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quinta-feira, 3 de julho de 2025

Ralf Hütter — Entrevista — Keyboard Magazine — Outubro — 1991

 


Entrevista com Ralf Hütter publicada na Keyboard Magazine em outubro de 1991:


Keyboard – Essa é sua primeira turnê em quase uma década. Por que agora?

Ralf Hütter – Bem, estivemos trabalhando no nosso estúdio Kling Klang, e agora está tudo digitalizado e nossos computadores estão funcionando. Levou um bom tempo para conseguirmos montar essa música. Pela primeira vez, agora conseguimos apresentá-la ao vivo da maneira como a ouvimos.

Keyboard – As músicas de The Mix não são remixes, estritamente falando. O press release da Elektra as chama de “reinvenções”.

Ralf Hütter – Não usamos mais fitas, tudo está armazenado digitalmente e controlado por computador. Usamos todo o nosso catálogo dos últimos 20 anos, sampleando os sons analógicos originais das fitas master de 16 canais. Escolhemos os sons que achamos únicos, ou insubstituíveis, ou talvez apenas em boa forma (risos), e outros nós mudamos ou alteramos. Estávamos interessados em usar sons originais antigos, de nossas velhas máquinas analógicas caseiras, adaptando tudo tecnicamente para os anos 90. É apenas uma mistura de sons sampleados dos masters antigos, além de novos sons eletrônicos completamente sintéticos. Tudo é remontado. Para nós, mixar é a forma de arte de fazer música hoje.

Keyboard – Vocês tiveram grande influência na música de dança americana, particularmente no techno de Detroit.

Ralf Hütter – Tocamos em Detroit em 1981, acho, e ficamos surpresos com a recepção calorosa do público das pistas de dança. Lembro que as pessoas ficaram surpresas por termos tantos fãs negros e latinos. Infelizmente, a turnê foi marcada muito espontaneamente, porque ninguém achava que haveria interesse, então tudo o que conseguimos fazer na época foi adicionar mais alguns shows e voar pelos EUA. Como viajávamos tão rápido, nunca conseguimos consolidar esse público negro ou latino. Simplesmente aconteceu. Ficamos muito surpresos na época. Antes, éramos vistos como uma banda muito europeia. Mas sempre houve um movimento disco forte na Europa, e sempre fomos fanáticos por dança, com nossas pequenas danças robóticas. Foi muito encorajador receber uma reação tão forte na América. Antes disso, o circuito do rock’n’roll sempre teve certa resistência à eletrônica. Estavam presos à fórmula da guitarra, enquanto o público das pistas era muito mais aberto aos sons modernos. Aí, em 1982, Afrika Bambaataa fez a versão dele de “Trans Europe Express”, que foi ótima — uma combinação muito boa do nosso tipo de música eletro com rap. É uma mistura de culturas diferentes, e sempre gostamos disso.

Keyboard – Foi por isso que decidiram refazer suas músicas antigas em estilo house em The Mix?

Ralf Hütter – Isso foi apenas um desenvolvimento natural da nossa música. Sempre tivemos essas bases de bateria eletrônica, mesmo antes da Roland TR-808 ganhar destaque, usando pequenas caixas de ritmo e gatilhos de bateria eletrônicos caseiros nos anos 70, quando trabalhávamos com um engenheiro que desenvolveu esses pads para que pudéssemos ser uma banda sem baterista. É só uma questão de tudo ter se unido.

Keyboard – Vocês falam com frequência sobre o interesse em ritmos — especificamente, ritmos de dança — mas seus ritmos não são exatamente o que a maioria chamaria de “funkados”. Como vocês conciliam essa fascinação por padrões staccato rígidos com o desejo declarado de criar grooves dançantes e funky?

Ralf Hütter – Para nós, máquinas são funky. Algumas geram loops rítmicos por acidente, outras são programadas para tocar uma batida. Nossa música é eletrônica, mas gostamos de pensar nela como música étnica da área industrial alemã — música folclórica industrial. Para nós, tem a ver com a fascinação por tudo ao nosso redor, tentando incorporar o ambiente industrial à nossa música. Vindo de uma formação clássica, ficamos bastante entediados com o passado e começamos a ouvir o presente. As máquinas, essas ferramentas para fazer música estavam ali, e pensamos: por que não usá-las? Nossa tradição aqui havia sido quebrada, bombardeada. De um lado havia a tradição antiga — música clássica, toda aquela música de marcha para a geração anterior. E do outro, as coisas modernas construídas depois da guerra.

