
Uma parte do livro que, a julgar pelos comentários dos leitores da Aktivität, foi um pouco decepcionante foi o período em torno do álbum inédito Technopop. Antes do lançamento do livro, havia uma grande expectativa de que tudo seria revelado! Entre os fãs, esse LP é uma espécie de ‘Santo Graal’...

"Eu disse tudo o que pude dizer no livro sobre esse assunto. Realmente não posso dizer mais..."

Quão dispostos estavam os membros do Kraftwerk a falar sobre esse projeto? Eles parecem desconfortáveis com a ênfase dada a esse período da história deles, e por isso evitam entrar em detalhes sobre o assunto?

"Eles estavam mais misteriosos do que nunca. Tão misteriosos que, em determinado momento, tive a impressão de que esse álbum nunca existiu de verdade!"

Ainda sobre Technopop: você acha que esse LP adquiriu uma importância muito maior do que realmente tem? Ele seria apenas a ponta do iceberg, um projeto entre muitos que acabaram engavetados? Certamente há rumores de que materiais foram destruídos (o que Ralf Hütter confirmou em ao menos uma entrevista) e Karl Bartos também mencionou o assunto (ele chegou a dizer que há ‘quilômetros’ de fitas inéditas no Kling Klang).

"Acho que o mais triste sobre o Kraftwerk é que eles frequentemente não foram capazes de completar seus trabalhos e/ou materializar suas ideias. Isso vai desde fitas não lançadas até álbuns inacabados, e também inclui alguns de seus sonhos (como os shows com robôs via satélite) e até absurdos de marketing (a turnê inacabada de 91/92, o CD de Tour de France nunca lançado, o fato de se recusarem a lançar os três primeiros álbuns em CD — o que abriu caminho para os bootlegs etc.).

Desde o começo da banda, o Kraftwerk sempre esteve em processo de fazer um novo álbum, gravando, mixando etc. De certa forma, podemos considerar que somos muito sortudos por eles terem lançado tantos álbuns!"

Nos anos 1970, o padrão de trabalho do Kraftwerk era lançar um LP com certa regularidade, mas desde The Man-Machine em 1978, os lançamentos ficaram cada vez mais espaçados. Em Computer World, o motivo do atraso foi a modernização do estúdio — algo que parece ter virado uma desculpa padrão, já que também foi mencionado nas entrevistas sobre Electric Café e The Mix. Na sua visão, essa é mesmo uma razão significativa para o ritmo lento de trabalho do Kraftwerk, ou há outras razões menos divulgadas?

"Na minha opinião, as explicações básicas para esse ritmo lento de trabalho são muito simples:

  1. Eles são perfeccionistas demais, nunca estão completamente satisfeitos com seu trabalho;

  2. Eles são... muito preguiçosos!

  3. Nunca tiveram a pressão financeira (ao contrário de quase todas as bandas ativas do mundo) de serem obrigados a lançar um álbum novo todo ano.

Um aspecto bastante singular do Kraftwerk é a disposição de traduzir músicas para diferentes idiomas. Quão apaixonados os membros da banda são por esse tema? Considerando a mistura de idiomas — às vezes vários em uma mesma música (como em Technopop) — você imagina que lançamentos futuros virão em uma edição ‘universal’, com as músicas alternando entre os idiomas disponíveis?

"Acho que esses idiomas são mais uma espécie de brincadeira, como um tipo de gadget. Não afetam tanto a música assim. A força e o poder do Kraftwerk não vêm disso, mesmo que os fãs japoneses e franceses certamente fiquem muito felizes por suas línguas nativas serem usadas por Ralf Hütter de vez em quando. E também acredito que a universalidade do trabalho deles vem da música — os diferentes idiomas apenas adicionam um certo sabor, mas a base de tudo é a música."

Você tem alguma teoria sobre por que o Kraftwerk continua fazendo shows ao vivo? Parece contraditório; seu livro documenta bem que os membros não gostam muito desse aspecto... e ainda assim continuam. Tocar ao vivo ainda é uma parte importante de ser o Kraftwerk?

