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sexta-feira, 30 de maio de 2025

Karl Bartos Entrevista — Classic Pop Magazine — 2025

 


Karl Bartos, 2021. Foto por Patrick Beerhorst

O músico Karl Bartos, com formação clássica, foi integrante do Kraftwerk em uma sequência impressionante de álbuns, de Radio-Activity a Electric Café. Tendo se mantido em silêncio sobre sua antiga banda, sua poderosa nova autobiografia oferece uma perspectiva totalmente nova sobre a vida dentro da máquina-humana. Ele concede sua primeira entrevista britânica sobre o Kraftwerk e além, exclusivamente para a Classic Pop.

Embora o Kraftwerk tenha sido justamente celebrado por suas aventuras pioneiras na música eletrônica, não se deve ignorar o quanto eles também tinham uma aparência fantástica. Fixa na mente de muitos como a formação clássica — Ralf Hütter, Karl Bartos, Florian Schneider e Wolfgang Flür — na capa de The Man-Machine de 1978, com camisas vermelhas e gravatas pretas, Bartos tem uma teoria brilhante de por que o Kraftwerk poderia se passar por robôs: todos tinham a mesma altura, exatamente 1,83 metro.

"Éramos todos iguais", observa Karl. "Ninguém era muito baixo, ninguém era gigante. Nunca aconteceu, mas todos nós poderíamos trocar de roupa entre nós. Onde quer que fôssemos, sentíamos uma reação muito forte e sabíamos que uma identidade específica estava sendo transmitida."

Na sua notável autobiografia The Sound Of The Machine, Karl descreve como sentiu que precisava ser músico desde o momento em que ouviu A Hard Day’s Night dos Beatles. Ele percebe uma conexão na imagem das duas bandas:

"Nunca foi ‘John Lennon e os Beatles’ ou ‘Paul McCartney e os Beatles’. Eram sempre os ‘Fab Four’, uma verdadeira banda. O Kraftwerk tinha essa igualdade também na nossa aparência. Éramos a banda perfeita, sem uma estrela que dominasse visualmente. As pessoas gostam dessa igualdade."

É uma teoria tipicamente bem formada de um músico que — como seus ex-colegas — raramente falou sobre a vida dentro do Kraftwerk. Karl é literalmente mais qualificado do que a maioria para teorizar sobre música pop.

Ele estudou percussão no Conservatório Estadual da Renânia desde 1970, combinou boa parte do seu tempo no Kraftwerk com aulas de música e, em 2004, fundou um programa de mestrado na Universidade das Artes de Berlim, na área de comunicação acústica. Dentro do brilhante robô do imaginário do Kraftwerk pulsa o coração de um homem que vive pela música.

Por muito tempo, Bartos relutou em falar sobre sua passagem pelo Kraftwerk: "Sempre me senti desconfortável falando sobre nosso tempo juntos" — por isso, suas opiniões sobre música são pouco conhecidas. E elas realmente merecem ser ouvidas.

A mística que se formou em torno do Kraftwerk nos anos 70 os congelou no tempo como aqueles robôs. Na realidade, por uma chamada de Zoom desde sua casa em Hamburgo, Karl não poderia parecer mais humano. Seu escritório é mais de professor do que de pioneiro eletrônico: uma parede cheia de arquivos, uma pequena planta e um planner cheio de post-its. Com cabelo grisalho impecavelmente penteado de lado e vestido com um fleece azul-marinho, Karl é desarmantemente simpático.

Os clichês sobre Kraftwerk e décadas de silêncio poderiam fazer alguém esperar frieza, mas, ao contrário, Karl é espirituoso, com um sorriso gentil sempre pronto. Seu inglês é praticamente perfeito — a única palavra com que ele luta é “ephemeral”, o que até falantes nativos às vezes fazem.

A CIÊNCIA DO SILÊNCIO

Bartos levou três anos escrevendo The Sound Of The Machine, inclusive supervisionando a tradução para o inglês coloquial. Não se deixe intimidar pelo tamanho do livro — 641 páginas. Ele flui rapidamente, é revelador sobre os bastidores do Kraftwerk e recheado de teorias sobre a relação entre música e natureza.

"De forma profunda, a música imita a vida", oferece Karl. "Ela nasce do silêncio, se desenrola no espaço e no tempo, depois desaparece e morre no silêncio. É isso que nós, seres humanos, fazemos também. Provavelmente amamos tanto a música porque ela reflete a nossa vida. A música me ajuda a entender o que as pessoas encontram na religião e no eterno."

Essa não é, necessariamente, a forma de pensar que alguém esperaria de quem ajudou a criar Spacelab. Mas é exatamente essa visão humana do Kraftwerk que fez Karl finalmente estar pronto para compartilhar sua perspectiva sobre a banda: explicar que toda a conversa sobre robôs e eletrônica precisa ser completamente revista, porque aquilo era música feita por humanos, não por máquinas.

Ele é particularmente apegado ao conceito de The Man-Machine, daí o título do seu livro:

"Gosto da ideia que Fritz Lang teve para ‘o homem-máquina’ em Metrópolis", diz Karl sobre o filme visionário de 1927. "O Kraftwerk assumiu essa ideia, de que o robô se tornava a voz da personagem principal, Maria. ‘Homem-máquina’ é uma boa expressão, porque ‘homem’ vem primeiro, não ‘máquina’."

O que Bartos mais lembra com carinho são as interações humanas dentro do Kraftwerk, especialmente trabalhando no lendário estúdio Kling Klang em Düsseldorf.

Perguntado sobre sua lembrança favorita da banda, Karl responde sem hesitar:

"As sessões de composição. Tocávamos como crianças ou músicos de jazz livre. Música é uma conversa. E criávamos conversas musicais: um instrumento falava com o outro, e um terceiro comentava aquela conversa."

Antes de começar uma música, eles conversavam sobre música, sociedade, o mercado fonográfico, ou sobre como David Bowie era tão natural ao falar com a imprensa — algo que eles admiravam. E essas conversas eram então continuadas nos instrumentos.

Depois, saíam para jantar, voltavam ao estúdio e partiam para o que chamavam de “sound drive”, testando as demos no carro.

Computer Love nasceu exatamente desse espírito colaborativo.

"Eu tinha um piano na sala onde dava aulas. Isso me permitia improvisar. Criei uma melodia, escrevi e levei para o Kling Klang. Toquei no sintetizador do Florian e, imediatamente, Ralf encontrou os acordes certos para Computer Love. Criei uma segunda melodia, Ralf respondeu com o refrão. E pronto. A música ficou pronta em cinco minutos. Ainda tenho essa demo original."

Esse tipo de interação humana era comum no pop, mas parecia estar a anos-luz da aura robótica do Kraftwerk. Por isso, The Sound Of The Machine precisava ser escrito.

"Tínhamos igualdade no início. As conversas eram o centro da nossa música. Era um ato coletivo de criação. E foi um bom esforço, porque parecia não exigir esforço algum."

Contudo, desde que Wolfgang Flür saiu em 1987 e Karl três anos depois, Bartos sente que Ralf Hütter reescreveu a história da banda, sem produzir nenhuma música nova — exceto pelo confuso Tour De France Soundtracks de 2003 — que pudesse sustentar sua versão da história.

