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sábado, 1 de março de 2025

Kraftwerk celebra 50 anos de Autobahn com edição especial em Dolby Atmos


O Kraftwerk anunciou uma edição especial de seu álbum Autobahn para comemorar os 50 anos de seu lançamento.

A edição especial divulgada contém uma nova mixagem de áudio digital em Dolby Atmos 5.1, remasterizada a partir das fitas analógicas originais em 16 canais, gravadas em 1974. A nova edição estará disponível nos formatos Blu-Ray (Stereo Mix – Dolby Atmos 5.1 + Vídeo + Livro), streaming e no tradicional vinil. No caso do LP, será o primeiro disco lançado no formato picture disc, acompanhado de um single de 7 polegadas.

Essa não é a primeira vez que o Kraftwerk experimenta um sistema de som mais imersivo. Quando Autobahn foi lançado em 1974, o álbum recebeu uma edição no sistema quadrifônico, um formato de áudio que teve curta duração devido à baixa adesão do público consumidor médio da época. Isso levou à descontinuação do sistema no final da mesma década, sendo posteriormente substituído por outros formatos.


Autobahn foi um trabalho importante na trajetória do grupo alemão, pois marcou seu primeiro sucesso internacional, permitindo que o quarteto se apresentasse além do circuito europeu. O álbum teve uma edição reduzida nos Estados Unidos e no Reino Unido no momento de seu lançamento. Essas versões mais curtas (single) ajudaram a popularizar a banda, fazendo com que Autobahn figurasse entre as 100 músicas mais tocadas nas rádios da Europa e da América do Norte.

O Kraftwerk já utilizou sistemas de som imersivos 5.1 em seu DVD Minimum-Maximum (2005) e em Katalog 3D (2017), trabalhos que receberam o prêmio Grammy de Melhor Álbum de Música Eletrônica e foram reconhecidos por sua contribuição e inovação musical.

Autobahn Dolby Atmos foi mixado por Ralf Hütter em parceria com o engenheiro de som e antigo colaborador Fritz Hilpert, sendo este, aparentemente, o último trabalho de Fritz com o Kraftwerk em quase 40 anos.

Boas audições!

DjMusicMag




quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Kraftwerk Remixes — Mojo Magazine (UK), Maio № 342 —2022

 

Review originalmente publicado pela revista Mojo em Maio de 2022, publicação da qual o Kraftwerk sempre esteve presente praticamente desde que a revista surgiu em meados da década de 1990.

Abaixo uma tradução e adaptação do que foi escrito.

Kraftwerk Remixes PARLOPHONE. CD/DL/LP

Coletânea de dois CDs e três LPs antes das apresentações ao vivo deste ano.

É difícil imaginar que eles já fizeram belas melodias na flauta e na flauta doce. Desde meados dos anos 70, o Kraftwerk tem sido decididamente todo eletrônico, com um ouvido atento ao que estava acontecendo no mundo dos clubes, ouvindo nervosamente novos sons e batidas, pronto com uma atualização ou patch para seu som quando necessário.

Com tratamentos de Hot Chip, Étienne de Crécy, William Orbit, François Kevork- ian e Orbital, bem como internamente na Kling Klang, o foco aqui está no Produkt mais recente (há um total de 11 remixes de apenas duas faixas, Expo 2000 de 1999 e Aéro Dynamik de 2003).

O melhor é o arrepiante Radio-Activity, o gracioso La Forme e Non Stop, uma releitura de 2020 de um clipe musical feito para a MTV naquela época (ele próprio baseado em seu single de 1986, Musique Non Stop) e possuidor de uma daquelas melodias solitárias que só o Kraftwerk consegue fazer.

David Buckley




sexta-feira, 29 de abril de 2022

Kraftwerk — Remixes

O Kraftwerk liberou em 2022 a coletânea chamada “Remixes” na qual o grupo fez uma compilação das versões para pista de dança de suas principais  músicas.  A coletânea abrange o período de 1991 até 2022.