"Florian Schneider claramente odeia fazer turnês. Para Ralf Hütter, acho que é um pouco diferente — para ele, a turnê deve ser uma espécie de desafio, talvez uma forma de provar que o Kraftwerk ainda está vivo... Mas por outro lado, pode ser uma experiência difícil para ele, lidando com questões técnicas (você certamente já notou que problemas técnicos ocorrem com frequência nos shows), além de ser forçado a interagir com a gravadora, jornalistas etc... um verdadeiro pesadelo!"

Você ficou satisfeito com o livro finalizado? Ele respondeu ao que você pretendia alcançar desde o início?

"Sim, fiquei satisfeito. Pelo menos acho que o livro resume todos os fatos históricos e até vai um pouco além."

Houve partes que precisaram ser deixadas de fora, por falta de informação ou outros motivos?

"Sim, eu (e Mick Fish) deixamos algumas coisas de fora apenas para garantir que o livro não causasse problemas pessoais a ninguém — pessoas que falaram comigo, Ralf Hütter e Florian Schneider, ex-integrantes da banda."

Analisando entrevistas antigas do Kraftwerk à imprensa musical, parece que Ralf Hütter frequentemente desvia de perguntas específicas ou dá respostas meio vagas e superficiais. Você teve dificuldade para obter as respostas que esperava ao entrevistá-los? Houve temas que permaneceram impenetráveis?

"Com eles, toda pergunta parece ser um problema... e sim, às vezes foi muito difícil." 

Na sua opinião, o enigma que cerca o Kraftwerk é cuidadosamente cultivado ou eles realmente são espíritos livres, com pouca ou nenhuma preocupação com as normas da indústria musical? A ideia deles serem operários musicais, aparecendo no Kling Klang todos os dias, parece boa — mas há tão pouco resultado concreto disso...

"Já respondi mais ou menos essa pergunta antes. Mas posso acrescentar algo — sinto que, de certa forma, Ralf Hütter e Florian Schneider se tornaram prisioneiros da imagem do Kraftwerk."


Acredito que hoje você trabalha no selo WEA, em Paris, cuidando especialmente dos lançamentos de jazz?

"Sim, sou responsável pelo departamento de jazz da Warner na WEA em Paris. Para mim, a música sempre foi algo global. Sempre me interessei por rock, pop, música contemporânea, clássica, jazz, música étnica etc. Na fase da vida em que estou (estou prestes a entrar nos 40), o jazz é uma área mais confortável para se trabalhar do que o pop/rock. O mundo do jazz é muito mais ‘inteligente’ do que o do pop, menos histérico e frequentemente mais criativo também."

O livro sobre o Kraftwerk é agora um assunto encerrado para você, ou você continua acompanhando suas atividades desde a publicação, talvez com a ideia de expandir o livro no futuro?

"Sim, ainda estou muito interessado no Kraftwerk e pode ser que algum dia uma edição aumentada do livro veja a luz do dia."

Por fim, há alguma pergunta que você gostaria de responder e que não foi feita?

"Apenas um ponto. Ouvi dizer por várias fontes que Ralf Hütter e Florian Schneider alegaram nunca terem falado comigo, e que tudo o que é atribuído a eles no livro seria falso. Na verdade, disseram que nunca me conheceram.

Isso é, claro, completamente falso. Por isso todas as fontes de todas as citações (entrevistas) estão cuidadosamente listadas no final do livro. E as fitas dessas entrevistas estão guardadas em algum lugar (dois conjuntos de DATs em dois locais diferentes), caso algo precise ser provado oficialmente.

Um ponto de última hora: sempre tive um enorme respeito pelo Kraftwerk como inovadores musicais. Ainda tenho esse respeito, mesmo que o modo pouco colaborativo deles tenha sido difícil de lidar às vezes. Mas sei que essa atitude faz parte da imagem deles. Posso até dizer que, se eles tivessem sido colaborativos, não seriam o Kraftwerk. Então... tudo bem."