Keyboard – Vocês tomaram algumas decisões interessantes em The Mix, uma das quais foi mudar “Autobahn” de um ritmo staccato reto para um groove em tercinas. O que motivou isso?

Ralf Hütter – Algumas dessas músicas estão conosco há muito tempo, e é assim que as temos tocado ao vivo. Mudamos as coisas de cidade para cidade, de país para país. Com “Autobahn”, às vezes dirigimos um pouco mais rápido, às vezes mais devagar, dependendo do limite de velocidade.

Keyboard – As buzinas de carro na seção do meio de “Autobahn” são sons sampleados ou aproximações analógicas?

Ralf Hütter – Em The Mix, elas foram sampleadas das fitas master originais de “Autobahn”. Não conseguimos recriá-las, pois tinham uma afinação especial, são acordes com trítonos, para soarem como buzinas de carro. Nunca conseguimos recapturar aquele som analógico — acho que foi feito num Moog ou num ARP — então apenas sampleamos os ruídos originais e usamos para criar algo chamado “hupenkonzert”. É uma expressão comum alemã que significa “concerto de buzinas” — em outras palavras, um engarrafamento, onde todos estão com raiva e buzinando. Então toquei um pequeno “hupenkonzert” ali. Usamos ruído branco para criar o som dos carros passando. Num trecho em que a letra diz, em alemão, “a estrada é uma fita cinza, com listras brancas e bordas verdes”, queríamos evocar a imagem do pneu cruzando essas listras brancas, então usamos uma explosão reversa de ruído branco.

Keyboard – Como foram criados os vocais distorcidos e subaquáticos dessa seção?

Ralf Hütter – Usamos um instrumento programável por computador que Florian construiu, chamado Robovox. Ele permite montar qualquer palavra a partir de fonemas pré-programados. É um coro mecânico, totalmente sintético. Queremos libertar a tecnologia para que ela fale por si só, e quando usamos o Robovox nessa música, é como se os carros estivessem falando com suas buzinas afinadas.

Keyboard – Você gostaria mesmo de viver num mundo em que todas as máquinas da sua vida, de eletrodomésticos a automóveis, falassem com você?

Ralf Hütter – Bem, elas já falam! Quando você abre os ouvidos, pode ouvir a música escondida no ambiente. É muito melhor do que ouvir só música, que é apenas ruído afinado, afinal. A paisagem industrial é fascinante. Mesmo as máquinas estão falando.

Keyboard – Quando você e Florian estudavam na Universidade de Düsseldorf, chegaram a ter contato com peças clássicas do século XX inspiradas na estética das máquinas, como a “Sinfonia das Máquinas” de Mossolov ou o “Ballet Mécanique” de Antheil?

Ralf Hütter – Claro, mas mais importante ainda, estávamos na região de Düsseldorf, que fica perto de Colônia, onde ficava o estúdio eletrônico usado por Stockhausen, e não tão longe dos estúdios franceses onde Pierre Boulez trabalhava. Era comum, desde bem jovens, ir ouvir Stockhausen. A cena artística e musical, especialmente a eletrônica, era bem acessível, havia vários programas de rádio com música eletrônica estranha. Então tínhamos acesso a tudo isso, fez parte da nossa formação, da nossa educação. Sempre nos consideramos a segunda geração de exploradores eletrônicos, depois de Stockhausen.

Keyboard – Por sua vez, vocês influenciaram fortemente o que se poderia chamar de terceira geração de artistas eletrônicos — como as bandas Visage, Depeche Mode, e também David Bowie em sua fase berlinense.

Ralf Hütter – Acho que influenciamos Bowie, pelo menos foi o que ele nos disse. Ele contou que, quando chegou à Alemanha, ouvia “Autobahn” o tempo todo no rádio do carro. Nos encontramos na Alemanha, quando ele procurava um lugar para trabalhar, e sugerimos que tentasse Berlim. Então fornecemos uma inspiração de certo tipo — uma espiritualidade eletrônica! Quanto aos artistas britânicos que você mencionou, fizemos várias turnês longas na Inglaterra, onde conhecemos alguns desses músicos em clubes. Para nós, foi maravilhoso ver esse tipo de interesse. Antes, sempre fomos considerados outsiders, e de repente estávamos por dentro.