Há o adicional de Non-Stop, versão de Music-NonStop (1986) que foi usada como trilha sonora de algumas vinhetas para a emissora de TV MTV, no início da década de 1990.

Remixes é um singelo presente para todos os fãs mais antigos do conjunto e, um belo agrado aos inúmeros DJs que desde a década de 1970, sempre executaram as músicas do conjunto alemão nas pistas de dança que existem mundo afora.

Apesar de não ser um trabalho com várias faixas inéditas, Remixes mantêm o interesse em relação aos novos trabalhos que o quarteto europeu pode apresentar em seu futuro. E como os integrantes são atípicos no modelo que adotaram na forma de como se comunicam o seu público, Remixes é uma grande surpresa se tratando de algum produto do kraftwerk. Remixes está disponível em LP triplo, CD duplo e no formato de Streaming. Além de uma edição colorida (LP) exclusiva através do próprio site do kraftwerk.

Mais informações em Kraftwerk.com












                                           
                                     








terça-feira, 1 de maio de 2018

Kraftwerk — The Man-Machine — 40 anos


Após o lançamento de Trans Europe Express (que não teve uma tour de fato em 1977), o kraftwerk se encontrava com boa aceitação de seus trabalhos em relação à crítica especializada e principalmente a o seu público. O grupo já começava a esboçar o que seria o seu disco mais marcante com ligação entre som e imagem. Nesse período o músicos estavam em seu ápice criativo, dando a entender que gravaram um bom material musical, que foi repartido  nos discos posteriores, adaptando as músicas conforme aos álbuns eram lançados.

The Man-Machine foi o trabalho certeiro em seu conceito, melodias, timbres e visual. Além expor a postura que o grupo adotaria nas décadas seguintes. Prevalecendo a reclusão e o hábito meio lacônico em suas entrevistas.

Em relatos sobre a produção do LP, Ralf sempre foi muito evasivo em explicar o processo de composição, dando sempre respostas dúbias. Mas a ideia por de trás do disco, deve ter surgido devido ao debate que já se tornava comum na esfera artística na década de 1970, do qual abordavam o futuro da humanidade e, de como seria essa convivência entre o homem e a máquina no cotidiano.

Apesar de não possuir uma imagem futurística verossímil, The Man-Machine se apresenta como uma fantasia sentimentalista de um mundo imaginativo. Interpretação muito similar com obras literárias de ficção-científica, que começaram a ter prestigio nesse período. Isso se deve ao advento da TV e do cinema; mídias que ajudaram a popularizar obras desse cunho que evocam um mundo utópico e irreal.

A preocupação do grupo com à qualidade do que produziam, nesse disco foi mantida e por vezes mais acentuada do que nos trabalhos anteriores, afora o tratamento ao conceito do álbum. Mas o cuidado e a evidente dedicação dos integrantes em chegar a um denominador comum, que agradasse não só a eles, mas principalmente ao seu tão crescente e fiel público, foi atingida ao longo de um ano de produção contínua.

Durante esse tempo, o kraftwerk atualizou o seu estúdio acrescentando novos instrumentos e equipamentos de áudio, e para ajudarem nessa empreitada, contrataram o engenheiro de som americano chamado Leonard Jackson, (junto com Joschko Rudas) que deixaram as músicas dos alemães com mais impacto. E durante os intervalos de gravação, tanto o técnico convidado quanto os integrantes, se divertiam no pátio do estúdio com a neve em um rigoroso inverno europeu.

No disco, ouvimos o quarteto em seu momento mais iventivo tanto na parte técnica, quanto lírica, conseguindo chegar a um equilíbrio auditivo satisfatório.   O ritmo mecânico se mantém presente e ininterrupto. E a ideologia de suas músicas, condiz com as bases compostas.