Em nome da Aktivität, gostaria de agradecer a Pascal por dedicar seu tempo para responder a essas perguntas e também a Mick Fish, da SAF, por ajudar a tornar isso possível. — IC

Fonte: Aktivitaet-Fanzine



Kraftwerk: Man, Machine and Music (1993)

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Wolfgang Flür — Entrevista — Aktivitaet-Fanzine — 1995


 




WOLFGANG FLÜR - DOS ROBÔS A UM HUMANO

A entrevista a seguir aconteceu após encontros em Düsseldorf, em abril de 1995. Nela, Wolfgang fala sobre várias áreas do seu passado e seus novos projetos, incluindo o Yamo.
De Aktivität 7 – Setembro de 1995

Conte um pouco sobre seu passado. Como você começou na música?

Wolfgang Flür: 

Meu início na música foi bem parecido com o de muitos outros artistas. Nos tempos de escola, formei minha primeira banda, os The Beathovens. Tocávamos todas as músicas do hit-parade inglês da semana e fazíamos apresentações na região de Düsseldorf. Éramos especialistas em covers dos Beatles. Depois dos Beathovens, vieram o Anyway, o Fruit e a banda Spirits of Sound. Com esse último grupo, começamos a compor nossas primeiras músicas. Nosso guitarrista era Michael Rother, que foi convidado para tocar na banda vanguardista Kraftwerk em 1971. Foi o fim da minha banda de escola. Eu segui o Michael depois, para o Kraftwerk, que estava justamente gravando "Autobahn".

Você originalmente estudou design de móveis, mas acabou se tornando baterista?

Sim, era isso que eu sempre quis fazer! O curso de design de interiores foi uma ideia dos meus pais, que nunca ficaram felizes com meu desejo de ser músico. Mas, com o tempo, foi útil saber projetar móveis.


Como e quando você se juntou aos seus ex-colegas do Kraftwerk?

Em 1972, eu estava em uma mesa de desenho num escritório de arquitetura, aprendendo a fazer plantas de depósitos, quando recebi uma ligação do Ralf Hütter: “Podemos nos encontrar para conversar sobre música e talvez fazer uma sessão em nosso estúdio?” Fiquei tão surpreso e orgulhoso com aquele telefonema importante que aceitei, claro.

Há quanto tempo você conhece Emil Schult?

Desde a época do Kraftwerk. Eles estavam juntos. Todos eram a banda. Moramos juntos por muito tempo em um grande apartamento, bem perto do adorável rio Reno, na parte antiga de Düsseldorf. Foi um tempo muito romântico e, acho, o mais importante da minha vida.

Você e Emil já escreveram músicas juntos?

Sim, claro. Mas não na época do Kraftwerk. Nos últimos anos, quando iniciei meu próprio projeto, o Yamo, pedi ajuda ao Emil com as letras das minhas novas músicas. Eu não tinha muita prática com isso, mas aprendo rápido. Trabalhamos juntos em "My Inner Voice", "Little Child", "The Telephone Bill", "From The Ocean", "Planet In Fever" e também em "Signals Of Love".


Você também já trabalhou com Emil em outros projetos — como design ou arte?

Sim, gostei de trabalhar com ele em alguns objetos de arte, como estruturas de cadeiras e molduras de pintura especiais. Também construímos o primeiro pad eletrônico de bateria em 1973. Emil me ajudou com suas ideias.


Quando e por que você saiu do Kraftwerk?

1986/87. Saí da banda porque senti vontade de fazer algo diferente depois de todos aqueles anos. Foi uma ruptura difícil, seguida de muita depressão, mas eu sabia que “algo precisava mudar”. Esse virou um dos títulos do meu novo projeto.


Você contribuiu com o álbum "The Mix" antes de sair?

Não!


Você ainda se identifica com o trabalho que realizou com seus antigos colegas?

Ultimamente, nem tanto. Tenho trabalhado muito intensamente nas minhas novas músicas. Mas comecei a escrever minhas memórias sobre o tempo com os rapazes. O título do livro será “Under one pillow with the robots” (É uma expressão com um significado especial em alemão...