Keyboard – Sua declaração na edição de março de 1982 da Keyboard, de que vocês fazem “música para alto-falantes”, é inquietantemente parecida com a observação de Joseph Goebbels de que os nazistas não teriam chegado ao poder sem o alto-falante. Existe um perigo inerente nesse seu fetichismo tecnológico?

Ralf Hütter – Bem, isso sempre existiu, desde a invenção da faca, que pode ser usada para fatiar pão ou matar seu vizinho. Não vejo a tecnologia moderna como algo tão diferente. Para nós, qualquer perigo tem mais a ver com a situação psicológica entre homem e máquina. Tentamos trabalhar do nosso lado, desenvolvendo uma atitude mais amigável com as máquinas, e, como resultado, elas sempre foram muito amigáveis conosco. Pelo menos nunca tomamos choque ou sofremos acidentes.

Keyboard – Vocês trarão dois novos membros para a turnê americana de setembro.

Ralf Hütter – Na verdade, já conhecemos eles — Fritz Hilpert e Fernando Abrantes — como engenheiros eletrônicos há alguns anos. Eles vão fazer percussão e controlar os equipamentos, e Florian e eu vamos programar nossos robôs e fazer a mixagem. Usaremos projeções de vídeo em uma grande tela, com imagens geradas por computador que correspondem às músicas, junto com filmagens de “Autobahn”, do “Trans Europe Express” e trechos de nossos vídeos.

Keyboard – Como funcionam os robôs no palco?

Ralf Hütter – Eles são controlados por teclado. Um engenheiro alemão, conhecido do Florian, os programou. Normalmente ele trabalha com computadores de escritório e coisas assim, mas o convencemos a usar suas habilidades numa outra área. Os robôs são programados, mas podemos reprogramá-los. Veremos o quão confiáveis são e até onde conseguimos que improvisem.

Keyboard – Por que decidiram construir esses robôs em primeiro lugar?

Ralf Hütter – Temos essa composição, “The Robots”, do álbum The Man-Machine: “Somos programados apenas para fazer / Qualquer coisa que você quiser”. Antigamente, usávamos manequins de vitrine, mas eles não se moviam, então o próximo passo lógico foi ter robôs. Eles são feitos de plástico, com braços de metal e nossos rostos remodelados. São idênticos, embora talvez desenvolvam um pouco mais de individualidade ao longo da turnê.

Keyboard – De Hardware a Robocop e O Exterminador do Futuro, a cultura pop parece obcecada por robôs. Por quê?

Ralf Hütter – Porque são máquinas muito próximas do ser humano, tanto na aparência quanto no comportamento. Todo o nosso trabalho trata dessa relação próxima entre homem e máquina. Por isso escrevemos a música “The Robots”. Não nos sentimos alienados, porque passamos muitos anos tentando estabelecer uma relação mais próxima com as máquinas, uma abordagem mais holística do que apenas vê-las como coisas externas, como armas de agressão ou algo assim — mas sim como extensões de nós mesmos. E, em troca, recebemos muito retorno delas, e isso nos fascina.

Keyboard – Vocês se interessam por realidade virtual e outros desenvolvimentos cibernéticos recentes?

Ralf Hütter – Sim, de certa forma. Seria maravilhoso incorporar realidade virtual às nossas apresentações. Quando formos à América, gostaríamos de conhecer algumas das pessoas da Califórnia que estão desenvolvendo essa tecnologia. Sabe, quando ouvi o termo “realidade virtual” pela primeira vez, pensei que, para mim, a música sempre foi como uma realidade virtual. Com algo como “Autobahn”, você pode realmente ver a paisagem enquanto ouve, porque nossa música tem uma qualidade muito visual. Então, quando li sobre realidade virtual e sobre pessoas entrando em mundos gerados por computador, pensei: “Fazemos isso com música há anos”.

Entrevista a Mark Dery

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Kark Bartos & Wolfgang Flür — Entrevista — Keyboards Magazine — 1998




Keyboards – O Kraftwerk foi o primeiro a produzir música eletrônica? Eles, por assim dizer, inventaram a música eletrônica, ou havia alguém antes?