O bom humor característico do grupo é evidente logo em sua primeira faixa, que relata de forma irônica o conceito criado pelo grupo, The Robots se tornou a imagem oficial do quarteto. O vocoder em conjunto com vários efeitos de som, aqui ajudaram a tornar, a simulação desse ambiente “mecânico”, supostamente cantada por um robô, agradável e divertida. Com The Robots , o Kraftwerk finalmente encontra a sua identidade.

A tecnologia sempre foi um tema recorrente nas composições do quarteto, e quando esses recursos se tornavam acessíveis, e passavam a fazer parte da rotina, aqui não poderia soar de uma forma diferente.

Spacelab é uma interpretação minimalista sobre avanços que a ciência estava tomando durante a década de 1970, já que as viagens para o espaço era um dos assuntos mais debatidos nesse período. Esse progresso teve uma influência em vários meios dentro e fora da esfera científica, que até hoje possui um interesse nos cidadãos. Mas em outra observação, seria um olhar romantizado dessas viagens, ou simplesmente uma homenagem aos responsáveis por tornarem isso possível. Em outra análise pessoal, parece o desejo íntimo do grupo em fazer parte de uma.

A faixa possui um clima cinematográfico, e contém uma das melodias mais elegantes compostas pelo conjunto, que ressalta uma suposta excursão pelo espaço. Spacelab é uma bela celebração aos rumos que a humanidade pode tomar no futuro.

Metropolis segue o mesmo esquema rítmico da faixa anterior, porém é dedicada ao cineasta austríaco Fritz Lang (1890-1977), responsável pelo filme homônimo, que em seu lançamento em 1927, foi um grande sucesso nos cinemas dentro e fora da Alemanha, muito por ser o primeiro filme Sci-fi da sétima arte, além do expressionismo alemão adotado em seu visual (conceito estético que Ralf aprecia), e por abordar uma vivência social ainda evidente.

Aqui os synths são arpejados em um tom mais encorpado, com uma percussão bem marcada — e mecânica —, favorecendo o clima inquieto de uma grande capital. Berlim nessa época fervia, Metropolis retrata esse clima. Ouvimos o coração da cidade através da música.

Fugindo do tema máquina, The Model relata o mundo da moda que crescia em paralelo ao que acontecia durante os anos de 1970. Uns afirmam a música como uma crítica a esse círculo social, outros identificam um desaprovamento desse estilo de vida, mas a faixa soa como uma veneração às modelos de todo o mundo. É a canção mais pop que já escreveram, e tendo o seu sucesso conquistado somente no ano de 1981. O contrabaixo é acentuado e a sua melodia simples, dão clima dançante na faixa.

Neon Light é dedicada à cidade de Paris, considerada como uma das cidades mais charmosas e elegantes do mundo. A faixa é singela e tem um ritmo contemplativo, com uma clima mais leve e relaxante. De todo o disco, é a faixa com a maior duração, um belo convite a um passeio pela cidade das luzes.

The Man-Machine conclui o álbum de uma forma completa, era o conceito que o grupo tanto buscava sendo retratado em sons mecânicos simulados pelos sintetizadores. Diferente de sua abertura amigável com “The Robots” — muito marcada pelo bom humor e seus efeitos de som —, o encerramento tem as melodias repetitivas, que concedem um aspecto de hipnose auditiva.  

O ritmo mecânico é presente e exposto de forma íntegra, sendo intercalado por frases que remetem a o homem e a máquina. Uma correlação entre o individuo e o objeto, os dois convivendo em harmonia e não uma anulação. A música dá a impressão de algo sendo ativado conforme a canção progride.

Outro ponto em que merece o destaque é o emprego realizado na criação do visual do LP, do qual se inspiraram no construtivismo russo (movimento estético - 1919) em especial as obras do artista também russo, El Lissitzky (1890 - 1941) refeitas pelo artista gráfico alemão Karl Klefisch, que  se equipara ao que se ouve no disco, é a combinação entre som e imagem, junto em um trabalho único que exprime a ideia dos músicos sobre o nexo contemporâneo que a cada dia se torna mais evidente.

