terça-feira, 15 de julho de 2025
Ralf Hütter — Entrevista — Rolling Stone —15 de julho — 2025
domingo, 13 de julho de 2025
Ralf Hütter — Entrevista — Corrie Della Sera — 2025
por Sandra Cesarale
Ralf Hütter, fundador da inovadora banda alemã: acreditamos na multimídia da música
“Sou o operador do mini computador”: Ralf Hütter, cofundador junto com Florian Schneider dos Kraftwerk, recita com naturalidade em italiano um verso de “Pocket Calculator”, tal como foi cantado em 1981 na televisão durante o programa Discoring. Ele sorri e esclarece: “Mas eu não falo a sua língua. No entanto, estudei latim e sei francês”.
Ele acaba de chegar a Roma vindo de Stuttgart, onde os Kraftwerk fizeram um concerto para sete mil pessoas. O visionário grupo alemão, inovador da música eletrônica, também estará na Itália para dois shows em julho: dia 18 no Teatro del Silenzio, em Lajatico (“Espero tocar lá há dois anos”) e dia 25 no Teatro Antico de Taormina. Ralf, que completará 79 anos em agosto, está sentado em um dos cômodos do decadente e fascinante apartamento em estilo art nouveau, transformado na galeria de arte Indipendenza, que hospeda a exposição “Kraftwerk – The Man Machine”, organizada pelo londrino Michael Bracewell.
“A obra dos Kraftwerk sempre foi uma arte multimídia. Unimos filmes, animação, gráficos e álbuns. É como um poderoso show que torna a música visível. Criamos imagens que estimulam os sons. Nunca contratamos um artista famoso, tudo é feito em casa, por nós”.
Vocês começaram no final dos anos 60.
“Somos de Düsseldorf, no início nos apresentávamos apenas em galerias de arte, museus e pequenos clubes”.
Por quê?
“No mundo todo o rock’n’roll de sucesso nas paradas dominava. E nós éramos jovens experimentadores”.
Frustrante?
“Não, era exatamente o que queríamos ser e tocar”.
Os Kraftwerk, com robôs, naves espaciais e computadores, previram um mundo dominado pela tecnologia.
“Um pouco me assusta ter antecipado o futuro, a realidade, os acidentes. Nossa música poderia ser definida como um documentário de fantasia”.
David Bowie era um admirador de vocês, mas nunca colaboraram. Por quê?
“No final dos anos 70, nosso estúdio Kling Klang não estava equipado para gravações profissionais, tínhamos apenas os instrumentos para fazer nossa música. Por isso encaminhei David e Iggy Pop para Berlim”.
Uma oportunidade perdida?
“Não, porque justamente em Düsseldorf nasceu nossa amizade e as letras do álbum Trans-Europe Express também falam sobre nossa relação. A primeira vez que tocamos essa música ao vivo com os Kraftwerk, no Paradiso de Amsterdã, foi uma emoção inesquecível: tínhamos criado música a partir da vida”.
Sente falta de artistas como Bowie?
“Sim, obviamente. Mas precisamos continuar ouvindo e nos abrindo ao mundo”.
Agora é a Inteligência Artificial que cria músicos.
“Prefiro falar de Inteligência Artística, a criatividade expressa pelo indivíduo”.
A IA não é perigosa?
“Não, porque a arte e os artistas sempre sobreviverão”.
O último álbum, Tour de France, é de 2003. Quando virá um novo trabalho?
“Me perguntam isso com frequência: quando estiver pronto”.
Sem piadas?
“Agora estamos concentrados nos shows ao vivo. Nos novos concertos reunimos todo o nosso repertório. Nos últimos 50, 60 anos escrevi com meu parceiro letras e músicas que ainda hoje podemos levar ao palco”.
Seu parceiro, Florian Schneider, faleceu há cinco anos.
“Ele quis me ver antes de morrer. Sua perda me marcou profundamente. Começamos juntos em 1968. Não éramos uma banda, mas um instrumento. Florian deixou os Kraftwerk em 2008, muito estresse, ou talvez já sentisse que a doença havia começado a atacá-lo”.
