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segunda-feira, 9 de junho de 2025

Wolfgang Flür — Entrevista — Future Music Magazine N° ,17 — 1998


O que acontece quando você sai do grupo eletrônico mais influente de todos os tempos?

Após quase duas décadas como membro do Kraftwerk, o bom e velho Wolfgang Flür está de volta com um novo projeto, o Yamo, e está aprendendo a amar a vida depois dos robôs...

Düsseldorf está situada entre as curvas e voltas do rio Reno, no coração comercial e industrial do noroeste da Alemanha. Diferente de muitos centros puramente industriais ao redor do mundo – como Detroit, Milão, Roterdã ou Bilbao – Düsseldorf é uma cidade linda e extraordinariamente elegante, cheia de amplos bulevares arborizados, com uma arquitetura magnífica e um ambiente cosmopolita refinado.

Mas, claro, nas últimas três décadas, essa cidade teve grande importância para os fãs de música eletrônica por um motivo bem diferente. Alguns dos discos eletrônicos mais influentes de todos os tempos (Autobahn, Trans Europe Express, The Man-Machine e Computer World) vieram de um grupo que tirou seu nome de uma usina elétrica que ainda hoje permanece de pé, não muito longe, à beira do Reno.

A apresentação do Kraftwerk no Tribal Gathering do ano anterior serviu como lembrete de que nem toda música pop é passageira ou efêmera. Apesar de o grupo não lançar material novo desde 1986, não havia precedentes para o nível de expectativa – e empolgação – gerado por sua apresentação. Talvez isso tenha a ver com o fato de que, por meio do rap, acid house e techno (todos inspirados pelas sinfonias mecânicas dos ciberpioneiros de Düsseldorf), toda uma nova geração tenha descoberto o Kraftwerk.

Mas também parecia que o mundo finalmente tinha percebido que a estranha visão de futuro do Kraftwerk era a que indicava o caminho certo. Mais de uma década depois da aventura psicodélica do Electric Café, saída do estúdio Kling Klang do grupo, os maiores inovadores da música eletrônica finalmente estavam sincronizados com a cena musical que eles mesmos ajudaram a criar.

Mas, quando o Kraftwerk subiu ao palco naquela estranhamente fria noite de maio, o grupo não apresentava a formação clássica que mudou a cara da música pop. Naquele momento, os membros fundadores Ralf Hütter e Florian Schneider estavam acompanhados de dois engenheiros do Kling Klang, Fritz Hilpert e Henning Schmitz, em vez de Karl Bartos e Wolfgang Flür, que haviam deixado o grupo durante o período de inatividade criativa após Electric Café.

A saída de Flür foi algo gradual

"Fui deixando o Kraftwerk entre 1987 e 1989", explica. "Não foi uma decisão repentina. Também não houve nenhum grande drama. Nada novo estava sendo gravado, então fui cada vez menos ao estúdio, até que parei de vez. Hoje ainda encontro o Ralf e o Florian de vez em quando para tomarmos um café, mas, depois de tantos anos com os robôs, eu queria voltar a sentir o sangue quente correndo pelas veias..."

Após estar envolvido com música desde o início dos anos 60, Flür decidiu fazer uma pausa.

"Quando saí do Kraftwerk, decidi não fazer música por muito, muito tempo", relembra.

Durante um tempo, ele dirigiu um estúdio de design, até que, motivado pelo escândalo da guerra na Bósnia, pensou que a música poderia oferecer uma forma de ajudar. Em 1993, trabalhando com Emil Schult (conhecido como "o quinto membro do Kraftwerk"), escreveu o single beneficente Little Child como uma maneira de chamar atenção para o destino das crianças bósnias, presas em uma carnificina pela qual não tinham culpa alguma.

"Esse projeto me fez perceber que, afinal, eu ainda era apaixonado por música", afirma hoje. "Foi o começo do meu retorno às gravações."

A formação clássica

Autobahn é o primeiro álbum verdadeiramente moderno e reconhecível do Kraftwerk e, embora ainda restem vestígios de suas inclinações à improvisação, é possível ouvir elementos que antecipam selos como Transmat, R&S e Warp pulsando entre os estranhos ritmos sintéticos de faixas como Kometenmelodie ou Mitternacht.

O álbum representou um enorme triunfo criativo e comercial (ficou entre os dez mais vendidos dos dois lados do Atlântico), e Wolfgang se viu em turnê com o Kraftwerk pelos Estados Unidos.

"Foi tão estranho...", confessa. "Lá estávamos nós, uns jovens de Düsseldorf, e de repente nos vimos na Broadway..."

Mas mesmo com um álbum de sucesso nas paradas, Wolfgang lidava com um problema que muitos músicos conhecem bem:

"Em todas as bandas pelas quais passei, sempre queríamos ter o melhor e mais novo equipamento. Gastávamos todo o nosso dinheiro — às vezes até o que não tínhamos — em equipamentos. Felizmente, a loja de música de Düsseldorf era muito boa e nos deixava pagar em prestações. Acho que durante meu primeiro ano no Kraftwerk eu ainda estava pagando as parcelas dos equipamentos que compramos na época do The Spirits of Sound!"

Para a turnê do Autobahn, o Kraftwerk adicionou mais um percussionista: Karl Bartos, que na época ainda era estudante de música no conservatório Robert Schumann, em Düsseldorf. Flür e Bartos já tinham um projeto paralelo chamado Sinus, e com sua entrada no grupo, a formação clássica do Kraftwerk estava finalmente completa.

Após a turnê, o grupo voltou ao estúdio Kling Klang para trabalhar em um novo álbum.

Radio-Activity (Radioaktivität) é um dos álbuns preferidos de Flür entre os que gravou com o Kraftwerk.

"Adoro as melodias e o romantismo desse disco", afirma. "Lembro de estar no avião, depois da turnê do Autobahn. Ralf estava sentado ao meu lado e, de repente, disse que tinha uma ideia sobre 'atividade do rádio' (radio activity), e essa foi a primeira vez que ouvi ele falar sobre isso. Se você pensar em todas as estações de rádio privadas dos Estados Unidos... essa era a ideia. Não tinha nada a ver com radioatividade no ar ou com usinas nucleares."

Flür: o primeiro baterista eletrônico

Embora o senso pop apurado de Wolfgang (desenvolvido nos anos em que tocava versões) tenha deixado sua marca no estilo improvisador de Hütter e Schneider, sua maior contribuição ao Kraftwerk foi a criação de um aparelho revolucionário.

Três meses após entrar para o grupo, durante os ensaios para um programa de TV chamado Aspecte, Wolfgang se cansou da percussão típica de banda:

"O equipamento do estúdio era terrível", explica. "Cheio de poeira e nada profissional" — e decidiu investigar as unidades de percussão eletrônica (algo mais que simples caixas rítmicas de órgão doméstico) que já haviam sido usadas no álbum Ralf & Florian.

"Decidi tentar ligá-las a um amplificador e o som ficou ótimo de primeira", explica Wolfgang.

"Soava tão bem que comecei a pensar em como seria incrível se eu pudesse tocar aqueles sons em uma bateria normal."

Flür havia crescido aprendendo a construir coisas com as próprias mãos, então imediatamente começou a imaginar uma solução prática e viável.

Em uma visita a um terreno baldio, descobriu uns discos de metal:

"Até hoje não sei para que serviam originalmente, mas percebi logo que poderia usá-los como pads para disparar sons de percussão."

Graças às suas habilidades de marcenaria, construir a estrutura foi fácil. Com os discos de metal montados na parte frontal e conectados aos circuitos responsáveis por cada som, só faltava descobrir uma forma de acionar os triggers.