Wolfgang Flür – Nós absolutamente não fomos os inventores da música eletrônica. Ela já existia nas décadas de 1920 e 1930 com a invenção do Theremin [ver entrevista com Lydia Kavina na KEYBOARDS 8/98] ou do Mixturtrautonium, criado por Friedrich Trautwein e Oskar Sala. A primeira vez que vi um Theremin sendo usado ao vivo foi em 1967, num raro show dos Beach Boys aqui na Stadthalle de Düsseldorf. Em uma das músicas, eles fizeram o Theremin soar seus “Good Vibrations” no palco. Oskar Sala também usava seu Trautonium para música e efeitos sonoros desde cedo. Por exemplo, ele criou os sons psicológicos dos pássaros no famoso filme do Hitchcock.

Na música popular havia, pelo menos, colegas como Tangerine Dream, Klaus Schulze ou Amon Düül, que também faziam música eletrônica. Muitos experimentavam com esse tipo de instrumento, que estava começando a se tornar acessível. Ainda assim, um Minimoog custava 8.000 marcos – uma pequena fortuna para a época. Com o Kraftwerk, fomos provavelmente os que desenvolveram a música pop eletrônica de forma mais consequente. A partir de Autobahn, já nos víamos mais como músicos pop – e era exatamente isso que queríamos e alcançamos. Graças à grande repercussão dos nossos lançamentos, o sintetizador foi se inserindo no cotidiano sonoro e, pouco a pouco, se tornou um gerador de som conhecido e popular. Como a guitarra, hoje ele é indispensável na música. Gostaria de saber como ele soará quando tiver uns mil anos de idade – como a guitarra!

Karl Bartos – A primeira gravação de música eletrônica na música pop da qual me lembro conscientemente foi “Telstar”, de Joe Meek [ver biografia de Joe Meek na resenha do Joemeek VC3 Prochannel, KEYBOARDS 1/98]. Também poderiam ser citadas “Good Vibrations” ou “Popcorn”. E [o experimentalista eletrônico francês] Pierre Henry gravou um disco com a banda inglesa Spooky Tooth em 1969: Ceremony – An Electronic Mass. Mas o mais decisivo, eu acho, é a harmonia tonal maior/menor, as melodias europeias em combinação com ritmos funky e uma abordagem quase jornalística nas letras – tudo isso, claro, temperado com um pouco de kitsch.

Keyboards – Vocês acham que o Kraftwerk, ao lado de Walter/Wendy Carlos (Switched-On Bach) e de “Popcorn”, influenciou a percepção dos ouvintes em relação à síntese sonora e ao uso de sintetizadores?

Wolfgang Flür – Com certeza, acredito firmemente nisso. Basta olhar o grande sucesso do Kraftwerk e a enxurrada de imitações ao longo do tempo.

Karl Bartos – Isso pode ser observado claramente nos beats programados. Com a função Error/Correct ou com o chamado quantize, houve uma mudança no modo como os ritmos são percebidos. Esses padrões rítmicos hoje são vistos como algo cool, e não como algo matemático ou rígido. Sempre esperamos que nossos colegas músicos negros nos EUA descobrissem esses beats. Com Planet Rock [de Afrika Bambaataa], começou uma espécie de industrialização.

Keyboards – Por que há uma faixa chamada “Franz Schubert” no álbum Trans-Europa Express (1977)? Qual é ou foi a relação entre o Kraftwerk e Franz Schubert? Alguns membros da banda tinham um interesse especial por ele?

Wolfgang Flür – Bom, o Florian estudou música por um tempo, e o Karl completou uma formação musical completa. No conservatório, você tem bastante contato com música clássica. Além disso, os primeiros românticos fazem parte da nossa cultura musical alemã, e, dependendo do ambiente familiar e do quanto se foi exposto à música clássica, isso tudo influencia na música que você mesmo cria. Eu sei que o Ralf, o Emil [Schult, artista gráfico do Kraftwerk e também diretor de arte do álbum Time-Pie do Flür/Yamo] e o Florian estiveram uma vez na casa onde Schubert nasceu, em Lichtental, perto de Viena. Provavelmente foi lá que tiveram a ideia para essa música do Kraftwerk. No começo, éramos totalmente românticos – você se esqueceu disso? Se duvida, ouça os primeiros álbuns novamente! Aliás, esse foi um dos motivos pelos quais entrei no Kraftwerk. Eu amava essas melodias românticas – são parte da minha personalidade. Hoje, com o Yamo, consigo explorar isso livremente de novo.

Karl Bartos – Franz Schubert é conhecido por suas melodias “infinitas”. Para o Ralf e o Florian, ele representava a Europa. E Schubert tem uma biografia realmente interessante e dramática – você precisa ler!