O senhor olha para trás às vezes?
“Não, sigo sempre em frente”.
11 de julho de 2025
Link Original : Corrie Della Sera
sábado, 12 de julho de 2025
Ralf Hütter — Entrevista — The Daily Telegraph – Janeiro — 2003
(Entrevista por Patrick Hamilton)
Eles estavam ocupados com uma temporada de apresentações próprias na Cité de la Musique, o museu e centro cultural da música em Paris. Substituindo-os no festival Big Day Out, para a incredulidade dos fãs locais de longa data, estavam os notoriamente reclusos membros humanos do Kraftwerk: os fundadores Ralf Hütter e Florian Schneider, junto aos colaboradores veteranos Fritz Hilpert e Henning Schmitz. Sentado na penumbra da van de turnê do Kraftwerk, do lado de fora do Big Day Out em Auckland, o verdadeiro Ralf Hütter movimenta os braços lentamente para demonstrar o gesto do seu clone robótico, lá em Paris.
— "Eles fazem uma dança lenta de motorista, que algumas pessoas chamam de Tai Chi", diz ele. "Eles têm nossos rostos."
Aos 54 anos, Hütter — com seu inglês calmo e quase perfeito — lida educadamente com a ideia de que seus robôs o tornaram, junto aos outros Kraftwerkers, imortais e sem idade.
— "De certo modo, sim", responde. "Também há um ditado alemão: ‘Ewig währt am längsten’ — o eterno dura mais. Isso tem a ver com automação. E também, enquanto eu estou dando uma entrevista, os robôs podem fazer uma sessão de fotos, filmagens, então é um processo de arte industrial. É daí que eles [os robôs] vêm."
Uma entrevista com Hütter — um evento raro — soa e parece como uma cena longa de um filme de Stanley Kubrick. Ele é tanto um cientista da computação quanto um músico inovador, um oráculo do techno e inventor prático. Os temas são constantes, todos alinhados com o manifesto do Kraftwerk, que essencialmente permaneceu inalterado ao longo dos 33 anos do grupo. Veja esse revelador trecho:
Hütter diz que talvez até trabalhem nesse álbum em breve, enquanto estiverem na Austrália. Atualmente, a amada tecnologia do Kraftwerk avançou tanto que eles conseguem levar seus célebres estúdios Kling Klang em laptops. O grupo sempre afirmou que esse era o destino da música. Claro, os fãs já ouviram esse papo sobre um novo álbum antes — inclusive, um disco sem título chegou a ser incluído na lista de lançamentos da EMI em 2000. Nada aconteceu, embora o mundo tenha recebido uma nova música na época, Expo 2000, que veio com remixes de protegidos do Kraftwerk, como o Orbital e o Underground Resistance de Detroit.
Embora eles não lancem um álbum de material inédito desde Electric Café em 1986, Hütter diz que ele e a comunidade Kraftwerk têm trabalhado constantemente:
— "Nos chamamos de trabalhadores musicais — musik arbeiter", diz. "É o que fazemos. Sempre temos pessoas trabalhando de perto conosco em vários projetos — artistas, cinegrafistas, programadores, pessoas de imagem, e nossos amigos [como o artista Emil Schult] — há muito, muito tempo, pintando, pintando para a capa do Autobahn [de 1974] (e também Computerworld, de 1981). E letras."
Desde os tempos em que precisavam construir seus próprios protótipos de instrumentos eletrônicos, Hütter diz que o Kraftwerk manteve uma relação próxima com os engenheiros de música eletrônica que continuaram esse trabalho, atuando como "pilotos de teste" de novos programas musicais. A tecnologia, segundo ele, tem sido generosa com o Kraftwerk:
— "Estamos felizes — anos atrás tínhamos que carregar toneladas de equipamentos analógicos e agora é tudo digital, em disquetes, discos rígidos e todos os tipos de armazenamento", diz. "Para nós é perfeito. É, digamos, portátil. Pocket Calculator, uma música que compusemos há mais de 20 anos, hoje é uma realidade para nós. Assim, podemos viajar mais. Tudo está funcionando a nosso favor, o que é ótimo."