A solução veio em forma de duas finas hastes de aço (algo entre uma agulha de tricô e uma baqueta). Ao conectar isso ao circuito original de acionamento, ele descobriu que, ao tocar um dos discos metálicos com a haste, o circuito se fechava e — como num passe de mágica — o som era disparado. Usando as duas hastes como baquetas, ele viu que era possível criar ritmos.

Assim, dez anos antes de o pessoal da Roland sequer imaginar algo como o Octapad, Wolfgang Flür se tornou o primeiro baterista eletrônico do mundo.

A unidade ficou pronta exatamente três dias antes da gravação do programa Aspecte. Por muito tempo, acreditava-se que não havia imagens dessa apresentação, mas recentemente foi descoberta uma fita na qual eles aparecem tocando duas músicas: Heimatklänge e Tanzmusik (ambas do álbum Ralf & Florian).

Wolfgang aparece no centro do palco com sua nova bateria eletrônica e, embora claramente seja um equipamento caseiro — com vários cabos pendurados atrás — sua importância histórica é evidente.
É techno puro, versão 1973.

Invenções e criatividade

O talento de Flür para invenção e design se destacou mais uma vez durante os preparativos para a turnê que seguiu o lançamento de Radioactivity, com a criação de mais um de seus artefatos futuristas para disparar sons de percussão ao vivo. Isso acabou se tornando uma faceta recorrente de seu trabalho no grupo: ele projetou e construiu as estruturas de néon colorido que faziam parte do palco dos shows do Kraftwerk no final dos anos 1970. E, para a turnê mundial de 1981, ele desenhou — e até ajudou a construir, junto com outros artesãos e eletricistas — toda a estrutura cênica.

"Levei três anos para desenvolver tudo a partir dos planos iniciais. Construímos o palco em forma de 'V' aberta porque isso facilita a comunicação entre os músicos. Se você tem quatro pessoas em linha reta, é difícil que consigam se ver", explica Flür.

"Era um design bem simples, por razões práticas: a enorme quantidade de cabos elétricos sempre foi um problema, mas o maior problema que tivemos no começo era que os sintetizadores não eram estáveis, e tínhamos que afiná-los o tempo todo. Às vezes era uma loucura: sem caixa de ritmos, sem sequenciador, sem sincronização — tínhamos que fazer tudo manualmente. Quando vimos o que uma caixa de ritmos podia fazer, nos inspiramos a ir além e experimentar novas ideias. Nada era absurdo demais para nós. Chegamos a desenvolver tantas coisas que algumas nunca chegaram a ser usadas no palco."

A imaginação de Wolfgang Flür para criar e inovar era uma característica constante em sua trajetória com o Kraftwerk. Ele passou a se interessar por novas formas de disparar os sons da percussão eletrônica para integrá-los às performances no palco. Sua solução para a turnê europeia do Kraftwerk, no início de 1976, foi extremamente criativa — e, como sempre, à frente de seu tempo.

Ele construiu uma estrutura tubular longa o suficiente para que pudesse entrar nela e instalou uma série de pequenas luzes e sensores fotoelétricos em pontos estratégicos. Assim, era capaz de usar os movimentos do corpo como triggers.

"Funcionava com pequenos feixes de luz", explica. "Eu entrava dentro da estrutura e fazia movimentos com as mãos, como um guarda de trânsito. Cada vez que meus braços interrompiam um dos feixes de luz, um som de percussão era disparado. Movendo-me do jeito certo, eu podia criar um padrão. Nos ensaios, era bem impressionante."

Infelizmente, o dispositivo se mostrou temperamental assim que começaram a turnê.

Era a primeira vez do grupo em turnê pela Inglaterra e França, e o show começava com Radioactivity. Flür estava sozinho no palco, dentro de sua “gaiola-bateria”, fazendo seus movimentos de “guarda de trânsito”. Mas, com frequência, os feixes de luz não eram fortes o suficiente para vencer as luzes do palco, e o sistema falhava.

"Às vezes eu queria desaparecer do palco quando os sensores não funcionavam. Você me via lá, rezando para que desse certo. E mesmo quando funcionava, no dia seguinte os jornais traziam manchetes malucas."

Esses são os riscos de ser um pioneiro na música eletrônica. Mas a ideia básica de Wolfgang era tão sólida que outros artistas — de Jean Michel Jarre a Laurie Anderson — acabaram adotando esse mesmo princípio mais tarde.

A saída de Flür e Bartos

Os álbuns que vieram após RadioactivityTrans-Europe Express, The Man-Machine e Computer World — são provavelmente os discos de música eletrônica mais influentes de todos os tempos. Sem eles, o mapa da música contemporânea seria completamente diferente.

Imagine um mundo sem rap, house ou techno — uma sociedade em que o domínio do rock jamais tivesse sido desafiado pelo pop eletrônico ou pelos hinos criados nos guetos de Chicago e Detroit.

Mas, à medida que o som do Kraftwerk se tornava mais refinado e projetado para o futuro, seu ritmo de trabalho diminuía. Nos anos 70, o grupo lançava um álbum por ano. Mas depois disso, esse ímpeto começou a enfraquecer.
O intervalo entre The Man-Machine e Computer World foi de três anos, e o álbum seguinte, Electric Café, só saiu cinco anos depois.

A maioria das bandas lança um álbum de grandes sucessos durante a primavera ou o verão, a tempo do Natal. Mas a versão do Kraftwerk — The Mix — demorou cinco anos para ser concluída. Desde seu lançamento, em 1991, passaram-se sete anos sem sequer um rumor sobre um novo disco.

Esse ritmo dolorosamente lento acabou gerando consequências. A saída de Wolfgang Flür veio pouco antes da de Karl Bartos, que deixou o grupo pouco antes do lançamento de The Mix. Os dias da formação clássica do Kraftwerk haviam chegado ao fim.

"Os discos de maior sucesso do Kraftwerk foram feitos por quatro personalidades especiais que se complementavam", destaca Wolfgang.

"A gente se influenciava e se admirava mutuamente. A música era resultado de uma química muito especial. Era algo parecido com os Beatles."

Um novo projeto: Yamo

Após seu retorno à cena musical com o single Little Child, Wolfgang passou a trabalhar nos estúdios Rheinklang em Düsseldorf, cujo dono era o ex-integrante do Rheingold, Bodo Staiger (curiosamente, Karl Bartos havia trabalhado com outro membro do Rheingold, Lothar Manteuffel, em seu projeto pessoal, Elektrik Music). Foi então que conheceu Andy Toma, do grupo Mouse on Mars, e iniciou uma relação de trabalho especialmente criativa.

"Eu estava trabalhando em uma música chamada My Inner Voice", explica Wolfgang. "Gostava do tema, mas não estava satisfeito com a mixagem. Então Andy entrou no estúdio (naquele momento eu não sabia quem ele era) para buscar algo e nos apresentaram. 

Pouco depois, ele me ligou. Ele lembrava que eu não estava satisfeito com os níveis, então havia feito um remix. Peguei um táxi e corri até o estúdio dele — e adorei o que ouvi. A partir daquele momento soube que havia química. Na semana seguinte, entramos em estúdio e criamos outras duas músicas."

O estúdio de Toma é centrado em um Atari com Cubase, mas as semelhanças com qualquer estúdio comum terminam aí. Toma foi produtor de rap e depois trabalhou compondo música para a TV a cabo antes de formar o Mouse on Mars com Jan Werner. Parece que cada marco que ganhou com a música foi reinvestido diretamente no estúdio. 

A sala de controle é dominada por uma mesa Soundcraft Sapphire de 44 canais e exibe uma seleção impressionante de sintetizadores, efeitos e processadores, incluindo algumas raridades como o curioso Moog Parametric EQ e um velho sintetizador sub-harmônico DBX dos anos 70. "Eles eram usados em discotecas para reforçar os graves dos discos, mas no estúdio usamos para criar frequências graves bem interessantes."