"Estamos ouvindo a mesma narrativa sobre o Kraftwerk há mais de 40 anos" — diz Karl. "Quis mostrar outro ponto de vista. O tema central do Kraftwerk era a digitalização da tecnologia — mas a música que expressava isso era feita da forma mais humana possível, com Ralf, Florian e eu trabalhando juntos. Ao fim dos meus 16 anos na banda, esse processo criativo havia mudado — de um conceito humano para um conceito não-humano."

SONHOS ANALÓGICOS

Karl tinha 22 anos quando entrou no Kraftwerk. Como seus futuros colegas, já havia trabalhado com o produtor Conny Plank. Ele conheceu Ralf e Florian pouco antes do lançamento de Autobahn, em 1974. Lembra que Ralf — assim como Florian, seis anos mais velho — foi buscá-lo no conservatório em um Volkswagen cinza.

"Ralf e Florian eram jovens e artisticamente engajados. Não sabiam nada sobre música clássica. Assim como eu, cresceram na era do pop, quando a música era o centro da cultura jovem."

Bartos acredita que sua formação clássica era uma curiosidade para eles:

"Era uma cultura contra a qual o Kraftwerk se posicionava", observa. "O engraçado é que hoje eles são exatamente assim: repetem A Flauta Mágica infinitamente."

O fato dos sintetizadores do Kraftwerk serem analógicos era essencial. No livro, Karl escreve que "olhar uns para os outros, e não para telas de computador", era vital para a comunicação musical.

"Fazíamos música na era analógica, não na sua substituição digital. Nossos instrumentos analógicos eram como caixas de música. Havia uma sensação romântica, como nos escritores do Romantismo, Edgar Allan Poe e E.T.A. Hoffmann. Existe algo místico numa caixa de música, como se a máquina tivesse uma alma. O compositor Ravel disse, ao ver uma bailarina girando numa caixa de música: ‘Posso quase ouvir seu coração bater.’ É por isso que a música do Kraftwerk ainda está viva — há algo além do som que as pessoas ainda sentem."

O FIM DO ENCANTO

Karl acredita que Computer World, de 1981, e sua respectiva turnê foram o ápice final do Kraftwerk.

"A turnê foi fantástica", sorri. "O sentimento entre nós, como grupo, era maravilhoso. Essa ideia de ‘turnê 3D’ que o Kraftwerk faz hoje, nós já estávamos fazendo naquela época. Éramos nós, tocando música, olhando uns para os outros. Eu podia dar um tapinha no ombro do Ralf, um abraço no Florian. Nos divertíamos, tocávamos Pocket Calculator e depois íamos a uma boate depois do show. Infelizmente, tudo isso mudou."

Quando o Kraftwerk atingiu o primeiro lugar nas paradas britânicas em 1982 com The Model/Computer Love, foi um momento agridoce.

"Aquilo foi meu momento ‘Day Tripper/We Can Work It Out’", observa Bartos. "Chegar ao topo foi obviamente uma sensação boa, mas mais como uma pergunta do que uma resposta. Eu já tinha algumas ideias da turnê, como o riff de Sex Object e a melodia de The Telephone Call. Tínhamos 20 ou 30 ideias assim. Mas, quando chegamos ao número um, já tínhamos parado de tocar, sentir e responder uns aos outros."

Na visão de Karl, houve várias razões para o Kraftwerk ter parado de se comunicar no estúdio. Musicalmente, o mundo começou a alcançá-los à medida que sintetizadores se tornavam comuns.

"Era muito importante para Ralf e Florian que eles fossem a elite", acredita Bartos. "Havia sempre uma aura de elitismo em torno do dinheiro no Kraftwerk: escolas particulares, férias em St. Tropez e St. Moritz, compras em Nova York. No começo, isso tudo era engraçado, mas virou uma ameaça. Quando a indústria musical alcançou os sons eletrônicos, meus ex-parceiros ficaram perturbados com a ideia de que não eram mais a elite do pensamento artístico."

Ao invés de buscar novas maneiras de avançar, o Kraftwerk ficou preso às modas tecnológicas. Um trecho tristemente engraçado do livro descreve o horror de Karl ao ver um Synclavier gigantesco instalado no Kling Klang.

"O computador organiza a arte demais", afirma Karl. "No Techno Pop, usamos computadores e aquilo virou música feita por copy-and-paste. E copy-and-paste nunca vai substituir a composição que nasce no cérebro, o poético. Você nunca alcança o nível do poético apenas copiando e colando."

Quanto mais Ralf e Florian olhavam para suas telas de computador, mais Karl e Wolfgang se preocupavam.

O álbum Techno Pop — depois renomeado como Electric Café — é um exemplo clássico de um disco excessivamente pensado. Durante seus cinco anos de produção, o Kraftwerk tentou trabalhar, pela primeira vez, com produtores externos como François Kevorkian e Michael Johnson (ligado ao New Order).

"Eles são engenheiros fantásticos, mas não são compositores", dá de ombros Karl. "Em Techno Pop, olhamos demais para o nosso tempo e suas modas, suas inovações técnicas, em vez de focar em criar nossos próprios elementos musicais. O mundo além do tempo é um guia muito melhor para o ato de criar."

Quando Electric Café finalmente saiu em 1986, fracassou. O Kraftwerk, de repente, estava atrasado no tempo, não mais à frente.

Para compensar, a gravadora sugeriu lançar uma coletânea e fazer uma turnê.

"Era isso que deveríamos ter feito", admite Karl. "Se tivéssemos feito uma turnê e lançado um Best Of, poderíamos ter nos reconectado pessoalmente de novo."

Ao invés disso, passaram mais cinco anos retrabalhando músicas antigas para The Mix. Desesperado, Karl saiu.

"Devíamos ter voltado às coisas que nos uniram. Foi de lá que veio nossa melhor música. Eu precisava ir. Por dez anos, pedi: ‘Vamos ser músicos, vamos tocar juntos.’ E não funcionou."

MÚSICA AO VIVO SEM PARAR

Claro, os shows atuais do Kraftwerk continuam recebendo aclamação da crítica. Mas não há música nova para acompanhá-los.

"Ralf se tornou completamente um homem de negócios nos anos 80", franze a testa Karl. "Ele sempre teve uma mentalidade empresarial. Isso fazia o Kraftwerk ser mais organizado que outras bandas. Mas Ralf passou a ser o único a dar entrevistas, e a ideia de que Ralf era o Kraftwerk entrou na mente do público. Mas se Ralf é o Kraftwerk… onde está a nova música do Kraftwerk? Você não pode simplesmente substituir pessoas como eu, Florian e Wolfgang por engenheiros."

"O homem-máquina virou uma máquina de computador. O Kraftwerk virou uma esteira de produção, fabricando produtos a partir de ideias antigas."

Karl e sua esposa Bettina foram a um show do Kraftwerk em Hamburgo:

"Fomos embora. Isso realmente partiu meu coração."