Hütter diz que suas adoradas máquinas raramente falharam ao longo dos anos. Ele atribui isso ao respeito que lhes dedicam:
— "Tivemos sorte...", diz... "Tratamos nossa tecnologia com muito cuidado e amor, e ela nos retribuiu. Fomos bem tratados pela tecnologia. Como dizemos, às vezes tocamos as máquinas, e às vezes as máquinas nos tocam. Então funciona muito bem, é simbiose."
Já faz 21 anos desde que o Kraftwerk se apresentou na Austrália. Mas isso não significa muita coisa — após a turnê mundial no fim de 1981, o grupo só voltou aos palcos em 1990. Tirando uma turnê europeia em 1991, as aparições foram esporádicas. Tocar em uma festa dançante de um dia inteiro, como a do Boiler Room, não é uma experiência única para o Kraftwerk, embora eles estejam mais acostumados a um público mais refinado — ou ao menos menos suado.
— "Tocamos em todos os lugares", diz Hütter. "Centros de arte. Na maioria das vezes fazemos shows nossos. [Para] pessoas do cinema, teatro, visuais, arte performática, música, dança, disco."
Apesar das ausências, o status do Kraftwerk na cultura popular não se alterou. Afinal, como todos sabem, esses senhores virtualmente inventaram — ou ao menos organizaram os blocos fundamentais — da música como conhecemos hoje. E forneceram alguns dos mantras musicais mais tocantes e minimalistas ao longo do caminho: Autobahn, Computer Love, Pocket Calculator, Tour de France. Hütter diz que seu Kraftwerk biônico sempre buscou agradar "tudo" o que é humano:
— "Os pés, o coração, o intelecto, o corpo."
— "Acho que isso também facilita o entendimento em diferentes aspectos culturais. Então tocamos aqui, tocamos ali, tocamos. Todos os dias. Musik arbeiter."
quinta-feira, 10 de julho de 2025
Ralf HUtter — Entrevista — Sound Check Magazine – Setembro de 1991
Entrevista com Philipp Roser
terça-feira, 8 de julho de 2025
Ralf Hütter — Ciao Magazine — Setembro — 1991
Entrevista com Ralf Hütter publicada na revista Ciao Magazine em setembro de 1991 (versão italiana):
Ciao Magazine – Quando nos encontramos na Itália, vocês manifestaram a intenção de lançar um álbum ao vivo. Depois saiu a coletânea. E agora?
Ralf Hütter – A verdade é que as faixas de The Mix foram pensadas e remixadas para se tornarem um álbum ao vivo. No sentido de que também foram retrabalhadas digitalmente e tratadas com amostragens criadas a partir das antigas gravações dessas mesmas músicas. Começamos por Autobahn, eliminando o material dos três primeiros discos porque há anos não tocamos mais essas músicas ao vivo. Obviamente, faixas como The Model foram sacrificadas, pois não era possível incluir toda a nossa produção mais relevante — mas isso pode significar que em breve uma segunda coletânea poderá ser lançada. Os shows na Itália e na Alemanha serviram como primeiro banco de ensaio para experimentar e aprimorar nosso som. Para isso, levamos sempre conosco os equipamentos dos estúdios Kling Klang, que reduzimos e transformamos em um estúdio compacto e transportável. Após terminarmos a mini-turnê na Itália, voltamos para a Alemanha para fazer mais algumas datas e, em Düsseldorf, finalizamos as gravações do nosso ao vivo. O disco reunirá todas as nossas músicas mais famosas, de Tour de France a Radioactivity.
Ciao – Então, apesar de tudo, vai sair um álbum ao vivo...
Ralf Hütter – Acho que sim. Será um mix do que vocês ouviram nos concertos italianos.
Ciao – Falando do início de vocês, sei que vêm de formação musical clássica. O que você lembra das aulas no Conservatório de Düsseldorf?
Ralf Hütter – Eram normais, voltadas para pessoas da alta burguesia.
Ciao – Naquela época vocês já tocavam instrumentos eletrônicos?