Yamo, o projeto de Wolfgang, começava a tomar forma. Além disso, o parceiro de Andy no Mouse on Mars, Jan Werner, e outro amigo, Michael Grund, também se juntaram ao projeto. "Ele se sentava num canto e criava patches e sequências estranhas no Moog, e passava partes da voz do Wolfgang por filtros", lembra Andy. "Mantemos um velho sequenciador caseiro que usamos com o Moog e que produz ótimos resultados. Usávamos muito o Nord Lead, além de todas as nossas drum machines. Às vezes amostramos coisas a partir delas, e outras vezes Wolfgang tirava sons do Octapad."

Yamo (uma palavra criada por Flür que significa “a alegria da vida”) também contou com contribuições de uma série de produtores e artistas como Donna Regina e a voz clássica de Barbara Uhling-Stollwerck. O álbum resultante, Time Pie, é uma mistura maravilhosa e estranha de eletrônica cheia de fios e ritmos profundamente sincopados que os fãs de Kraftwerk reconhecerão instantaneamente. Mas, como aponta Wolfgang, não é um disco sobre despersonalização ou homens como máquinas; é um disco sobre a riqueza da vida — o significado literal de Yamo.

Os sentimentos pop delicados ainda estão lá, é claro, em faixas como Stereomatic (para a qual Emil Schult, colaborador do Kraftwerk, dirigiu um videoclipe fantástico) e Time Pie. Mas desta vez o que cativa são as paisagens sonoras sutis e o surrealismo narrativo da voz de Wolfgang. Imagine um Kraftwerk sob efeito de cogumelos alucinógenos ou um Tricky com senso de humor otimista e você estará próximo.

O método de trabalho de Wolfgang é instintivo: “Começo com uma história e depois moldo as melodias e os sons para que se adaptem a essa história.” O techno exuberante de Mosquito é um exemplo perfeito. “A inspiração para essa faixa veio de uma viagem que fiz à Bélgica”, revela Wolfgang. “Tenho fobia de mosquitos e, certa noite, estava deitado, exausto, quando comecei a ouvir aquele zumbido típico. Não conseguia ficar ali parado, tive que levantar e tentar capturá-lo. Obviamente, não consegui encontrá-lo, e o zumbido estava me deixando louco. Só queria dormir um pouco, mas, como você pode ouvir na música, algo mais aconteceu.”

No estúdio, o processo de gravação de Mosquito começou quando Wolfgang, que tem um talento natural para contar histórias, explicou a Andy e Jan o que havia acontecido e como queria recriar isso. “É muito divertido trabalhar com o Wolfgang porque ele está sempre contando histórias”, explica Andy. “Mesmo que o trabalho para criar sons seja intenso, é sempre um desafio novo quando alguém quer que você crie o som de um mosquito — ou de um spray de insetos!” E foi exatamente isso que aconteceu. “Era uma forma de trabalhar completamente diferente”, admite Andy. “Wolfgang conta uma história e todos nos mobilizamos para transformá-la em som. Nunca tinha trabalhado assim antes. Foi intenso, mas também muito divertido e interessante.”

A namorada de Jan, Rosa Barba, colocou a voz em Fra Testa e Mano, uma das faixas importantes do álbum. “No início eu mesmo faria os vocais”, explica Wolfgang, “mas queria que soasse algo erótico, então perguntei se ela queria fazer no meu lugar. A performance foi fantástica, mas quando fomos mixar, senti que faltava algo. Decidi que precisava de um som espiritual, como contas de um rosário ou algo assim. 

Quando era pequeno e ia à igreja, via as senhoras mais velhas sussurrando e mexendo nas contas. Não conseguíamos encontrar nada que soasse assim, e então algo estranho aconteceu. Estávamos quase rezando por inspiração, quando decidi ir ao banheiro. Não conseguia achar o interruptor da luz, então peguei a primeira coisa que encontrei — era uma cortina de contas. Incrível! Gravamos o som da cortina abrindo e fechando num DAT da Sony e o sampleamos no Akai. Este é um exemplo de como trabalhamos. Podemos usar qualquer som.”

Muitas das faixas de Time Pie refletem as simples, embora comoventes, melodias das canções tradicionais do Reno, do mesmo modo que o Kraftwerk fazia nos LPs clássicos em que Flür participou. Mas Guiding Ray, a música que escreveu com Paul Wilkinson, conecta-se com uma dimensão diferente de seu passado. O otimismo da música simboliza muito do que Wolfgang sente sobre o Yamo, mas a combinação de sua bateria rock’n’roll, melodias de três notas e uma linha de baixo de oito notas remete ao som de outro grande grupo de Düsseldorf: Neu!, no qual tocava Michael Rother, ex-guitarrista dos Spirits of Sound.

“No Kraftwerk nos preocupávamos muito em conectar o passado (que para nós eram as canções tradicionais do nosso país) com o futuro”, explica Wolfgang. “Esse era o significado do nosso conceito de Electronische Volksmusik (música popular eletrônica). É um sentimento de nostalgia pelo passado e de emoção quanto ao futuro. O conceito de Time Pie (Pastel do Tempo) é parecido: se você corta o bolo, pode encontrar camadas que se relacionam com os diferentes períodos da minha vida. É um bolo que esteve assando com todas as minhas experiências ao longo dos anos!”

Embora Wolfgang esteja agora envolvido na mudança do Yamo para outra gravadora, os preparativos para o novo álbum já estão em andamento. Com o título Serenity Supreme, o disco contará com Barbara Uhling-Stollwerck (que cantou em Mosquito e Dr. Ug.ly.) como coautora. “Para mim, o inglês é a língua do pop”, explica Wolfgang. “Barbara é meio inglesa e pode me ajudar a me expressar, pois entende melhor as sutilezas da língua. Além disso, sou apaixonado pela voz dela, então ela é uma ótima parceira para mim.” Paul Wilkinson, coautor de Guiding Ray, também participará.

Após mais de três décadas na música, parece que a carreira de Wolfgang Flür vai entrar em uma nova fase. Como sempre, com os olhos voltados para o futuro. E pelo menos por agora, seu futuro é Yamo.


Entrevista enviada por Rene Marcelo Figueroa — Argentina.


quinta-feira, 5 de junho de 2025

Kark Bartos & Wolfgang Flür — Entrevista — Keyboards Magazine — 1998




Keyboards – O Kraftwerk foi o primeiro a produzir música eletrônica? Eles, por assim dizer, inventaram a música eletrônica, ou havia alguém antes?

Wolfgang Flür – Nós absolutamente não fomos os inventores da música eletrônica. Ela já existia nas décadas de 1920 e 1930 com a invenção do Theremin [ver entrevista com Lydia Kavina na KEYBOARDS 8/98] ou do Mixturtrautonium, criado por Friedrich Trautwein e Oskar Sala. A primeira vez que vi um Theremin sendo usado ao vivo foi em 1967, num raro show dos Beach Boys aqui na Stadthalle de Düsseldorf. Em uma das músicas, eles fizeram o Theremin soar seus “Good Vibrations” no palco. Oskar Sala também usava seu Trautonium para música e efeitos sonoros desde cedo. Por exemplo, ele criou os sons psicológicos dos pássaros no famoso filme do Hitchcock.