Para Bartos, a falta de música nova é enlouquecedora:

"É a mesma ideia multiplicada repetidamente. É completamente a ideia errada, mas Ralf se safa com isso."

Além das diferenças musicais, questões financeiras também contribuíram para sua saída. Ele quase saiu após Trans-Europe Express, até que Ralf e Florian concordaram em torná-lo sócio pleno dos negócios do Kraftwerk.

Mas, quando deixou de dar aulas para se dedicar exclusivamente à banda em 1981, percebeu que os créditos opacos nas capas dos discos permitiam uma divisão desigual dos lucros.

Houve, eventualmente, um acordo extrajudicial sobre seus royalties, embora ele comente:

"Esse acordo parece ser um canteiro de obras eterno."

Aparentando mais tristeza do que raiva, Karl reflete:

"Nosso processo criativo era uma alegria e um esforço coletivo. Mas o reconhecimento e o lucro foram privatizados. Isso não funciona no longo prazo. E eu não nasci para ser um ‘yes man’."

Pouco depois de Florian deixar o Kraftwerk em 2008, ele e Karl se encontraram por acaso em Düsseldorf. Foi o último encontro deles antes da morte de Florian, em 2020.

"Florian não gostava de replicar a música do Kraftwerk nos shows", revela Bartos. "Ele queria parar de fazer turnês durante a produção de The Mix, então Ralf e eu conversamos sobre Florian trabalhar apenas no estúdio. A herança que ele recebeu do pai foi sua liberdade para deixar o Kraftwerk."

"Aquele encontro com Florian me deixou muito triste, porque só falamos do acordo que ele e Ralf fizeram para sua saída. Não falamos sobre música, só sobre o Kraftwerk como empresa e sobre Florian como acionista. Fiquei muito infeliz depois disso."

Um encontro casual com Ralf foi igualmente desanimador:

"Ralf já não era mais a pessoa com quem eu conseguia compor. Ele se tornou um completo estranho, física e mentalmente. Isso me deixou muito, muito triste."

NOVA VIDA, NOVAS PARCERIAS

Depois de sair do Kraftwerk, Karl encontrou uma relação muito mais harmoniosa com o Electronic — projeto de Bernard Sumner e Johnny Marr — tocando no segundo álbum deles, Raise The Pressure, de 1996.

"Conhecer Bernard e Johnny me ajudou a sobreviver depois de sair do Kraftwerk", sorri Karl. "Eles me lembraram de como era trabalhar no Kraftwerk no começo. Meu cunhado é do norte da Inglaterra também, e compartilhamos o mesmo humor e a mesma maneira de pensar. Ver Bernard criando letras a partir da linguagem cotidiana foi inspirador. Adoro quando eles me ligam, porque sempre falamos de música. Bernard e Johnny vivem na música, não no mercado financeiro."

A amizade foi tão inspiradora que Karl quase se mudou para Manchester, mas Bettina, sua esposa, precisava trabalhar em alemão como jornalista, então permaneceram na Alemanha.

Johnny também reacendeu em Karl o desejo de tocar guitarra em sua própria música:

"Quando vi sua enorme coleção de guitarras e o assisti tocá-las, fiquei viciado de novo", ri Bartos. "Comprei um violão Martin D-28 e toco todos os dias, além de piano."

"Para mim, a música é como respirar. É um reflexo. Claro, há coisas que me tiram da música, como ir ao médico ou declarar impostos, mas ainda assim consigo me perder no som. Disciplina e vontade também são necessárias. Afinal, a música precisa ser produzida."

Ele também trabalhou com o OMD (Orchestral Manoeuvres in the Dark). Quando Paul Humphreys estava fora da banda, Andy McCluskey contatou Bartos para colaborar numa versão de Neon Lights, do Kraftwerk.

Ele e Andy escreveram duas músicas para o álbum Universal (1996) e outras duas para o primeiro álbum solo de Karl pós-Kraftwerk, Esperanto, lançado sob o nome Electric Music, em 1993.

"Fico muito feliz que o OMD esteja indo bem", diz Bartos. *"Eles são uma instituição, e eu trabalharia com eles novamente. Conhecê-los, assim como ao Electronic, depois do fim do Kraftwerk, me fez pensar: ‘Wunderbar! Não estou sozinho.’"

O LEGADO DE UM PIONEIRO HUMANO

Inicialmente relutante em lançar músicas em seu próprio nome, Karl lançou um segundo álbum como Electric Music em 1998. O disco é brilhante — uma fusão de guitarra e eletrônico que captura o entusiasmo devolvido a ele por suas colaborações britânicas.

Ele abre com The Young Urban Professional, uma música escrita originalmente durante a gravação de Techno Pop em Nova York, inspirada no fenômeno dos yuppies. É praticamente o Kraftwerk flertando com o rap.

"Não é fácil pra mim lembrar tantas palavras como nessa música", admite Karl. "Sempre tento pensar numa história e criar uma metáfora. Tudo se resume à redução, chegar ao ponto. Para mim, rap é um poema recitado em padrões rítmicos regulares, conhecidos como grupos de pulso."

Com a confiança para trabalhar em seu próprio nome, vieram os álbuns Communication e Off The Record. Communication mantém a paixão do projeto Electric Music, um álbum provocante, levemente sinistro, repleto de ideias e riffs insistentes.

Off The Record foi montado a partir de peças não lançadas que Karl compôs ao longo das décadas:

"Sempre trabalho com músicas ‘antigas’. Se você não tem um parceiro de composição, essa é a única maneira de avaliar ideias objetivamente."

Atualmente, Karl trabalha em uma peça clássica, prevista para lançamento em 2023, que ele descreve como: "Música para orquestra sinfônica sintética, em um ambiente eletroacústico."

Ele também está determinado a "tocar mais Bach no piano novamente, embora eu não seja um bom pianista. Mas é música imortal."

Se as relações na antiga banda se deterioraram, Karl reconhece que, no seu auge, o Kraftwerk também fez música imortal.

"O que me frustra é que não seguimos tentando tocar juntos. Por isso foi tão difícil para mim falar sobre o Kraftwerk por tanto tempo. O Kraftwerk ainda parece, para mim, um acorde não resolvido, uma trilha dourada perdida."

Desde que ouviu A Hard Day’s Night, Karl sempre buscou fazer música que soasse como os Beatles — criando conversas e contrapontos que ressoam por gerações de amantes da música eletrônica.

"Espero que minha música fale com as pessoas", reflete. "Não penso muito sobre isso. São meus pensamentos traduzidos em música. No Kraftwerk, alguns de nós só pensavam na recepção da música e em como podíamos ser mais bem-sucedidos. Acabamos limpando demais nossa arte e viramos homens de negócios digitais e curadores."

Karl completou 70 anos em maio de 2022.

"Penso muito no que vem depois", diz Bartos. "A vida é curta, e espero morrer com dignidade."

Se existir um além, Karl Bartos certamente estará lá, compondo música celestial e imortal — exatamente como tem feito há tantas décadas.

Ele talvez não pense tanto sobre isso, mas gerações de fãs de música continuarão agradecendo a esse pioneiro da música — um homem profundamente humano.