Ralf Hütter – Não, tocávamos instrumentos acústicos. Só mais tarde abandonamos esse tipo de música e nos dedicamos à eletrônica contemporânea. Vivendo na Alemanha, na região do Ruhr, caracterizada pelas numerosas indústrias metalúrgicas, nossa música representa a trilha sonora do cotidiano. Nossas composições, no entanto, não são desprovidas de um pano de fundo cultural que parte da música clássica alemã, especialmente Beethoven. Por outro lado, há também referência à música eletrônica de Stockhausen, embora nunca tenhamos tido contato pessoal com ele. Esses foram os pontos de partida para desenvolvermos os ritmos industriais. Nossa música é mais normal e dinâmica em comparação à dos Tangerine Dream, que é contemplativa e meditativa.
Ciao – Antes você definiu sua música como “trilha sonora do cotidiano... para desenvolver os ritmos industriais”; essas ideias já haviam sido expostas pelo futurismo. O que vocês herdaram daquele movimento?
Ralf Hütter – Nos interessavam a velocidade, o movimento e a teoria de A arte dos ruídos, de Luigi Russolo, que deu início à pesquisa musical de vanguarda. É aí que podemos situar o começo da música dos ruídos, e é a essa família espiritual que nos sentimos idealmente ligados.
Ciao – Do que vocês mais foram influenciados no começo da carreira?
Ralf Hütter – Da vida cotidiana.
Ciao – Como se conecta o seu primeiro lançamento discográfico como Organisation com o nascimento do Kraftwerk?
Ralf Hütter – Foi um período em que o grupo mudava sempre. Uma vez fazíamos uma coisa, outra vez outra. Tanto eu quanto Florian tocávamos com muitos músicos. Em 1970, construímos os estúdios Kling Klang, e foi daí que nasceu o Kraftwerk.
Ciao – Que resultados vocês alcançaram usando os equipamentos dos estúdios Kling Klang?
Ralf Hütter – É tudo digital, analógico-digital e computadorizado. Isso nos permite reproduzir qualquer tipo de som e compor o que chamamos de música contemporânea.
Ciao – Qual é a relação entre a música e as imagens computadorizadas que aparecem nos seus vídeos?
Ralf Hütter – Não gostamos de nos limitar apenas à música: somos multimídia. Há uma conexão estreita entre música e imagem. Através das experiências que tivemos trabalhando com profissionais do New York Institute of Technology, conseguimos criar um diálogo entre elas. Criamos vídeos baseados justamente nessa relação.
Ciao – Os shows que vocês apresentaram na Alemanha são semelhantes aos que fizeram na Itália?
Ralf Hütter – Sim, mas atualizados conforme nossas necessidades atuais, porque estamos sempre trabalhando e tudo é constantemente renovado.
Ciao – No início, a crítica musical colocou vocês entre os artistas da cosmic music...
Ralf Hütter – Já mencionei isso antes, ao falar do Tangerine Dream e da nossa diferença. Na época, os críticos não tinham entendido que o Kraftwerk não fazia música cósmica, mas música terrestre. É verdade que a Terra faz parte do cosmo, mas fazemos música ligada à urbanização. A geografia musical alemã é muito variada: cada centro como Munique, Frankfurt, Colônia, Düsseldorf, Berlim, criou sua própria música. Nós, por exemplo, pertencemos a Düsseldorf e ao mundo industrial dessa cidade.
Ciao – Seguindo seu raciocínio, qual foi a influência de Munique na produção de Giorgio Moroder, que inclusive assimilou muitas das suas experimentações?
Ralf Hütter – Munique está mais voltada à música disco e é mais próxima da música de lazer de Los Angeles.
Ciao – Até que ponto a tecnologia é importante para a sua vida musical?
Ralf Hütter – Os sons sintetizados, computadorizados e a telemática são a nossa vida: queremos fazer um tipo de música que fale por si só, que seja transparente e una arte e tecnologia, como já acontecia nos anos 1920, na época da Bauhaus de Weimar. Desde então, o progresso tecnológico avançou muito rapidamente e hoje podemos nos considerar pessoas afortunadas, pois conseguimos até nos deslocar junto com nosso estúdio de gravação. Nosso pequeno mundo de computadores nos permite compor e gravar ao mesmo tempo em qualquer lugar onde estejamos.