Qual é a sua reação ou opinião sobre os estilos musicais que hoje nos cercam e que, em alguns aspectos, derivam do que você ajudou a criar no Kraftwerk?

Isso certamente é uma questão de gerações. Nossa música no Kraftwerk evoluiu das melodias românticas com sons sintetizados únicos nos primeiros anos, para sons mais rítmicos e robóticos no fim dos anos 80. O som “techno” ou “tekkno” foi criado e muitas bandas fizeram o seu próprio. O ritmo foi ficando cada vez mais rápido, mas o conteúdo da música foi diminuindo. Hoje, o principal é o ritmo — é isso que atrai os jovens.

Você gostava de tocar ao vivo e fazer turnês com as várias bandas em que tocou?

Sim, eu adorava. Sou um tipo de vagabundo e meu lar é o mundo. Eu poderia viver em qualquer lugar com uma natureza bonita e saudável.


O que você acha dos fãs e de um fanzine como o Aktivität?

Tudo bem com os fãs, se eles aceitarem que sou uma pessoa comum, como qualquer outra. Preciso do meu espaço pessoal. Não quero ser ídolo de ninguém. Todos deveriam ser fãs de si mesmos. Mas isso tem a ver com a educação e a formação. Se alguém se sente forte por si só, pode admirar o trabalho de outra pessoa sem transformá-la em ídolo...


Você é reconhecido na sua cidade natal ou quando viaja?

Sim, às vezes. Mas, em geral, a profissão de músico pop na Alemanha não tem tanto valor quanto no seu país. A Inglaterra tem uma cultura pop muito diferente. Eles amam seus músicos. Na Alemanha, somos vistos como artistas, como pintores, escritores ou atores. Essa profissão não é tão respeitável quanto outras. Tive que aprender essa lição com minha própria família.


Você e Karl Bartos saíram para formar um projeto chamado Elektric Music. Isso não continuou, já que ele está envolvido com outros artistas. Você ainda pretende trabalhar com ele um dia?

Quem sabe o futuro? Eu nunca estive realmente envolvido na banda do Karl, mas estamos em contato. Às vezes nos encontramos e conversamos sobre música.

Você tem intenção de colaborar ou produzir outros grupos e artistas?

Não, não tenho certeza se sou capaz de fazer isso. Não, não quero.


Quais são seus planos agora e pode nos contar sobre o Yamo?

Criei o grupo há dois anos para fazer uma música para as vítimas da guerra na Bósnia, especialmente as crianças que perderam os pais ou ficaram feridas nos conflitos. Queria fazer algo em vez de apenas assistir à TV e receber informações. Não conseguia suportar todas aquelas imagens horríveis todos os dias.

Criei a música "Little Child" com o letrista Emil e a cantora Nina Moers. Mas não consegui lançá-la como single beneficente. Faltou interesse da mídia e das gravadoras. Na verdade, foi isso que me fez voltar à música. Agora pretendo regravar essa faixa e cantar eu mesmo. 

Meu álbum, que chamo de "Blue Stories", está cerca de 50% gravado e espero encontrar a gravadora certa em breve. Meu conceito não é criar “um novo som”, mas contar minhas histórias com diferentes estilos musicais que combinem com o conteúdo. 

Meus parceiros são Bodo Staiger (ex-Rheingold) e Andy Thoma (do projeto Mouse on Mars). Também conheci uma jovem cantora, Jedra Dayl, em um quiosque. Ela tem uma voz adorável e é uma pessoa encantadora — estou feliz por ela ter aceitado trabalhar conosco. E ela aceitou! Estou orgulhoso de apresentá-la no meu projeto.


Ouvi dizer que o álbum de estreia se chamaria “Signals”. Pode nos contar mais sobre isso e o que podemos esperar de você?