Keyboards – Wolfgang, por que seu sobrenome era constantemente escrito errado nas capas?

Wolfgang Flür – Também não sei, mas isso não é tão importante. Um “ü” no meu sobrenome e no do Ralf [Hütter] era sempre difícil de pronunciar para ingleses e americanos; por isso acabamos tirando os trema. Depois disso, as coisas passaram a funcionar melhor com nossos vizinhos.

Keyboards – O que vocês usaram no cabelo para as fotos de Mensch Maschine? Vocês também se lembram do pôster com a mulher nua sentada de costas sobre um cone de trânsito? Existe uma versão mostrando a frente? (Por favor, me enviem uma cópia!)

Wolfgang Flür – Esse pôster eu nem conheço. Sensacional, também quero uma cópia! Por favor, envie!

Karl Bartos – O segredo dos cabelos deve permanecer segredo. Infelizmente, esse pôster eu também não conheço.

Keyboards – O Kraftwerk fez, se não me engano, uma turnê no começo dos anos 80 com músicas de Computerwelt, visitando também alguns países do bloco oriental. Ou foi só na Polônia? Quem traduziu as letras de vocês para o polonês? Ritmicamente estava tudo certo, mas a gramática e a pronúncia foram um desastre. Vocês provavelmente não sabiam o quanto uma tentativa malfeita dessas poderia causar danos. No meu mundo no Leste, eu fui um dos primeiros a me dedicar com seriedade e paixão à música eletrônica, e por isso foi importante para mim construir um círculo de amigos com base nessa música. Consegui isso com Kraftwerk, Synergy, Klaus Schulze e Tangerine Dream. Mas alguns dos meus amigos, que eu havia convencido com dificuldade de que vocês eram uma boa banda, eu perdi depois dos shows. Eles disseram que vocês não levaram a sério a questão da tradução.

Wolfgang Flür – Sinto muito se isso não foi bem recebido. Talvez tenha sido apenas uma tentativa desajeitada de sermos melhor compreendidos por vocês. No entanto, sempre observei que muitos de nossos fãs nem davam tanta importância para entender as letras; para eles, provavelmente, eram apenas um complemento. Os sons e os ritmos sempre foram o mais importante no Kraftwerk. Mas sim, levamos a questão das traduções a sério. Fizemos letras também em espanhol, japonês e russo; queríamos simbolizar nosso sentimento global. Sempre fomos contra o isolamento nacional e a favor do pensamento e da ação internacional, pela compreensão mútua.

Karl Bartos – Não me lembro se a versão em polonês foi lançada em algum disco. Mas o Ralf se esforçou muito para cantar em vários idiomas. Eu acho que foi um gesto educado e respeitoso, já que ninguém exigiu isso dele. Claro que lamento, retrospectivamente, que você tenha perdido alguns de seus amigos por causa disso.

Keyboards – Wolfgang Flür, você disse que acabou se entediando no Kraftwerk. Isso quer dizer que não era possível inserir sua criatividade pessoal no grupo? Podemos até dizer que você e também Karl Bartos nunca foram membros plenos da banda, mesmo tendo contribuído tanto?

Wolfgang Flür – O Karl teve coautoria em algumas músicas importantes. Ele era um ótimo tecladista – provavelmente o melhor do Kraftwerk! – e eu mesmo era “apenas” o baterista, com pouca influência nas melodias e arranjos. E foi exatamente isso que passou a me fazer falta no final, a pouca influência sobre os temas. Mesmo assim, minhas ideias e meu coração estavam presentes em cada faixa. Membros plenos no Kraftwerk, além do Ralf e do Florian, nunca houve e provavelmente nunca haverá. O Kraftwerk é uma criação deles, e eles nunca foram capazes – e talvez nunca quiseram – integrar completamente mais ninguém.

Keyboards – Hoje, em vez de Karl Bartos e Wolfgang Flür, os membros do Kraftwerk são Fritz Hilpert e Henning Schmitz. O grupo ainda tem o mesmo carisma que tinha com vocês dois? Se não, onde vocês veem a diferença?

Karl Bartos – Não posso dizer se o Kraftwerk ainda tem o mesmo carisma com Hilpert e Schmitz, porque nunca vi um show deles.