Ciao – Muitos artistas, entre eles David Bowie, John Foxx e Gary Numan, afirmaram ter sido influenciados por vocês. O que pensam deles?
Ralf Hütter – Esses artistas desenvolveram sua própria versão da eletrônica contemporânea. Hoje, o efeito de feedback eletrônico faz com que muitos grupos se aproximem desse modo de fazer música, especialmente a black music com o som techno de Detroit.
Ciao – Em 1977 o punk renegou todos os outros tipos de música, inclusive a de vocês. Qual foi sua avaliação daquele fenômeno?
Ralf Hütter – O punk foi mais um movimento, nunca foi interessante para nós, porque não se podem criar sons novos com instrumentos antiquados. Mesmo naquele período, seguimos sempre nosso próprio caminho.
Ciao – Qual será o futuro da sua música e da música alemã?
Ralf Hütter – O futuro começa hoje. Existem muitos grupos jovens crescendo, inclusive alguns jovens negros amadores. Essas bandas são muito afortunadas, enquanto nós precisávamos de uma formação muito variada e extensa. Eles só precisam aprender a usar o computador e os pequenos teclados eletrônicos. Acho isso muito positivo.
Ciao – As críticas mais frequentes contra vocês dizem que sua música é fria e sem sentimento...
Ralf Hütter – Essas acusações foram feitas, ou ainda são feitas, por pessoas que não se conhecem. São baseadas em falsidades iniciais e não as consideramos aceitáveis. Além disso, se escutássemos tudo o que dizem nossos inimigos, entraríamos em paranoia. Só depois de agir e mudar as situações é que se pode parar para escutar. Nós fizemos a música verdadeira — assim como existe o cinéma vérité, fazemos a musique verité, porque todos somos robôs. Em nossos shows, apresentamos situações reais em forma de pequenas sinfonias, como Autobahn ou Trans Europe Express.
Entrevista por Giuseppe Cavazzoni
domingo, 6 de julho de 2025
Ralf Hütter — Entrevista — Hot Press Magazine — Agosto — 2005
Ralf Hütter publicada na Hot Press Magazine, em agosto de 2005, realizada por Stuart Clark:
Na véspera da apresentação principal do Kraftwerk no festival Electric Picnic, o líder Ralf Hütter fala com uma franqueza rara sobre David Bowie, U2, hip-hop, ciclismo e por que, às vezes, até homens-máquina precisam sorrir.
Fale sobre uma criança em uma loja de doces: depois de 30 anos de fanatismo, estou finalmente ao telefone com o Kraftwerk — um grupo tão recluso que só recentemente começou a se comunicar com o mundo exterior por meios que não fossem fax. Diante disso, seria de se esperar que o líder Ralf Hütter fosse um entrevistado relutante, mas, não — a única hora em que o senhor de 59 anos parece preferir estar refazendo a fiação de uma placa de circuito é quando pergunto se ele aprova o termo “Krautrock”.
“Isso só existe na cabeça de jornalistas estúpidos”, diz ele, colocando firme e diretamente a mim — e à minha profissão — em seu devido lugar. “Qualquer pessoa que entenda de música sabe que Kraftwerk não é o mesmo que Can ou Tangerine Dream. Eles tentam criar uma ‘cena’ que, na verdade, não existe.”
Esqueça a Alemanha — não havia ninguém no mundo que soasse como o Kraftwerk quando eles surgiram no cenário internacional em 1974, graças a “Autobahn”. Uma epifania musical para todos, de Bowie a Bambaataa, seus ecos ainda são sentidos hoje. Qual foi o primeiro disco que causou impacto em Hütter?
“Tutti Frutti, do Little Richard”, diz ele, soando como um garoto de 12 anos de novo. “A rádio estatal alemã não tocava rock’n’roll, então a gente sintonizava as transmissões da American Forces Network de Stuttgart. Lembro de ficar muito empolgado quando os Beatles apareceram — e irritado com meus pais por não me deixarem ir a um show deles. Depois disso, viajávamos por toda a Alemanha para ver bandas. Como não tínhamos dinheiro para hotel, dormíamos no carro.”