Fonte: Classic POP 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Kraftwerk — Entrevista com os integrantes — Future Music Magazine N° 6 — 1997


Future MusicQual foi o desenvolvimento tecnológico mais significativo da sua carreira?

Ralf Hütter – Acho que foi a chegada dos primeiros sintetizadores monofônicos, porque antes disso só existiam aquelas grandes máquinas dos Laboratórios Bell ou de estações de rádio estatais. Ter acesso, como músico individual e independente, a esse tipo de equipamento eletrônico foi uma revolução. Lembro que o primeiro sintetizador monofônico que comprei custava o mesmo que um Fusca, e essa era a escolha a ser feita. Acho que é uma comparação excelente, porque os sintetizadores deram liberdade de movimento aos músicos.

Future Music – Essas máquinas oferecem mais liberdade do que as de hoje por não terem presets?

Ralf Hütter – Sim. Você recebia apenas um manual datilografado de três páginas dizendo: “isso é o oscilador, isso é o filtro” – e só. Então você ia pra casa e começava a experimentar, girar botões. Não havia sons pré-programados, porque era tudo analógico. Eu não uso muito os sons pré-programados de hoje em dia; se usamos, sempre trabalhamos em cima deles. Raramente mantemos algo que veio do ouvido de outra pessoa. Sempre giramos os botões – essa tem sido nossa prioridade constante. Também costumávamos projetar nossos próprios sintetizadores e, naquela época, tínhamos que construir sequenciadores porque eram raros. Só os grandes sistemas Moog os tinham. Pegávamos caixas de ritmos e as redesenhávamos com nossos engenheiros e eletricistas para torná-las tocáveis, ajustando-as aos sequenciadores e depois sincronizando tudo com fita.

Future Music – Como o Kraftwerk consegue transferir sua música para o formato ao vivo?

Ralf Hütter – Não é pré-gravado, está tudo em armazenamento digital. Não usamos fitas, tudo roda a partir de computadores. Podemos alterar o quanto quisermos: cortar faixas, mutar, dobrar... Temos acesso completo. Podemos deixar qualquer faixa mais longa, de acordo com o show. Certas partes são escritas, mas algumas composições começam em um ponto e ficam totalmente abertas, com a programação entrando em um loop. Podemos fazer o que quisermos. Todas as composições (com exceção de The Robots) são escritas como sequências básicas.

Future Music – Você se surpreende com o quanto influenciaram a música dance americana?

Ralf Hütter – Sim, mas sempre tivemos uma resposta muito favorável do público negro nos EUA, mesmo antes do house e do techno. Lembro que alguém nos levou a um clube por volta de 1976 ou 1977, quando Trans-Europe Express havia saído. Era um loft em Nova York, depois do horário, justamente quando a cultura dos DJs estava nascendo e eles começaram a fazer seus próprios discos e grooves. Um DJ estava tocando trechos de Metal on Metal do Trans-Europe Express, e pensei: “Ah, estão tocando o novo álbum.” Mas aquilo durou uns 10 minutos! E pensei: “O que está acontecendo?!” A faixa original tinha só uns dois ou três minutos! Depois perguntei ao DJ e ele me disse que tinha duas cópias do disco e estava mixando as duas – e claro, podia continuar enquanto as pessoas dançassem. Isso foi um verdadeiro avanço, porque naquela época você tinha que fixar um tempo máximo por lado do disco, menos de 20 minutos, para que coubesse no vinil. Era uma decisão tecnológica que definia a duração da música. Sempre tocamos com durações diferentes ao vivo, mas ali estávamos, num clube alternativo, com a gravação rolando por 10, 20 minutos – e a vibração estava lá.

Future Music – E como os outros ex-integrantes veem a influência duradoura do Kraftwerk?

Karl Bartos – Não sei. Eu faço música, seja ela boa ou não tão boa. Faço o meu melhor e deixo o público decidir. Se Andy, Johnny ou Bernard dizem isso sobre nós [neste caso, OMD e Electronic elogiando o Kraftwerk – Ed.], é muito lisonjeiro. Tenho orgulho do que fizemos, mas sempre que posso gosto de improvisar, me comunicar. Quero encontrar pessoas, não ficar num estúdio atemporal ou numa torre de marfim – já fiz isso por 15 anos!

Wolfgang Flür – Talvez seja verdade que fomos algum tipo de ponto de referência na música eletrônica...

Future Music – E quanto ao estúdio Kling Klang? Como ele mudou?

Ralf Hütter – Nós o chamamos de jardim eletrônico, porque ele está sempre se regenerando e agora é completamente modular, de forma que podemos trocar e substituir módulos conforme quisermos. Mantivemos todos os nossos sintetizadores antigos guardados e, embora tenham perdido valor quando foram superados, hoje temos todos esses equipamentos analógicos de volta! É realmente muito bom. Mudar para o digital de forma alguma substituiu o analógico, especialmente porque, muitas vezes, a tecnologia digital é usada apenas para amostrar fontes analógicas – seja remasterizando sons antigos das fitas originais ou de outras fontes sonoras. Sempre consideramos qualquer fonte de som – é apenas som. Kling Klang significa “som” em alemão, então sempre tivemos essa fascinação por som. 

PS: As entrevistas foram feitas separadamente =)

domingo, 17 de setembro de 2023

Kraftwerk — Ralf Hütter Entrevista — Musik Express Agosto 2017

 

Após finalmente concluirmos o relançamento da nossa edição de julho (Maj Mlakar até teve que fazer uma apresentação oral para a equipe de produção, porque não entregou a tempo, como foi relatado), não tivemos muito tempo para a nossa festa de formatura. Jördis Hagemeier e Peter Kaaden se destacaram como verdadeiros organizadores! Eles conseguiram um local legal em Kreuzberg, conseguiram doações de bebidas de fabricantes legais e conseguiram, em curto prazo, o DJ Lars Eidinger, que era super famoso, para nos animar. E foi isso que aconteceu! Às 19 horas nos encontramos (Peter e Jördis já tinham bebido bastante enquanto arrumavam tudo), e logo muitos convidados de toda Berlim chegaram.

No início, todos estavam impressionados com nossa nova edição, mas depois Albert Koch, que estava cuidando da música no começo, aumentou o volume, e quando o DJ Lars Eidinger começou a tocar hits incríveis dos anos 80 e 90 com adesivos brilhantes no rosto, a festa realmente começou! Na verdade, o frigorífico e o bar foram esvaziados a uma velocidade recorde.

Mas então a polícia chegou e desligou o DJ Lars. Parece que alguém da vizinhança não tão legal fez uma reclamação. Então, nós simplesmente nos mudamos para outro lugar, como é comum em Berlim: Albert foi para Antuérpia para conversar com Ralf Hütter. Jördis ajudou Perfume Genius a se trocar. Oliver Götz fez um estágio em advocacia com Andreas Dorau.

Outras pessoas legais como os Schnipos, The Jols e The Sailer infelizmente ficaram em casa: escrevendo colunas e séries punk. Da próxima vez, eles definitivamente precisam vir também! (Relato da turma ME 8/17)

Como o editor-chefe da revista de música  Musik Express Albert Koch, queria entrevistar o chefe do Kraftwerk, Ralf Hütter, em 1997 e finalmente conseguiu fazê-lo 20 anos depois."