Wolfgang Flür – Os primeiros anos do Kraftwerk foram tão bem-sucedidos porque nós – Ralf, Karl, Florian e eu – tínhamos uma relação de amizade e criatividade extraordinária. Tínhamos que construir quase tudo ou mandar fabricar, pois não havia equipamentos para realizar nossas ideias. Esses anos nos uniram profundamente, e foram os mais ricos e criativos que se pode imaginar. Nosso carisma vinha de quatro mentes e personalidades únicas, que só juntas conseguiam criar o tipo de música que fizemos enquanto ainda trabalhávamos com alegria. Hoje, não sei mais o que o Kraftwerk representa. Não fui a nenhum show e não li nenhuma entrevista ou vi ninguém na TV. Mas para uma nova geração que está descobrindo o Kraftwerk agora, com certeza ainda há muita fascinação. Eu não conheço o Fritz nem o Henning; eles foram escolhidos como substitutos para mim e o Karl. Mas substituto é apenas substituto e, como em qualquer lugar, não é o original.

Keyboards – Suponha que fosse possível colocar o estúdio Kling Klang, como está hoje, com robôs e músicos, numa máquina do tempo e transportá-lo 20 ou 30 anos para o passado: como o público teria reagido a um show do Kraftwerk dos anos 90 naquela época? Teria correspondido aos clichês de futuro da época, teria parecido absurdo, ou teria apenas chocado?

Wolfgang Flür – A última opção parece a mais provável. Eu vivi algo parecido quando tocamos nosso primeiro show nos EUA em 1974, no Beacon Theatre, na Broadway (Nova York). Tínhamos quase nada no palco: só quatro tubos de neon coloridos no chão, um Minimoog, uma Farfisa, a flauta transversal do Florian – que ele ainda tocava na época –, seu ARP e nossos e-drums feitos à mão. O teatro estava lotado. Tocamos os primeiros sons de sintetizador e o público ficou paralisado com aquela estranheza, mas ao mesmo tempo fascinado com os timbres encorpados e nunca antes ouvidos. Lembro até hoje de muitas bocas abertas e olhos arregalados na plateia. Tínhamos poucas músicas e tínhamos que afinar os sintetizadores constantemente, pois ainda eram instáveis. Só as pausas de afinação já valeriam como espetáculo. Era esse o poder de atração dos synths naqueles primeiros anos. Ter vivido isso... inacreditável!

Karl Bartos – Kraftwerk numa máquina do tempo? Acho que seria preciso consultar H.G. Wells. Seria como "Enterprise" em 1968. Mas acho que as pessoas estariam mais ouvindo "Sgt. Pepper".

Keyboards – Karl Bartos, você voltaria ao Kraftwerk se Michael Jackson viesse a Düsseldorf para regravar "Mensch Maschine"?

Karl Bartos – Não.

Keyboards – Qual é o nível de amizade de vocês com Emil Schult?

Karl Bartos – Não vejo ou falo com o Emil Schult há anos.

Wolfgang Flür – Eu sou amigo do Emil desde o começo dos anos 70, e isso nunca mudou. Ainda trabalhamos juntos quando estou fazendo um novo álbum – como agora – ou um vídeo. Às vezes passamos férias juntos com a família e os filhos dele, ou nos visitamos.

Keyboards – Sempre quis saber: do que vivem o Ralf e o Florian se não lançam nada novo?

Wolfgang Flür – Não tenho ideia. Você teria que perguntar ao Ralf ou ao Florian.

Karl Bartos – Acho que eles são muito ricos.

Keyboards – O Kraftwerk já usava sequenciadores que facilitavam o trabalho de vocês?

Wolfgang Flür – Claro, já falei sobre isso algumas vezes. Encomendamos nosso primeiro sequenciador em 1978 no Synthesizerstudio Bonn. Era um analógico de 16 canais, grande e pesado...

Karl Bartos – Os sequenciadores? Matten & Wiechers (Synthesizerstudio Bonn), MC 202 da Linn e o Yamaha C1.

Keyboards – Qual era a quantidade total, o comprimento total e a espessura média dos cabos usados na gravação de “Autobahn”?

Karl Bartos – Não posso dizer, porque não participei das gravações de "Autobahn". O engenheiro de som Conny Plank provavelmente levou essa informação para o túmulo, já que era no estúdio dele.