Hütter talvez tivesse seguido uma trajetória mais ortodoxa no rock se não fossem suas experiências de fim dos anos 60 com Pink Floyd e LSD. Com horizontes ampliados, o Kraftwerk montou sua lendária base Kling Klang em Düsseldorf, com equipamentos que eram de ponta na época, mas que hoje pareceriam peças de museu.
“Todos nos conhecemos em cursos de improvisação realizados na universidade aqui”, ele continua. “Naquela época, nosso equipamento era ao mesmo tempo muito simples e muito caro — o primeiro Mini-Moog que comprei custava o mesmo que meu Volkswagen! Trabalhamos muito com câmaras de eco e vários tipos de gravadores de fita.”
Com o analógico como norma da indústria (e não como fetiche retrô), o Kraftwerk era forçado a usar técnicas de edição bastante primitivas.
“Para colar uma parte de uma música na outra, tínhamos que cortar a fita com uma lâmina e depois colar os pedaços. Você perdia quatro ou cinco segundos e só os encontrava depois grudados no seu cotovelo. Era tudo muito minimalista.”
Minimalista ou não, essas sessões iniciais de estúdio renderam fãs ilustres como Brian Eno e David Bowie, que por alguns anos quase virou um tributo ambulante ao Kraftwerk.
“Encontramos David Bowie depois de um show dele em Düsseldorf, e ele nos disse que tinha dirigido por aí em seu Mercedes ouvindo Autobahn sem parar”, lembra Hütter com carinho. “Ter uma figura tão respeitada no rock dizendo ‘vocês têm que ouvir esse grupo’ fez com que, de repente, tivéssemos um público mainstream. Por causa disso, conseguimos fazer turnês no exterior e comprar novos equipamentos.”
O status iconoclasta do Kraftwerk fez com que eles fossem uma das poucas bandas que não foram descartadas com a onda punk.
“Talvez tenhamos um pouco dessa atitude punk”, reflete Ralf. “Fazer as coisas do nosso jeito e usar o ambiente ao nosso redor como inspiração para a música. Os Ramones fizeram isso em relação a Nova York, assim como o MC5 e os Stooges foram profundamente ligados a Detroit.”
O número de bandas punk e pós-punk influenciadas pelo Kraftwerk é impressionante — Siouxsie & The Banshees, Adam & The Ants, PIL, Boomtown Rats, Joy Division, Cabaret Voltaire, Human League, Simple Minds, Depeche Mode, Tubeway Army, OMD e Ultravox, todos pegaram carona no catálogo do grupo. Mais surpreendente ainda é o papel que o Kraftwerk teve — sem querer — no nascimento do hip-hop em Nova York, em 1981.
“Nosso assessor nos levou a um clube em Nova York onde o DJ estava tocando Trans Europe Express”, diz ele com orgulho paternal. “Ao invés de terminar, a música continuava, e continuava, por uns 15 minutos. Fui até a cabine e lá estava o Afrika Bambaataa nos toca-discos. Foi uma grande surpresa — mas muito agradável.”
Dois anos depois, o Kraftwerk estava fazendo sua própria versão de beatboxing humano.
“Em Tour De France, usamos o som da minha respiração e do meu coração retirado de um eletrocardiograma. Essa música tem, no sentido mais literal, uma qualidade humana.”
Quando Hütter disse recentemente que “Ciclismo é o homem-máquina. Trata-se de dinâmica, de continuar sempre em frente, sem parar”, parecia quase como se ele estivesse delineando o manifesto do Kraftwerk.
“O ciclismo tem muitos paralelos com certos aspectos da música, sim”, ele concorda. “Em 2003 fomos convidados a ser convidados nos helicópteros da Tour de France, o que nos colocou bem dentro da corrida e da sua organização. Nós mesmos pedalamos e já percorremos todos os passes nos Alpes e Pirineus.”