Na música popular havia, pelo menos, colegas como Tangerine Dream, Klaus Schulze ou Amon Düül, que também faziam música eletrônica. Muitos experimentavam com esse tipo de instrumento, que estava começando a se tornar acessível. Ainda assim, um Minimoog custava 8.000 marcos – uma pequena fortuna para a época. Com o Kraftwerk, fomos provavelmente os que desenvolveram a música pop eletrônica de forma mais consequente. A partir de Autobahn, já nos víamos mais como músicos pop – e era exatamente isso que queríamos e alcançamos. Graças à grande repercussão dos nossos lançamentos, o sintetizador foi se inserindo no cotidiano sonoro e, pouco a pouco, se tornou um gerador de som conhecido e popular. Como a guitarra, hoje ele é indispensável na música. Gostaria de saber como ele soará quando tiver uns mil anos de idade – como a guitarra!

Karl Bartos – A primeira gravação de música eletrônica na música pop da qual me lembro conscientemente foi “Telstar”, de Joe Meek [ver biografia de Joe Meek na resenha do Joemeek VC3 Prochannel, KEYBOARDS 1/98]. Também poderiam ser citadas “Good Vibrations” ou “Popcorn”. E [o experimentalista eletrônico francês] Pierre Henry gravou um disco com a banda inglesa Spooky Tooth em 1969: Ceremony – An Electronic Mass. Mas o mais decisivo, eu acho, é a harmonia tonal maior/menor, as melodias europeias em combinação com ritmos funky e uma abordagem quase jornalística nas letras – tudo isso, claro, temperado com um pouco de kitsch.

Keyboards – Vocês acham que o Kraftwerk, ao lado de Walter/Wendy Carlos (Switched-On Bach) e de “Popcorn”, influenciou a percepção dos ouvintes em relação à síntese sonora e ao uso de sintetizadores?

Wolfgang Flür – Com certeza, acredito firmemente nisso. Basta olhar o grande sucesso do Kraftwerk e a enxurrada de imitações ao longo do tempo.

Karl Bartos – Isso pode ser observado claramente nos beats programados. Com a função Error/Correct ou com o chamado quantize, houve uma mudança no modo como os ritmos são percebidos. Esses padrões rítmicos hoje são vistos como algo cool, e não como algo matemático ou rígido. Sempre esperamos que nossos colegas músicos negros nos EUA descobrissem esses beats. Com Planet Rock [de Afrika Bambaataa], começou uma espécie de industrialização.

Keyboards – Por que há uma faixa chamada “Franz Schubert” no álbum Trans-Europa Express (1977)? Qual é ou foi a relação entre o Kraftwerk e Franz Schubert? Alguns membros da banda tinham um interesse especial por ele?

Wolfgang Flür – Bom, o Florian estudou música por um tempo, e o Karl completou uma formação musical completa. No conservatório, você tem bastante contato com música clássica. Além disso, os primeiros românticos fazem parte da nossa cultura musical alemã, e, dependendo do ambiente familiar e do quanto se foi exposto à música clássica, isso tudo influencia na música que você mesmo cria. Eu sei que o Ralf, o Emil [Schult, artista gráfico do Kraftwerk e também diretor de arte do álbum Time-Pie do Flür/Yamo] e o Florian estiveram uma vez na casa onde Schubert nasceu, em Lichtental, perto de Viena. Provavelmente foi lá que tiveram a ideia para essa música do Kraftwerk. No começo, éramos totalmente românticos – você se esqueceu disso? Se duvida, ouça os primeiros álbuns novamente! Aliás, esse foi um dos motivos pelos quais entrei no Kraftwerk. Eu amava essas melodias românticas – são parte da minha personalidade. Hoje, com o Yamo, consigo explorar isso livremente de novo.

Karl Bartos – Franz Schubert é conhecido por suas melodias “infinitas”. Para o Ralf e o Florian, ele representava a Europa. E Schubert tem uma biografia realmente interessante e dramática – você precisa ler!

Keyboards – Wolfgang, por que seu sobrenome era constantemente escrito errado nas capas?

Wolfgang Flür – Também não sei, mas isso não é tão importante. Um “ü” no meu sobrenome e no do Ralf [Hütter] era sempre difícil de pronunciar para ingleses e americanos; por isso acabamos tirando os trema. Depois disso, as coisas passaram a funcionar melhor com nossos vizinhos.

Keyboards – O que vocês usaram no cabelo para as fotos de Mensch Maschine? Vocês também se lembram do pôster com a mulher nua sentada de costas sobre um cone de trânsito? Existe uma versão mostrando a frente? (Por favor, me enviem uma cópia!)

Wolfgang Flür – Esse pôster eu nem conheço. Sensacional, também quero uma cópia! Por favor, envie!

Karl Bartos – O segredo dos cabelos deve permanecer segredo. Infelizmente, esse pôster eu também não conheço.

Keyboards – O Kraftwerk fez, se não me engano, uma turnê no começo dos anos 80 com músicas de Computerwelt, visitando também alguns países do bloco oriental. Ou foi só na Polônia? Quem traduziu as letras de vocês para o polonês? Ritmicamente estava tudo certo, mas a gramática e a pronúncia foram um desastre. Vocês provavelmente não sabiam o quanto uma tentativa malfeita dessas poderia causar danos. No meu mundo no Leste, eu fui um dos primeiros a me dedicar com seriedade e paixão à música eletrônica, e por isso foi importante para mim construir um círculo de amigos com base nessa música. Consegui isso com Kraftwerk, Synergy, Klaus Schulze e Tangerine Dream. Mas alguns dos meus amigos, que eu havia convencido com dificuldade de que vocês eram uma boa banda, eu perdi depois dos shows. Eles disseram que vocês não levaram a sério a questão da tradução.

Wolfgang Flür – Sinto muito se isso não foi bem recebido. Talvez tenha sido apenas uma tentativa desajeitada de sermos melhor compreendidos por vocês. No entanto, sempre observei que muitos de nossos fãs nem davam tanta importância para entender as letras; para eles, provavelmente, eram apenas um complemento. Os sons e os ritmos sempre foram o mais importante no Kraftwerk. Mas sim, levamos a questão das traduções a sério. Fizemos letras também em espanhol, japonês e russo; queríamos simbolizar nosso sentimento global. Sempre fomos contra o isolamento nacional e a favor do pensamento e da ação internacional, pela compreensão mútua.

Karl Bartos – Não me lembro se a versão em polonês foi lançada em algum disco. Mas o Ralf se esforçou muito para cantar em vários idiomas. Eu acho que foi um gesto educado e respeitoso, já que ninguém exigiu isso dele. Claro que lamento, retrospectivamente, que você tenha perdido alguns de seus amigos por causa disso.

Keyboards – Wolfgang Flür, você disse que acabou se entediando no Kraftwerk. Isso quer dizer que não era possível inserir sua criatividade pessoal no grupo? Podemos até dizer que você e também Karl Bartos nunca foram membros plenos da banda, mesmo tendo contribuído tanto?

Wolfgang Flür – O Karl teve coautoria em algumas músicas importantes. Ele era um ótimo tecladista – provavelmente o melhor do Kraftwerk! – e eu mesmo era “apenas” o baterista, com pouca influência nas melodias e arranjos. E foi exatamente isso que passou a me fazer falta no final, a pouca influência sobre os temas. Mesmo assim, minhas ideias e meu coração estavam presentes em cada faixa. Membros plenos no Kraftwerk, além do Ralf e do Florian, nunca houve e provavelmente nunca haverá. O Kraftwerk é uma criação deles, e eles nunca foram capazes – e talvez nunca quiseram – integrar completamente mais ninguém.

Keyboards – Hoje, em vez de Karl Bartos e Wolfgang Flür, os membros do Kraftwerk são Fritz Hilpert e Henning Schmitz. O grupo ainda tem o mesmo carisma que tinha com vocês dois? Se não, onde vocês veem a diferença?