As seis faixas procuraram retratar as inquietações que mediavam os debates no meio artístico em relação aos eminentes avanços que ocorriam em diferentes partes da sociedade, tanto dentro, mas principalmente, fora da Alemanha que ainda se encontrava dividida e receosa. O kraftwerk aqui , conseguiram atravessar essa barreira e expor as suas observações.    

Para o lançamento do disco, o integrantes encomendaram quatro manequins (réplicas) que usaram nas divulgações em TV e em algumas festas promovidas pela gravadora, e essa ideia ‘bizarra’ acabou fazendo sucesso e se tornou, enfim, a identidade do quarteto.

Na época fizeram dois vídeos para divulgação na TV. Neonlights foi filmado durante uma sessão de fotos promocionais e The Robots, que foi registrado por eles mesmos no estúdio Kling Klang, que durante a gravação, geraram inúmeros risos.

Em 1978, o grupo recebeu elogios tanto da crítica, quanto do público, as músicas fizeram muito sucesso nas pistas de dança, era o auge da Disco Music. A faixa Metropolis era a favorita dos Djs da época, muito devido ao seu ritmo que permitia uma mesclagem com outras faixas e principalmente pelo aspecto ‘viajante’ da música.

Foi cogitada uma apresentação para outubro do mesmo ano (1978), porém cancelada, chegaram até produzir os ingressos, mas nenhum vendido. O real motivo dessa anulação, nunca foi revelado, mas supõem que os integrantes, não chegaram a um padrão satisfatório para uma apresentação ao vivo de suas músicas, por causa da relativa dificuldade em executá-las de forma correta. Os integrantes resolveram deixar tudo para o próximo álbum que já estava sendo desenvolvido paralelamente.

O ambiente imaginativo criado pelo grupo perpetua até aos dias de hoje, o conceito do disco jamais perdeu o seu vigor. Apesar das constantes mudanças que ocorrem no dia a dia em relação com à tecnologia. Mas o futuro vintage 'pensado' pelo kraftwerk, deu certo charme na música eletrônica que ebulia nesse momento.

Em tempo, parabéns! 


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Kraftwerk — The Mix — A Farra dos Sons.



The Mix - Katalog 
O início da década de 1990 na Europa foi marcado por mudanças significativas, tanto no âmbito sociopolítico, quanto cultural em todo o continente. A Alemanha teve a queda do Muro de Berlim (1961 – 1989) concluída, fato que permitiu a unificação de um país que por muito tempo se encontrava dividido. O ato gerou uma renovação na nação, e a nova música eletrônica que surgia nesse período, foi de forma indireta, a trilha sonora que celebrou a reunificação dessa pátria, que por muito tempo, passou por um momento extremamente sombrio e difícil em seu passado.  

Com um novo tempo se abrindo e tendo constantes novidades, esse período (1990), trouxe uma remessa de renovações na área de tecnologia, principalmente nos meios de comunicação de massa e entretenimento.  

A internet já apresentava os seus primeiros sinais do que ela seria no futuro, novos aparelhos surgiam em diferentes espaços, causando uma empolgação em seus consumidores, e a tão festiva década de 1980, finalmente se despedia de seu posto de uma era de ideias utópicas, para ser classificada posteriormente, como uma época Cult e excessivamente pop.

A implementação do formato digital, foi um divisor de águas nessa fase, recurso que contribuiu para que houvesse um salto importante na tecnologia destinada à música em 1990, isso foi o começo da popularização dos estúdios caseiros (Home Studio) e o computador, tornou-se uma ferramenta obrigatória para quem fosse criar música eletrônica. Incluindo os novíssimos sintetizadores, sequenciadores entre outros aparelhos, que contribuíram para que a cena de Dance Music, fosse forte e sólida. 