Seria uma falha grave no meu dever jornalístico não perguntar a Ralf sobre a versão de Neon Lights que o U2 colocou no lado B do single Vertigo.
“O Bono nos enviou a gravação que eles fizeram, e eu acho que ficou muito boa”, entusiasma-se. “Ela transmite o mesmo sentimento de perambular pela cidade à noite que a original. Ele já disse que o Kraftwerk é uma das grandes bandas ‘soul’ — e o U2 também tem essa qualidade. Eles fazem coisas grandiosas parecerem íntimas, e se conectam com as pessoas de forma muito pessoal. E mais: para uma banda do tamanho deles, eles correm muitos riscos — tanto musical quanto politicamente.”
Não quero esfregar sal na ferida de quem não conseguiu ingressos, mas a visita do Kraftwerk ao Olympia de Dublin em março de 2004 foi um sonho elétrico realizado. Junto com seu arsenal de clássicos, tivemos o prazer de ver a pouco robótica cena de Ralf tentando manter a seriedade enquanto Fritz Hilpert sofria um ataque de risos.
“Às vezes, as coisas fazem você sorrir”, conclui Hütter. “É só a concentração — porque ficamos girando botões, ajustando faders, tudo isso. Você está operando máquinas de alta tecnologia e pequenos movimentos podem criar grandes efeitos.”
quinta-feira, 3 de julho de 2025
Ralf Hütter — Entrevista — Keyboard Magazine — Outubro — 1991
Entrevista com Ralf Hütter publicada na Keyboard Magazine em outubro de 1991:
Entrevista a Mark Dery
terça-feira, 1 de julho de 2025
Wolfgang Flür — Entrevista — DockRock Magazine 10/09/1999
DockRock – O que te motivou, 10 anos após o fim da colaboração com Ralf e Florian, a escrever um livro sobre o Kraftwerk?
Wolfgang Flür – Com certeza, dois fatores foram decisivos para este livro. A ideia veio de dois fãs do Kraftwerk que conheci no ano passado, e deles também veio o conceito e o design do livro. Confiei a eles o manuscrito e material fotográfico antigo, e eles criaram a versão final. Eles têm, sem dúvida, uma grande participação na obra e acho que fizeram um trabalho excelente. O segundo motivo para lançar este livro foi colocar um ponto final definitivo nessa época. O livro é, portanto, em certa medida, também a minha despedida do Kraftwerk, mesmo que muitos ainda me associem à banda no futuro.
DockRock – Atualmente circulam boatos de que o livro pode vir a ser retirado do mercado.
Wolfgang Flür – Bom, isso eu não posso confirmar. Até onde sei, não houve nenhuma tentativa de nenhuma parte para tirar o livro do mercado. O único problema no momento é que, depois que a primeira edição esgotou em poucos dias, a gráfica está com dificuldades para acompanhar a demanda com uma nova tiragem.
DockRock – Por que houve a separação após o Electric Café?
Wolfgang Flür – O Kraftwerk sempre foi uma banda voltada para dentro. No início dos anos 80, quase ninguém mais conseguia adentrar esse universo. A palavra de ordem era: ficar parado. Isso fez com que os estímulos e inspirações diminuíssem. Karl Bartos (que também saiu do Kraftwerk) e eu gostaríamos de ter tido uma participação maior na criação do novo material. Teria sido bom também trazer músicos de fora para dar um novo fôlego ao grupo. Se você se isola demais, eventualmente as ideias acabam. Uma troca seria necessária. Além disso, o ciclismo era, naquela época, mais importante para Ralf e Florian do que a música.
DockRock – No livro, você descreve o clima frio que reinava naquela época dentro do Kraftwerk. Até que ponto os caminhos pessoais diferentes dos membros contribuíram para a separação?
Wolfgang Flür – Com Computerwelt, atingimos o nosso auge. A turnê mundial que se seguiu, com todos os seus desgastes, colocou o grupo à prova. Chegamos aos nossos limites. Com a saída de Emil Schult, que desempenhava o papel de uma espécie de “pai da banda” (acompanhava o Kraftwerk em todas as turnês desde 1975), perdemos uma figura de ligação importante. Naturalmente também mudamos pessoalmente, e penso que a minha mudança foi a mais perceptível, sem querer transformar isso em uma competição. Me refiro mais ao aspecto humano. Após sair do grupo, experimentei várias coisas, me envolvi com design de móveis, viajei bastante, mas no fim percebi que a música continua sendo o centro da minha vida. Foi aí que comecei a trabalhar no Yamo.