Karl Bartos – Não posso dizer se o Kraftwerk ainda tem o mesmo carisma com Hilpert e Schmitz, porque nunca vi um show deles.

Wolfgang Flür – Os primeiros anos do Kraftwerk foram tão bem-sucedidos porque nós – Ralf, Karl, Florian e eu – tínhamos uma relação de amizade e criatividade extraordinária. Tínhamos que construir quase tudo ou mandar fabricar, pois não havia equipamentos para realizar nossas ideias. Esses anos nos uniram profundamente, e foram os mais ricos e criativos que se pode imaginar. Nosso carisma vinha de quatro mentes e personalidades únicas, que só juntas conseguiam criar o tipo de música que fizemos enquanto ainda trabalhávamos com alegria. Hoje, não sei mais o que o Kraftwerk representa. Não fui a nenhum show e não li nenhuma entrevista ou vi ninguém na TV. Mas para uma nova geração que está descobrindo o Kraftwerk agora, com certeza ainda há muita fascinação. Eu não conheço o Fritz nem o Henning; eles foram escolhidos como substitutos para mim e o Karl. Mas substituto é apenas substituto e, como em qualquer lugar, não é o original.

Keyboards – Suponha que fosse possível colocar o estúdio Kling Klang, como está hoje, com robôs e músicos, numa máquina do tempo e transportá-lo 20 ou 30 anos para o passado: como o público teria reagido a um show do Kraftwerk dos anos 90 naquela época? Teria correspondido aos clichês de futuro da época, teria parecido absurdo, ou teria apenas chocado?

Wolfgang Flür – A última opção parece a mais provável. Eu vivi algo parecido quando tocamos nosso primeiro show nos EUA em 1974, no Beacon Theatre, na Broadway (Nova York). Tínhamos quase nada no palco: só quatro tubos de neon coloridos no chão, um Minimoog, uma Farfisa, a flauta transversal do Florian – que ele ainda tocava na época –, seu ARP e nossos e-drums feitos à mão. O teatro estava lotado. Tocamos os primeiros sons de sintetizador e o público ficou paralisado com aquela estranheza, mas ao mesmo tempo fascinado com os timbres encorpados e nunca antes ouvidos. Lembro até hoje de muitas bocas abertas e olhos arregalados na plateia. Tínhamos poucas músicas e tínhamos que afinar os sintetizadores constantemente, pois ainda eram instáveis. Só as pausas de afinação já valeriam como espetáculo. Era esse o poder de atração dos synths naqueles primeiros anos. Ter vivido isso... inacreditável!

Karl Bartos – Kraftwerk numa máquina do tempo? Acho que seria preciso consultar H.G. Wells. Seria como "Enterprise" em 1968. Mas acho que as pessoas estariam mais ouvindo "Sgt. Pepper".

Keyboards – Karl Bartos, você voltaria ao Kraftwerk se Michael Jackson viesse a Düsseldorf para regravar "Mensch Maschine"?

Karl Bartos – Não.

Keyboards – Qual é o nível de amizade de vocês com Emil Schult?

Karl Bartos – Não vejo ou falo com o Emil Schult há anos.

Wolfgang Flür – Eu sou amigo do Emil desde o começo dos anos 70, e isso nunca mudou. Ainda trabalhamos juntos quando estou fazendo um novo álbum – como agora – ou um vídeo. Às vezes passamos férias juntos com a família e os filhos dele, ou nos visitamos.

Keyboards – Sempre quis saber: do que vivem o Ralf e o Florian se não lançam nada novo?

Wolfgang Flür – Não tenho ideia. Você teria que perguntar ao Ralf ou ao Florian.

Karl Bartos – Acho que eles são muito ricos.

Keyboards – O Kraftwerk já usava sequenciadores que facilitavam o trabalho de vocês?

Wolfgang Flür – Claro, já falei sobre isso algumas vezes. Encomendamos nosso primeiro sequenciador em 1978 no Synthesizerstudio Bonn. Era um analógico de 16 canais, grande e pesado...

Karl Bartos – Os sequenciadores? Matten & Wiechers (Synthesizerstudio Bonn), MC 202 da Linn e o Yamaha C1.

Keyboards – Qual era a quantidade total, o comprimento total e a espessura média dos cabos usados na gravação de “Autobahn”?

Karl Bartos – Não posso dizer, porque não participei das gravações de "Autobahn". O engenheiro de som Conny Plank provavelmente levou essa informação para o túmulo, já que era no estúdio dele.

Wolfgang Flür – Naquela época, nosso estúdio ainda era relativamente “tranquilo”. O número total de cabos utilizáveis era 28, com um comprimento total de 69,74 metros, e a espessura média diária era de 0,7 mm por cabo em uso. Quando não estavam em uso, a espessura caía 5% em volume. O número total de cabos não utilizáveis era 253, com um comprimento total de 972 metros e uma espessura diária efetiva de 0,665% (a frio). Isso sem contar os cabos que não estavam disponíveis para a gravação de "Autobahn"...

Keyboards – Nos shows vocês usavam o mesmo equipamento do estúdio, tipo “um para um”?

Karl Bartos – Mais ou menos.

Wolfgang Flür – Sim, com certeza.

Keyboards – Como vocês avaliam hoje a música do Kraftwerk no que diz respeito à “audiophile”?

Wolfgang Flür – O que é isso? É algo sexual? Então prefiro não comentar. Sempre entendem tudo errado e a imprensa distorce. Desculpe, vou me abster por razões pessoais. Sua pergunta é muito íntima.

Karl Bartos – Acho que “audiophile” não tem nada a ver com a qualidade da música.

Keyboards – O que vocês acham do grupo Komputer, cujo som lembra bastante os Kraftwerk mais recentes, a ponto de parecer a própria banda? Vocês acham que plágios como “Bill Gates” são irritantes (questão de copyright!) ou engraçados?

Karl Bartos – Li sobre o grupo e ouvi um pouco. No texto de divulgação eles chamam essa música de “Retro-Futuro” [risos]. Acho que o Daniel Miller realizou um sonho. Vou assistir a um show deles e aí terei uma opinião.

Wolfgang Flür – Não conheço o grupo, mas não tenho nada contra imitações. É até uma honra. Também conheço um grupo na Inglaterra que ainda hoje toca como Kraftwerk, mas sem ideias de músicas tão especiais. Até o “Kraftwelt” da Califórnia, que até vende bem, não tem ideias realmente boas. São todos imitadores. Eu mesmo não ficaria satisfeito com esse tipo de trabalho. É preciso criar algo próprio para alcançar verdadeira satisfação.

Keyboards – Karl Bartos, por que você lançou seu novo álbum sob o nome Electric Music e não como um projeto paralelo, já que ele difere bastante do álbum anterior [Elektric Music, Esperanto, 1993] e nem parece exatamente música eletrônica?

Karl Bartos – Eu não mudo meu nome a cada produção. Não é música de produtor; ela me representa pessoalmente. Reivindico para mim o direito de mudar – e a necessidade de mudar. Electric Music é uma espécie de selo pessoal. No momento, inclusive, estou trabalhando com alguns músicos em um show ao vivo.

Keyboards – Qual software você usou para os vocais sintéticos, por exemplo, em “Overdrive” do Electric Music?

Karl Bartos – Toda mulher tem seu segredo. [risos]

Keyboards – Vocês usam hoje mais equipamentos caseiros ou mais equipamentos comerciais?

Karl Bartos – Eu uso tudo o que aparece.

Wolfgang Flür – Posso dizer por mim que no yamo usamos exclusivamente equipamentos industriais. Hoje existem muitos aparelhinhos pequenos, potentes e acessíveis, então não precisamos mais desenvolver nossos próprios.