A Dance Music, foi o gênero que apresentou o maior número de inovações rítmicas, além de o estilo incorporar de forma completa, todo esse novo desenvolvimento que estava disponível, e  aproveitando ao máximo, todos os recursos que elas dispunham;  transformando esses novos  dotes em sua força motriz e vitalícia. Um tipo de comportamento, que os outros gêneros demoraram a assimilar. Justificando, a classificação de futurista, que a música eletrônica passou a ter nesse momento.

Em decorrência da agitação causada por tantos aprimoramentos, a cena eletrônica em Berlim acabou fazendo muito sucesso, e uma grande quantidade de novos produtores, proliferaram suas músicas através das pistas de dança na tão contente capital alemã. Esses artistas fizeram uma atualização considerável no meio musical. E o Kraftwerk sendo uma banda atípica se tratando de música, e vivendo no centro de um país que passava por um turbilhão cultural e tecnológico, se viu obrigada a dialogar com essa geração que crescia a cada final de semana.

Input Data
Lançado em junho de 1991, o álbum The Mix, é o disco que mudou a forma como o Kraftwerk trabalharia as suas músicas ao vivo, e a partir desta etapa, o Mix se tornou o disco padrão na estrutura musical que o grupo mantém até hoje.

Mix marca o início de uma nova fase no grupo, essa, sem dúvida, a mais significativa na parte técnica, devido ao advento e do baixo custo que a tecnologia digital dispõe, incluindo a sua facilidade de uso. O mercado de tecnologia voltado para música tinha mudado, O Kraftwerk se viu submetido a atualizar seus instrumentos, que em consequência dessa renovação, suas músicas sofreram alterações diretas.

Com nove anos sem se apresentar ao vivo e com o último disco lançado em 1986 (Electric Café), e zero de informações sobre o que os integrantes faziam, o grupo ainda se encontrava com uma incerteza do que iriam gravar. 

Bem provável que Fritz Hilpert seja o principal responsável pela existência do Mix, pois Fritz , além de sua formação em engenharia de áudio, é professor de desenho de som, e trabalha com diferentes artistas musicais, e mantém uma atualização contínua, em relação à tecnologia direcionada ao áudio e a músicos.

O Mix também é marcado por ser o último disco com Karl Bartos ainda fazendo parte do grupo, que no caso, Bartos ajudou na programação musical (não creditado) e participou de alguns shows na turnê pré-The Mix em 1990, na Itália. Depois de sair do grupo em maio de 1991, Bartos procura manter a sua carreira solo desde 1993, além de ser professor de mídia na Alemanha.

Há uma enorme diferença na sonoridade entre Electric Café (1986) e The Mix (1991), no qual abordaram uma vertente mais fria e sintética, e deixando de lado toda a vitalidade e vigor que as músicas antecessoras possuíam. Permitindo fluir o lado máquina, e diminuindo o fator humano em Mix. Abordagem que causou uma estranheza entre os fãs do grupo que esperavam por músicas inéditas. Mas o disco é uma bela desculpa para apresentar um material “novo”, utilizando o que foi feito no passado.

Em entrevistas para a divulgação do disco, Ralf alegava que o motivo para essas  reinterpretações de suas músicas, se deve ao fato ocorrido durante os ensaios com os novos instrumentos, que na qual as músicas clássicas soavam completamente diferentes.

Boa parte das músicas sofreram grandes mudanças em suas estruturas e tiveram diferentes tratamentos harmônicos, como no caso de Autobahn, que teve todas as suas nuances e intercessões sonoras modificadas, soando mais plácida e artificial. 

Robôs Mixando.
Radioactivity teve seu clima sombrio mudado para um ritmo dançante, e foram acrescentados nomes das cidades de Tschernobyl, Harrisburgh, Sellafield e Hiroshima, lugares que sofreram com problemas de vazamento de produtos radioativos, e que possuem alguma ligação com energia nuclear. Apesar de animada, a sua mensagem alarmista, se manteve coerente e relevante. 