A capa do KRAFTWERK 2 é minimalista: um cone de tráfego verde com a palavra 'Kraftwerk' em letras maiúsculas e o número 2 escritos em uma espécie de fonte estilo ferro de marcar gado. Um minimalismo contrastante com a era do glam rock exuberante que estava em voga na época.

Hoje, eu poderia responder à pergunta sobre o que aquilo era. Eu diria que, fundamentalmente, existem duas intenções ao fazer música, ambas com resultados legítimos: uma, a mais comum, é ganhar muito dinheiro e/ou conquistar muitas mulheres; a outra é criar arte. Eu diria ao meu colega de classe hoje que a arte precisa ser radical para que pessoas como ele perguntem o que aquilo é.

Porque a radicalidade na arte abre portas para desenvolvimentos que uma geração posterior já considerará "normais". E que a música que tenta agradar a todos frequentemente precisa fazer muitos compromissos para agradar a todos. Eu o aconselharia a não escolher um lado, o que é supostamente normal ou o que é supostamente louco, mas sim a buscar o melhor de todos os mundos. No entanto, para isso, ele precisa estar disposto a explorar esses mundos desconhecidos.

Desde aquele tempo no quarto de juventude, o Kraftwerk se tornou um ponto de referência no meu mundo musical. Lembro-me bem do meu primeiro concerto do Kraftwerk em 1981, perto de Nuremberg. O concerto aconteceu sem mim. Meu amigo, o mesmo que tinha o DOPPELALBUM, e eu dirigimos os 120 quilômetros, na época em que as autoestradas ainda não eram tão comuns, em seu Fusca laranja até um local em uma pequena cidade perto de Nuremberg. Quando chegamos lá, o local estava fechado.

Não havia indicação de cancelamento ou adiamento do concerto. A internet, crianças queridas, ainda não tinha sido inventada. Meu primeiro concerto do Kraftwerk, aquele em que estive presente, ocorreu no outono de 1991 no Circus Krone, em Munique, durante a turnê THE MIX. Fiquei irritado."

Em 1986, critiquei duramente o álbum "ELECTRIC CAFÉ" (hoje conhecido como "TECHNO POP") na revista Musikexpress, porque eu acreditava que o Kraftwerk estava fazendo música como nunca antes com os álbuns "COMPUTERWELT" e "ELECTRIC CAFÉ". Uma década depois, eu mesmo me tornei editor na Musikexpress.

Em 1997, os rumores de que um "novo álbum do Kraftwerk" estava prestes a ser lançado começaram a se intensificar. Além disso, após vários anos sem se apresentarem ao vivo, o Kraftwerk anunciou um show no "Tribal Gathering" em Luton, perto de Londres, durante o início do verão. Este evento era um gigantesco rave que contava com a participação de artistas como Daft Punk, Orbital, DJ Shadow e John Peel. Eu fui designado para escrever uma grande matéria sobre o Kraftwerk e pedi uma entrevista com Ralf Hütter à gravadora. Desde o lançamento de "THE MIX", o Kraftwerk mal concedia entrevistas. No entanto, meu pedido de entrevista foi recusado com a explicação de que o Kraftwerk não dava entrevistas.

Eu não desisti e escrevi uma carta (!) com meu pedido, que enviei para o estúdio Kling-Klang em Düsseldorf. A carta foi devolvida alguns dias depois com a anotação "Recusado". O "Tribal Gathering" foi o local onde estive mais próximo de Ralf Hütter até então. O fotógrafo da casa do Kraftwerk, Peter Boettcher, que estava fazendo check-in no mesmo hotel que eu, estava na recepção ao meu lado. O telefone dele tocou, e Boettcher explicou a alguém chamado "Ralf" que ele acabara de chegar.

A partir desse momento, aproveitei todas as oportunidades para solicitar uma entrevista com o Kraftwerk. Em 2002, quando o álbum "AUTOBAHN" do Kraftwerk ficou em primeiro lugar na espetacular lista da Musikexpress das "100 melhores gravações alemãs", recusei. Agradeceram, disseram que se sentiam honrados, mas não concediam entrevistas. Um ano depois, o álbum "TOUR DE FRANCE" foi lançado. Entrevista? Recusada. Em 2009, o catálogo remasterizado foi lançado. Entrevista? Recusada. Após 16 anos, fiz o pedido de entrevista de rotina novamente.

Eles deveriam ser reeditados, conforme a pergunta favorita número 2 de todos os interessados no Kraftwerk. A pergunta favorita número 3 de todos os interessados no Kraftwerk foi respondida exaustivamente por Hütter: o que eles realmente fazem lá em cima atrás de seus painéis? Se aquilo é realmente ao vivo. Eu encontrei Hütter novamente dois dias após o nosso primeiro 'diálogo casual'.

O Kraftwerk foi o responsável por despertar meu interesse pelo Minimal Techno e pela música eletrônica avançada nos anos 90. Naquela época, a música de dança se tornou subitamente 'inteligente', e o Kraftwerk foi celebrado como os pioneiros do Techno (por favor, pesquise Afrika Bambaataa, Cybotron, Juan Atkins), com tanta frequência que algumas pessoas já não suportam mais ouvir isso.

Percebi que a narrativa repetitiva sobre a influência do Kraftwerk no Techno não era absurda, mas sim que os sons do Kraftwerk podem ser encontrados nas estruturas e padrões sonoros de milhares de produções ao longo de mais de 30 anos de história da música eletrônica, como samples e citações. E quando acontece novamente, como recentemente no álbum 'DISTRACTIONS' da artista britânica Ikonika, eu me assusto por um momento e penso: 'Ah, sim, Kraftwerk.'

No outono de 2014, como jornalista alemão, fui convidado a explorar a pergunta 'Como o Kraftwerk é percebido como alemão? Como o Kraftwerk é percebido como alemão?". Cheguei à conclusão de que o "ser alemão" e sua ironização, a reflexão sobre o impasse cultural causado pelos doze anos de regime nazista e a subsequente adoção acrítica de formas artísticas anglo-americanas pelas primeiras gerações do pós-guerra foram fatores determinantes nos primeiros dias do Kraftwerk.

No entanto, o Kraftwerk evoluiu rapidamente nos anos 70, passando de uma banda alemã para uma banda europeia e finalmente internacional. Profeticamente, em seu álbum de 1977 "TRANS EUROPA EXPRESS," eles sonharam com a ideia de uma Europa unida, que na época ainda estava muito distante da realidade e hoje parece estar se desintegrando devido ao crescimento do populismo de direita.

Em maio de 2017, em Antuérpia, o Kraftwerk realizou oito concertos em 3D em quatro dias, no "Koningin Elisabethzaal", dedicando cada um deles a um álbum, desde "AUTOBAHN" até "TOUR DE FRANCE". Os concertos ocorreram alguns dias antes do lançamento da caixa "3-D DER KATALOG". Assisti aos concertos de "THE MAN MACHINE" e "COMPUTER WORLD". Após o segundo concerto, por volta da meia-noite, fui levado para trás do palco, onde Ralf Hütter, com seus 70 anos, estava esperando em uma sala espartana. Eu tinha meu gravador comigo. A aventura começou.