Keyboards – Vocês usam, como o Kraftwerk em 1998, o Schaltwerk e o Maq 16 da Doepfer?

Wolfgang Flür – Não.

Karl Bartos – Não.

Keyboards – Karl, na entrevista você dá a impressão de que falta dinheiro para comprar sintetizadores atuais (Yamaha SY, Korg Trinity, Roland JX 8000, Kawai K 5000, E-mu etc.). Por que você não tenta atuar como endorser (garoto-propaganda de alto prestígio que recebe equipamento gratuito) de alguma dessas marcas?

Karl Bartos – Boa dica. Quem eu deveria procurar? Estou aberto a ofertas.

Keyboards – É verdade que Wolfgang Flür compôs a trilha sonora de Robocop II, ou é apenas um boato idiota como o do seu suposto suicídio?

Wolfgang Flür – Eu mesmo já tive esse bootleg em mãos, e só posso dizer que nunca faria uma porcaria daquelas. Sou complicado demais pra algo tão barato. Mais uma vez alguém usou meu nome pra ganhar dinheiro. E essa de que eu estaria morto, li recentemente na internet. É a mesma coisa: alguém querendo se promover usando meu nome e informações inventadas. Essas pessoas têm personalidades fracas, precisam disso. Eu dou risada e não levo a sério. Que estou muito vivo, vocês ouvem em Time-Pie do yamo, ou no próximo inverno, no novo álbum Serenity Supreme. Já posso prometer algumas surpresas.

Keyboards – Por que não existe um projeto conjunto Flür/Bartos? Ou talvez em breve?

Wolfgang Flür – Talvez sim?! Quem sabe? Quem disse que isso não pode acontecer? Outra “invenção”?

Karl Bartos – Wolfgang e eu estamos sempre em contato, trocamos ideias regularmente e nos encontramos com frequência. Vamos ver o que surge daí.

Keyboards – Vocês não teriam vontade de criar novamente um projeto como o Kraftwerk e usar os equipamentos de ponta atuais para criar sons e faixas inéditas?

Karl Bartos – Parece interessante. E está em andamento.

Wolfgang Flür – Eu já faço isso à minha maneira com o yamo. Ouça minhas especialidades do Reno [subtítulo de Time-Pie]. Você vai encontrar coisas estranhas e deliciosas.

Keyboards – Vocês se imaginam trabalhando com outra banda? Tipo Daft Punk + Flür ou Bartos, ou Daft Punk com os dois?

Karl Bartos – Claro! Já fiz bastante coisa nessa linha: LFO, Afrika Bambaataa, Information Society, OMD, Electronic, Superior, Mobile Homes. Vamos ver o que mais aparece.

Wolfgang Flür – Não, isso não me atrai mais. Já participei bastante de projetos alheios, agora sigo meu próprio caminho. Espero que você entenda.

Keyboards – Vocês ainda farão música aos 70 anos? (Tomara!)

Wolfgang Flür – Também espero! Música, como se sabe, mantém a gente jovem e alegre.

Karl Bartos – Com certeza, a música continuará – como portadora de ideias!

Keyboards – O que vocês acham de músicos como Tangerine Dream ou Klaus Schulze, que nos anos 70 fizeram outro tipo de música eletrônica igualmente importante, e no caso de Schulze, na minha opinião, ainda fazem?

Wolfgang Flür – Sempre gostei dos “Tangs”, mesmo sendo uma área completamente diferente. Já com o Schulze eu nunca me conectei muito.

Karl Bartos – Conheci Christopher Franke em Los Angeles, e gostaria de conhecer Klaus Schulze. Claro que sempre gostei desse tipo de música.

Keyboards – Vocês já tiveram a sensação, no Kraftwerk, de pertencer a uma cena maior da música eletrônica, ou se viam apenas como integrantes do Kraftwerk?

Wolfgang Flür – Veja, estávamos sempre tão imersos no nosso próprio processo de autodescoberta que não nos voltávamos muito para fora. Ou seja, deixamos um certo egoísmo saudável agir para definir nossos próprios objetivos. Sabíamos que havia uma cena “elitista”, mas isso nos tocava pouco. Mas claro que éramos todos verdadeiros “kraftwerkers” com tudo que se tem direito, o que mais você esperava?

Karl Bartos – Acho que essa tal “cena” sempre é uma invenção dos jornalistas. Mas trabalhar no Kraftwerk era um verdadeiro modo de vida: Electronic Lifestyle.

Keyboards – Karl Bartos, você falou na entrevista da Keyboards sobre uma “sobrecarga de estímulos” na música eletrônica. Mas não há muito mais bandas de guitarra do que músicos que fazem boa música eletrônica?

Karl Bartos – Espero que compreenda: passei 20 anos fazendo electro sound e, de repente, em Manchester, redescobri a música da minha infância. Esse som esteve comigo todos esses anos, e agora eu precisava colocá-lo para fora.

Keyboards – O que vocês acham da cena eletrônica em 1998?

Karl Bartos – Não posso dar uma opinião generalizada.

Wolfgang Flür – Conheço alguns artistas e bandas incríveis aqui por perto, como o Bionaut de Colônia, Donna Regina de Colônia, Mouse On Mars de Düsseldorf/Colônia, Kreidler de Düsseldorf, A Certain Frank e Der Pyrolator de Düsseldorf, Air Liquide de Colônia, e outros semelhantes que gosto muito de ouvir. Trabalhei pessoalmente com alguns deles, e fico feliz em ver como eles trabalham, por exemplo, com sintetizadores. É enriquecedor pra mim. Meu novo álbum se beneficiará dessa colaboração.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Kraftwer — Live Brasil — Free Jazz — Folha de São Paulo, 19 de Outubro de 1998


A coisa foi muito séria. Às 22h do sábado, vídeos sincronizados à parafernália eletrônico-sonora do palco começavam a exibir números, anunciando a presença em cena do grupo de alemães (humanos?) Kraftwerk, tão importante para a música com computadores quanto Bill Gates para o mundo dos computadores.

Na dança dos números da canção "Numbers", que abriu a segunda noite do Main Stage na versão paulistana do Free Jazz Festival 98, as contas a fazer eram de que finalmente, depois de quase 30 anos de formação do Kraftwerk, o país abrigava em seus palcos um grupo musical de tamanho significado para a música, seja ela de qualquer vertente: pop, clássico, progressivo, punk ou até... eletrônico.

Alguém na platéia soltou que era a principal banda que tocou no Brasil desde 1500, o que remeteu diretamente à famosa capa da revista americana "Spin" ao grupo alemão, que indagou, na manchete: "Kraftwerk". Mais influentes que os Beatles?. É complicado discordar.
Começava "Computer World", a música-título do pulsante álbum de 1981, que jogou o punk dentro de um disquete e o entregou ao tecnopop.

A essa altura era engraçado testemunhar como um show de uma banda de três décadas soava tão completamente contemporâneo. Um testamento ao vivo de quão longe o Kraftwerk levou a pop music e quão pouco ela progrediu além das inovações proporcionadas pelo grupo alemão anos e anos atrás.

O show caminhava, e não era estranho se sentir um personagem de "Blade Runner" ou dos livros de Aldous Huxley, tentando dançar de maneira moderna músicas dos anos 70.

Em "The Man-Machine" e "Tour de France" (com imagens de ciclistas em movimento sendo projetadas nos telões), o clima era de uma noite na ópera. Eram operetas eletrônicas.

Ficava claro entender por que nos 70 os álbuns do Kraftwerk eram difíceis de ser encontrados nas lojas européias, já que parte delas colocava os discos nas prateleiras de música clássica.