O humor singelo e discreto característico do grupo fica explicito em Pocket Calculator, que ganhou uma versão adjunta em japonês chamada Dentaku que no álbum, se tornou a faixa mais cômica. Computer Love perde os seus improvisos e charme eletrônico e ganha ares de música pop. Home Computer recebe a junção de It´s More Fun To Computer tornando-se uma só faixa, que evoca o futuro inevitável que os computadores proporcionam na sociedade. 

Music Non Stop é reconstruída com originalidade mesclando elementos de Boing Boom Tschak e da própria Musique Non-stop ambas do disco Electric Café. Aqui o quarteto soube aproveitar os recursos digitais disponíveis dessa época com muita criatividade, transformando a faixa em uma celebração moderna entre ritmo e melodia. O acerto na faixa acabou a deixando célebre em suas apresentações ao vivo, devido às inúmeras interseções sonoras e aos seus efeitos de som, que exaltam todo o groove mecânico que foi criado para ela. 

Trans Europe Express, de todas as releituras, é a faixa que consegue em parte, se igualar com a versão original, devido ao bom uso dos sintetizadores e dos processadores de áudio empregados na música. Recursos que ajudaram a conseguir transcrever em sons e melodias, a importância e a grandiosidade que esse meio de transporte teve na Europa em seu passado.

Trans Europe Express, é a faixa em que ouvimos o Kraftwerk em sua forma original sem muitos artifícios modernos, seguindo a vertente clássica desenvolvida pelo grupo, mas utilizando equipamentos novos.

A faixa ganhou uma interessante orquestração que foi acrescentada em uma de suas divisões chamada de Metal on Metal. O arranjo adicional, tonifica o conceito criado para a música, que a deixa mais impactante e solene. O tratamento dado aos detalhes nessa regravação, se apresentam com mais caprichos, dando a impressão que a composição se encontra desconexa em relação as restantes, devido a sua releitura que ressalta o seu lado mais sinfônico do que o rítmico. Apesar de não fechar o álbum, T.E.E. chama toda a atenção do disco.

Comunicação
O vocoder é outro artifício característico muito usado pelo grupo que se encontra presente em todas as faixas do álbum, o aparelho é usado de forma constante e extensiva em The Mix. Em The Robots, faixa que abre o disco, já fica evidente a qualidade e o extremo cuidado dos músicos, no desempenho no uso do instrumento, que auxilia na criação e na mudança no timbre das vozes. Truque que contribui para o conceito e estética criada pelo quarteto alemão, na qual passam a ideia, de que The Mix , fosse uma produção musical composta, concebida, gravada e  executada por robôs. Nessa parte de conceituação, os alemães acertaram em cheio.

Em seu lançamento, o álbum trouxe para o grupo um retorno positivo, tendo uma turnê que durou até ao ano de 1993. E o grupo fez uma série de entrevistas para várias revistas de música, incluído rádio e TV. O disco saiu em diversos formatos como: CD, Vinil Duplo e em Fita Cassete, nos idiomas Inglês e em alemão, a língua nativa dos músicos.

As apresentações ao vivo, foram marcadas pelas faixas mais longas recheadas de improvisos e efeitos sonoros. E as execuções dessas músicas eram radicalmente diferentes das que foram tocadas durante a turnê do álbum Computer World (1981-1982).

Apesar de não trazer músicas inéditas, The Mix representa o Kraftwerk como um grupo musical que consegue se adaptar as mudanças dentro e fora da música, sem precisar utilizar de algum apelo, e demonstrando que os músicos se encontram relevantes com o mundo à volta deles.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Kraftwerk — Der Katalog 3D — Uma imersão áudio visual pós-moderna.