DockRock – Seu primeiro disco solo (Yamo – Time Pie), que contou com a participação de integrantes do Mouse on Mars, foi lançado quase sem visibilidade. Quais foram os motivos disso?
Wolfgang Flür – Meu disco acabou se tornando rapidamente uma questão política. Minha gravadora na época (EMI Electrola) praticamente boicotou o Time Pie. Por isso, o novo Yamo, no qual estou trabalhando agora, será lançado por outra gravadora.
DockRock – Já existe uma data de lançamento? E o que os ouvintes podem esperar?
Wolfgang Flür – Ainda não há uma data exata. Não me coloco sob pressão, deixo as coisas se desenvolverem da maneira que for melhor para o Yamo. Provavelmente haverá um primeiro single no inverno e o álbum completo na primavera. Depois de deixar o Kraftwerk, percebi que minhas ideias pessoais sobre o som da música eletrônica caminham numa direção muito mais calorosa. Yamo faz música eletrônica, mas com uma abordagem completamente diferente daquela da minha antiga banda. Estou trabalhando atualmente com uma jovem cantora que vai interpretar algumas faixas, e outros músicos também estarão envolvidos. Eu me vejo como uma espécie de contador de histórias moderno. Um crítico descreveu o Yamo como poetry pop. Eu gostei dessa definição.
DockRock – Especialmente a música eletrônica se desenvolveu em diversas direções nos últimos anos, e surgiram bandas e projetos que trouxeram novos aspectos ao gênero. Artistas mais recentes influenciam o seu trabalho?
Wolfgang Flür – Não. Para alcançar um som original e pessoal, eu tento me isolar um pouco nesse sentido.
DockRock – Qual é a sua relação com a internet? Haverá uma versão do Yamo online?
Wolfgang Flür – Eu não tenho conexão nem interesse nisso no momento. A situação legal em relação a downloads e MP3s também não está esclarecida. Mas quem se interessa pelo Yamo pode entrar em contato conosco através do site de Martin Hausen e Markus Schmitz (www.commmuni-care.de). Tentaremos responder a todos. Mas sinto falta, nessa história toda, do contato humano direto ou da criação de um valor real. Um objeto físico, que você pode guardar na estante e pegar de vez em quando para se envolver com ele, não pode ser substituído por uma simples transmissão de dados. Vejo aí o perigo de as pessoas não precisarem mais sair de casa, não irem mais à caça. Para mim, falta a experiência sensorial.
DockRock – Mas a experiência sensorial nas megastores de música também é bem limitada.
Wolfgang Flür – Isso é verdade. Mas para mim, o objeto físico ainda tem um valor do qual não quero abrir mão.
DockRock – No seu livro, você se mostra bastante insatisfeito com a versão cover de Das Modell lançada pelo Rammstein.
Wolfgang Flür – Sim, considero essa versão realmente malfeita.
DockRock – Richard, do Rammstein, que esteve aqui há algumas semanas, disse que o Kraftwerk é uma das poucas bandas em que todos do grupo concordam como referência, especialmente em termos de imagem e encenação visual da música.
Wolfgang Flür – Minha crítica foi direcionada apenas à versão de Das Modell, não ao Rammstein como um todo, mesmo que, pessoalmente, o que eles fazem não me atraia. Mas acho a ideia e o conceito bastante coerentes. Tudo isso me parece vir de uma tradição de engolidores de espadas medievais e artistas de feira. O Rammstein trouxe isso para os dias de hoje. Eles são um espetáculo, sem dúvida. Certamente se encaixam bem no espírito da época. Hoje em dia, algo novo precisa ser muito impactante para se destacar em meio ao excesso de estímulos.
DockRock – Muito obrigado pela entrevista.