Eu sei que você não gosta de ser entrevistado, sobre o que você gostaria de falar?

"Não sobre música." (risos) "Mas sim, sobre música. Acho sempre bom quando alguém que sabe escrever bem, ou seja, mais e melhor do que eu, se expressa sobre o Kraftwerk. Em vez de eu ter que me expressar novamente sobre um concerto ou um álbum. Acho que a forma de arte que fazemos os concertos, as performances com os elementos visuais que desenvolvemos nós mesmos, já combinam palavras, sons, imagens e filmes.

Existem outros artistas que fazem música especificamente e depois colaboram com um fotógrafo, um designer gráfico ou outro artista que acrescenta uma outra forma de arte à música. Na verdade, trabalhamos com esses elementos multimídia desde o início. Criamos todas as capas de nossos álbuns, você sabe disso.

Tiramos nossas próprias Polaroids e fizemos a capa em meia hora. Mais tarde, trabalhamos nas pinturas com nosso amigo artista Emil Schult, esboçando e desenvolvendo juntos. Florian (Schneider, co-fundador do Kraftwerk - nota do editor) é um desenhista muito talentoso, ele fez quadrinhos, e eu mesmo experimentei muito com fotos e filmes, trabalhando com um cinegrafista. 'Multimídia' é uma palavra grande, mas nós nos expandimos nesses campos."

Nota: A resposta de Ralf Hütter parece ser uma forma de dizer que ele prefere que outras pessoas escrevam sobre o Kraftwerk em vez de falar sobre o próprio trabalho da banda. Ele enfatiza a importância da combinação de elementos visuais e musicais como parte integral de sua arte. Nos primeiros anos, comecei a escrever mais textos, em colaboração com Emil e Florian, mas também sozinho. Tudo isso se desenvolveu ao longo do tempo.

A identidade do Kraftwerk como uma obra de arte audiovisual completa, a música, o trabalho de arte, o conceito de músicos que trabalham 24 horas por dia, tudo isso se desenvolveu a partir de 'TRANS EUROPA EXPRESS', na verdade, a partir de 'RADIO-AKTIVITÄT'. Foi uma visão clara desde o início ou evoluiu gradualmente?

Certamente tínhamos o desejo de expressar nossa imaginação por esses meios. Então, tivemos a sorte de poder comprar um sintetizador - embora monofônico - e gravadores de fita desde o início dos anos 70, além de gravadores de fita cassete simples. Isso mudou completamente a forma de trabalhar do compositor. 100 anos antes, teríamos que contratar uma grande orquestra. Sempre nos interessou a autonomia.

Podíamos fazer tudo por nós mesmos, fechávamos as portas do estúdio Kling-Klang e trabalhávamos com nossos próprios meios. Mais tarde, quando economizamos um pouco de dinheiro, pude encomendar meu primeiro sequenciador no estúdio de sintetizadores em Bonn. Assim, o desenvolvimento técnico ocorreu: 'TRANS EUROPA EXPRESS' foi música automatizada. Acompanhamos esse desenvolvimento tecnológico em paralelo com o lado artístico

"A partir do início dos anos 80, começamos a usar a nova tecnologia digital e, no meio dos anos 80, junto com Fritz Hilpert, transferimos todos os sons analógicos em um trabalho de vários anos. Nosso interesse especial era a mobilidade.

A partir de 1991, não precisávamos mais criar música apenas no estúdio com equipamentos enormes, mas podíamos levar o nosso estúdio Kling-Klang para o mundo e realizar concertos... Música eletrônica ao vivo. É como um sonho que se tornou realidade, é possível dizer isso.

Nos anos 70, os músicos eletrônicos precisavam ter o máximo de equipamentos no palco. Desde o início, trouxemos o nosso estúdio Kling-Klang para o palco, refletindo o estado atual da tecnologia. Não tínhamos os recursos para levar armários inteiros cheios de equipamentos para o palco.

 Eu tinha um sintetizador monofônico e o Florian tinha um pequeno EMS Synthi AKS. E desde 1991, o estúdio Kling-Klang está digitalizado no palco. Isso foi fantástico, pois podíamos trabalhar na sala durante o soundcheck à tarde e criar todos os sons. É uma loucura, é como pintura, como Action Painting.

Isso sempre me interessou, sempre achei chato apenas reproduzir a música e não poder mais interferir. Nosso repertório é como um roteiro para um filme de ação, podemos mudá-lo, brincar com ele e, na 'Autobahn', podemos dirigir em diferentes velocidades ou representar diferentes veículos. E hoje, com as possibilidades visuais de nossos computadores, podemos criar filmes sintéticos. Essa evolução está apenas começando,

Como surgiu a ideia das projeções 3D?

Ela também surgiu através de improvisações nos computadores. Alguém nos disse que agora existe um software 3D, e decidimos experimentar. Então, em 2009, fizemos isso em nosso concerto em Wolfsburg, como um bis em três músicas. Antes, as pessoas diziam: 'Como vocês vão fazer isso com os óculos 3D? Isso não é organizável! Será um caos...' Mas conseguimos, você só precisa fazer.

A partir dos anos 1990, quando o Techno e o House também se tornaram populares no mainstream, o Kraftwerk foi celebrado como os grandes visionários e influenciadores da música eletrônica atual. Isso teve algum impacto em seu trabalho?

Sempre chamamos isso de fluxo de energia que retorna para nós. No final dos anos 60, quando começamos, diziam: 'Os botões giratórios não são capazes de tocar um instrumento.' Mas isso nunca nos incomodou. Sabíamos exatamente o que estávamos fazendo. É claro que foi fantástico receber feedback de colegas músicos de diferentes culturas, de Detroit, Chicago ou mesmo da Inglaterra. Isso nos fortaleceu completamente.

Você mencionou isso agora: o Kraftwerk não foi sempre venerado como santos. Nos anos 70, a música eletrônica era demonizada pelos defensores da música 'feita à mão'. Isso ainda causa animosidade em ambos os campos hoje. Como você percebeu isso naquela época?

Você também pode girar os botões manualmente. Devido à nossa afinidade espiritual com David Bowie e Iggy Pop em certos momentos, percebemos muito cedo que tudo estava interligado. O que se sabe pouco sobre você como pessoa privada, mas um aspecto do Kraftwerk raramente é mencionado: o humor presente na música, em alguns sons, nas letras que brincam com a língua alemã.  Sim, isso é humor negro. Devoção séria e humor são parentes próximos. Também é muito libertador. Quando você trabalha como nós com regras muito rígidas, há coisas que não pode fazer. No entanto, o humor abre portas para a seriedade, para a mudança e para a liberdade. 

Mark E. Smith, do The Fall, uma vez disse: 'Mesmo que seja só eu e a sua avó tocando bongôs, ainda é The Fall.' Kraftwerk é Ralf Hütter e mais...?