Sim, é verdade, queria chamar meu álbum de estreia de “Signals”, porque uma das minhas músicas favoritas é “Signals of Love”. É um sinal para todos os humanos do mundo. A música fala por si. Mas agora decidi chamar o álbum de “Blue Stories”. Ele será como um livro de contos curtos com temas variados — manchetes de jornal, sonhos e histórias da minha vida privada. 

São todos diferentes, como a vida é em geral. Falam sobre nossa responsabilidade com a natureza, com as pessoas, com as crianças. Mas também tratam de observações sobre nossos professores, pais, as cores ao nosso redor, com alegria de viver, amor, diversão e dança...

Você gostou dos encontros com pessoas como LFO e Andy McCluskey do OMD?

Ah, sim, muito. Gostei especialmente do encontro com o Andy no meu apartamento em Düsseldorf. Tivemos uma noite maravilhosa naquele verão, com algumas garrafas de vinho branco italiano e uma grande tigela da salada vegetariana especial de Wolfgang Flür. Ficamos brincando e conversando a noite toda. Andy me prometeu que se tornaria o “Julio Iglesias da eletrônica” (harr-harr)!

Há algum artista com quem gostaria de trabalhar um dia?

Sim, já atingi esse ponto. Estou trabalhando com Andy Thoma, Bodo Staiger e Jedra Dayl na música, com Emil Schult, Theo Queket e Lisa Hillebrand nas letras.


Você tem alguma influência ou tipo de música que gosta de ouvir?

Ah, sim, claro. Tenho muitas influências musicais desde que me entendo por gente. Escuto todo tipo de música que seja feita com bom gosto. Mas, nos últimos três anos, tenho ouvido menos música. Estou tendo meus “dias de silêncio”, quero manter meus ouvidos livres para minhas próprias melodias, se é que você me entende!

Você gostava de pedalar ou praticar outros esportes?

Eu sabia que você faria essa pergunta! Quando eu estava com meus antigos amigos e fizemos o vídeo de “Tour De France”, você me vê pedalando com “a turma” em um ritmo moderado. O motivo é que não gosto de velocidade, de nenhum tipo. Odeio pressa, correria, voar... (ah, isso daria outro título: "Don't Rush and Hurry"). Tenho medo disso tudo. Não sei o motivo, mas a lentidão me dá mais tempo para perceber e curtir meu entorno.

Outro motivo pelo qual não sou fã de esportes comuns é que não me interesso em vencer os outros. Esporte sempre envolve algum tipo de competição. Não preciso disso. Mas faço longas caminhadas pela natureza linda da minha cidade. Às vezes passo o dia todo fora, e às vezes saio até à noite. Não para ir a balada, claro. Não mais. Tenho minhas melhores ideias caminhando, geralmente com meus amigos.


Quais são seus planos agora?

Ah, que pergunta... É claro que espero encontrar agora a gravadora certa para minha música e, então, gostaria de fazer mais álbuns com meus amigos. Pretendo incluir uma música beneficente em cada álbum no futuro, para apoiar um lar de crianças resgatadas da horrível guerra na ex-Iugoslávia por pessoas corajosas que são minhas amigas.

Conte um pouco sobre o tipo de equipamento que você está usando agora para criar suas músicas, já que sua antiga banda sempre foi associada à tecnologia musical.

Não estou tão focado em criar “meu próprio som”, seja lá o que isso signifique. Estou mais focado em compor minhas melodias e contar minhas histórias. Trabalho de maneira normal, como muitos outros artistas. Primeiro, escrevo minha história e faço as rimas. Enquanto escrevo, geralmente já me vem a melodia ao ler as frases. Faço apenas pequenos arranjos depois, usando o programa Cubase no meu Macintosh. Primeiro, configuro a bateria e o ritmo. Isso é importante para o canto, depois crio as partes — verso, refrão, ponte ou outras variações. Normalmente só conheço a melodia principal antes. Todo o resto surge ao longo do processo. Depois faço uma cópia do meu programa em um disquete e vou ao estúdio do Andy ou do Bodo, e começamos a gravar os instrumentos, bateria, vocais e tudo mais que for necessário para a música.