As inqualificáveis "Autobahn" (as imagens do telão, agora, eram de carros em movimento), "The Model", "Radio-Activity" (hoje com letra alterada para um grito de "stop radio-activity") e "Trans-Europe Express" já haviam apressado a chegada do século 21 (já o tinham feito 20 anos atrás), em um espetáculo de sincronia sonora e visual, futurística e antiga (é só ver as duas músicas inéditas do show, que tentam simular um ambiente tecno anos 90) ao mesmo tempo, quando a cortina se fechou.

Minutos depois, todos os quatro homens-máquina estavam na frente das bancadas de sintetizadores, tocando "Pocket Calculator" com um pequeno controle remoto, como se estivessem com um joystick manipulando o som e as pessoas à frente deles como se fossem um bando de robôs.

Cortina se fecha, cortina se abre e começa... "The Robots".

Onde antes estavam os telões, quatro figuras robóticas substituíam os músicos e se moviam mecanicamente sob a batida eletrônica da música que foi hit de clubes dance do final dos anos 70.
Quantos robôs bacanas não foram criados pelo Kraftwerk nestes anos todos, de David Bowie a Afrika Bambaataa, de Depeche Mode à toda cena eletrônica dominante destes tempos?

Cortina se fecha, cortina se abre, e o final foi dado por "Musique Non-Stop", do último álbum inédito da banda, "Electric Cafe", lançado em 86.

Aí o quarteto vestia roupas pretas com listras verdes fluorescentes que mapeavam a anatomia de cada componente da banda, faziam de seus esqueletos circuitos de computador e transformavam os quatro caras humanos do Kraftwerk em, sim, andróides. Esse foi o final da história a que São Paulo estava assistindo.

Foi um show para não ser deletado jamais da memória. O único senão foi não ter levado meu PC para o Jockey Club. Ele iria amar o Kraftwerk.


domingo, 16 de outubro de 2016

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A balada do Kraftwerk no Rio de Janeiro - 1998



Contrariando a fama de frios e diferentes dos popstars em geral, os integrantes do Kraftwerk, sobretudo o líder Ralf Hütter, quando passaram pelo Rio de Janeiro, foram muito atenciosos com os fãs e DJs que os procuraram. Hütter, já havia acertado comigo, desde a entrevista para a DJ World, que queria conhecer a noite carioca. Quando ele chegou ao Brasil, logo rolou um encontro nos escritórios da EMI-odeon. Lá, Ralf confirmou sua vontade de sair para conhecer a noite, o que aconteceu no mesmo dia.

Após jantarem num restaurante italiano na lagoa, o quarteto  impecavelmente vestido com ternos clássicos de cortes italiano, deram uma “esticadinha” na festa febre, especializada em Jungle/Drum and Bass.  Como ainda era cedo (uma da manhã!), a Guetto, onde acontece a festa, estava vazia. Eles conversaram um pouco (contaram que no dia seguinte iam fazer um passeio turístico pela floresta da tijuca), observaram a pista de dança, e se retiraram.

Em seguida, foram até a nova casa Bunker, em Copacabana, onde acontecia a noite Jam Blaster (Black Music) Gostaram mais desta casa, que é a maior e estava mais animada, e ficaram algum tempo no local. Depois tiveram de se recolher, pois no dia seguinte haveria o passeio e também o show, que alias, foi um dos melhores shows de qualquer tipo de musica já apresentado no Brasil desde a época do descobrimento.

Na sexta-feira à noite (16 de outubro), após encerrarem o show, chamaram amigos até o camarim para despedidas. Lá, bastante animado, Ralf contou que pretende voltar ao Brasil para uma turnê por outras capitais, caso isso seja possível. Mas foi enfático ao afirmar que, com ou sem show, voltará para conhecer Brasília e sua arquitetura futurísticas (seu sonho era fazer um show do Kraftwerk na catedral da cidade) e fazer um passeio pela floresta amazônica.


Após descansar do show, Hütter foi até o Main Stage e assistiu a uma parte da apresentação do Massive Attack incógnito. Depois, voltou para o Hotel Ipanema com seus companheiros de grupo e embarcou para São Paulo na manhã seguinte. Os Homens-Máquina se mostraram bem humanos que a maioria dos rockstars brasileiros....  







sexta-feira, 15 de abril de 2011

Entrevista 1998 - International Magazine



Entrevista com Ralf Hütter para extinto jornal (tablóide) carioca sobre música chamado Internacional Magazine. Entrevista feita quando Kraftwerk se apresentou pela primeira vez no Brasil em outrubo 1998.

Por Marcelo Froés e Emílio Pacheco

Segundo a gravadora EMI, um grande interesse por parte da imprensa brasileira convenceu o grupo Kraftwerk a fazer uma rara sessão de entrevistas. A história mostra que pode-se contar nos dedos das mãos as pouquíssimas ocasiões em que trintenário grupo alemão falou aos jornalistas. Portanto o fato de o INTERNATIONAL MAGAZINE ter aberto a tarde de entrevistas na sede brasileira da EMI – em Botafogo, zona sul carioca - foi uma grande honra. Representando o grupo, o tímido e elegante Ralf Hütter conversou por meia hora conosco.

Vocês são ciclistas fanáticos. Não trouxeram suas bicicletas para o Rio?

Não. Porque sabíamos que a cidade é agitada – cheia de gente pelas ruas – e, além do mais, esse negócio de turnê é um corre-corre danado de ensaios, shows e... entrevistas (rindo)!

Como é que para vocês estar novamente na estrada, depois de cinco anos?

Bem, nos sempre fazemos concertos. Em 91 nós fizemos toda Europa, depois em 92 nos voltamos à Inglaterra e em 93 fizemos mais alguns shows. Ano passado nós tocamos num festival na Alemanha e esse ano nós estamos finalmente rodando o mundo.

Por quê vocês levam tanto tempo para gravar e lançar um disco?

Nós trabalhamos em nosso estúdio – Kling Klang, em Düsserldorf – e, como é um estúdio de eletrônica, trabalhamos o tempo todo – todo dia mesmo. Exercemos todo tipo de atividade, fazendo gráficos no computador, vídeos e também ajudamos na construção de instrumentos. Nos trabalhamos com alguns amigos em programas, tanto de fala como de música. Somos muito autônomos...

Mas e quanto tempo que vocês levam gravando um disco?

Ah, nosso tipo de música é muito diferente de qualquer outra. É tecno, portanto tem a ver com tecnologia. Fazemos instrumentos, criamos programação e nos anos 70 nós até inventamos alguns instrumentos... que agora estão até em uso. Nos ainda trabalhamos com nossos velhos sintetizadores em nosso repertorio mais antigo. Está tudo em cima, portanto temos muita coisa a fazer para que a música funcione.

Como vocês gravam?

Gravamos em Hard Disk,portanto o que não presta a gente simplesmente aperta um botão e apaga. Gravamos muito pouco, temos um processo bastante diferente de trabalhar. Pensamos antes de trabalhar e aí trabalhamos com direcionamento. É tudo digital, só trabalhamos com gravação em Hard Disk.

Mas vocês cancelaram o lançamento “Technopop” em 1983.

Ele não foi cancelado... porque ele simplesmente nunca foi terminado. Estávamos trabalhando nele e talvez o lançamento tenha sido anunciado. Mas, muito embora estivéssemos trabalhando nele, de uma hora para outra lançamos outra coisa e no final mudamos o titulo para “Eletric café”. Talvez no futuro o lancemos.

Antes que saia no mercado pirata, né? Afinal, o primeiro álbum de vocês – ainda como Organization – tem sido reiteradamente pirateado nos últimos anos.