No final dos anos 60, praticamente criei o Kraftwerk com meu parceiro Florian Schneider. Ele se aposentou em 2007 para se dedicar a outros interesses, e eu continuo fazendo. Kraftwerk é a minha vida artística.

Qual é o seu álbum favorito do Kraftwerk?

Você não deve perguntar a uma mãe qual é o seu filho favorito. Para mim, essa pergunta não pode ser respondida. Às vezes, você não ama tanto um filho porque ele foi desobediente. Isso talvez signifique que ele fez algo ruim. Todas as obras são parte da minha vida, não posso avaliá-las dessa maneira. Felizmente, não sou um crítico de música e não preciso avaliá-las. Para mim, nosso trabalho é um continuo.

Na verdade, as obras e os discos não estão concluídos, eles são documentos do período em que foram criados. São mais como conceitos, como costumava ser nos tempos antigos, quando um compositor escrevia uma partitura para que pudesse ser interpretada de várias maneiras.

É assim que vejo. Os discos são partituras ou roteiros, roteiros para nossa performance. Continuamos trabalhando neles constantemente. Trabalhamos neles durante a tarde e entre os shows. Ontem, tivemos duas horas de folga e fizemos algumas correções. Nossa música está sempre sendo atualizada. É fantástico que com essa tecnologia de computação móvel, tudo seja possível. Isso é um presente do mundo da tecnologia para nós, e retribuímos com sons, palavras e imagens.

Antigamente, um sintetizador custava uma fortuna, e hoje ele está disponível por muito menos dinheiro, o que permite que mais pessoas experimentem com música eletrônica. É um desenvolvimento maravilhoso."

Software gratuito incluído no MacBook. Mais ou menos. Meu primeiro Mini-Moog realmente custou tanto quanto meu Volkswagen Fusca cinza na época. 5.500 marcos alemães. Eu ainda tenho a fatura. No entanto, o sintetizador era muito mais valioso para mim do que o carro. Com o carro, eu podia circular pela região, mas com o sintetizador, eu podia explorar o mundo inteiro.

Mas a combinação de sintetizador e carro resultou no álbum AUTOBAHN.

Claro! O zumbido dos motores, a afinação e os fluxos de ar cantantes também ouvimos assim.

Você ouve música eletrônica atualmente?

Eu ouço o silêncio e o mundo. Quando vou a clubes e danço ou ouço os sons e o barulho na rua. Não me concentro em um gênero musical, ouço a música local em nossas viagens. Ouço mais sons do que música pré-produzida. E, claro, o silêncio. Eu também tento me isolar para que possamos produzir novamente.

Quando estamos em grandes cidades com um enorme barulho de fundo, há barulhos vindo de todos os lados, as pessoas estão andando, com fones de ouvido nos ouvidos e olhando para seus smartphones, e todos estão ignorando uns aos outros. Quando entramos na sala onde fazemos o teste de som à tarde, esse é um dos momentos mais bonitos: a porta se abre, e há um silêncio absoluto. Então, enchemos a sala com nosso som. O silêncio é como uma tela em branco ao pintar.

Quando você está trabalhando na sua música, a música de outras pessoas distrai você?

Não, na verdade, consigo me concentrar e me desligar bem. Isso pode ser aprendido, mas é um processo muito longo. Na minha percepção, o Kraftwerk não é principalmente uma banda alemã, mas sim europeia, o que talvez também explique o sucesso inicial no exterior na Europa.

Dada a situação política atual com o Brexit e o avanço da direita em muitos países europeus, o álbum TRANS EUROPA EXPRESS parece ser uma invocação do pensamento europeu. Como você vê isso?

'Encontro nos Champs-Élysées. Partindo de Paris pela manhã com o T.E.E. (...) Em Viena, estamos no café noturno, direto, T.E.E.


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Karl Bartos — Entrevista — Uncut Magazine — Outubro — 2022

 


Para um músico sinônimo da interface entre música e tecnologia, o estúdio caseiro de Karl Bartos em Hamburgo é surpreendentemente espartano. "Eu tenho um piano, uma guitarra Martin D-28 e um computador", ele revela. "O núcleo dos meus equipamentos antigos, como o MiniMoog e o sintetizador Arp, ainda está presente, mas eles parecem estar aposentados agora. Geralmente, saio e gravo algo nas ruas."

Em vez de criar seus próprios sons, Bartos está atualmente preocupado em prestar uma atenção mais profunda àqueles que já existem ao nosso redor. "A ambiência é realmente ótima. Aprendi muito com John Cage sobre isso - ele disse que a grande sinfonia é quando você vai a um cruzamento e ouve o ritmo dos carros. Por aqui, você ouve navios o tempo todo. Mas basicamente qualquer coisa cria uma sinfonia. Realmente há uma grande variedade de ruídos neste mundo."

Bartos sempre foi um músico versátil. Em suas memórias "The Sound Of The Machine", recentemente traduzidas para o inglês, ele descreve como se deslocava entre o estúdio Kling Klang do Kraftwerk e o fosso da orquestra da Deutsche Oper am Rhein, enquanto também tocava bateria em uma banda de rock'n'roll e vibrafone em um quarteto de jazz. A variedade de influências que impulsionou obras-primas minimalistas como "The Man-Machine" e "Computer World" era mais ampla do que se imagina. "Eu sempre ouço a música como um todo", diz Bartos, acomodando-se para responder às suas perguntas. "É todo o som de ser humano."

Você pode descrever seus sentimentos na primeira vez que entrou no estúdio Kling Klang e tocou os tambores eletrônicos? John Densmore, Sunderland

A atmosfera era como o que você pode ler sobre a Factory de Andy Warhol. Era essa grande variedade de coisas inúteis e coisas úteis. Em um canto da sala, eu vi uma lâmpada de néon, e assim tive essa sensação de um lugar de arte, não realmente um estúdio musical. Na primeira vez que fui lá, tocamos em um volume baixo. Eu tinha essas agulhas de tricô na minha mão e o som delas batendo na almofada de metal era muito alto na sala.

Você não pode realmente usar sua técnica se tiver uma agulha de tricô! Então, eu me adaptei, e estava tudo bem. Mas na próxima vez, tocamos no volume máximo, e isso faz diferença porque de repente os sons eram muito mais altos do que um conjunto de bateria normal.

A articulação era muito baixa, tinha apenas um estrondo! Mas ao longo dos anos, desenvolvemos um estilo de modular isso através de máquinas, efeitos técnicos e assim por diante. Foi um desafio interessante e abriu meus ouvidos para coisas que eu já conhecia. Sly & The Family Stone, eles estavam usando uma máquina de bateria [Drum Machine, uma bateria eletrônica], mas eu não percebi tanto porque estava enraizado na música. O que aconteceu com o Kraftwerk foi a estetização da tecnologia. Como a Torre Eiffel - não tem fachada, é apenas este esqueleto puro.

Eu gostaria de saber algo sobre o álbum Die Mensch-Maschine: quais riffs você escreveu para aquele álbum? Adriano Bonelli, Itália

Basicamente, escrevi em todas as músicas, então não é apenas um riff ou um ritmo. Por exemplo, meu primeiro direito autoral foi "Metropolis". Eu não sei de onde veio, mas fui cativado por esse riff latino-americano - você conhece esses pianistas cubanos, um riff muito sincopado. Eu o torci e levei para o estúdio, e foi isso!