Wolfgang Flür – Naquela época, nosso estúdio ainda era relativamente “tranquilo”. O número total de cabos utilizáveis era 28, com um comprimento total de 69,74 metros, e a espessura média diária era de 0,7 mm por cabo em uso. Quando não estavam em uso, a espessura caía 5% em volume. O número total de cabos não utilizáveis era 253, com um comprimento total de 972 metros e uma espessura diária efetiva de 0,665% (a frio). Isso sem contar os cabos que não estavam disponíveis para a gravação de "Autobahn"...

Keyboards – Nos shows vocês usavam o mesmo equipamento do estúdio, tipo “um para um”?

Karl Bartos – Mais ou menos.

Wolfgang Flür – Sim, com certeza.

Keyboards – Como vocês avaliam hoje a música do Kraftwerk no que diz respeito à “audiophile”?

Wolfgang Flür – O que é isso? É algo sexual? Então prefiro não comentar. Sempre entendem tudo errado e a imprensa distorce. Desculpe, vou me abster por razões pessoais. Sua pergunta é muito íntima.

Karl Bartos – Acho que “audiophile” não tem nada a ver com a qualidade da música.

Keyboards – O que vocês acham do grupo Komputer, cujo som lembra bastante os Kraftwerk mais recentes, a ponto de parecer a própria banda? Vocês acham que plágios como “Bill Gates” são irritantes (questão de copyright!) ou engraçados?

Karl Bartos – Li sobre o grupo e ouvi um pouco. No texto de divulgação eles chamam essa música de “Retro-Futuro” [risos]. Acho que o Daniel Miller realizou um sonho. Vou assistir a um show deles e aí terei uma opinião.

Wolfgang Flür – Não conheço o grupo, mas não tenho nada contra imitações. É até uma honra. Também conheço um grupo na Inglaterra que ainda hoje toca como Kraftwerk, mas sem ideias de músicas tão especiais. Até o “Kraftwelt” da Califórnia, que até vende bem, não tem ideias realmente boas. São todos imitadores. Eu mesmo não ficaria satisfeito com esse tipo de trabalho. É preciso criar algo próprio para alcançar verdadeira satisfação.

Keyboards – Karl Bartos, por que você lançou seu novo álbum sob o nome Electric Music e não como um projeto paralelo, já que ele difere bastante do álbum anterior [Elektric Music, Esperanto, 1993] e nem parece exatamente música eletrônica?

Karl Bartos – Eu não mudo meu nome a cada produção. Não é música de produtor; ela me representa pessoalmente. Reivindico para mim o direito de mudar – e a necessidade de mudar. Electric Music é uma espécie de selo pessoal. No momento, inclusive, estou trabalhando com alguns músicos em um show ao vivo.

Keyboards – Qual software você usou para os vocais sintéticos, por exemplo, em “Overdrive” do Electric Music?

Karl Bartos – Toda mulher tem seu segredo. [risos]

Keyboards – Vocês usam hoje mais equipamentos caseiros ou mais equipamentos comerciais?

Karl Bartos – Eu uso tudo o que aparece.

Wolfgang Flür – Posso dizer por mim que no yamo usamos exclusivamente equipamentos industriais. Hoje existem muitos aparelhinhos pequenos, potentes e acessíveis, então não precisamos mais desenvolver nossos próprios.

Keyboards – Vocês usam, como o Kraftwerk em 1998, o Schaltwerk e o Maq 16 da Doepfer?

Wolfgang Flür – Não.

Karl Bartos – Não.

Keyboards – Karl, na entrevista você dá a impressão de que falta dinheiro para comprar sintetizadores atuais (Yamaha SY, Korg Trinity, Roland JX 8000, Kawai K 5000, E-mu etc.). Por que você não tenta atuar como endorser (garoto-propaganda de alto prestígio que recebe equipamento gratuito) de alguma dessas marcas?

Karl Bartos – Boa dica. Quem eu deveria procurar? Estou aberto a ofertas.

Keyboards – É verdade que Wolfgang Flür compôs a trilha sonora de Robocop II, ou é apenas um boato idiota como o do seu suposto suicídio?

Wolfgang Flür – Eu mesmo já tive esse bootleg em mãos, e só posso dizer que nunca faria uma porcaria daquelas. Sou complicado demais pra algo tão barato. Mais uma vez alguém usou meu nome pra ganhar dinheiro. E essa de que eu estaria morto, li recentemente na internet. É a mesma coisa: alguém querendo se promover usando meu nome e informações inventadas. Essas pessoas têm personalidades fracas, precisam disso. Eu dou risada e não levo a sério. Que estou muito vivo, vocês ouvem em Time-Pie do yamo, ou no próximo inverno, no novo álbum Serenity Supreme. Já posso prometer algumas surpresas.