Bem, aquele disco não tem nada a ver com a gente. Foi apenas uma gravação de teste, nem mesmo a titulo de historia tem a ver com a gente. Um engenheiro gravou, mas aquilo nada tem a ver com o Kraftwerk. Sei que nós gravamos aqui, mas não temos o menor interesse naquilo porque nossas idéias mudaram bastante quando começamos o Kraftwerk. Demos um passo muito importante quando construímos o estúdio Kling Klang e nos tornamos completamente independentes.

Como é a rotina no estúdio de vocês?

É como um laboratório, pois fazemos todo tipo de coisas. Não fazemos só música, escrevemos letras e fazemos gráficos, além de conceber vídeos etc. fazemos filmes e vídeos trabalhamos muito com multimídia.

O que você acha da utilização da tecnologia por bandas de garagem, que estão trazendo para o universo do rock toda a influencia da musica eletrônica?

Não tenho a menor idéia a respeito, pois prestamos mais atenção nos sons da industria e da vida diária nas ruas. Afinal, temos dois ouvidos que são verdadeiros microfones estereofônicos. Então, quando você me pergunta o que ouvimos, tenho que te dizer que escuto de tudo... Pois somos verdadeiros microfones ambulantes. Nos consideramos assim, pois andamos pelas ruas e prestamos atenção nos carros, nas fábricas e nos sons da natureza.

Como funciona o seu processo de composição?

Rola no estúdio, pois é um trabalho. Não faço musica em casa, pois nem piano tenho. As tenho algumas idéias a respeito de conceito, mas não temos métodos ou formulas. Somos totalmente autônomos.

O que você acha do sampler e de suas musicas serem sampleadas por outros?

Bem, é como uma fotografia. Você pode fazer colagens, mas nós não fazemos esse tipo de coisa. Não temos muito interesse nisso, preferimos criar sons e jamais nos repetir. Criamos sons, os estocamos em nossos computadores...Quanto a outros utilizarem samples de nossas músicas, tudo depende do tipo de utilização que fazem. DJs podem fazer coisas interessantes, mas as vezes as pessoas não têm idéias novas e saem pegando verdadeiros trechos por aí. Esse negócio acaba limitando muito.

Vocês se interessam em ouvir quando sabe que alguém aproveitou alguma coisa sua?

Bem, isso rola em discos dance, né? Quando se vai aos clubes, ouve-se muito. Os DJs fazem discos e isso é uma forma de se fazer musica. Mas é apenas uma de se fazer musica, de qualquer forma.

O que você acha da música de vocês ser utilizada em comerciais de radio e TV?

Isto não é possível, pois temos controle total sobre a edição das músicas e simplesmente não autorizamos. A música fala por si.

O que você acha das gerações de músicos e bandas que se dizem influenciadas pelo kraftwerk?

Às vezes temos esse tipo de retorno e é bom, pois quando começamos nos isolamos completamente. Existia o mainstream e nós apesar de isolados, prevíamos este futuro de música eletrônica que hoje é uma realidade.

O que você acha da música do kraftwerk ter influenciado na disco music, na dance music etc?

É como dizemos em Robots, uma música que eu fiz: dançamos mecanicamente, portanto é um tipo de dança mecânica, né? Fizemos essa música nos 70...

David Bowie e vocês já trocaram citações em músicas e ele próprio comenta que gostaria de trabalhar com o kraftwerk. O que você acham disso?

Nos nunca encontramos tempos para fazer isso. Até agora, estivemos tão envolvidos com o kraftwerk –terminado discos e fazendo turnês-, que nunca fizemos nada por fora. Nunca fizemos nada com ninguém, nem mesmo filmes etc.

Vocês sentem falta disso?

Não, eu acho que somos bastante auto-suficientes... sempre fomos extremamente individualistas, porque viemos do nada e de uma realidade alemã que não tinha nenhuma musica contemporânea. Eu acho que tivemos que criar essa música e a nossa música eletrônica nos coloca numa posição culturalmente muito diferente. Estamos a meia hora da Bélgica e a quatro horas de paris, portanto estamos no olho da Europa. Vivemos uma situação cultural bastante peculiar.

Podemos esperar um novo álbum para breve?

Sim, a EMI irá lançá-lo no inicio do próximo ano. Não iremos tocar nada deste novo repertorio nos shows do Free jazz Festival, mas estamos testando algumas programações.

Podemos esperar que vocês sejam um dos primeiros a lançar um DVD áudio, com mixagem especial para os diversos canais?

Sim, afinal já estávamos utilizando o soundround nos concertos. Talvez o façamos num disco, mas... Eu gosto da idéia de dar liberdade a quem nos ouve. É como uma audição microscópica, você pode penetrar no som. Mas você também pode se afastar dele, portanto não gosto muito da idéia da música cercar as pessoas por todos os lados. Mas é claro que precisamos pensar melhor sobre isso, afinal faz parte de nossas apresentações em multimídia. Quando fazemos um concerto, temos algumas coisas rolando...Mas eu prefiro a idéia de me aproximar e me afastar à vontade da música. Você tem mais liberdade com o estéreo.

O kraftwerk é sinônimo de música eletrônica, mas vocês algumas vez já discutiram a hipótese de fazerem alguma coisa inesperada... como um disco ou um show acústico?

Bem, nós poderíamos fazer algo para MTV e simplesmente chamar de “Plugged”... seria o que fazemos, né? Outras pessoas já fizeram isso com nossas músicas, alguém já gravou com quarteto de cordas etc. talvez outros possam fazer isso melhor que a gente, eu prefiro assim. É uma idéia interessante, afinal a música acaba crescendo na mão de outros. Lançamos um Sputnik e ele dá em alguma coisa.

O kraftwerk vem de uma cena em que rolava muitos happenings em torno da música. Isso está voltando agora. Qual será o futuro da música?

Será mais rápida... quer dizer, falo em termos do processo de criação. Será mais rápida, do momento em que se pensa em fazê-la até o momento em que ela é feita. Você ainda tem que ter estúdio, tecnologia etc. quando eu me comunico com meu parceiro Florian, muitas vezes a gente nem precisa concretizar a música...mas isso é porque a gente usamos a mesma linguagem. Muitas vezes levamos dias, semanas, meses ou anos para terminá-la, mas acho que com os computadores a coisa pode ser mais rápida. Hoje em dia a gente pode concretizar coisas como Autobahn em concertos, com todas aquelas imagens multimídia que nos anos 70 a gente simplesmente não podia sincronizar - a não ser que tivesse toda uma produção hollywoodiana envolvida.

Você acha que a Internet pode ser útil nesta rapidez?

Sim, também. Até agora vimos trabalhando em música, mas talvez no futuro não tenhamos mais interesse em fazer apenas uma hora de musica num CD. Eu nem deveria dizer algo assim dentro de uma gravadora, mas talvez nos liguemos mais na Internet –onde temos uma homepage. Temos uma homepage com pouca informação, mas daqui a pouco talvez possamos tocar o próximo disco na Internet...muito embora a gravadora possa não gostar nem um pouco da idéia. Mas será mais ou menos assim.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Unreleased Tracks

Durante as turnês de 1997-1998 o kraftwerk apresentou cerca de três músicas novas ao público. Músicas que só foram executadas ao vivo e até o momento, nunca foram lançadas oficialmente.

Os únicos registros dessas músicas estão disponíveis em gravações não oficiais (bootlegs) e em poucos vídeos feitos por fãs durante as apresentações.

As músicas “novas” são: Tango (com um trecho de Air Waves), The Tribal Gathering (nome do festival onde kraftwerk se apresentou em 1997, marcando a volta da banda aos palcos) e ZKM. Os títulos para essas tracks não são oficias, elas foram nomeadas pelos fãs da banda.

Na Tour de 2002-2003 a faixa "Tango" chegou a ser executada ao vivo.





"Tango"

"Tribal Gathering"