Você ajudou a moldar a música eletrônica e a cultura pop como um todo. No entanto, qual é a única coisa que você sente que não é apreciada no Kraftwerk? Ollie Storey

Do meu ponto de vista pessoal, não inventamos tanto, porque tudo já estava lá antes. Havia som eletrônico com Pierre Schaeffer na França, que inventou a música concreta, tratando sons cotidianos como se fossem música. E se você ouvir atentamente "Yellow Submarine", o que você descobrirá é que ele tem essa atmosfera de música concreta. Todo mundo está batendo estacas de metal ou fazendo outros barulhos, então é realmente um filme acústico.

Esta é a ideia que o Kraftwerk adotou, mas a principal diferença entre nós e todos esses predecessores é que fizemos as pessoas cientes da natureza da tecnologia e tentamos não esconder a tecnologia atrás de um painel de madeira. Isso talvez seja o que passou despercebido o tempo todo no Kraftwerk.

O que você pensou quando ouviu pela primeira vez "Planet Rock" de Afrika Bambaataa? Laurence Gibbs, Walthamstow, Londres

Eu estava com Ralf [Hütter] na pista de dança em Colônia. Havia tantos discos bons naquele momento, todos esses sons pop eletrônicos. Mas "Planet Rock" era uma celebração da pista de dança em um estilo diferente do disco. Eu achava que o disco era apenas música de marcha - os tambores marchantes! Eles pegaram o meu ritmo, o ritmo de "Numbers", aparentemente com uma máquina 808 [Roland TR 808 uma bateria eletrônica]. Mas na verdade, eu toquei à mão com outra música em mente.

Você conhece o Cliff Richard, o cantor engraçado com a ótima voz? Ele gravou uma música [originalmente de Bobby Freeman] chamada "Do You Wanna Dance?" O baterista, Brian Bennett, tocou uma introdução - quatro ou oito compassos - e quando eu era muito jovem, pensei, 'Uau!' A batida da bateria era tão legal e essa música ficou na minha mente. E por algum motivo, naquela noite no estúdio Kling Klang, meu subconsciente trouxe a sensação dessa batida de bateria e toquei de alguma forma a sensação interna - não a batida da bateria em si, mas meu subconsciente fez uma transformação. Isso se perdeu na era do computador porque é tão simples fazer uma fotografia acústica do evento ou amostrá-lo diretamente. Mas às vezes é melhor subir a montanha em vez de usar um teleférico.

 Na edição alemã de sua autobiografia, você observou que ainda tinha as fitas das sessões de estúdio do Kling Klang. Existe a possibilidade de que elas possam ser lançadas no futuro? James Testa

O senhor terá que esperar até eu morrer! Eu não posso lançá-las - enfrentaria alguns problemas se o fizesse. Talvez eu encontre um museu para fazer uma retrospectiva [do Kraftwerk] real. Eu não ouço as fitas com muita frequência, mas quando escrevi o livro, estava ouvindo.

E isso me trouxe de volta à ideia que tenho do estúdio Kling Klang como uma sala onde o tempo estava girando em torno de si mesmo na máquina de fita. Agora, se você abrir um computador, nada está girando, não há ar para respirar dentro do espaço virtual do computador e nada acontece. Isso mata a comunicação. Quando introduzimos um computador no estúdio pela primeira vez, não tocamos mais. Não nos olhamos nos olhos e não conseguíamos tocar.

Qual teria sido a sua direção preferida para o Kraftwerk seguir durante os anos 90, se você ainda fizesse parte da banda? Beau Waddell

Tocar ao vivo! Não tocamos ao vivo depois de 1981 até 1990. Foi ridículo. Além disso, fizemos apenas um disco - e depois de lançarmos "Electric Cafe", cometemos um erro terrível, remixar nossos próprios discos. Na segunda metade dos anos 80, estávamos ouvindo muito o que estava acontecendo no mundo e em outros discos. Fomos para a pista de dança e tocamos nossas músicas lá, e as comparamos com outras faixas como competição. E de artistas autônomos, nos transformamos em designers de som.

Eu li em algum lugar que Ralf era o policial mal e Florian [Schneider] era o policial bom - é assim que você os lembra? Peter Fors, Estocolmo

Na verdade, eles eram muito parecidos. Ambos vieram de uma origem muito rica - eles tinham bolsos profundos! Se você vem de uma origem elitista, o que você está procurando, o que lhe foi dito, é que você tem que ter sucesso. Enquanto éramos bem-sucedidos, estava tudo bem. E então, no meio dos anos 80, fizemos "Electric Cafe", e não foi tão bem-sucedido.

Foi realmente um fracasso. E ao mesmo tempo, todo mundo estava usando baterias eletrônicas, teclados eletrônicos, sintetizadores. Meus amigos da elite, Ralf e Florian, ficaram sobrecarregados com isso. E então eles pararam de trabalhar. Ficamos presos no estúdio por quase 10 anos, e isso foi demais para mim no final.

Depois do Kraftwerk, você trabalhou com Johnny Marr e Bernard Sumner em um álbum do Electronic. Como você se adaptou ao mundo mais hedonista deles? Dave Fanshawe, Keighley

Hedonista? Eu não sei, eles são músicos incrivelmente bons. Eles vieram me visitar em meu estúdio quando eu ainda morava em Düsseldorf e foi instantâneo, eu gostei muito deles. Eles eram muito engraçados e muito sérios ao mesmo tempo - como a música! Passamos bastante tempo juntos. Fomos para a Haçienda, e eu fui para Berlim com Bernard para a Love Parade. Então, tivemos bons momentos juntos. Nossa noite com Neil Tennant em Soho? Foi muito privada! Ele nos levou para alguns lugares muito bons e estávamos percorrendo Soho à noite. Mas quero continuar sendo amigo, sabe?

O Kraftwerk foi uma grande influência no techno, que se tornou uma cena enorme na Alemanha. Você já visitou algumas das famosas casas de techno alemãs, como Tresor ou Berghain, e se sim, o que achou? Claud Smith

Eu devo dizer que nunca fui tão fã de techno. Acho bom quando você está em uma boate e se você quer dançar a noite toda, e está com vontade de festa. Mas é apenas uma pequena parte da música, e há tantas partes.

Que tipo de música você gosta de ouvir atualmente? Alguma faixa recente em repetição? Clarisse Quilino

Tenho que confessar que desde a Páscoa, estou preso na Paixão Segundo São Mateus. Eu sou um grande fã de Bach e sempre vou ouvir Stravinsky ou John Cage. Mas além da música clássica, vou ouvir apenas pessoas que conheço pessoalmente. Então, ouvi "Fever Dream" de Johnny Marr, porque o conheço. Vou ouvir o próximo disco do New Order, com certeza. Mas muitas pessoas estão me enviando discos o tempo todo! Tenho que tomar minha decisão, não posso ouvir todo mundo.