Contendo os 8 álbuns principais gravados a vivo e divido em diversos formatos, o Katalog 3D (Kling Klang, Parlophone/Warner - 2017), é o trabalho mais completo e detalhado que o grupo alemão já produziu desde quando surgiram na tão prolifera década de 1970.

As apresentações para o Katalog foram realizadas durante os anos de 2012 até 2016 em diferentes lugares como museus e galerias de arte, deixando de fora os grandes festivais, prevalecendo assim, o conceito artístico criado pelo grupo europeu.

O quarteto já havia lançando no ano de 2005, o DVD duplo chamado Minimum-Maximum, o primeiro registro de suas apresentações, porém o 'catálogo' se apresenta com um produto mais integral e extenso, se comparando ao anterior. 

O kraftwerk é umas das poucas bandas desse período (década 1970) que ainda se mantêm em atividade artística, apresentando algum tipo de material com relevância para o mercado de música pop. E uma de suas principais características, é a forma como o grupo vêm se reinventando através de todos esses anos.

Essas constantes atualizações permite que o quarteto mantenha viva as ideias que criaram e desenvolveram em décadas passadas. Uma linha de pensamento que sustenta a contemporaneidade de suas músicas, que sempre abordaram a relação entre o homem e a máquina, além das inevitáveis e sempre constantes alterações que a sociedade passa. E o que chama a atenção no que o kraftwerk produz, é a visão que o grupo possui de todas essas mudanças que ocorrem no cotidiano.

Nos discos do Katalog, vemos o quarteto passando a limpo, toda a sua história musical, em ordem cronológica, com uma recriação à altura das gravações originais. O grupo utilizou de uma abordagem mais minimalista nesse novo disco ao vivo, que não difere muito de suas apresentações, já que o grupo é rigoroso se tratando de qualidade de áudio e vídeo além da performance. Praticamente o que se assisti no Katalog, é o mesmo que grupo faz no palco.

Aproveitando o bom uso dos recursos de imagens em alta qualidade e da terceira dimensão, o kraftwerk consegue transpor para o espectador uma verdadeira experiência de imersão artística áudio/visual, que muito dessa capacidade, se deve ao trabalho minucioso e cheio de detalhes que os músicos tanto mantêm.  Mesmo que for assistir ao catálogo e não dispuser do recuso em 3D, o grupo permitiu a opção do tradicional 2D.

Tanto na versão para Blu-ray quanto para os CDs e vinis, o kraftwerk resolveu em sua mixagem de áudio, suprimir e não utilizar o som da audiência; praticamente não se escuta os gritos e aplausos dos fãs em nenhum momento. Algo pouco utilizado em discos ao vivo. O que deixa tudo um tanto frio para quem o escuta.

Audiófilos (pessoas aficionadas por alta definição em áudio) irão apreciar os diferentes formatos que o Katalog foi gravado, que está registrado no tradicional Estéreo 2.0, chegando até ao Dolby Atmos 5.1, passando por outros como Headphone Mix, Surround 3D e KlingKlang Mix.

Em resumo, o Katalog 3D é: 4 discos em Blu-ray, sendo dois deles contendo somente as animações  que o grupo usa em suas apresentações; 8 CDs e 8 vinis com os álbuns recriados ao vivo; um livro com mais de 236 páginas com fotos inéditas e mais uma camiseta exclusiva para quem for comprar pelo site oficial da banda. Também há uma edição simples de todo esse material em DVD.

Como o grupo é fechado em relação à divulgação do que produzem, e tendo uma grande cobrança por material ao vivo/novo, o Katalog é um grande deleite para todos os artistas que foram influenciados pelos sons criados por esses alemães, e principalmente aos fãs, que até hoje mantêm a energia da usina de força sempre ativa.

E dificilmente, algum outro artista ou grupo musical, seja ele clássico ou novo, irá produzir algum tipo de trabalho tão amplo e detalhado, com obras de importância em relação à sociedade, mesmo que seja de uma forma implícita. 