Keyboards – Por que não existe um projeto conjunto Flür/Bartos? Ou talvez em breve?

Wolfgang Flür – Talvez sim?! Quem sabe? Quem disse que isso não pode acontecer? Outra “invenção”?

Karl Bartos – Wolfgang e eu estamos sempre em contato, trocamos ideias regularmente e nos encontramos com frequência. Vamos ver o que surge daí.

Keyboards – Vocês não teriam vontade de criar novamente um projeto como o Kraftwerk e usar os equipamentos de ponta atuais para criar sons e faixas inéditas?

Karl Bartos – Parece interessante. E está em andamento.

Wolfgang Flür – Eu já faço isso à minha maneira com o yamo. Ouça minhas especialidades do Reno [subtítulo de Time-Pie]. Você vai encontrar coisas estranhas e deliciosas.

Keyboards – Vocês se imaginam trabalhando com outra banda? Tipo Daft Punk + Flür ou Bartos, ou Daft Punk com os dois?

Karl Bartos – Claro! Já fiz bastante coisa nessa linha: LFO, Afrika Bambaataa, Information Society, OMD, Electronic, Superior, Mobile Homes. Vamos ver o que mais aparece.

Wolfgang Flür – Não, isso não me atrai mais. Já participei bastante de projetos alheios, agora sigo meu próprio caminho. Espero que você entenda.

Keyboards – Vocês ainda farão música aos 70 anos? (Tomara!)

Wolfgang Flür – Também espero! Música, como se sabe, mantém a gente jovem e alegre.

Karl Bartos – Com certeza, a música continuará – como portadora de ideias!

Keyboards – O que vocês acham de músicos como Tangerine Dream ou Klaus Schulze, que nos anos 70 fizeram outro tipo de música eletrônica igualmente importante, e no caso de Schulze, na minha opinião, ainda fazem?

Wolfgang Flür – Sempre gostei dos “Tangs”, mesmo sendo uma área completamente diferente. Já com o Schulze eu nunca me conectei muito.

Karl Bartos – Conheci Christopher Franke em Los Angeles, e gostaria de conhecer Klaus Schulze. Claro que sempre gostei desse tipo de música.

Keyboards – Vocês já tiveram a sensação, no Kraftwerk, de pertencer a uma cena maior da música eletrônica, ou se viam apenas como integrantes do Kraftwerk?

Wolfgang Flür – Veja, estávamos sempre tão imersos no nosso próprio processo de autodescoberta que não nos voltávamos muito para fora. Ou seja, deixamos um certo egoísmo saudável agir para definir nossos próprios objetivos. Sabíamos que havia uma cena “elitista”, mas isso nos tocava pouco. Mas claro que éramos todos verdadeiros “kraftwerkers” com tudo que se tem direito, o que mais você esperava?

Karl Bartos – Acho que essa tal “cena” sempre é uma invenção dos jornalistas. Mas trabalhar no Kraftwerk era um verdadeiro modo de vida: Electronic Lifestyle.

Keyboards – Karl Bartos, você falou na entrevista da Keyboards sobre uma “sobrecarga de estímulos” na música eletrônica. Mas não há muito mais bandas de guitarra do que músicos que fazem boa música eletrônica?

Karl Bartos – Espero que compreenda: passei 20 anos fazendo electro sound e, de repente, em Manchester, redescobri a música da minha infância. Esse som esteve comigo todos esses anos, e agora eu precisava colocá-lo para fora.

Keyboards – O que vocês acham da cena eletrônica em 1998?

Karl Bartos – Não posso dar uma opinião generalizada.

Wolfgang Flür – Conheço alguns artistas e bandas incríveis aqui por perto, como o Bionaut de Colônia, Donna Regina de Colônia, Mouse On Mars de Düsseldorf/Colônia, Kreidler de Düsseldorf, A Certain Frank e Der Pyrolator de Düsseldorf, Air Liquide de Colônia, e outros semelhantes que gosto muito de ouvir. Trabalhei pessoalmente com alguns deles, e fico feliz em ver como eles trabalham, por exemplo, com sintetizadores. É enriquecedor pra mim. Meu novo álbum se beneficiará dessa colaboração.