O Katalog 3D fecha de forma correta a fase clássica dos músicos pós-modernos alemães, que abriram um novo caminho na música pop, e também encerra o ciclo iniciado durante a década de 1970, além de deixar em aberto um novo trajeto que o grupo pode trilhar pelos próximos anos, uma inquietação que até hoje gera uma grande curiosidade entre os fãs e admiradores do grupo.

Em tempo, boa audição.






segunda-feira, 13 de março de 2017

Kraftwerk —Trans-Europe Express — 40 Anos.



Lançado em Março de 1977, Trans-Europe Express é o trabalho do kraftwerk, que poder ser considerado o mais romântico e saudosista. Muito desse mérito, devido ao seu caráter em exaltar a cultura europeia, e por quase ter uma abordagem autoral. 

Produzido logo após o fim da turnê Radio-Activity Tour (1975-1976) e construído entre os intervalos dessa turnê, T.E.E.  é o disco do quarteto alemão que tem a pegada mais minimalista em suas músicas e nacionalista em sua ideologia. Além de ser o álbum que marca o início da busca do grupo por uma identidade sonora e estética própria. Fato, que só iria se concretizar no disco posterior Man-Machine, lançado em 1978.

Em T.E.E., ouvimos O kraftwerk celebrando uma nação que estava desaparecendo devido às mudanças eminentes, que vinham ocorrendo não só no país de origem da banda, mas em todo o continente Europeu. E os integrantes vivendo no centro dessas mudanças, procuraram descrever esse sentimento de renovação, através de suas composições. E para tal feito, utilizaram uma abordagem mais simples. E tendo como base, um lirismo moderno, ou se preferir, mais eletrônico.

O culto em relação à vida cotidiana na Europa, é intercalado  por uma boa parte do disco, mas de uma forma implícita. Logo em sua abertura, é vigente a sonoridade clássica como artificio para um convite, a um passeio através de uma Europa em uma inevitável mudança. Em decorrência desse fato, há a evidente melancolia gerada por esse comportamento. Essa reação é descrita de maneira sintética em Europeu Endless, e na reflexiva The Hall of Mirrors, e tendo Showroom Dummies, o contra ponto em relação a toda essa desolação inicial.  

A celebração a máquina é ostensivo na longa Trans-Europe Express, faixa que dá o título ao álbum, música que em suas primeiras notas, já apresenta uma característica de alerta de uma grande peça sinfônica-mecânica, composição que celebra a importância e peso que esse meio de transporte teve na Europa em décadas passadas. Esse trem de luxo foi responsável por uma conexão direta, entre vários pontos extremos desse continente. Que por muitos anos, foi a principal  ligação cultural entre esses polos tão distintos. 

Trans-Europe Express, marca o breve desuso das melodias progressivas que foram a característica mais marcante nos primeiros álbuns do kraftwerk, e percebemos o grupo investido em uma linha mais minimalista, além de fugir do experimentalismo do disco anterior. Ao término do álbum, em uma sonata, composta em homenagem ao compositor austríaco de música clássica Franz Schubert (1797-1828) podemos perceber o grupo apresentando um trabalho com um estilo bem marcante e inovador para a época. Que difere das músicas eletrônicas que eram produzidas no mesmo período.

O que ouvimos, além de todo o romantismo e saudosismo, são os músicos dando o passo inicial na relação entre homem e a máquina, o elo que o grupo manteve de forma contínua em seus trabalhos posteriores. 

Na época de seu lançamento, T.E.E. recebeu ótimas criticas e elogios de outros músicos, além de aumentar de forma considerável o número de admiradores da banda alemã. Porém o seu legado e influência, só se concretizou na década posterior, pois T.E.E.   fez a cabeça de muitos DJs,  produtores e músicos que iriam surgir na década de 1980, e quase todos, em entrevistas, afirmavam a banda alemã, como uma influencia direta em seus trabalhos.